A Bastarda
25 Capítulo XXIV
Notas iniciais
Valerie se trancou no quarto após o jantar.
Ela sabia plenamente que a Srta. Taylor não a deixaria em paz enquanto não contasse o que houve na casa de America e se ela estava seguindo de acordo com o plano. Mas ela só queria um pouco de paz. Não queria falar com ninguém e sobre ninguém.
Perguntou-se até quando aguentaria aquela farsa e imaginou toda a sua vida dali pra frente resumida naquela mentira, tendo que deixar de lado tudo o que aconteceu, toda a sua história miserável e até o seu próprio nome para fazer todos os caprichos de Taylor, que inclusive, nem por um instante se importava em como ela se sentia, nem se ela realmente se importava.
Claro, pensou rindo com deboche, você só está viva por causa dela!
Sentou-se numa cadeira, em frente ao seu espelho e olhou seu reflexo, enquanto soltava seus fios ruivos do penteado que umas das criadas haviam feito. Eram ondulados e sedosos. Apesar de ser ruiva como America, seus cabelos tinham um tom de ruivo mais forte, e ela tinha algumas sardas nas bochechas e no nariz – que inclusive odiava.
Tocou em seu colar pendurado no pescoço, que se encontrava escondida debaixo das roupas e fechando os olhos, lembrando-se de sua querida mãe. Era a ultima coisa dela que lhe restou e ninguém sabia que ela a possuía, nem a própria Taylor, do contrário ela já teria tirado de suas mãos. Quando abriu os olhos novamente, viu suas bochechas molhadas pelas lágrimas e sentiu suas bochechas esquentando, mal sabendo em que momento aquelas lágrimas caíram.
Ouviu três batidas na porta.
— Valerie, abra a porta! – era a Srta. Taylor.
Ela respirou fundo e se pôs a enxugar as lágrimas rapidamente.
— Hã... já... já estou indo! – disse enquanto tentava se recompor e escondia seu colar novamente.
Respirou fundo novamente e destrancou a porta. Taylor entrou no quarto animada, como se estivessem lhe dado alguma energia extra. Ela estava animada por algum motivo.
— E então? Como foi com America? – cochichou para que mais ninguém escutasse a conversa, além de Valerie.
— Ela se demonstrou interessada em ter amizades comigo. – respondeu. – Voltarei lá amanhã, principalmente pelas aulas de piano.
— Excelente! – disse Taylor juntando as mãos e exibindo um largo sorriso. – Não poderia haver notícia melhor. Ouça, mantive contato com Henry hoje cedo, ele disse que está cada vez mais próximo de Maxon, principalmente agora que o pai está longe. O plano está ocorrendo melhor do que eu havia imaginado.
Valerie abaixou a cabeça e forçou um sorriso.
— Sim, está. – disse.
— Continue mantendo contato com America. Logo, você será a esposa de Maxon e America vai estar bem longe daqui para não atrapalhar nossos planos. – ela sorriu satisfeita. – E assim seremos poderosas, extremamente ricas e todos aqueles idiotas que pisaram em mim irão me pagar.
Por um instante Valerie nada disse, apenas acenou com a cabeça e forçou um sorriso.
— Vou fazer de tudo para que dê certo Srta. Taylor.
— Claro que vai querida. – disse segurando seu rosto com as duas mãos e beijando sua testa. – É claro que vai.
Ela sorriu e enfim, saiu do quarto, deixando Valerie sozinha.
Ela rapidamente trancou a porta enquanto sentia sua garganta se fechando e as lágrimas brotando de seus olhos. Soltou um pequeno engasgo enquanto limpava o beijo de Taylor de sua testa e segurava seus braços. Mordia seu lábio inferior, tentando com todas as suas forças segurar seu choro. Ela se deitou na cama e afundou seu rosto no travesseiro, desejando que por algum motivo a terra lhe engolisse e toda aquela história tivesse um fim. Até que por fim, adormeceu.
*
— Mas porque mamãe? – perguntou a jovenzinha.
— Desculpe querida, nós não pagamos a dívida que temos com essa senhorita. – disse a mulher ajoelhada em sua frente, segurando suas pequenas mãos enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto e ela forçava um sorriso. Ela tinha cabelos compridos e ruivos como os da garotinha. Seus olhos eram verdes e ela tinha as maçãs do rosto bem arredondadas, igualmente com sardas. Porém, aquela mulher, sua mãe, era a coisa mais linda que existia. – Você precisa ir com ela, minha pequena Florence.
As duas estavam em uma cabana humilde. As coisas da jovem estavam arrumadas em uma pequena trouxinha, enquanto uma mulher esperava, parada na porta. Srta. Taylor, como sua mãe havia dito.
— Mas... eu quero ficar aqui em casa com vocês. – disse a mocinha com os olhos começando a lagrimar.
— Você irá voltar logo querida. – a mulher pôs um beijo em sua testa, e colocou disfarçadamente algo em suas mãos. – Você irá ficar bem, acredite em mim.
