A Batalha Por Lunazul

2 Peão num jogo combinado


Notas iniciais
"Ah, como odeio reverências!"

Entramos na sala do comando central. A Planetária Inc. era bem diferente da Força Federal, apesar de seguirmos uma hierarquia militar as decisões eram tomadas em conjunto pela tripulação. Nos dirigimos aos nossos lugares. Sem demora a reunião começou. Uma holografia surgiu no centro da mesa. Era o Coronel Smith:

- Boa noite tripulação da Cosmópolis. – iniciou a reunião – Como os senhores já devem saber, atingimos no dia de hoje o Quadrante 9. Estamos dois dias a frente do nosso plano de viagem, o que nos deixa à apenas uma semana de Lunazul. Quero que aproveitem a passagem pela área para estudar e coletar dados, pois esta é a mais vasta região de extração, uma oportunidade única para observar o funcionamento dos cubos. Além disso, deverão ser feitas simulações de combate espacial, deveremos usar a área a nosso favor para aperfeiçoar nossas esquadras.

“Simulação de combate? Ele está louco?” – foi o que pensei – Bernard me olhou como se pudesse adivinhar meu pensamento. Sabíamos que algo estava errado. Lembrei-me das conversas com Bernard sobre a história das Expansões: A Planetária Inc. era a maior empresa privada de toda Federação, além de controlar a indústria da extração de água, também é responsável pela área de Energia, pois é ela quem opera os massificadores de energia, que extraem energia das estrelas incandescentes ou gasosas. A Planetária Inc. fornece Energia e recursos para todos os 64 planetas da Federação, em alguns deles existem verdadeiros sóis artificiais, um projeto que tem permitido cada vez mais a expansão da Federação por todo perímetro conhecido. A história da Planetária, ou Plan Inc. como é conhecida, se confunde com a própria história da Federação, quando guerra e fome assolava o planeta Terra, a Plan Inc. e as nações terrestres em um esforço nunca antes visto na trajetória da humanidade, deram início ao “Projeto cubos”, salvando a raça humana da extinção. Com a evolução da tecnologia de massificação de energia, deu-se iniciou a expansão colonial. Quando as colônias terrestres já estavam desenvolvidas suficientemente para ter cultura própria, por volta do ano 5500, aconteceu o que acontece quando existem colônias: Guerra contra a metrópole. Durante a grande guerra colonial, que tinha de um lado a Terra, no Quadrante 1, e do outro Júpiter II, no Quadrante 2, houve grandes perdas dos dois lados, mas no fim Júpiter II triunfou sobre o Império terrestre. Júpiter II unificou todos os 64 planetas em uma Federação, mas isso não seria possível sem a intervenção da Plan Inc., que se manteve neutra em todas as guerras ao longo dos milênios, porém no ano de 8200, se posicionou ao lado de Júpiter II, dando início a um grande período de paz que perdurou até os dias de atuais. Assim sendo a Federação passou a financiar a pesquisa espacial da Plan Inc. e, em algumas situações específicas, as Forças especiais da Plan inc. são enviadas a planetas distantes, para cessar uma crise ou rebelião por parte da população. Essas missões eram, na verdade, uma forma da Federação se fazer presente em lugares remotos, mas só quando não havia recursos suficientes para enviar tropas da FF, já que a distância entre Júpiter II e algumas unidades da Federação podiam chegar a seis meses de viajem, como era o caso de Lunazul. A Federação aproveitava-se das diversas naves da Plan Inc. dispostas por toda sua área, assim era fácil atender a qualquer situação nas diversas unidades. Os homens da Plan, embora fossem na sua maioria homens da ciência, estavam sempre prontos para o combate. Mas nossa missão não era uma missão militar... A princípio não era. O que me levou de volta à sala do Comando central. Agora o Coronel Smith passara a palavra ao Tenente-coronel Stan:

- Caros amigos, – O tratamento entre oficiais e subalternos na Plan era formal, mas nem de longe lembrava a frieza da FF – Aqui eu vejo jovens cientistas, soldados dissidentes da FF, alunos promissores da Planetária Inc. – Fez uma pausa – Mas acima de tudo vejo em vocês o espírito da nossa grande corporação, bravos homens e mulheres que desbravam o vasto cosmo em busca de evolução. Bernard me olhou, e dessa vez não pode conter o comentário:

- A coisa tá feia. – murmurou.

