— Então, Rafael está nesta festa? – gritei para que Aline e Tainá pudessem me ouvir. A batida eletrônica estava muito alta.

— Douglas, acho que Patrick está aqui por que ele tem muitos amigos universitários na festa – Aline respondeu gritando — Cuidado com o meu cabelo! – ela gritou para um rapaz que quase derrubou cerveja nela.

— Ouvi uns garotos da Estadual dizendo algo sobre Rafael estar atrás de Patrick ou estar abatendo os pokémons dos capangas dele. – disse Tainá que estava quase sendo engolida pela multidão.

Teríamos que permanecer juntos então segurei nos braços das meninas com firmeza. Se alguém se afastasse levaríamos uma eternidade para nos reencontrar. Achar a baixinha da Tainá então seria uma tarefa árdua.

— Como é o Rafael ou Patrick? – perguntei assim que notei que não fazia ideia de como eles eram.

— Patrick é muito alto, parece uma montanha de músculos e tem cabelos ruivos. – disse Tainá que se esquivava dos copos de bebida.

— Então vai ser fácil, Douglas. Não existem muitos ruivos por aqui. – Aline comentou.

— Esse jogos de luzes coloridas a todo momento não ajuda muito.

— O Rafael tem a pele morena, é magro, altura mediana, é bonitinho e tem cabelos raspados.

Dei uma olhada ao redor. Muitos tinham a cabeça raspada por causa dos trotes da faculdade. Desse jeito não encontraríamos Rafael nunca e Patrick ia conseguir passar na frente de todos.

— Por que ele não aparece logo, hein? – Aline estava irritada com a situação. Acho que ela nunca se imaginou entrando numa festa que não fosse para ela dançar e se divertir.

— Temos que continuar procurando – Tainá disse determinada mas por causa da música quase não dava pra ouvir.

— Tainá, tive uma ideia!

— Amém! Não aguento mais esses malucos jogando água, cerveja ou seja lá o que estão tomando em mim. E aqui está quente demais.

— A única pessoa que conhece o Rafael é você, Tainá. Suba nos meus ombros assim vai ter uma visão privilegiada e acharemos ele. – sugeri. Aline deu um sorriso largo mostrando que tinha aprovado a ideia... Só quem não parecia muito feliz foi a Tainá. — Qual o problema?

Ela disse alguma coisa em voz baixa e não ouvimos nada.

— O quê? Estamos numa festa! Você tem que gritar! – Aline bradou

— Eu tenho medo de altura! – gritou Tainá levemente envergonhada. Talvez ela achasse que fosse um medo bobo para se ter.

— Tudo bem. Vai ser rápido. E eu prometo não te deixar cair. – apertei o ombro dela e fiz um afago com o polegar motivando-a.

— Mas...

— Sobe logo, menina! – Aline estava visivelmente irritada.

Fomos para mais próximo da parede onde tinha um número menor de pessoas. Abaixei-me bastante e Tainá com a ajuda de Aline subiu nos meus ombros. Ela segurava o meu pescoço com força com as suas mãos geladas por causa do nervosismo.

— Se apertar um pouco mais forte, vou ficar sem ar – disse com dificuldade.

— Perdão! – ela disse colocando as mãos no topo da minha cabeça. Ela estava insegura e precisava de algo para se apoiar.

— Já está vendo ele? – perguntou Aline impaciente.

— Acho que sim. Vá naquela direção – Tainá apontou diagonalmente para a esquerda.

Continuamos nos empurrando por ali. O fato de Tainá estar nos meus ombros até ajudou para se afastarem mais rápido, já que viam nossa aproximação de longe. Quando já estávamos próximos ao Rafael segundo ela, pediu para descer pois já estava zonza. Agachei-me e Aline ajudou a tirar a baixinha de cima de mim aos gritos por causa do medo de cair. Meus ombros ficaram doloridos, mas pelo menos estamos perto de encontrar o Rafael.

— Não vamos encontrar ninguém na multidão! – alguém gritou no meio do povo — Temos que mudar de estratégia

— Eu nem sei como é o Patrick – gritou um rapaz moreno.

— Eu sei! – Tainá gritou.

Olhei ao redor e notei que muitos dos alunos do Colégio Estadual estavam por perto e foram se aproximando de nós depois da menção do Patrick.

— Vocês não são do Estadual – comentou Rafael estranhando a nossa aproximação.

— Na verdade, estamos contra o Patrick

— Como assim? – perguntou o menino de óculos do lado do Rafael.

Tainá abriu a boca para começar sua explicação, mas os alunos de uniforme azul começaram a nos cercar.

