A Batida do coração 2
22 O Refrão da Eternidade e o Gosto da Vitória
A Concha Acústica Central de Santa Bárbara parecia um vulcão em erupção. O mar de camisetas pretas, os feixes de laser azul e dourado cortando a noite e o coro de milhares de vozes criavam uma atmosfera que a cidade não testemunhava há mais de uma década. No centro do palco, o quarteto de Santa Bárbara comandava a massa com a autoridade de quem havia conquistado o mundo, mas com a alma de quem finalmente havia voltado para casa.
Rebekah assistia a tudo da lateral do palco, com os braços apoiados na grade de proteção do backstage. Seus olhos azuis brilhavam com o reflexo dos refletores e seu coração batia no mesmo ritmo da marcação pesada que vinha dos amplificadores. Na primeira fila da área VIP, o camarote das famílias estava em transe: Gustavo e Anya, de mãos dadas, trocavam olhares emocionados com Derick e Letícia, que batiam palmas sem parar.
A Homenagem ao Tio de Alma
Após uma sequência avassaladora de hits, as luzes do palco se apagaram repentinamente, deixando a Concha Acústica imersa em um breu pontuado apenas pelas telas dos celulares do público. Um silêncio expectante tomou conta da arena.
Quando o refletor principal se acendeu, ele não focou na bateria, mas sim no centro do palco. Jace Telles Drake havia deixado as baquetas com o roadie e caminhado até o pedestal do microfone principal. Ele segurava um violão acústico. Seu semblante era de uma seriedade terna, madura.
— Boa noite, Santa Bárbara — Jace começou, sua voz grave ecoando potente e limpa pelas caixas de som de alta definição, fazendo o público gritar em resposta. Ele esperou o barulho cessar e continuou: — Este show é o encerramento de um ciclo para nós. E eu não poderia pisar neste palco hoje sem prestar a maior homenagem da minha vida. Eu carrego um nome que não é meu por acaso. Eu levo o nome de um homem que foi o melhor amigo do meu pai, o tio de alma que o destino levou cedo demais, mas cuja batida do coração nunca parou de ecoar na nossa casa.
Na mesa de som, nos bastidores, Gustavo Telles sentiu as lágrimas subirem instantaneamente aos olhos. Anya cobriu a boca com a mão, já chorando silenciosamente.
— Há muitos anos, neste mesmo lugar, meu pai cantou uma música para ele — Jace continuou, olhando diretamente para o camarote da família. — Hoje, eu canto para o meu tio, Jace, e para o meu pai, Guga. Para que todo mundo saiba que o legado da nossa música é eterno.
Jace dedilhou o primeiro acorde, uma melodia melancólica e poderosa que os fãs mais antigos da cidade reconheceram no mesmo segundo: a música tema do antigo Jace. No mesmo instante, o imenso telão de LED de alta definição atrás da banda acendeu. Em letras garrafais, douradas, começaram a surgir as frases icônicas que o próprio Jace dizia na juventude, misturadas com imagens de arquivo da antiga banda de Guga.
"A vida não é contada pelo número de vezes que você respira, mas pelos compassos que fazem o seu coração bater mais forte."
"A música não morre quando o instrumento silencia, ela vive em quem continua a dançar."
A voz de Jace entrou perfeitamente afinada, rasgada pela emoção pura. Ele cantou com a alma de um homem que havia aprendido o valor do perdão e da redenção. Na pista, o público levantou as luzes dos celulares, criando um céu estrelado artificial na Concha Acústica. Caio, posicionado sutilmente ao fundo com o baixo, acompanhou o amigo com notas longas e choradas, os olhos fixos nas costas de Jace, orgulhoso do irmão que a vida lhe devolvera.
Quando a última nota do violão sumiu no ar e a última frase do telão se apagou, a Concha Acústica veio abaixo em um estrondo de aplausos e gritos. Jace ergueu o violão em direção ao céu, com os olhos marejados, agradecendo ao homem que lhe dera o nome e o destino.
O Abraço do Legado e o Calor da Família
O show terminou sob uma chuva de papel picado e fogos de artifício que iluminaram toda a orla de Santa Bárbara. Quando o quarteto desceu a rampa dos bastidores, encharcados de suor e com a adrenalina ainda nas alturas, a barreira do backstage se abriu.
Gustavo Telles caminhou a passos largos na direção do filho. Sem dizer uma única palavra, Guga envolveu Jace em um abraço esmagador, daqueles que tiram o fôlego. O pai enterrou o rosto no ombro do filho, deixando que as lágrimas de orgulho lavassem o peso de dez anos de ausência.
— Você foi gigante, meu filho — Guga sussurrou, a voz embargada, apertando Jace ainda mais forte. — O seu tio ouviu cada nota lá de cima. Eu tenho tanto orgulho do homem e do músico que você virou.
