A Batida do coração 2

23 O Acorde Interrompido e o Silêncio do Peito



​O auditório do hotel em São Paulo estava lotado para a coletiva de imprensa da banda. Flashs pipocavam de todos os lados, repórteres disputavam o microfone e os quatro rapazes respondiam às perguntas com o carisma de sempre. Caio, sentado ao centro com uma jaqueta de couro escura, sorria e brincava sobre o sucesso do show em Santa Bárbara, com o pensamento, na verdade, na noite que passaria com sua namorada.

​A quilômetros dali, no vigésimo andar de um prédio comercial na Avenida Paulista, o escritório de criação da grife de Rebekah Laurentis estava silencioso. Tecidos, croquis e amostras de cores espalhavam-se pela imensa mesa de vidro. Rebekah estava de pé, analisando o caimento de um vestido longo em um manequim, quando, de repente, o ar sumiu por completo de seus pulmões.

​Não houve aviso. Foi uma pontada violenta, uma pressão esmagadora bem no centro do seu peito que a fez soltar a tesoura de costura no chão. O metal ecoou estridulamente. Suas mãos empalideceram e seu coração começou a bater em um compasso frenético, desordenado, tomado por um pressentimento terrível e avassalador. Uma dor física e espiritual que ela nunca havia sentido antes.

​— Rebekah? Meu Deus, você está pálida! — sua assistente correu em sua direção ao vê-la cambalear.

​— Eu... eu não consigo respirar — Rebekah sussurrou, desabando sentada na cadeira de estofado preto, levando as duas mãos ao peito, apertando o tecido de sua blusa com força. Suas lágrimas começaram a cair sem explicação. — Tem algo errado... Alguma coisa aconteceu com o Caio. Eu estou sentindo.

​O Caos na Coletiva

​No exato milésimo de segundo em que Rebekah desabava no escritório, a tragédia se desenhava no auditório. Uma jovem que estava na terceira fileira da imprensa levantou-se abruptamente. Seus olhos tinham um brilho insano, obcecado. Ela não carregava um bloco de notas ou um gravador. Entre suas mãos trêmulas, reluziu o metal frio de uma arma de fogo.

​— Se você não vai ser meu, Caio, não vai ser de mais ninguém! — a voz ensandecida dela ecoou um instante antes do estampido seco.

​POW!

​O som do tiro quebrou a estrutura do ambiente. O projétil cruzou o espaço e atingiu em cheio o peito de Caio, bem em cima do coração. O baixista cambaleou para trás, os olhos castanhos arregalando-se em choque enquanto o sangue começava a tingir rapidamente a jaqueta de couro. Ele caiu de joelhos e, depois, de lado no chão do palco.

​— CAIO! — o grito de Jace foi um rugido de puro desespero.

​O baterista saltou por cima da mesa da coletiva, ignorando o caos de cadeiras viradas e repórteres correndo em pânico. Jace ajoelhou-se ao lado do melhor amigo, pressionando as duas mãos contra o peito de Caio, tentando estancar o fluxo de sangue que insistia em escapar por entre seus dedos. Lucas e Pedro seguravam a cabeça de Caio, gritando por socorro médico, os rostos banhados de lágrimas e pavor.

​— Fica com a gente, Caio! Olha para mim, irmão! Não fecha os olhos! — Jace implorava, a voz quebrando enquanto sentia os batimentos de Caio enfraquecerem sob suas palmas. — Alguém chama a maldita ambulância! Agora!

​Os paramédicos do hotel agiram rápido, colocando Caio em uma maca e correndo em direção à ambulância que avançou em alta velocidade pelas ruas de São Paulo, rumo ao Hospital das Clínicas. O lençol branco que cobria o músico já estava completamente vermelho.

​A Linha que Une Duas Dores

​No escritório, o celular de Rebekah começou a vibrar em cima da mesa. O nome de Jace piscava na tela. Com as mãos trêmulas e o peito ainda doendo, ela atendeu, a voz num fio.