- Espero que cada um de vocês esteja preparado para o novo desafio que se apresenta em nosso horizonte. – Continuou – Vocês ainda não sabem, mas houve uma insurgência em Lunazul. Os rebeldes entraram em confronto com a Força Federal residente. Houve grande derramamento de sangue. Nossa missão foi alterada de “Pesquisa” para “Pacificação”.

Pacificação? Como isso pode ser possível? Não havia nenhum foco de rebelião em Lunazul, pelo menos as informações diárias da Federação diziam que... Mas desde quando eu acredito em algo que a Federação dizia.

- O seguintes líderes de esquadra serão promovidos a Primeiro-tenente – disse o Tenente-coronel Stan, seguido de uma breve lista.

A lista indicava que o status da missão fora realmente alterado e que mudanças na hierarquia foram previamente planejadas. Era oficial: nada mais de pesquisa científica, somos soldados indo para o campo de batalha mais uma vez. Ainda podia me lembra da última vez que estive servindo a FF em Celestia. Só eu sei das atrocidades que cometi em nome da Federação, aliás, esse foi o motivo pelo qual aceitei o convite da Plan, poderia esquecer de tudo aquilo, entrar para Equipe Tática Plan, como Primeiro-tenente, pulando dois níveis na hierarquia, o que não fazia a menor diferença, já que toda a minha escalada na carreira militar é devido ao longo tempo na FF, desde os 16 anos. Nunca fiz nada de notável para merecer medalhas e patentes, na verdade, nunca fiz nada notável. E ali estava eu novamente, indo pra fazer o trabalho sujo da FF, mas dessa vez com o uniforme da Plan. Sempre achei que minhas atitudes poderiam mudar, se não o que de ruim aconteceu no passado, pelo menos a minha sorte no futuro. Mas eu estava enganado, mesmo que eu fosse o primeiro homem a voltar no tempo, sempre iria me deparar com a face do que tanto odeio: Eu mesmo. De repente, um nome na lista de Stan interrompe meu devaneio:

- Aspirante Bernard Golland.

- Parabéns Primeiro-tenente. – Completou um assistente, lhe entregando a nova insígnia.

Bati palmas, pela primeira vez estava feliz naquela reunião, pois Bernard não teria mais que me prestar reverência. Uma das coisas que sempre odiei, tato na FF quanto na Plan, eram as reverências. Me incomodavam muito, nunca me achei uma pessoa digna de reverência, principalmente por parte de Bernard, ele era tão melhor que eu em tudo. Estava aliviado. Olhei para Bernard, dei-lhe um tapa no ombro e disse:

- É isso aí, o calouro enfim se formou. – Rimos. Tenente Stan continuou:

- Infelizmente a alta cúpula da Plan me quer de volta na capital, sendo assim, retornarei junto com a Cosmópolis. A nave está em bom estado, nesses cinco meses de viajem não sofremos nenhuma avaria grave. A manutenção da cosmonave deve durar não mais que uma semana, então retornarei para Júpiter II.

Estranhei o fato, pois estando em uma missão em território hostil, deveria haver um comando, e sem o Tenente Stan, quem mais poderia assumir esse posto. Mas em pouco tempo a Holografia do Coronel Smith elucidaria minha dúvida.

- Dito isso, chegamos ao último tópico; com a ausência do Tenente Stan, Será necessária a nomeação de um Comandante para as esquadras em Lunazul – E a bomba estrelar de cinco mil toneladas caiu sobre a minha cabeça – Parabéns Primeiro-tenente Lifedorth, a partir de agora o nomeamos Capitão de esquadra, e por ser o mais destacado dentre os oficias nessa missão, nomeamos também como Comandante da Pacificação.

Todos aplaudiam e olhavam e minha direção, um assistente entregou-me a nova insígnia, ombreiras, e uma boina. Eu estático ainda não havia digerido a informação.

