A Batida do coração 2

18 O Preço do Sucesso e o Silêncio da Linha



​A rotina em Boston havia se transformado em uma engrenagem frenética. A sala de ensaios do subsolo de Harvard, que antes era apenas um refúgio para curar feridas antigas, tornou-se o berço de uma sonoridade nova, mais madura e absurdamente potente. Jace dita o ritmo com uma precisão cirúrgica; Lucas e Pedro entrelaçavam guitarras e teclados em melodias complexas, e Caio preenchia os espaços com linhas de baixo gordas e pulsantes. Eles estavam tocando com a alma.

​Foi durante um ensaio no final de abril que o destino bateu à porta. Thomas Vance, um renomado produtor musical da Costa Leste — dono da Vance Records —, estava de passagem pelo campus e parou no corredor, atraído pelo peso do som que escapava pelas frestas da porta acústica. Ele esperou a música terminar, entrou na sala sem cerimônia e, impressionado com a sinergia do quarteto, fez o convite que mudaria tudo: uma visita à sede da gravadora em Nova York.

​O que parecia um sonho de colégio virou realidade em questão de semanas. O quarteto de Santa Bárbara assinou o seu primeiro contrato fonográfico. Mas o contrato trazia cláusulas implacáveis: gravações imediatas, sessões de fotos, workshops de mídia e um isolamento total no estúdio de Manhattan durante as férias de verão. A tão planejada viagem de volta ao Brasil não aconteceu. Caio não voltou para os braços de sua baixinha.

​Duas Telas, Dois Desertos (Ponto de Vista de Caio e Rebekah)

​Os três meses que se seguiram foram um teste de resistência doloroso.

​Do lado de Caio, a vida era um borrão de luzes de estúdio, fones de ouvido esmagadores e cobranças. Ele passava quatorze horas por dia trancado em uma sala escura, gravando a mesma linha de baixo dezenas de vezes até os dedos sangrarem. Quando saía, o fuso horário e a exaustão o derrubavam. Ele olhava para o celular, via as mensagens acumuladas de Rebekah e sentia uma culpa esmagadora. Ele tentava ligar, mas quando ele estava livre, ela estava na escola; quando ela ligava, ele estava no meio de uma mixagem com Thomas Vance. O silêncio foi se instalando, não por falta de amor, mas porque a realidade da música estava engolindo o espaço onde a vida real acontecia. Caio sentia que estava deslizando por uma corda bamba, segurando um sonho em uma mão e o amor da sua vida na outra, vendo a distância esticar a corda até o limite.

​Do lado de Rebekah, em Santa Bárbara, as férias de inverno no Brasil foram um deserto. Ela passara semanas escolhendo roupas, imaginando o reencontro no aeroporto, o calor do abraço de Caio que a confortaria do ano difícil. Quando veio a notícia de que eles não voltariam por causa do contrato, o chão sumiu sob seus coturnos. Nos três meses seguintes, ela assistia aos stories da gravadora, via Caio cercado de modelos nos bastidores, jantando com executivos, vivendo um mundo onde ela não cabia. O orgulho de Rebekah não era mais aquela arrogância infantil, era uma autoproteção madura. Ela parou de mandar mensagem para não parecer uma namorada sufocante. Na solidão do seu quarto, olhando para a lareira onde tiraram a foto de formatura, ela entendeu que o "príncipe" que a salvara da tempestade agora pertencia aos palcos do mundo, e a distância estava transformando o amor deles em uma lembrança dolorosa.

​A Linha Cortada na Sala

​O apartamento novo do quarteto em Nova York era um loft amplo, com paredes de tijolos expostos e instrumentos espalhados por todos os cantos. Era uma noite de domingo chuvosa.

​Jace Telles Drake estava na cozinha de conceito aberto, preparando um café forte para aguentar a madrugada de composições. Ele mexia a colher na caneca em silêncio, quando ouviu o som do clique do celular vindo da sala de estar adjacente. Caio estava jogado no sofá de couro, com o olhar fixo na janela salpicada de chuva. Ele arrastou o dedo pela tela, discando o número que não ligava de verdade há noventa dias.