Anya aproximou-se logo em seguida, envolvendo os dois em um abraço familiar completo, beijando as mãos calejadas de Jace pelas baquetas. — Você lavou a nossa alma hoje, Jace. Foi perfeito.
Logo atrás, Caio entregava o seu baixo para o técnico e abria os braços para receber Rebekah, que correu na direção dele. O abraço dos dois foi leve, seguro e cheio de uma cumplicidade consolidada.
— Você viu o que o Jace fez? — Caio perguntou, com os olhos brilhando enquanto afastava os cabelos negros enormes do rosto dela.
— Foi a coisa mais linda que já vi nesta cidade, Caio — Rebekah respondeu, dando um beijo apaixonado nos lábios dele, sem se importar com o suor ou com os fotógrafos que tentavam registrar o momento. — E você... você foi o melhor baixista do mundo hoje. O figurino ficou perfeito.
Derick Laurentis aproximou-se do casal, com as mãos nos bolsos e um sorriso de canto que quebrava toda a sua postura de executivo durão. Ele olhou para Caio e depois para a filha.
— Tudo bem, Souza... admito que o som daquele troço que você toca tem peso — Derick disse, dando um tapinha pesado nas costas de Caio. — O show foi impecável. Mas agora chega de autógrafos. A Letícia está cobrando a janta que prometemos.
O Rodízio do Caos e da Alegria
A comemoração não foi em nenhum restaurante de luxo ou festa VIP de gravadora; a banda fez questão de ir para a Pizzaria San Gennaro, o tradicional rodízio de Santa Bárbara onde eles costumavam juntar moedas na adolescência para comer após os ensaios. O local havia sido fechado exclusivamente para as famílias Laurentis e Telles, além da equipe técnica da banda.
A grande mesa comprida estava repleta de copos de refrigerante, tulipas de chope e uma sequência interminável de garçons servindo pedaços de pizza fumegantes. O clima era de pura descontração e barulho.
— Garçon, por favor, pode parar a de calabresa aqui! — Lucas Silva gritou, puxando duas fatias para o seu prato de uma vez, já de olho em duas promotoras do evento que haviam sido convidadas para a mesa de apoio logo atrás. — Tocar duas horas de guitarra queima mais caloria do que academia, Tio Guga.
— Sei bem como é, Lucas — Guga riu alto, servindo mais vinho para Derick. — Mas na minha época a gente aguentava três horas de show e ainda corria atrás das garotas no calçadão. Vocês estão ficando mimados com esses camarins cheios de frutas e energético.
Pedro Lima, que estava sentado ao lado de Clara e Ricardo Puerto, ajeitou os óculos e entrou na provocação. — O senhor fala isso porque não viu a planilha da nossa turnê, Tio Guga. O Lucas gasta toda a energia dele tentando impressionar as modelos da primeira fila. No terceiro bloco do show, a mão dele já está travando.
— Mentira! É o meu estilo de performance, seu tecladista invejoso! — Lucas rebateu, fazendo a mesa inteira explodir em gargalhadas.
Ricardo Puerto, o modelo espanhol que namorava Clara, conversava animadamente com Pedro sobre os estúdios de Paris, perfeitamente integrado ao grupo. Clara olhava para os meninos com o carinho de quem havia crescido com eles.
Na outra ponta da mesa, o ambiente era mais calmo, mas intensamente conectado. Caio estava com o braço direito apoiado no encosto da cadeira de Rebekah, os dedos brincando com os fios longos do cabelo dela. Com a outra mão, ele usava o garfo para dar um pedaço de pizza de chocolate na boca da namorada, que ria com as bochechas coradas.
— Você vai me fazer quebrar a dieta da coleção de Paris, Souza — Rebekah brincou, aceitando o doce.
— Você é a designer mais linda do Brasil, Laurentis. Pode comer a pizzaria inteira se quiser — Caio sussurrou perto do ouvido dela, arrancando um suspiro apaixonado da mulher ao seu lado.
De frente para os dois, Jace saboreava sua fatia de pizza de quatro queijos de forma tranquila. Ele olhou para o prato, depois para o sorriso radiante de Rebekah e para a postura protetora de Caio. Jace ergueu a sua taça de chope na direção do casal de forma discreta, um brinde silencioso e maduro que apenas os dois perceberam. Caio e Rebekah retribuíram o brinde com o olhar, agradecendo pela paz que agora reinava entre eles.
A noite avançou com mais brindes, histórias antigas relembradas entre risadas de Letícia e Anya, e o som dos talheres cruzando com a promessa de novos dias de sol na casa de praia. A batida do coração de Santa Bárbara havia encontrado, finalmente, o seu refrão de ouro: a união perfeita de um passado perdoado, um presente celebrado e um futuro que eles agora podiam tocar juntos, sem medo de errar o acorde.
Fale com o autor