A Batida do Coração 3: O Acorde final

12 A Maioridade e o Convite no Escuro



​O dia 22 de maio de 2026 amanheceu com um céu azul impecável sobre o Rio de Janeiro. Para Kayla Drake, aquele não era apenas mais um amanhecer; as dezoito badaladas do relógio biológico finalmente haviam chegado.

​O dia foi desenhado para ser leve. Pela manhã, Jace a acordou batendo de leve com as baquetas na porta do quarto, trazendo uma bandeja de café da manhã com panquecas americanas e uma única vela acesa. Rebekah passou a tarde com a filha no ateliê, não para trabalhar, mas para fazer os últimos ajustes no visual que Kayla usaria à noite. Não havia cobranças, não havia cadernos escolares; apenas o carinho de uma família que via sua menininha se transformar oficialmente em dona do próprio destino.

​O Banquete dos Dezoito

​Às nove da noite, o reservado da churrascaria mais requintada e tradicional da Barra da Tijuca transbordava a energia ruidosa das duas famílias. A mesa comprida de madeira maciça estava cercada por rostos conhecidos: Guga liderava um brinde com chope gelado ao lado de Garret; Anya e Letícia conversavam animadamente com Lisa; e Rebekah e Jace observavam a filha com olhares repletos de uma emoção madura. Ao lado de Kayla, Candy não parava de rir, servindo-se de guarnições enquanto os garçons passavam em um ritmo frenético com espetos corridos de carnes nobres.

​Os presentes foram um espetáculo à parte. Os avós e os tios da banda montaram um fundo para uma viagem de imersão musical em Londres que ela faria após assinar com a gravadora. Candy lhe deu um álbum de fotos artesanal, repleto de registros dos três anos de loucuras e confidências no prédio.

​Mas o presente mais marcante veio de Jace e Rebekah. Jace estendeu uma caixa retangular preta sobre a mesa. Quando Kayla a abriu, seus impressionantes olhos azuis brilharam sob as luzes do restaurante: dentro, repousava uma palheta de ouro maciço com a assinatura de Caio Souza gravada em relevo de um lado, e o nome de Kayla do outro.

​— Para você nunca esquecer de onde vem o seu ritmo, minha linda — Jace disse, a voz embargada, apertando a mão da filha por cima da mesa.

​Kayla limpou uma lágrima rápida, sorrindo com toda a determinação que herdara daquela linhagem. No entanto, durante todo o jantar, sua atenção esteve secretamente dividida. Sentado quase à sua frente, Logan Lâfrer mantinha uma postura impecavelmente elegante em um terno de linho escuro sem gravata. Ele participava das conversas, sorria das piadas de Guga, mas seus olhos escuros e cirúrgicos cruzavam com os de Kayla a cada corte de carne, mantendo a promessa silenciosa que havia feito no corredor do loft. O prazo da menoridade havia expirado. Ela agora era uma mulher.

​O Acordo na Varanda

​Aproveitando o momento em que Garret e Guga se levantaram para ir até o buffet de saladas e a atenção da mesa se dispersou, Kayla sentiu o ar do salão ficar denso. Ela se levantou sutilmente, deixando a palheta de ouro na caixa, e caminhou em direção à varanda gourmet externa do restaurante, um espaço amplo, decorado com plantas tropicais e sofás de vime, que dava vista para as luzes piscantes da Avenida das Américas.

​A brisa da noite fria de maio bateu em seu rosto, balançando os cabelos negros enormes que caíam sobre o vestido de alfaiataria preto justo que a mãe desenhara.

​Passos firmes de sapato social na madeira do deque.

​Kayla não se virou. Ela apoiou as duas mãos no parapeito de vidro, olhando o movimento dos carros abaixo. O perfume de sândalo se misturou ao cheiro da noite. Logan parou exatamente ao lado dela, apoiando uma das mãos no bolso da calça social e a outra no parapeito, mantendo uma distância mínima, mas que fazia a pele de Kayla arrepiar por completo.

​— Parabéns, Kayla Drake — Logan quebrou o silêncio. A voz dele saiu ainda mais grave, rouca e pausada que o normal, despida de qualquer ironia de hospital. — Ou melhor... parabéns, Kayla. Sem sobrenomes, sem idades de colégio nas estatísticas.

​Kayla girou o rosto devagar, os olhos azuis fitando o perfil marcante do maxilar dele sob a luz fraca da varanda. — Obrigada, Doutor. Achou que eu não ia sobreviver até os dezoito?

​Logan deu um meio sorriso de canto, um gesto raro que desarmou completamente a sua expressão severa. Ele virou o corpo de frente para ela, encurralando-a sutilmente contra o parapeito de vidro, os olhos escuros brilhando com uma intensidade possessiva.

