A Batida do coração 2

17 O Retorno do Baixo e as Linhas de Longa Dist



O inverno em Boston era implacável. A neve cobria os tijolos vermelhos dos prédios históricos de *Harvard*, criando uma moldura branca e silenciosa para o recomeço. Após um ano intenso em Toronto, mergulhado em partituras e técnicas de estúdio, Caio Souza tomou a decisão que mudaria novamente o ritmo de sua vida: pediu transferência para a prestigiada universidade americana. Ele precisava expandir seus horizontes musicais, mas, no fundo de sua alma, o compasso de sua juventude gritava por um reencontro.

A notícia de sua chegada correu rápido pelos dormitórios. Pedro e Lucas foram os primeiros a comemorar, enxergando naquela transferência a chance de ouro para tirar a poeira dos instrumentos e reviver a banda que Santa Bárbara viu nascer. No entanto, o amplificador do baixo só voltaria a ser ligado após uma nota há muito tempo engasgada ser devidamente afinada.

### A Conversa nos Tijolos Vermelhos

O encontro aconteceu no final de uma tarde cinzenta, em uma sala de ensaio isolada no subsolo do departamento de música. Jace Telles Drake estava sentado atrás de uma bateria de estudo, baquetando o prato de condução de forma lenta, quase hipnótica. Quando a porta pesada de madeira se abriu, ele parou o movimento.

Caio entrou segurando apenas a sua mochila. O casaco pesado de inverno estava aberto, revelando que a leveza do antigo baixista ainda resistia, embora seus olhos estivessem mais maduros. Jace desceu do banco, largando as baquetas sobre a caixa. Os dois ficaram parados a dois metros de distância, o silêncio do subsolo quebrado apenas pelo zunido do aquecedor.

— Fiquei sabendo pelo Pedro que a papelada da transferência finalmente saiu — Jace quebrou o gelo, a voz saindo mansa, sem qualquer traço daquela agressividade do passado.

— É, cara. Deu trabalho, mas o currículo de Toronto ajudou — Caio respondeu, dando um passo à frente e colocando as mãos nos bolsos da calça. Ele olhou para a bateria e depois diretamente para o antigo melhor amigo. — Acho que a gente não consegue tocar nenhuma nota antes de limpar o estúdio, Jace.

Jace engoliu em seco. Ele assentiu com a cabeça, cruzando os braços e encostando as costas na parede acústica. O corte em seu supercílio era apenas uma lembrança esbranquiçada, mas o arrependimento em seus olhos escuros era nítido.

— Eu sei, Caio. Eu passei o ano inteiro pensando no que aconteceu naquele dia — Jace confessou, a voz sutilmente trêmula, carregada de sentimentos reprimidos. — Aquela surra que você me deu... doeu menos do que o peso de saber que eu destruí a nossa amizade por puro orgulho. Eu agi como um moleque mimado. O jeito que eu tratei a Rebekah, o que eu disse para ela no viva-voz... foi monstruoso. E o pior foi descontar em você, o cara que sempre esteve do meu lado, me segurando quando eu estava prestes a cair.

Caio ouviu o desabafo, sentindo o nó em seu próprio peito se desfazendo sutilmente. Ele deu mais um passo, diminuindo a distância entre os dois.

— Eu não queria ter te batido daquele jeito, Jace — Caio disse, a voz mansa, os olhos marejados. — Você era o meu irmão. Mas ver a Bekah chorando no chão da sala, depois de tudo o que ela já tinha passado, quebrou alguma coisa em mim. Eu precisava te acordar, mesmo que fosse do jeito mais difícil. Eu senti falta da banda, cara. Senti falta de olhar para trás e ver você ditando o ritmo nas baquetas.

Jace descruzou os braços, uma lágrima solitária escapando e cortando o seu rosto maduro. Ele estendeu a mão direita na direção de Caio, o olhar implorando pela trégua que ele não soubera pedir um ano atrás.

— Você me acordou, Caio. Demorou, mas eu acordei. Eu perdi a garota, perdi o meu baixista e quase perdi o meu irmão por não saber ser homem. Me desculpa. De verdade — Jace pediu, a voz embargada.

Caio olhou para a mão estendida de Jace. Com um sorriso de canto, ele ignorou o aperto de mão, deu um passo à frente e puxou o baterista para um abraço forte, batendo em suas costas com a palma da mão. Jace retribuiu com a mesma intensidade, selando ali o retorno da lealdade entre os dois.

— Está desculpado, seu idiota — Caio disse, afastando-se e limpando os olhos. — Agora arruma essa bateria, porque o Pedro e o Lucas já estão comprando os cabos novos. A banda vai voltar, Drake. No mesmo compasso de antes.