- Lifedorth. De Victor Lifedorth, se não me engano esse continua sendo seu nome. – disse me batendo com o cotovelo Bernard.

- Alguma objeção? – Perguntou-me o velho Coronel.

“Sim, todas elas!” Queria gritar para o velho cabide de medalhas holgrafico a minha frente. Não me juntei a Plan inc. para isso. Porém não cabia mais objeção alguma. Levantei-me, fiz reverência, peguei os adereços diante de mim postos segurei ao lado direito e do meu corpo e como manda a tradição, soltei uma relutante: — Me sentirei honrado senhor!

Esperei o término da reunião, com um imenso vazio em meu pensamento. Não ousaria nem ao menos especular sobre o que o Tenente Stan discursou nos vinte minutos seguintes, nem mesmo nas duas vezes em que se dirigiu diretamente à mim e de pronto concordei, com um automático “- Sim senhor!”

Saí da reunião. Bernard me acompanhou. Ainda não tinha processado tudo o que ocorrera, mas aos poucos fui voltando do limbo vazio da minha mente, pescado pelos soldados, sargentos, tenentes que, por onde eu passava, paravam o que quer que estivessem fazendo, erguiam a postura, juntavam as mãos espalmadas ao corpo e faziam um leve aceno de cabeça. Ah, como odeio reverências!

- E eu que achei que não ia ter mais que prestar reverência pra um paspalhão igual a você. E aí, como se sente Capitão? Acha que agora irão crescer os cabelos do peito? – provocou-me Bernard.

- Não me enche cara. – fiquei irritado como só Bernard consegue me deixar – Me diz aí como é que você consegue?

- Consegue o quê? – disse me olhando com a cara mais lavada do mundo.

- Brincar com tudo. Cara, o cosmos está explodindo bem na nossa frente.

- Ih cara, acho que esse capitão veio com defeito, acho melhor devolver. Além do mais o cosmos não pode explodir na nossa frente, seria ao nosso redor... Ou melhor, eu acho que o cosmos não pode explodir. Ou será que pode... Sei não ó!

- Ah cara esquece isso. Parece que você não estava naquela reunião.

- Pô Victor, você já foi mais valente que isso. O que você teme tanto cara? Qual ameaça esses tais rebeldes de Lunazul podem representar pra gente? Olha ao seu redor nos somos o “o´concur” da tecnologia bélica.

- Mas...

- Mas nada! – me interrompeu – E agora você ta no comando, não vai ser como na FF. Nada de covardia contra os civis.

Bernard era mestre em me dar socos no estômago sem movimentar as mãos.

- Também tem essa estória do Tenente Stan. Não é no mínimo estranho? Ele vai chegar em Lunazul e partir para outros seis meses de viajem? – Insisti.

- Acorda Victor! Você não pode ser tão ingênuo. Todos nós sabemos que os interesses da Plan e da Federação andam lado à lado, nós somos apenas peões nesse jogo. Você aceitou isso quando entrou pra Plan.

- O quê? Do quê você ta falando?

- Ok, eu vou desenhar. Já pensou que talvez a missão do Stan não fosse de seis meses mais de um ano? Talvez a missão dele fosse trazer a tripulação dessa cosmonave e voltar pra casa.

- Mas... com qual propósito? – Bernard sempre me deixava pertubardo com a essa capacidade de enxergar além do que se vê.

- Victor – Fez uma pausa e me olhou – Você sabe tão bem quanto eu que a Federação censura a informação. Ela só nos conta o que interessa. O que você sabe sobre Lunazul? Não o que dizem os arquivos de história e os documentários sobre animais ezóticos. O que realmente sabemos. Você acha realmente que a Plan destacou um dos melhores homens da FF para uma simples missão de pesquisa? Talvez a crise em Lunazul já existisse antes mesmo de você e eu termos deixado Júpiter II. Digamos que as pontas dessa trama agora se juntam.

Calei-me. Uma vez mais Bernard me atingiu em cheio. Demoraria muito até que pudesse me recuperar desse nocaute.

...

Notas finais
Nesse capítulo revelei bastante da história da Federação. Digam o que acham! :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.