​O celular de Rebekah tocou em cima da cama em Santa Bárbara. Ela atendeu. Não houve viva-voz desta vez, mas o silêncio do apartamento era tão denso que Jace conseguia ouvir o murmúrio da voz trêmula de Rebekah escapando pelo receptor de Caio. Jace parou de mexer o café, congelando na cozinha, virado de costas, ouvindo cada acorde daquela ruptura.

​— Oi, Bekah... — Caio começou, a voz saindo pesada, cansada, despida daquela habitual leveza. — Desculpa ligar assim, sem avisar. É que a gente precisa conversar. De verdade.

​— Oi, Caio... — a voz de Rebekah veio do outro lado da linha, calma, mas com uma nota de resignação que quebrou o peito do baixista. — Eu imaginei que essa ligação viria. Três meses é muito tempo para duas pessoas que dizem que se amam ficarem em silêncio.

​Caio fechou os olhos, apoiando a testa na mão livre, os nós dos dedos brancos. — Me desculpa por isso, minha baixinha. Esse contrato... essa vida aqui dentro da gravadora é uma loucura que eu não sei controlar. Eu passo o dia inteiro com o baixo no peito, mas quando eu deito na cama, eu me sinto a pior pessoa do mundo por estar deixando você sozinha aí no Brasil. Eu estou vivendo o meu sonho, Bekah, mas estou vendo você sofrer de longe por causa disso.

​Na tela e na voz, Rebekah soltou um suspiro longo, uma lágrima silenciosa descendo pelo seu rosto em Santa Bárbara.

​— Eu não estou brava com você, Caio. Eu tenho tanto orgulho do que você e os meninos conseguiram... — ela disse, a voz embargada pela emoção pura. — Mas a verdade é que eu estou cansada de namorar um fantasma no celular. Eu olho para as fotos da minha festa de quinze anos e parece que aquela garota e aquele príncipe pertencem a outra vida. Eu preciso viver o meu ensino médio aqui, e você precisa se entregar 100% a essa banda. A distância não está só separando os nossos corpos, Caio... ela está desgastando o que a gente tem de mais bonito.

​Caio sentiu uma lágrima quente escorrer pelo seu rosto, caindo na jaqueta. O peito dele subia e descia em choques de dor.

​— Você está dizendo que... a gente deve parar? — Caio perguntou, a voz quebrando na última palavra, expondo toda a sua vulnerabilidade.

​— Eu acho que é o mais honesto a se fazer, meu amor... — Rebekah confessou, chamando-o de "meu amor" uma última vez, o choro finalmente transbordando de forma discreta. — Eu te amo tanto, Caio. Você me salvou de mim mesma, me deu o ano mais lindo da minha vida. Mas eu te amo o suficiente para te deixar ir embora para esse palco sem o peso de uma namorada triste no Brasil. Vamos terminar enquanto a nossa música ainda é bonita.

​Caio engoliu o nó na garganta, o coração partido em mil pedaços, mas entendendo a maturidade e a sensatez das palavras dela. Ela tinha razão. O amor deles merecia dignidade, não um final arrastado por obrigações contratuais.

​— Está bem, Bekah... — Caio sussurrou, os olhos vermelhos fixos no nada. — Se é assim que a gente protege o que viveu... eu aceito. Mas você nunca vai deixar de ser a minha primeira e única princesa. Obrigado por tudo.

​— Obrigada você, Caio. Boa sorte com o álbum. Tchau.

​O sinal da chamada encerrada cortou o ar da sala com um estalo seco.

​Caio jogou o celular de lado no sofá e cobriu o rosto com as duas mãos, deixando os ombros sacudirem enquanto o choro silencioso e doloroso finalmente o dominava. O preço do sucesso havia sido cobrado na moeda mais cara de todas.

​Na cozinha, Jace continuava estático. Ele segurava a caneca de café, mas seus olhos escuros estavam fixos no balcão, perdidos em um turbilhão de pensamentos. Ele escutara tudo. Ouvira o fim do namoro que destruíra a sua banda um ano atrás. Mas não havia nenhum pingo de satisfação ou vitória em seu peito. Ver o seu melhor amigo destruído no sofá da sala por causa da mesma garota que um dia fizera Jace chorar no violão trouxe apenas uma sensação de profundo respeito e tristeza. O carrossel da nova geração havia girado novamente, e o preço de tocar no topo do mundo estava deixando todos eles expostos à solidão da noite nova-iorquina.