A Batida do coração 2
21 O Eco da Cidade e os Velhos Palcos
A notícia de que a banda faria um show histórico em Santa Bárbara correu pela cidade como uma corrente elétrica de alta voltagem. O quarteto, que agora lotava arenas internacionais e acumulava discos de platina, havia decidido seguir os passos de Gustavo Telles. Anos atrás, Guga revolucionara a região com um show memorável de retorno, e os meninos sentiam que era hora de fechar aquele ciclo, devolvendo às suas raízes a energia que os levara ao topo do mundo.
O local escolhido não poderia ser outro: a imensa arena da Concha Acústica Central, o mesmo palco onde, na adolescência, eles assistiam aos festivais locais sonhando com a glória. Os preparativos transformaram a cidade em um formigueiro de técnicos de som, carretas de iluminação com o logotipo da banda e fãs acampados na fila dos ingressos.
Harmonia nos Bastidores e um Novo Ritmo
Nos bastidores do estúdio de ensaio local montado para a pré-produção, o clima era de pura euforia. O espaço estava decorado com os figurinos da turnê e caixas de som empilhadas, mas o verdadeiro centro das atenções era a harmonia restaurada entre o casal principal.
Rebekah estava sentada em um dos baús de metal da equipe técnica, usando um macacão jeans estiloso de sua própria grife e botas de couro. Caio estava em pé entre as pernas dela, com o baixo pendurado no ombro. Enquanto Pedro e Lucas discutiam o alinhamento dos microfones com os técnicos ao fundo, Caio aproveitava cada segundo de trégua. Ele dedilhava uma linha de baixo suave com a mão direita, enquanto a mão esquerda acariciava a nuca de Rebekah.
— Se você continuar me olhando desse jeito com esses olhos azuis, Laurentis, eu vou errar a introdução da primeira música — Caio sussurrou, abrindo aquele sorriso leve que ela tanto amava, inclinando-se para selar os lábios dela em um beijo rápido e estalado.
Rebekah riu, envolvendo a cintura dele com os braços, os dez anos de saudade completamente esquecidos na segurança daquele toque.
— Você não vai errar nada, Souza. Eu passei a tarde inteira ajustando o figurino que você vai usar no palco. Se você errar um acorde, eu digo para a imprensa que a culpa foi do baixista teimoso — ela provocou, a voz mansa e cheia de um afeto profundo. — Estou tão feliz de ver você aqui, Caio. De verdade. Parece que a nossa música finalmente encontrou o tom certo.
Caio largou a palheta e segurou as duas mãos dela, beijando os nós dos seus dedos com reverência. — Ela sempre esteve no tom certo, Bekah. A gente só precisava que o tempo organizasse o resto do arranjo.
A poucos metros dali, afinando os pratos de sua bateria com uma chave de metal, Jace assistia à cena. Lucas se aproximou do baterista com uma caneca de energético na mão, observando o casal de longe com um meio sorriso.
— E aí, Drake? Tudo bem por aqui? — Lucas perguntou baixo, testando o terreno.
Jace largou a chave de afinação e olhou para Caio e Rebekah. Não havia mais nenhuma sombra de ressentimento em seus olhos escuros. Ele respirou fundo, exibindo uma maturidade que arrancara elogios de Guga na noite anterior.
— Tudo ótimo, Lucas. Ver o Caio feliz desse jeito... é o que mantém a banda no chão, cara — Jace respondeu com sinceridade, a voz mansa. Ele caminhou até o casal, limpando as mãos em uma toalha. — Ei, pombinhos. Desculpa atrapalhar o momento romântico, mas Caio, precisamos fechar a virada de bateria com a sua linha de baixo na terceira música. O Guga vai assistir da mesa de som e você sabe como ele é exigente com o ritmo.
Rebekah olhou para Jace e abriu um sorriso caloroso, estendendo a mão para ele. — Oi, Jace. O figurino da bateria já está no camarim, viu? Fiz questão de deixar as mangas bem cavadas para não atrapalhar o seu movimento.
