A Batida do Coração 3: O Acorde final

20 O Crachá de Acompanhante e o Novo Acorde



​A transferência de Kayla Drake da UTI para um quarto de internação privativo na ala VIP do Hospital Regional marcou o início de um novo compasso. O quarto, amplo e com uma vista agradável para as copas das árvores da Barra da Tijuca, logo perdeu aquele aspecto gélido de hospital. Rebekah tratou de colocar uma manta de linha colorida sobre os pés da cama, e Candy trouxe um pequeno vaso de flores silvestres para a mesa de cabeceira.

​No entanto, a maior mudança não estava na decoração, mas na burocracia do hospital.

​Logo na primeira manhã na ala de internação, o Diretor Clínico do hospital entrou no quarto, encontrando Logan Lâfrer debruçado sobre o prontuário de Kayla, ajustando a dosagem do anti-inflamatório.

​— Doutor Lâfrer, na minha sala. Agora — o homem comandou, com uma seriedade tipicamente administrativa.

​Dez minutos depois, Logan voltou ao quarto. Ele não vestia mais o jaleco branco de linho impecável e o estetoscópio não estava mais pendurado em seu pescoço. Em vez disso, usava uma calça jeans escura, uma camiseta de algodão cinza e, preso ao peito, não estava o seu crachá de médico plantonista, mas um cartão plastificado com letras garrafais azuis: ACOMPANHANTE — ALA VIP.

​Kayla, que estava sentada na cama com o tronco elevado por travesseiros, os cabelos negros enormes trançados de lado por Rebekah, ergueu os impressionantes olhos azuis e soltou um sorriso de canto, aquela audácia Drake voltando aos poucos ao seu rosto pálido.

​— O que foi isso, Doutor? Foi demitido por excesso de envolvimento com a paciente? — ela provocou, a voz ainda um pouco rouca, mas cheia de vida.

​Logan fechou a porta do quarto e caminhou até a beira da cama. Ele soltou uma risada mansa, rústica, e sentou-se na lateral do colchão, pegando a mão pequena dela entre as suas.

​— Quase isso, Estrela — Logan respondeu, a voz grave saindo pausada e terna. Ele inclinou o corpo e deixou um beijo demorado na testa dela. — O conselho de ética do hospital me tirou oficialmente do seu caso. Pelas regras, um médico não pode conduzir o tratamento de um cônjuge ou namorado. Então, a partir de hoje, o meu único direito aqui dentro é sentar nessa poltrona, segurar a sua mão e te dar bronca se você não comer a sopa de legumes. Eu sou só o seu namorado agora.

​Kayla apertou os dedos dele, os olhos azuis brilhando com uma emoção madura. — Namorado... Eu gosto de como esse diagnóstico soa.

​A Visita dos Sogros e a Benção de Anya

​No início da tarde, a porta bateu de leve e os agora oficialmente sogros entraram. Garret Lâfrer trazia uma sacola com revistas de música, e Lisa vinha acompanhada pelos avós de Kayla, Anya e Guga.

​Anya correu até a cabeceira da cama, os olhos marejados de uma gratidão ancestral. Ela segurou o rosto de Kayla com as duas mãos calejadas de amor.

​— Minha netinha linda... Deus ouviu as nossas preces — Anya sussurrou, beijando as bochechas de Kayla. — Você nasceu para brilhar, minha flor. Esse asfalto não ia conseguir calar a sua força.

​— É isso aí, minha guitarrista! — Guga endossou, batendo de leve no pé são de Kayla, com seu gênio brincalhão de sempre. — O bar do Garret ficou uma calmaria insuportável sem você para quebrar os pratos da bateria com os seus solos. A velha guarda estava quase entrando em depressão.

​Garret aproximou-se de Logan, colocando a mão forte no ombro do filho, olhando para a camiseta cinza e para o crachá de acompanhante.

​— Tiraram o jaleco de você, campeão? — Garret perguntou com um sorriso cúmplice.

​— Regras do hospital, pai — Logan explicou, trocando um olhar de profundo respeito com o pai. — Agora eu só posso cuidar dela fora do prontuário.