— É o Rafael! Pega! – gritou um dos garotos.

— Gente, nós temos que sair daqui ou vamos conhecer o Patrick antes do recomendado! – gritou Aline me puxando e eu peguei no braço do Rafael que fez o mesmo com Tainá e ela com o outro garoto criando uma corrente humana.

Fomos bem grosseiros empurrando e derrubando todos a nossa frente, mas tínhamos que sair daquele lugar com urgência ou os alunos da Estadual nos entregariam de presente para o líder ruivo deles. Após muitos empurrões, conseguimos sair do local e respirar um ar fresco. Não tinha reparado antes no quanto eu estava suado por causa do ar abafado e o calor daquele lugar. Aline parecia ainda mais feliz por ter se livrado de lá. Notei que o sol começava a abaixar no céu e logo seria o pôr-do-sol.

Tainá ia retornar a explicação que começou lá dentro, mas logo os alunos estavam na rua com as pokébola nas mãos. A menina das madeixas roxas retirou a sua do cinto liberando uma Smoochum. Ela é uma pequena pokémon humanoide que lembra a um bebê com cabelos loiros que vão até os ombros e tem uma franja que cobre parte da testa, também existem alguns tufos de cabelo sobressaindo do topo de sua cabeça. Sua pele é rosa, mas seu peito, pés e mãos são cor-de-creme. Seus lábios são bem carnudos e ela estava distribuindo beijinhos para os adversários.

— Tem certeza que quer uma batalha? Estamos em maior número. – falou um deles liberando um Magby.

— O Rafael já acabou com vários pokémons dos seus amigos, sabia? – comentou o “quatro-olhos” solícito.

Todos nós tínhamos pokébolas nas mãos prontos para o combate, mas uma batalha em massa geraria uma confusão sem tamanho no local.

— Não quero bagunça. Só queremos ir embora. Se mais alguém liberar um pokémon, vamos fazer lotarem os hospitais. – ameaçou Rafael.

— Eu já vi o que ele fez com um moleque. Melhor não provoca-lo – disse um dos alunos encarando o moreno com medo.

— Então será um contra um, baixinha – disse um deles. Ele parecia decidido e os outros alunos acreditaram nas ameaças de Rafael. Se o boato que ouvimos de que ele estava abatendo os pokémons dos outros, eles tinham o que temer. Ninguém ali fazia ideia do potencial da Tainá também, mas ela parecia tão decidida que ninguém a impediria.

— Ainda bem que ela vai lutar. Meus pokémons não estão nada satisfeitos com esse esforço imenso – Rafael falou baixinho com Alberto, mas ouvi ainda assim pela proximidade. Aline estava preocupada tentando arrumar o cabelo dela que estava todo bagunçado. Não que ninguém ali estivesse em melhores condições.

O Magby é um pokémon bípede e vermelho com uma barriga amarela. Possui algumas garras nas mãos e nos pés e também um espinho nas costas. A cabeça é coberta por protuberâncias e ele possui um bico amarelo. Os treinadores estenderam as pokéagendas que validaram o início da batalha.

— Smoochum, Beijo Doce

— Magby, desvie e use o Lança-Chamas

Os lábios da pequena humanoide brilharam e vários corações saíram de sua boca contra o pokémon de fogo que se esquivou e lançou uma corrente de chamas da qual Smoochum desviou por conta própria.

— Magby, Soco de Fogo! – ordenou o treinador.

— Soco de Gelo!

Smoochum tinha o braço direito num tom azulado com flocos de neve em volta enquanto Magby vinha com o punho esquerdo em chamas. Ele chocaram os socos causando uma fumaça no local, mas continuaram com embate de punhos.

— Smoochum, aproveite a proximidade e use o Beijo Doce.

Num movimento arriscado, a pokémon gélida e psíquica interrompeu sua série de socos para realizar o beijo que atingiu o Magby que voltou cambaleante para o lado de seu treinador.

— Círculo de Fogo

— Raio de Gelo

Os treinadores gritaram seus comandos juntos. O Magby atacou, mas seu espiral flamejante ao invés de focar apenas na adversária, estava desorientado e ondulante. O raio azul atingiu Magby o congelando parcialmente, mas a Smoochum foi acertada de raspão pelas chamas.

— Teleporte e Beijo Adorável – comandou Tainá

A pokémon embora ferida obedeceu de prontidão aparecendo atrás do Magby e beijando-o. A Smoochum usou o Teleporte novamente e retornou para o seu lugar em frente a Tainá. A pokémon tinha uma expressão de dor.