​— Jace... Jace, o que aconteceu? Eu senti... eu sei que aconteceu alguma coisa...

​Do outro lado da linha, o som que Rebekah ouviu destruiu o resto de sua estrutura. Jace chorava de forma convulsiva, o som de sirenes de fundo quase abafando a sua voz.

​— Bekah... você precisa vir para o Hospital das Clínicas agora... — Jace tentava falar, engolindo o choro. — Atiraram no Caio durante a coletiva. Foi no peito. O estado dele é muito grave, Bekah. Por favor, corre para cá!

​O celular escorregou da mão de Rebekah. Ela não chorou alto; entrou em um estado de choque catatônico. Pegou sua bolsa por puro instinto e correu para o elevador, ignorando os chamados de sua equipe. O caminho de táxi até o hospital foi um borrão de desespero silencioso e preces mudas.

​O Corredor das Almas Partidas

​Quando as portas de vidro da emergência do hospital se abriram para Rebekah, o cenário era devastador. Sentados nas cadeiras de plástico da sala de espera, Dona Eleonor e Senhor Paulo estavam abraçados, o pai de Caio chorando de forma rústica enquanto a mãe soltava lamúrias de cortar o coração, segurando um terço entre os dedos.

​Afastado, encostado na parede de azulejos brancos do corredor, Jace Telles Drake estava abaixado, com os joelhos dobrados e o rosto escondido entre as mãos. Suas roupas de linho e suas mãos de baterista ainda guardavam as manchas escuras do sangue de Caio. Ele soluçava tão alto que o som ecoava pelo corredor estéril.

​Ao ver a silhueta de Rebekah se aproximar com os passos lentos, Jace ergueu o rosto. Seus olhos escuros estavam vermelhos, inchados, carregados de uma dor que nenhuma partitura do mundo seria capaz de traduzir. Ele se levantou lentamente, as pernas parecendo não aguentar o peso do próprio corpo.

​Rebekah parou a dois passos dele. Seus olhos azuis, imensos, buscavam em Jace uma mentira, uma negação, qualquer fio de esperança.

​— Jace... me diz que ele está na cirurgia — Rebekah pediu, a voz saindo infantil de tão indefesa, os lábios tremendo sem controle. — Me diz que o meu príncipe vai sair daquela sala. Por favor, Jace... me diz que ele está vivo.

​Jace deu o passo que faltava. Ele não disse nada de imediato. Apenas envolveu Rebekah em um abraço apertado, desesperado, colando o corpo dela ao seu para tentar protegê-la do impacto da realidade. Ele enterrou o rosto nos cabelos negros enormes dela, deixando suas próprias lágrimas molharem o ombro da designer.

​— Me desculpa, Bekah... me desculpa — Jace desabafou, a voz saindo em um sussurro quebrado pelo choro. — Os médicos tentaram tudo... eles abriram o peito dele, fizeram massagem cardíaca, mas a bala rasgou a artéria principal. Ele... ele perdeu muito sangue no caminho, minha linda. O Caio não resistiu. O nosso baixista... o amor da sua vida se foi, Bekah. Ele nos deixou.

​O grito que escapou da garganta de Rebekah Laurentis rasgou o silêncio do hospital. Foi um som de pura dor, o som de uma alma sendo partida ao meio. Suas pernas fraquejaram por completo e ela teria desabado no chão se os braços fortes de Jace não a segurassem com firmeza. Ela enterrou as mãos na camisa manchada de Jace, chorando alto, de forma dolorosa, enquanto o baterista a apertava contra o peito, chorando junto com ela.

​O refrão da história de Caio e Rebekah havia sido interrompido da forma mais cruel e abrupta possível. O príncipe que a salvara da tempestade dez anos atrás agora pertencia à eternidade, deixando o corredor daquele hospital mergulhado no silêncio mais doloroso que a nova geração de Santa Bárbara jamais esqueceria.