### Conexão Boston-Santa Bárbara

Mais tarde, já no aconchego do seu novo quarto de alojamento, Caio fechou a porta e jogou-se na cama. O notebook estava apoiado em suas pernas, e a tela exibia o sinal de chamada de vídeo do aplicativo de mensagens. Não demorou mais do que dois toques para que a imagem ganhasse cor e nitidez.

Do outro lado do mundo, no calor do verão de Santa Bárbara, Rebekah Laurentis apareceu na tela. Ela estava deitada em sua cama, usando uma camiseta confortável, com os cabelos escuros presos em um coque bagunçado. Ao ver o rosto de Caio, os olhos castanhos dela se iluminaram com aquele mesmo brilho que ele gravara na memória no aeroporto.

— *Caio! Meu Deus, achei que você ia passar a noite inteira organizando os armários do alojamento* — Rebekah sorriu, a voz saindo nítida pelos alto-falantes do notebook. — *Como está o frio aí? Já congelou o nariz?*

— Está congelando tudo, minha baixinha — Caio riu, o peito aquecendo instantaneamente só de ouvir a melodia da voz dela. Ele ajeitou a câmera para que ela pudesse ver o quarto. — Mas o quarto é bom, o aquecedor funciona. Só que o melhor do dia não foi o alojamento, Bekah. Eu preciso te contar uma coisa.

Rebekah percebeu a mudança sutil no tom de voz dele, endireitando a postura na cama e aproximando o celular do rosto, focando a atenção na tela.

— *O que foi? Aconteceu alguma coisa na secretaria da faculdade?* — ela perguntou, preocupada.

— Não, a transferência está 100% certa. É sobre o Jace — Caio soltou a informação de uma vez, observando a reação da namorada.

Rebekah travou o riso por um segundo, o nome de Jace ainda trazendo uma memória distante de tempos difíceis, embora não doesse mais. Ela esperou que ele continuasse.

— Eu fui até a sala de ensaios do departamento de música hoje cedo. Ele estava lá, sozinho na bateria — Caio explicou, o olhar terno e detalhista. — Nós conversamos, Bekah. Uma conversa de verdade, de homem para homem, sem gritos, sem socos. Ele chorou. Ele me pediu desculpas por tudo o que fez no ano passado... pela arrogância dele, pelas palavras horríveis que ele te disse naquele telefonema. Ele admitiu que o orgulho cego o fez destruir tudo.

Rebekah escutou em silêncio, os dedos tocando de leve a tela do celular, como se pudesse alcançar o rosto de Caio através dos milhares de quilômetros de distância. Uma sensação de paz e encerramento lavou sua alma.

— *E o que você fez, Caio?* — ela perguntou com suavidade.

— Eu dei um abraço nele, minha linda. Eu senti que o arrependimento dele era real. Ele passou o ano inteiro aqui em Boston isolado, digerindo as escolhas dele, e ele mudou. A banda vai voltar. Eu vou tocar baixo com os caras de novo — Caio sorriu, mas logo seu olhar ficou sutilmente sério, buscando a aprovação da pessoa mais importante de sua vida. — Eu precisava te contar isso porque eu prometi que nunca mais ia esconder nada de você, e porque a sua paz é a minha prioridade. Como você se sente com isso?

Do outro lado da tela, Rebekah abriu um sorriso maduro, os olhos brilhando com uma ponta de orgulho pelo namorado que tinha.

— *Eu me sinto feliz, Caio. Muito feliz* — ela respondeu, a voz mansa e segura. — *O Jace fez parte da minha história, e as feridas que ele abriu foram curadas por você, pelo seu amor e pela sua paciência todos os dias na sorveteria ou na minha sala. Eu não guardo mágoa dele. Ver você feliz, voltando a tocar com os seus amigos de infância, é tudo o que eu quero. Você merece esse recomeço em Harvard.*

Caio soltou um suspiro de alívio, aproximando-se da câmera do notebook, o amor transbordando em suas feições.

— Você é inacreditável, sabia? Eu sou o cara mais sortudo do mundo por ter você — ele sussurrou. — Eu queria poder atravessar essa tela agora só para te dar um beijo de verdade.

— *Guarda esse beijo para as férias de primavera, Souza* — Rebekah piscou para ele na tela, o riso doce preenchendo o quarto em Boston. — *Agora me mostra o resto do alojamento. Quero ver onde o meu namorado vai compor as próximas músicas da nossa banda.*

Caio levantou-se com o notebook nas mãos, rindo alto, enquanto a conexão entre os dois provava que, não importava a distância ou as estações do ano, o ritmo daquela história continuava perfeitamente alinhado no mesmo compasso de amor e cumplicidade.