— É a habilidade do Magby, Corpo Flamejante. Provavelmente Smoochum se queimou por causa do contato físico. – comentei.

— Magby, acorde! – falou o treinador chacoalhando o pokémon adormecido pelo Beijo Adorável.

— Vamos acabar com isso! – gritou Tainá empolgada com as chances de vitória, embora preocupada com o seu pokémon — Raio Psíquico!

Um raio de energia multicolorida acertou o Magby que acordou a tempo, mas não conseguiu evitar o ataque e caiu no chão exausto.

“A batalha está encerrada. 3 pontos para Tainá Lira” ­

— Não vou deixar você ir embora! – gritou o garoto revoltado recolhendo Magby e correndo para cima de nós junto com os outros, mas Aline foi rápida liberando sua Chikorita que agitou os cipós afastando eles por um tempo.

— Pó do Sono! – a loira ordenou

— Hipnose! – comandou a outra garota.

Os alunos iam sendo tomados pelo sono por causa das ondas psíquicas ou por causa do pó azul brilhante. As garotas retornaram seus pokémons.

— Bom trabalho, Smoochum – comentou Tainá olhando para a sua pokébola com carinho.

— Temos algum tempo para nos organizar finalmente – comentei aliviado.

— Por que me ajudaram? – perguntou Rafael rapidamente.

— Estamos correndo atrás do treinadores que ainda não foram enfrentados pelo Patrick para protegê-los. Ele está abusando do poder e violência para conseguir pontos e não queremos que ele transforme A Batalha da Cidade em uma guerra. – explicou Tainá.

— Realmente, isso está se tornando uma guerra. Eu fui perseguido desde que saí do meu colégio e acho que eles são os responsáveis pelo sequestro da minha irmã.

— Nossa! Eles são mais selvagens do que eu imaginava. Como aconteceu isso? – indagou Aline espantada com a situação

— Eu fiquei de buscar a minha irmã no colégio, mas os capangas dele me atrasaram um pouco e quando cheguei a escola dela, minha irmã não estava mais lá.

— Mas, e o garoto de óculos. O que ele tem a ver com tudo isso? – questionei.

— Eu sou o Alberto e estudo no Orfanato Raio de Sol. – se apresentou. Ele não era muito alto, tinha os cabelos castanho-escuros e os olhos castanho-claros. Ele usava um óculos de grau de armação fina. — Estou tentando aprender mais sobre batalhas e quero ajudar o Rafa a encontrar a irmã dele também.

— E o que mais? Você me parece solícito demais – comentou Aline desconfiada.

— Eu também quero conseguir seis pontos para ficar entre os quarenta primeiros colocados. – ele admitiu envergonhado, talvez pelo fato de não querer ajudar o Rafael sem benefício próprio.

— Algum motivo em especial? – indaguei o garoto.

— É uma história longa. Depois a gente conta. – Rafael esquivou do assunto.

— Qual o próximo passo, Tainá? – perguntei.

Ela parou um tempo, olhou para o céu e fez uma careta pensativa.

— Bem... Vocês vão ter que continuar sem mim. Tem o toque de recolher do internato e não posso descumpri-lo.

— Mas, você vai voltar sozinha? – Rafael perguntou preocupado — Se esse pessoal do Estadual acordar e irem atrás de vocês?

— Certo. Rafa me acompanha até o internato enquanto Douglas, Alberto e Aline vão atrás do primeiro colocado.

— Mas, alguém faz alguma ideia onde ele mora ou onde possa estar? – perguntou Alberto

— Acho tenho um palpite. Uma vez me contaram onde ele morava – Aline falou, mas não parecia muito convicta.

— E qual o endereço? – perguntei.

— Eu não sei bem como explicar porque não tem muitos pontos de referência, mas me lembro da casa. E também não tenho certeza se ele era o primeiro colocado mesmo.

— É o nosso único palpite no momento. Vamos atrás dele então – eu disse.

— Boa sorte na busca! – Rafael desejou já se afastando com Tainá

— Pra vocês também. – retribui — Vamos precisar

Nós começamos a correr atrás de Aline que se equilibrava nos saltos altos, mas ela não parecia muito confortável com os calçados. Eles com absoluta certeza não foram feitos para atividades físicas.

— Aline, tem certeza que vai conseguir ir correndo de salto até lá?

— Não sei. Acho que dá pra fazer um sacrifício.

— Mesmo que ela consiga, ela não é muito rápida. Vai demorar um tempo já que não sabemos onde é o lugar. – o garoto de óculos notou.

