​Três meses haviam se passado desde o sepultamento monumental na Candelária. O Rio de Janeiro aos poucos retomava o seu ritmo, mas no casarão do Itanhangá e nos corredores do Hospital Regional, a ausência de Kayla Drake ainda era uma nota suspensa no ar. Jace e Rebekah agora administravam o império da Som Livre com a promessa de proteger a alma dos novos artistas, exatamente como a filha exigira em seu testamento bilionário.

​Até que, numa tarde de outono, um envelope pardo de alta segurança, vindo de um escritório de advocacia de Los Angeles, foi entregue na porta dos Drake. Não havia remetente formal, apenas uma etiqueta branca com letras digitadas em caixa alta:

​"ESTE ARQUIVO DEVE SER ASSISTIDO POR TODOS AQUELES QUE UM DIA A AMARAM. REÚNAM AS LINHAGENS."

​Dentro do envelope, havia apenas um DVD com acabamento fosco e a assinatura de Kayla gravada a laser na superfície. Atendendo ao último pedido implícito da filha, Jace decidiu não assistir àquilo no Itanhangá. Ele convocou todos para a antiga casa de praia da família, o lugar onde a juventude, os primeiros acordes e os verões mais puros haviam acontecido.

​A Reunião na Casa de Praia

​A noite caiu sobre o mar da Barra da Tijuca, trazendo o som mansa das ondas que batiam contra a areia. A sala da casa de praia estava preenchida por uma penumbra acolhedora. Um imenso telão de projeção foi instalado na parede principal.

​Todos estavam ali, dividindo os sofás e as poltronas em um silêncio carregado de expectativa e saudade. Jace e Rebekah Drake sentavam-se ao centro; os avós Anya e Guga mantinham as mãos dadas no canto; Letícia e Derick compartilhavam o mesmo banco com os tios de alma, Pedro e Lucas. Diana Styles, que viera de Los Angeles especialmente para o momento, sentou-se ao lado de Candy Lâfrer. E, no fundo da sala, encostado na mesa de jantar com os braços cruzados sobre o peito, estava Logan Lâfrer. O Médico-Chefe vestia uma roupa casual escura, mantendo os olhos escuros fixos no telão, a linha do maxilar rígida controlando a frequência de seus batimentos.

​Jace respirou fundo, segurou o controle remoto e apertou o play.

​O Sorriso na Tela de Los Angeles

​A tela piscou em um fundo branco até que a imagem se estabilizou. O cenário era o quarto de luxo do hospital de Los Angeles, mas a câmera estava posicionada de forma que focava apenas do busto de Kayla para cima, escondendo os aparelhos.

​Kayla Drake apareceu na tela. Ela usava uma blusa de seda branca, os cabelos negros enormes em camadas perfeitamente penteados e os impressionantes olhos azuis brilhando com uma luz viva. Ela não parecia doente; o disfarce da maquiagem que Diana organizara naquela tarde estava impecável.

​Olhando direto para a lente, Kayla abriu aquele seu clássico sorriso de canto — audaciosa, despojada e soberba — e começou a cantarolar à capela, estalando os dedos no ritmo, o refrão de seu maior sucesso:

​— “E se o vento soprar contra o cais... o meu coração indomável vai te buscar mais...”

​Ela soltou uma risada rústica e mansa, balançando a cabeça.

​— Oi, família. Se vocês estão assistindo a isso, significa que a minha última turnê finalmente chegou ao fim e que eu já peguei a estrada para um lugar onde o titânio não dita as regras — ela começou a falar, brincando com a câmera, a voz rouca e pausada ecoando pelas caixas de som da casa de praia, fazendo Rebekah desabar em lágrimas no mesmo instante. — Eu pedi para os meus advogados entregarem esse vídeo só depois que a poeira baixasse. Eu queria dar o meu último tchau do meu jeito. Sem repórteres, sem tubarões. Só a gente.

​ELA inclinou o corpo para a frente, o olhar tornando-se profundamente doce.

​— Vovó Anya, Vovô Guga... obrigada por terem sido a torcida mais bonita que o Garret já teve e por terem me ensinado que o rock de verdade é o amor que resiste ao tempo. Letícia, Derick... continuem quebrando tudo no compasso de vocês, não deixem o mercado calar a verdade da música. Pedro, Lucas... meus tios de alma, obrigada por terem cuidado do meu pai quando eu sumi no mundo. E Diana... — Kayla olhou para o lado da câmera, sorrindo com gratidão. — Obrigada por ter sido a minha general em Los Angeles. Você blindou a minha dignidade até o último segundo.