​— É o melhor diagnóstico que você já teve na vida, meu filho — Lisa interveio, aproximando-se para abraçar Logan e depois Kayla. — Agora vocês têm tempo para construir o ritmo de vocês, sem pressa e sem as amarras daquela correria. Nós estamos muito felizes por ver vocês dois assim, juntos de verdade.

​O Alvoroço de Candy e o Recado da Som Livre

​Mais tarde, foi a vez de Candy e Lucas Silva entrarem no quarto, trazendo aquela energia ruidosa que quase fez o monitor cardíaco de Kayla dar um salto divertido. Candy jogou-se na beira da cama, com cuidado para não encostar na perna imobilizada da amiga.

​— MIGA! Você não tem noção do que está acontecendo no mundo real! — Candy exclamou, os olhos castanhos arregalados de empolgação. — O Roberto Albuquerque ligou para o Tio Jace hoje de manhã. Ele disse que viu a notícia do acidente na mídia, mas mandou avisar que o estúdio da Som Livre está com as chaves trancadas no seu nome. Ele falou textualmente: "Digam à Kayla que o mercado pode esperar um ano, mas a voz dela é única. O álbum vai sair no tempo dela".

​Kayla sentiu o peito aquecer, olhando de soslaio para Logan. Ela temeu que a música tivesse se perdido no acidente, mas o destino parecia manter o palco aceso.

​— Obrigada, Candy... — Kayla sorriu, os olhos azuis marejados. — Eu vou voltar. Com um pouco menos de pressa, mas eu vou voltar para aquele palco.

​Lucas Silva estendeu a mão para Logan, cumprimentando o médico. — Cara, o condomínio inteiro está mandando energias positivas. Até o pessoal da garagem sentiu falta do barulho da moto da Kayla. Mas acho bom você esconder as chaves dela por um tempo, Doutor.

​— Não se preocupe, Lucas — Logan respondeu, a voz grave destilando uma linha de proteção possessiva e madura, enquanto seus olhos escuros fixavam-se em Kayla com um sorriso de canto. — A partir de agora, a única velocidade que ela vai atingir vai ser a do meu abraço. A estrada vai ter que esperar o meu laudo de liberação.

​O Compasso do Recomeço

​No fim da visita, quando as famílias saíram para tomar café na lanchonete do subsolo, o quarto voltou ao silêncio confortável da tarde. Jace e Rebekah haviam saído para assinar os papéis da fisioterapia de Kayla, deixando o novo casal a sós.

​Logan caminhou até a janela, fechando a persiana para diminuir a claridade do sol, e voltou para a lateral da cama de Kayla. Ele deitou-se de lado ao lado dela no espaço estreito do colchão de internação, puxando o corpo dela com extrema suavidade para que ela apoiasse a cabeça em seu peito largo.

​Os dedos longos de Logan começaram a traçar caminhos lentos pelos cabelos negros enormes da trança de Kayla, enquanto a mão pequena dela repousava sobre o coração dele, sentindo a batida estável e forte.

​— Sabe, Logan... — Kayla quebrou o silêncio, a voz mansa contra o peito dele. — A Kyara tinha razão no meu sonho.

​Logan estancou o movimento dos dedos por um segundo, o peito subindo em um suspiro profundo e emocionado ao ouvir o nome da filha que se fora. Ele colou os lábios no topo da cabeça dela. — Razão em que, minha Estrela?

​— Nós somos muito cabeçudos — ela riu baixinho, os olhos azuis fitando a penumbra do quarto. — A gente precisou que o mundo desabasse para entender que a nossa música não precisa de uma disputa de palco. Eu posso ser a estrela da Som Livre... e continuar sendo a sua menina aqui dentro.

​Logan apertou o abraço, sentindo o perfume de sândalo misturado ao cheiro doce das flores da mesa. — Você sempre foi a minha melodia, Kayla. Eu só fui um médico arrogante que demorou para entender o compasso. Mas agora que eu tirei o jaleco... eu tenho o resto da vida para aprender a tocar essa música com você.

​No monitor clínico de cabeceira, a linha da frequência cardíaca de Kayla Drake batia em um ritmo perfeito, calmo e absolutamente preenchido, provando que a estrutura do seu espírito livre finalmente havia encontrado o seu porto seguro nos braços do seu doutor.