​— Eu sabia que você ia chegar aqui com toda essa atitude — ele sussurrou, aproximando o rosto o suficiente para que ela sentisse o calor de sua respiração. — Mas o prazo acabou, Kayla. A contagem regressiva da garagem, do elevador e daquela cozinha em Angra chegou ao zero hoje. Você não é mais uma garota brincando com a guitarra do pai. Você é uma mulher dona das suas escolhas.

​Kayla engoliu em seco, sentindo o coração bater em uma frequência cardíaca violentamente alta sob o tecido do vestido preto. A audácia dela tentou voltar, mas o magnetismo dele era um bloqueio intransponível.

​— E o que o médico sugere para o meu primeiro dia como adulta? — ela desafiou em um fio de voz, sustentando o olhar dele.

​Logan estendeu a mão esquerda devagar. Seus dedos longos e firmes tocaram a lateral do pescoço de Kayla, subindo pelo maxilar dela com uma carícia quente que a fez fechar os olhos por um breve segundo. Ele não a beijou ali; a mesa das famílias estava a poucos metros de distância, através do vidro do restaurante. Em vez disso, ele inclinou a cabeça e sussurrou diretamente no ouvido dela, a voz enviando uma corrente elétrica por toda a sua espinha:

​— Eu comprei um apartamento meu, Kayla. Perto da praia da Barra, longe do prédio dos nossos pais. Um lugar com o silêncio que você tanto procura... ou com o espaço para o barulho que a gente quiser fazer. O endereço é Avenida Lúcio Costa, número 3600, cobertura três.

​Ele se afastou o suficiente para olhar nos olhos dela, deixando os dedos escorregarem pelo ombro dela até soltá-la. Logan tirou a mão do bolso e revelou uma pequena chave dourada com um chaveiro de couro escuro, deixando-a sobre o parapeito de vidro, ao lado da mão de Kayla.

​— Eu estou saindo daqui agora, vou fingir que tenho um chamado de emergência no hospital para os nossos pais não estranharem — Logan continuou, o tom preenchido por uma seriedade densa e madura. — Vou direto para lá. Eu vou deixar a porta destrancada e vou ficar te esperando na varanda até a madrugada acabar. Você tem dezoito anos agora, Drake. A decisão de cruzar aquela porta e mudar o compasso da nossa história é inteiramente sua. Não há mais desculpas técnicas.

​Logan deu um passo para trás, ajeitou as mangas do terno de linho e deu as costas, caminhando com passos firmes de volta para o salão interno. Poucos minutos depois, Kayla o viu gesticular com Garret e Jace, pegar sua carteira e sair pela porta da frente do restaurante, alegando o falso plantão de urgência.

​O Impasse da Madrugada

​A chave dourada continuava ali, brilhando sob o reflexo das luminárias da varanda. Kayla estendeu os dedos trêmulos e a recolheu, fechando a mão com força ao redor do metal frio.

​O resto do jantar passou como um borrão em sua mente. Ela sorria, agradecia, conversava com Candy, mas o endereço da Avenida Lúcio Costa queimava em seus pensamentos como a letra da música mais intensa que já havia escrito.

​Por volta de uma da manhã, os carros das famílias estacionaram de volta na garagem do condomínio de lofts. Kayla subiu com os pais no elevador — o mesmo elevador onde tudo havia mudado. Ao entrarem no sétimo andar, Jace e Rebekah se despediram da filha com abraços carinhosos, exaustos da noite de comemoração.

​— Boa noite, minha estrela. Juízo — Jace disse, piscando antes de fechar a porta do quarto do casal.

​Kayla entrou em seu próprio quarto. O silêncio do loft parecia ensurdecedor. Ela olhou para a sua guitarra vermelha no suporte, olhou para o cartão preto e dourado da Som Livre em cima da escrivaninha e, finalmente, abriu a palma da mão, encarando a chave dourada da cobertura de Logan.

​Ela trocou o vestido preto por uma roupa casual escura, prendeu os cabelos negros enormes em um coque firme e pegou a pequena bolsa. Seus pés caminharam até a porta do quarto em silêncio. Ela olhou para o corredor escuro da casa dos pais. Ela tinha a maioridade nas mãos. Tinha a liberdade que Jace e Rebekah sempre lhe deram.

​Enfim... será que ela iria?

​Kayla Drake girou a chave da porta da frente do loft do sétimo andar com extrema suavidade, saindo para o hall dos elevadores da madrugada. O próximo passo ditaria a batida definitiva de todo o seu futuro.