A Batida do Coração 3: O Acorde final
24 O Palco Vazio e o Pânico do Diagnóstico
O retorno de Jace e Rebekah para o condomínio de lofts na Barra da Tijuca foi marcado por um silêncio pesado. As palavras de Logan no subsolo do hospital ainda ecoavam na mente do casal. Eles sabiam que a teimosia de Kayla Drake era uma força bruta, mas esperavam que o ambiente familiar do sétimo andar servisse como um amortecedor para o choque do ultimato da gravadora.
Jace girou a chave da porta principal de forma lenta. O loft estava mergulhado em uma penumbra cinzenta, o som do mar lá fora entrando pela varanda aberta.
— Kayla? — Rebekah chamou, a voz saindo mansa, o coração de mãe já apertado por um pressentimento ruim. — Meu amor, nós chegamos. Vamos conversar?
Não houve resposta. O silêncio que veio do corredor dos quartos parecia oco, sem o habitual dedilhar da guitarra vermelha ou o som dos passos despojados da jovem.
Jace caminhou a passos largos até o antigo quarto da filha e empurrou a porta de madeira, que estava apenas encostada. O estômago do experiente baterista deu uma reviravolta violenta.
O quarto estava limpo. Desperdoramente limpo. A mala de lona preta não estava mais ali, o armário de embutir estava com as portas semiabertas, revelando as prateleiras completamente vazias. No canto da parede, o suporte onde a guitarra vermelha costumava repousar exibia apenas a marca do feltro preto. Kayla Drake havia sumido, levando consigo cada pedaço de sua estrutura física.
No centro do colchão desfeito, repousava uma folha de papel branca, arrancada do caderno de composições dela, com algumas linhas escritas com aquela caligrafia apressada e firme de tinta preta.
Rebekah correu para o lado do marido, pegando o papel com as mãos trêmulas de puro desespero. Ela leu em voz alta, a voz quebrando a cada linha:
"Mãe, pai...
Não me procurem e, por favor, não tentem me impedir. É hora de seguir a minha vida da forma que eu sempre planejei. Eu nasci para o palco, e eu preciso me afastar de tudo para viver o meu sonho sem amarras. Se eu ficasse nesse loft, eu sei que vocês dois, junto com o Logan, iam passar cada minuto tentando mudar a minha ideia, usando o meu corpo e o acidente como desculpa para me trancar em uma gaiola de vidro. >
Eu amo vocês, mas o meu ritmo não pode parar por causa de medo ou de prontuário nenhum. O melhor agora era eu ir embora e focar na estrada. A gente se vê nos holofotes.
— Kayla."
— Meu Deus, Jace... ela fugiu! — Rebekah desabou em um choro alto, segurando a carta contra o peito. — A nossa menina sumiu com aquela perna machucada, sem estrutura nenhuma... Para onde ela foi?
Jace Drake travou os dentes, os olhos escuros dilatados de pura aflição. Ele puxou o celular do bolso da jaqueta jeans e discou o número de Logan com uma urgência cega.
A Convocação de Emergência
Vinte minutos depois, a porta do loft foi aberta com violência. Logan Lâfrer entrou na sala sem bater, a respiração vinda em jatos curtos e o semblante completamente pálido. Ele ainda usava a mesma roupa escura do hospital e trazia nos olhos escuros o pânico que tentara conter durante toda a semana.
— Onde está a carta, Tio Jace? — Logan disparou, a voz saindo absurdamente grave, rouca e descontrolada.
Jace estendeu o papel para o genro no centro da sala. Logan arrancou a folha das mãos do baterista e leu as linhas escritas por Kayla. Conforme seus olhos escuros escaneavam o texto, o conhecimento médico de Logan transformou o seu desespero emocional em um pânico clínico terrível.
Como cirurgião e como o homem que conduzira o atendimento de choque na ala de trauma, ele sabia perfeitamente o que aquela fuga significava em termos de estatísticas de sobrevivência e sequelas.
— Essa garota perdeu o juízo de vez... — Logan sibilou, a voz trêmula de puro pânico, amassando o papel com força entre os dedos longos antes de olhar para Jace e Rebekah. — Vocês não entendem a gravidade disso. O Roberto Albuquerque e a Som Livre não vão dar analgésicos comuns para ela no camarim. Se ela aceitar o cronograma deles de shows consecutivos, ela vai atrás de médicos clandestinos da indústria ou de produtores para conseguir infiltrações de corticoide direto na articulação do quadril para conseguir ficar de pé!
Rebekah limpou as lágrimas, assustada com o tom dele. — Mas isso não tira a dor dela, Logan?
— Isso mascara a dor, Tia Rebekah! — Logan gritou, o desespero fazendo sua armadura profissional ruir por completo no meio da sala. — A infiltração desliga o alerta de dor do cérebro, mas a sequela motora continua lá. Se ela passar duas horas pulando e forçando a musculatura profunda sem o aviso da dor, ela vai causar uma necrose avascular na cabeça do fêmur ou um estiramento ligamentar irreversível! Como médico, eu sei que se a Kayla fizer essa turnê dopada por bloqueadores fortes na estrada, em menos de três meses ela não vai mais conseguir ficar de pé sozinha. Ela está trocando o resto da vida dela sobre as duas pernas pelo capricho de uma temporada de shows!
O silêncio que se instalou na sala do loft foi sepulcral e aterrorizante. Jace Drake caminhou até a parede de vidro, dando um soco forte no batente de alumínio, a linha do maxilar rígida de ódio da própria impotência.
— Ela desativou o rastreamento do celular, Logan. Eu já tentei ligar dez vezes — Jace relatou, a voz grave saindo pesada. — O Albuquerque também não atende. A Som Livre blindou a nossa filha em algum hotel de apoio ou estúdio fechado na zona sul para garantir que a gente não quebre o contrato antes do anúncio oficial.
Logan passou as mãos pelos cabelos escuros, andando de um lado para o outro pela sala do loft, o crachá invisível de namorado pesando mais do que qualquer responsabilidade de centro cirúrgico. Ele olhou para a varanda, lembrando-se do cheiro de sândalo e dos impressionantes olhos azuis de sua menina entregando-se ao seu abraço.
— Eu vou revirar cada estúdio de gravação e cada hotel da Barra e de Copacabana, Tio Jace — Logan determinou, a voz descendo para um tom mansa, pausada e perigosamente focado. — A Kayla acha que é livre e que o orgulho Drake a protege do próprio corpo. Mas ela vai ter que aprender que, não importa para onde ela fuja ou quantas guitarras ela leve... a música dela só tem sentido se o coração dela continuar batendo no compasso certo. Eu vou trazer a minha mulher de volta, nem que eu tenha que entrar com uma maca no meio do palco daquela Som Livre.
A caçada pela nova promessa do rock havia começado. E na linha de frente, o Doutor Lâfrer não estava mais agindo pelo prontuário; estava lutando pela vida e pelo futuro da única estrela que conseguira bagunçar o seu silêncio definitivo.
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