A mocinha acenou com a cabeça e se virou para a Srta. Taylor, que agarrou sua mão e a puxou para fora da pequena cabana. Ao saírem um homem com uma enxada e um chapéu de palha a esperava do lado de fora. Ele estava com a barba por fazer e completamente sujo e suado. Ele se agachou em frente a garotinha e segurou suas mãos.
— Minha garotinha, você cresceu tanto. – ele disse dando um sorriso. – Vai se tornar uma bela dama. Seja forte, está bem?
Ele beijou sua mão dando um sorriso, mas logo a garota foi puxada novamente e posta dentro de uma carroça, com a mulher de olhos cinzas. Ela não pôde se conter, e as lágrimas correram pelo seu rosto ao olhar pela janela e ver seus pais sumindo aos poucos. Sendo aquela, a última vez que ela os vira.
*
Valerie acordou, sentando-se rapidamente em sua cama, com a respiração ofegante. Seu rosto estava molhado e ela se pôs a secá-los. Aquele sonho se tornava cada vez mais frequente. Foi a última vez que viu seus pais.
Naquela época não sabia o porquê de estar sendo levada. Mas após um tempo, ela soube. A srta. Taylor emprestava dinheiro para os seus pais, que mal tinham onde cair mortos. Graças ao dinheiro emprestado de Taylor, seus pais puderam alimentá-la e manter sua pequena viva, porém jamais teriam como devolver o dinheiro e só perceberam aquilo quando era tarde demais. A dívida se acumulou, e Taylor percebeu que nada além da própria garota seria digno de pagamento. Eles perderam a filha por desespero, e não puderam fazer nada para reverter. A razão de suas vidas havia sido levada, e Taylor já não media favor algum a eles, já que eles a deviam dinheiro. Estavam sem saída. Não se sabe se eles morreram por culpa da fome, ou pelo desgosto.
E a garota, não tinha mais pra onde ir. A srta. Taylor, se tornou dona de sua vida desde o dia que nasceu e não podia fazer nada para reverter aquilo.
~*~
Valerie chegou cedo na casa de America, ao ponto de que Maxon ainda estava lá.
— Valerie, quanto tempo! – sorriu Maxon. – Como está meu tio?
— Ele está bem. – respondeu dando um pequeno aceno.
— Eu fico contente. Logo irei fazê-los uma visita. – disse abrindo um sorriso.
A jovem prendeu a respiração. Ela não havia notado no início, porém Maxon era extremamente bonito, sem fazer grande esforço. Ele sorria de lado e seu olhar era penetrante, de uma forma quase hipnotizante. Como se com o fato de olhar no fundo deles, fosse impossível desviar o olhar. Naquele momento ela entendeu porque ele era tão desejado naquela cidade.
Ela piscou algumas vezes e rapidamente se forçou a desviar o olhar, sentindo-se constrangida.
— Tenha um bom dia, Valerie. – ele acenou com a cabeça, ainda com seu sorriso e saiu da casa.
Ela engoliu em seco, tentando afastar o pensamento de sua mente.
— Valerie, você veio! – disse America com entusiasmo, enquanto descia as escadas.
Ela sorriu.
— Bom, eu dormi ouvindo meu toque desafinado na mente, não posso deixar que continue assim. – ela deu de ombros.
America começou a rir.
— Você é tão dura consigo mesma. – ela ergueu uma sobrancelha.
— E você é muito paciente, não sei como. – disse sorrindo.
— Está bem, então vamos. – disse guiando Valerie até a sala de música.
Valerie novamente se sentou em frente ao piano enquanto America abria as janelas. Ela abriu a partitura do piano, olhando as teclas a sua frente tentando lembrar-se quais delas deveria tocar e em que momento.
Ouviu um gemido de America e ao olhá-la viu a moça apoiada no batente da janela, como se estivesse prestes a cair.
— Oh meu Deus, America! – gritou Valerie correndo em sua direção e segurando-a pelo braço.
— Oh Deus! – disse com os olhos fechados e respirando fundo.
Valerie pegou uma das cadeiras e levou para Meri se sentar. Ela estava pálida e extremamente gelada.
— Não se preocupe, irei ficar bem. – disse America abrindo os olhos novamente. – Isso foi só uma leve tontura.
— Você quase caiu pela janela. – disse Valerie franzindo as sobrancelhas. – Quer que eu chame um médico?
— Não, não é necessário. – disse ela segurado Valerie pelo braço. – Não é a primeira vez que isso acontece, só... preciso de um pouco de água.
Valerie acenou com a cabeça e chamou uma das criadas.
— Se não estiver bem disposta posso voltar outro dia. – disse Valerie.
— Já disse para não se preocupar comigo, estou bem. – ela deu um pequeno sorriso e se levantou.
— Se é o que você quer... – disse.
E elas passaram a manhã inteira na sala de música, porém Valerie não pôde deixar de perceber que o tempo inteiro America não parecia bem. Havia algo de errado ela só não fazia ideia do que.
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