— Ei! Eu sou rápida nos saltos, mas não sou uma maratonista! – Aline se justificou para Alberto — Eu posso chamar o meu motorista! – ela deu um gritinho de felicidade tirando o celular da bolsa.

— Acho que não. Teríamos que ficar parados em algum ponto para nos buscar e a zona nobre da cidade não é tão próxima daqui. Se estiver com trânsito ele vai demorar muito e até lá aqueles alunos que encontramos há pouco já podem ter acordado e nos cercado. – raciocinei sobre a tática. Com certeza não seria o mais viável.

— Poderíamos ir de ônibus. – sugeriu Alberto

— Mas, eu não tenho cartão de estudante, a Aline provavelmente não tem e mesmo que você tenha somos três para um único cartão. – respondi.

Aline tirou a carteira da bolsa e mostrou vários notas de dinheiro.

— Hello, baby! Dinheiro não é problema, é solução

Bati a mão na testa por não ter me lembrado disso. Os outros dois começaram a rir e eu me permitir dar um sorriso. Assim que voltei a me preocupar com a nossa situação, notei um ônibus vindo no final da avenida na nossa direção.

— Esse bairro é próximo de lá? – interroguei Aline mostrando o veículo chegando.

— Acho que sim.

— Acha que sim? Não vamos confiar em suposições, vamos? – questionou Alberto

— Vamos contar com a sorte então ou vamos perder o ônibus – eu disse.

Comecei a fazer sinais desesperados para que o ônibus que vinha em alta velocidade. Ele freou bruscamente quase nos atropelando. Subimos apressadamente no ônibus. Aline parecia ter horror a andar no veículo de gente da ralé, mas ao mesmo tempo curiosa sobre aquele “universo” novo para ela. Ela pagou ao trocador com uma nota de cem que ficou muito feliz quando ouviu dela que poderia ficar com o gordo troco.

Sentei com Aline em um dos bancos e Alberto sentou no assento ao lado. A loira prestava atenção demasiada no caminho e eu tentei acompanhá-la, mas o cansaço estava tomando conta do meu corpo. Encostei a cabeça na janela do ônibus e cochilei. Acordei com o grito de Aline que fez bater a cabeça na janela vítrea do veículo fazendo um estrondo.

— Era ali!

— Ali aonde? – perguntei assustado

— A casa do primeiro colocado é por ali. Como a gente faz pra parar essa coisa? –ela perguntou espalmando a janela.

Alberto de prontidão puxou a cordinha anunciando nossa parada e o motorista parou alguns metros à frente e nós descemos. Eu ainda estava grogue, mas tentei me despertar rapidamente olhando ao redor tentando identificar onde estava sem sucesso. Embora, não soubesse exatamente onde eu estava pude notar que o bairro era de classe média. Algumas casas eram mais bonitas e bem-cuidadas, outras mostravam a condição desfavorecida de alguns moradores.

— Vamos! – eu disse e nós começamos a andar atrás da casa do primeiro colocado. Na verdade, nós corríamos, depois voltávamos a andar e retornávamos a corrida. Aline e Alberto não reclamaram, por que ficaram conversando no caminho. Após alguns minutos desse processo cansativo para achar o primeiro colocado, vimos um grupo de jovens com roupas douradas. Alunos do Realeza.

— O que vocês pensam que estão fazendo? – perguntou Aline olhando para os jovens com pokébolas nas mãos e olhares mal encarados.

— Viemos aqui para desafiar o primeiro colocado, mas já que ele não está aqui podemos lutar contra esse moleque aí – apontaram para Alberto. Eles já me conheciam e não pareciam querer mais um duelo comigo.

Alberto parecia feliz com a oportunidade de conseguir mais pontos e alcançar sua tão desejada posição entre os quarenta melhores, mas também parecia assustado com a possibilidade de lutar contra os alunos de um colégio com tradição na competição.

— Se alguém da Realeza tiver que batalhar contra o Alberto, eu serei essa pessoa – Aline disse decidida

Eu e Alberto estávamos espantados com a atitude dela. Ela estava sendo tão legal com todos nós, nos ajudando e agindo como um time que não esperei isso. Acho que ela liberou as garras dela. Alberto parecia ainda mais traído. Acho que eles conversaram bastante no ônibus e no caminho até aqui. Embora estupefato com o ocorrido, Alberto retirou uma pokébola da mochila e a estendeu mostrando que aceitava o desafio.

Notas finais
É isso aí, pessoal! Espero que tenham gostado! Por favor, deixe suas opiniões, críticas e elogios através dos reviews! Isso nos motiva muito! Até mais!