A Batida do coração 2

19 O Refrão do Tempo e o Encontro das Ondas



​Dez anos. Centenas de palcos iluminados, milhares de quilômetros de estradas e uma coleção de fusos horários haviam moldado o destino do quarteto de Santa Bárbara. Jace, Caio, Lucas e Pedro não eram mais os garotos que brigavam por espaço em um estúdio de piscina; transformaram-se em homens, astros do rock internacional que levavam o som da banda pelos quatro cantos do mundo, fixando residência definitiva no exterior. O preço do sucesso fora pago, e o Brasil havia se tornado uma lembrança doce e distante na rotina de turnês.

​Enquanto os acordes deles ecoavam globalmente, Rebekah Laurentis desenhava a sua própria história com linhas de alta-costura. Aos vinte e cinco anos, ela havia se transformado em uma executiva e designer de moda brilhante e bem-sucedida, comandando o processo criativo de uma das marcas mais cobiçadas do país. Tornara-se uma mulher imponente, segura de si, cuja presença preenchia qualquer ambiente.

​Até mesmo os antigos arranjos amorosos haviam mudado: Clara Santos também havia se separado de Pedro anos atrás e, agora, vivia um romance leve e maduro com Ricardo Puerto, um modelo internacional dono de uma beleza estonteante que a acompanhava por onde ia.

​A calmaria finalmente havia chegado para os veteranos. Gustavo e Anya Telles, junto a Derick e Letícia Laurentis, haviam realizado o grande sonho da maturidade: uniram as famílias e mudaram-se em definitivo para a imensa casa de praia de Angra dos Reis. Passavam os dias cercados pelo som do mar, torcendo orgulhosos pelo sucesso internacional dos filhos e pela ascensão meteórica da estilista da família.

​O que Rebekah não imaginava, ao planejar suas férias de fim de ano, era que a banda havia conseguido uma trégua inédita na agenda da gravadora. Eles cruzariam o oceano para passar o Natal e o Ano Novo na casa de praia. E o segredo fora guardado a sete chaves.

​A Entrada e o Choque Térmico

​A noite de Natal caiu sobre Angra dos Reis com uma brisa morna e o som das ondas quebrando na areia. Rebekah estacionou seu carro na garagem do casarão de praia e franziu o cenho ao notar dois veículos utilitários escuros e de placas diferentes estacionados ali.

​— Deve ser algum convidado do meu pai da diretoria... — ela murmurou para si mesma, ajeitando o espelho retrovisor.

​Ela desceu do carro exalando a pura essência de uma mulher que comandava o mundo da moda. Rebekah vestia um vestido preto midi, extremamente colado ao corpo, que realçava suas curvas esculpidas. Seus cabelos negros, agora enormes, caíam em ondas impecáveis pelas costas, e a maquiagem leve destacava seus impressionantes olhos azuis — uma herança marcante que exibia com a altivez de uma executiva.

​Os cliques de seus saltos altos ecoaram pelo deque de madeira enquanto ela caminhava em direção à imensa porta de vidro da sala de frente para o mar. Ao empurrá-la, o burburinho de conversas masculinas e risadas inundou seus ouvidos.

​Rebekah travou no primeiro passo. O ar faltou em seus pulmões e seu coração disparou em um compasso violento.

​Sentados no sofá, dividindo copos de uísque com Derick e Guga, estavam eles. Homens feitos, com ombros largos, barbas por fazer e a aura imponente de quem dominava palcos.

​— Não brinca com a minha cara! — Lucas Silva foi o primeiro a berrar, levantando-se em um salto, com os olhos arregalados ao ver a mulher que a antiga "pirralha" havia se tornado.

​— Olha só se não é a dona da moda do Brasil! — Pedro Lima gritou logo atrás, largando o copo na mesa.

​Os dois correram na direção dela com a mesma molequice de dez anos atrás e a envolveram em um abraço coletivo forte, tirando os pés de Rebekah do chão. Ela gargalhou, as lágrimas de surpresa ameaçando surgir.

​— Vocês são uns idiotas! Por que ninguém me avisou?! — Rebekah exclamou, batendo de leve nos ombros de Lucas enquanto era colocada de volta no chão. — Pedro! Lucas! Meu Deus, vocês estão enormes!

​Quando os dois se afastaram, a figura de Jace Telles Drake se aproximou. Ele vestia uma camisa de linho branca com as mangas dobradas, exibindo as tatuagens que agora cobriam seus braços de baterista. O olhar escuro de Jace varreu o rosto de Rebekah com um respeito profundo e uma admiração madura. Ele abriu os braços, oferecendo uma trégua definitiva ao passado.

​— Seja bem-vinda de volta ao nosso compasso, Bekah — Jace disse, a voz grave e acolhedora.

​Rebekah sorriu e deu um passo à frente, abraçando Jace. Foi um abraço terno, apertado, sem o peso do ressentimento ou das lágrimas de dez anos atrás. Dois adultos que haviam aprendido a se perdoar através do tempo. — Que bom te ver, Jace. Você está lindo.

​Ao se afastar de Jace, o mundo de Rebekah Laurentis reduziu-se a um único ponto focal. Parado logo atrás, com as mãos nos bolsos da calça de alfaiataria e um sorriso de canto que ela reconheceria em qualquer lugar do planeta, estava Caio Souza. O baixista internacional. O seu amor adolescente. O homem que abrira mão do próprio romance para que ambos pudessem crescer.

​Caio deu dois passos lentos na direção dela. Seus olhos castanhos fixaram-se nos azuis de Rebekah com uma intensidade magnética, como se os dez anos de separação fossem apenas um breve intervalo entre duas músicas.