— Obrigado, Bekah — Jace respondeu, apertando a mão dela de forma amigável e dando um leve tapinha no ombro de Caio. — Você é a melhor produtora de estilo que essa banda já teve. Salva a pele desse baixista, porque se depender do gosto dele, ele sobe no palco de moletom.
— Ei! Respeita o estilo do artista, Drake! — Caio riu, dando um empurrão amigável no braço de Jace. A risada dos três ecoou pelo camarim, selando a paz definitiva entre os velhos amigos.
Os Galinhas de Santa Bárbara
Se por um lado Caio e Rebekah viviam a calmaria do amor reconquistado e Jace desfrutava da paz da maturidade, o resto da banda estava focado em aproveitar o retorno à cidade natal de um jeito bem diferente. Lucas e Pedro, agora solteiros e ostentando o status de astros do rock, circulavam pela área VIP dos bastidores como verdadeiros predadores disfarçados de músicos.
Uma equipe de modelos locais e promotoras de eventos organizava os crachás perto da entrada. Lucas, com a guitarra pendurada nas costas e a jaqueta de couro aberta, aproximou-se de duas garotas de cabelos claros, exibindo o seu sorriso mais charmoso.
— Olá, meninas. Eu estava checando o mapa do palco e percebi que a iluminação da ala leste está um pouco apagada... mas acho que é porque todo o brilho da cidade veio parar aqui nessa recepção — Lucas disparou, piscando para uma delas enquanto apoiava o braço no balcão.
A garota deu uma risada tímida, ajeitando o crachá com os dedos trêmulos. — Você é o Lucas, né? Eu tenho todos os álbuns de vocês!
— Sou eu mesmo. E se você quiser, depois do ensaio, eu posso te mostrar como funciona a afinação da minha guitarra favorita no camarim privativo... o que acha? — ele sugeriu, a voz descendo um tom, puramente galanteadora.
Logo ao lado, Pedro Lima não ficava atrás. Escondido atrás de seus óculos escuros de grife e com um sorriso cínico, ele conversava com uma influenciadora digital que cobria os bastidores.
— Então, Pedro, o que a cidade pode esperar desse show? — a jornalista perguntou, segurando o microfone.
Pedro aproximou-se sutilmente, diminuindo o espaço entre eles, os olhos fixos nos lábios da garota. — A cidade pode esperar um som pesado, mas você... você pode esperar um convite para a festa exclusiva no hotel após o show. Eu ouvi dizer que o tecladista da banda faz ótimos coquetéis na madrugada. O que me diz de uma entrevista exclusiva, sem câmeras e sem gravador?
A influenciadora mordeu o lábio inferior, desligando o gravador com um clique. — Acho que posso abrir uma exceção na minha agenda para o tecladista.
De longe, perto da mesa de som, Guga e Derick assistiam à movimentação dos rapazes com os braços cruzados.
— Olha lá, Laurentis — Guga riu alto, cutucando o ombro de Derick com o cotovelo. — O Lucas e o Pedro parecem o eu e o batedor de teclado da minha época. Não mudaram nada. O sangue de galinha de estrada corre forte ali.
Derick soltou uma risada rústica, mas logo fechou a expressão ao olhar para o outro canto, onde Caio e Rebekah continuavam conversando abraçados. — O Lucas e o Pedro que façam a bagunça deles bem longe daqui, Telles. O meu foco é aquele ali. Se o Caio mantiver a minha filha sorrindo daquele jeito até o final do show, eu até deixo ele tocar o baixo dele em paz. Mas se ele vacilar...
— Relaxa, Derick — Letícia aproximou-se, enlaçando o braço do marido com carinho. — O Caio já provou que o coração dele pertence à nossa filha há dez anos. Deixa os meninos viverem a música deles.
A noite de testes de som avançou com os amplificadores roncando alto, sacudindo as estruturas da Concha Acústica. Santa Bárbara estava pronta para o maior espetáculo de sua história recente, conduzida por uma banda que havia aprendido a transformar o caos da juventude na mais perfeita e madura sinfonia de amor e redenção.
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