​As Palavras de Sangue e Afeto

​A imagem de Kayla na tela começou a mudar de frequência. As lágrimas, guardadas sob a armadura de estrela, começaram a brotar de seus olhos azuis, limpando o rastro da maquiagem. A voz dela desceu para uma nota mansa, pausada e trêmula.

​— Mãe... pai... — Kayla chamou, fixando os olhos na lente como se pudesse enxergar Jace e Rebekah na sala da Barra. — Me desculpem pela mentira de Malibu. Eu só queria que vocês guardassem na memória o som da minha guitarra vermelha no topo do mundo, não a ruína da biologia. Pai, o seu abraço no Itanhangá foi o acorde mais seguro que eu toquei em toda a minha vida. Mãe, a sua doçura curou o gelo que o metal colocou no meu peito. A Som Livre agora é de vocês. Cuidem dos garotos que têm sonhos nas mãos. Eu amo vocês além dessa vida.

​Candy Lâfrer soltou um soluço alto na sala ao ver Kayla direcionar o olhar diretamente para ela na tela.

​— Candy... minha eterna companheira de loft — Kayla disse, o sorriso trêmulo voltando em meio ao choro. — Você tinha razão naquele elevador. O orgulho me isolou em uma redoma de vidro. Mas não carrega culpa, miga. A sua bronca foi o último ato de amor real que eu recebi no Brasil. Obrigada por ter defendido o seu irmão e por ter sido a única pessoa corajosa o suficiente para me dizer a verdade. Eu guardei a nossa amizade na caixinha mais bonita da minha memória.

​O Acorde Final para o Doutor

​O silêncio na casa de praia tornou-se tão absoluto que o som do mar parecia ter parado. Na tela, Kayla Drake respirou fundo. Ela desviou o olhar por um segundo, engoliu em seco e depois voltou a focar na lente, com os olhos azuis inundados por uma intensidade dilacerante, preenchida por um luto incalculável. Todos na sala sabiam que aquele momento pertencia ao homem no fundo da sala.

​Logan Lâfrer descruzou os braços lentamente. Ele deu dois passos à frente na penumbra, os olhos escuros cravados na imagem da mulher de sua vida.

​— E por último... Logan — Kayla pronunciou o nome dele, a voz saindo em um fio trêmulo, rouco e quebrado de pura emoção. — O meu doutor... o dono das regras e do meu prontuário mais real. Eu sei que você assistiu ao show de Copacabana e sei que você recebeu o laudo de Tóquio. Eu passei dez anos tentando calar a dor que causei no seu peito, correndo atrás de aplausos de estranhos porque eu achava que o sucesso iria preencher o vazio de ter perdido você, a nossa cobertura e o ventre que a gente sonhou.

​Logan fechou os olhos por um milésimo de segundo, uma lágrima pesada e quente correndo por seu rosto maduro.

​— Eu causei pânico na sua vida, Log... e por isso eu preferi morrer aqui na Califórnia, para te deixar ditar as regras do seu hospital em paz, sem o peso da minha doença — Kayla continuou, o semblante calmo e sereno assumindo a tela, uma expressão angelical que acalmou o peito de Logan. — Mas eu precisava que você ouvisse isso de mim, sem intermediários. Você foi o meu único arranjo perfeito, Logan. O seu jaleco de linho foi a única armadura que eu realmente respeitei. A nossa história foi interrompida no asfalto, mas ela ficou gravada no meu titânio e na minha alma. Não guarda luto, meu amor. Continua salvando vidas na sua ala de trauma. Continua sendo o homem imponente que eu sempre admirei.

​Kayla Drake aproximou a mão direita da lente da câmera, como se estivesse tocando o vidro da tela para alcançar o rosto de cada um deles. Ela deu o último sorriso — mansa, leve e completamente livre de suas amarras corporativas.

​— Nada acontece por acaso — ela pronunciou a frase final do show, a voz ecoando como um eco eterno na sala da praia. — A minha estrada foi solitária... mas eu parto com a certeza de que, graças a todos vocês... eu fui a pessoa mais amada desse mundo. Tchau.

​A tela do telão piscou e ficou completamente preta. O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo choro coletivo e desabafado das famílias Drake e Lâfrer. Candy abraçou Rebekah; Jace manteve a cabeça baixa, sentindo a paz do último tchau da filha.

​No fundo da sala, Logan Lâfrer limpou o rosto com o dorso da mão. Ele olhou para a tela escura, ajeitou a gola de sua camisa e deu um suspiro profundo. A música de Kayla Drake havia terminado de tocar, e o DVD misterioso havia selado o ponto final definitivo. A história deles estava encerrada na terra, mas ali, com o som do mar da Barra quebrando do lado de fora, Logan sabia que o acorde daquela guerreira de titânio continuaria vibrando de forma inesquecível, eterna e soberba em seu coração, por todos os dias de sua vida.