​— Oi, minha baixinha... — Caio sussurrou, a voz carregada de uma emoção contida. — Quer dizer, acho que não dá mais para te chamar de baixinha com esse salto.

​Rebekah não respondeu com palavras. Ela deu o passo que faltava e jogou-se nos braços dele. Caio a envolveu com uma força descomunal, colando o corpo colado ao dela, enterrando o rosto em seus cabelos negros enormes. O abraço durou mais do que todos os outros. Era o reencontro de duas almas que haviam sido separadas pela distância, mas nunca pelo esquecimento. Ao se afastarem sutilmente, as mãos de Caio continuaram espalmadas na cintura dela, e os dois trocaram um olhar tão profundo e carregado de eletricidade que o ar ao redor pareceu queimar.

​De canto, encostado no balcão da sala, Jace assistia a tudo com atenção. Seus olhos escuros migravam do rosto de Caio para o de Rebekah. Não havia raiva em Jace, apenas a observação cirúrgica de um homem que conhecia os dois melhor do que ninguém. Ele percebeu o tremor nas mãos de Caio e o brilho felino nos olhos azuis de Rebekah. A faísca daquela geração ainda estava bem viva.

​A Grande Mesa de Natal

​— Muito bem, chega de choradeira e abraços na porta! A ceia está servida e eu não passei a tarde coordenando essa cozinha para a comida esfriar! — a voz vibrante de Anya Telles ecoou da sala de jantar, quebrando o feitiço. Anya, agora com os cabelos exibindo os primeiros fios prateados com extrema elegância, sorria ao lado de Letícia Laurentis.

​Todos se moveram para a imensa mesa de madeira de demolição, posicionada na varanda coberta de frente para o mar. A mesa estava impecável, farta de pratos tradicionais, rabanadas e taças de cristal refletindo a luz das velas.

​Derick Laurentis sentou-se na cabeceira, com Letícia à sua direita. Gustavo Telles ocupou o outro extremo, com Anya ao seu lado. Os meninos da banda espalharam-se pelas laterais, e Caio, por puro instinto, puxou a cadeira para Rebekah sentar-se exatamente ao seu lado.

​— Eu preciso admitir — Guga começou, erguendo sua taça de vinho e olhando para o quarteto à sua frente. — Ver esses quatro sentados juntos na minha mesa, sem nenhuma baqueta voando ou cabo de baixo arrebentado, é o melhor presente de Natal que eu poderia pedir. Vocês viraram homens de verdade lá fora. Estou orgulhoso.

​— O mérito é todo do meu treinamento militar no início da turnê, Tio Guga — Lucas brincou, servindo-se de uma fatia generosa de peru. — Se eu não controlasse os horários do Pedro e as saídas do Caio, a gravadora já tinha demitido a gente.

​— Mentira pura! — Pedro rebateu, rindo alto enquanto Clara Santos, sentada um pouco mais afastada com o namorado, soltava uma risada elegante. — O Lucas é o primeiro a esquecer a guitarra no hotel. Quem organiza as planilhas ainda é o Pedro Lima aqui. Não é, Clara?

​Clara Santos olhou para o ex-namorado com um sorriso carinhoso, o carinho da amizade que restara entre eles intacto. — É verdade, o Pedro sempre foi o mais neurótico com organização. O Ricardo que o diga, ele quase enlouqueceu quando o Pedro tentou organizar as malas dele no desfile de Paris.

​Ricardo Puerto, o modelo bonitão que acompanhava Clara, soltou uma risada mansa, o sotaque espanhol dando um charme à mesa. — Verdade. O Pedro queria etiquetar os meus ternos por ordem cronológica de uso. Um homem muito focado.

​A mesa explodiu em gargalhadas. Jace divertia-se com as histórias, mas sua atenção continuava voltada sutilmente para o lado direito da mesa. Ele observava Caio inclinar-se de leve para servir água na taça de Rebekah, os ombros dos dois roçando de forma inevitável devido à proximidade das cadeiras.

​— E você, Bekah? — Letícia perguntou, olhando para a filha com os olhos cheios de adoração de mãe. — O Derick me disse que a sua nova coleção de inverno foi destaque na revista de Milão esta semana.

​Derick estufou o peito, limpando a boca com o guardanapo de linho. — Destaque não, Letícia. Foi a capa. Eu sempre disse que a minha princesa ia comandar aquele mercado. Aqueles diretores europeus não têm chance contra o sangue Laurentis.

​Rebekah sorriu, as bochechas corando de leve sob o olhar atento de Caio, que a encarava de lado com um orgulho indisfreçável.

​— Obrigada, pai. Deu muito trabalho, mas a equipe é maravilhosa — Rebekah respondeu, virando o rosto para olhar para Caio. — É um ritmo parecido com o de vocês no estúdio, eu acho. Muitas noites sem dormir e café frio.

​— Mas o resultado final vale a pena quando o acorde fecha perfeito, não é? — Caio comentou baixo, a voz direcionada quase que exclusivamente para ela, os olhos castanhos fixos nos azuis dela com uma cumplicidade que fez o estômago da designer dar uma reviravolta.

​— É... vale a pena — ela sussurrou de volta, sustentando o olhar.

​Jace, que estava sentado de frente para os dois, deu um gole em seu vinho e trocou um olhar rápido com o pai. Guga percebeu a dinâmica e deu um sorriso de canto, sabendo que algumas histórias nunca deixam de ser escritas, apenas esperam o tempo certo para o refrão voltar. O Natal em Angra dos Reis estava apenas começando, as duas famílias estavam unidas, e a nova geração, agora madura e senhora de seus próprios destinos, estava prestes a descobrir que o mar de Santa Bárbara sempre trazia de volta o que o vento um dia levou.