A Bastarda
21 Capítulo XX
Notas iniciais
Podia-se dizer que já era por volta das cinco da tarde quando Maxon saiu do escritório. Estava com um olhar um tanto cansado e os cabelos um pouco desgrenhados, pois o dia foi cansativo. Nunca esteve tão irritado com seu pai na vida como naquele dia, não só pela viagem para Bruxelas como também pela desorganização das contas administrativas que Clarkson o havia deixado, e, por um momento jurou que teria a infelicidade de ter que levar parte deles para sua casa, mas conseguiu organizar tudo a tempo. Ao pensar nisso, lembrou que no começo não tinha tanto interesse pelo cargo, pois não se achava capaz de comandar algo a não ser uma dama em sua cama, porém, ele tinha talento para aquilo e viu que de alguma forma não seria tão ruim, a não ser se tratando de arrumar as burradas que seu pai fazia.
Montou em seu cavalo, e cavalgou pelo centro, vendo um atumultuado de pessoas caminhando. Perguntou-se se havia ocorrido um acidente e notou que a maioria estava indo em direção ao porto. Apertou os olhos, sentindo um gosto amargo na boca. Os plebeus estavam indo se despedir de seu pai. Ficou parado por um instante, observando a rua que ia direto para lá, até que decidiu ir. Andou com cuidado, pois havia muitas pessoas lá. Lembrou que quando viajou para a guerra, muitos fizeram o mesmo, várias pessoas rezaram e choraram por sua partida lhe desejando sorte. Enquanto se direcionava ao porto, vários dos plebeus o encaravam e isso no fundo o incomodou. Desceu do cavalo e o prendeu em um poste e foi caminhando. Passava por entre as pessoas e pedia desculpas por esbarrar em outras. O navio de Clarkson estavam com as velas prontas e já partia em direção ao mar. Várias pessoas aplaudiam e os cavalheiros jogavam seus chapéus, enquanto algumas damas choravam e atiravam seus lenços no mar – isso de certa forma lhe deu um embrulho no estômago.
Virou-se e caminhou em direção ao seu cavalo, desejando mentalmente sorte ao pai.
Ao chegar na casa Schreave entregou seu cavalo a um dos criados e entrou. Ao caminhar até a sala, parou surpreso, encarando America com alguma companhia.
— Boa tarde! – disse.
America ao vê-lo abriu um sorriso e a moça na sala ficou de pé.
— Maxon, esta é Marlee Thames. – apresentou.
Maxon se aproximou dando um sorriso e beijando sua mão, por educação, claro..
— Muito prazer e seja bem vinda. – falou.
— Eu conheço Marlee da minha cidade natal, morava perto da casa de minha bisavó. – falou America dando um sorriso.
— Minha família veio passar uma temporada aqui. – a jovem sorriu. – A situação em Belfast está um pouco difícil.
— Eu acredito. – disse Maxon comprimindo os lábios. – Na verdade, não está fácil para ninguém.
Formou-se um silêncio e Maxon limpou a garganta.
— Eu irei me retirar, pois estou um pouco cansado. – ele sorriu novamente. – Fique à vontade Srta. Thames.
Disse isso e subiu as escadas.
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Uma coruja cantava pousada no galho de uma árvore gigante enquanto o silêncio pairava no ambiente, o céu estava negro e a lua brilhava fortemente no céu, deixando o campo claro e possível de enxergar ao redor. Dois cavalos se aproximaram da grande árvore e duas moças com os rostos cobertos por uma capa desceram e amarraram seus cavalos.
— Não acha ser perigoso fazermos isso a essa hora da noite? – perguntou uma delas. Seu cabelo estava em um tom avermelhado por conta da escuridão.
— Pare de falar! – disse outra. – Sua insegurança está me irritando!
As duas olhavam ao redor, espiando pelos cantos, até que ouviram o relincho de um cavalo se aproximando e se esconderam na escuridão que as folhas da árvore fazia. Um homem com barba comprida se aproximou e tirou o capuz, mostrando seu cabelo negro preso atrás da nuca. Desceu do cavalo olhando ao redor, vestia roupas um tanto elegantes e botas de couro até o joelho. O homem fechou as duas mãos num punho, botou sobre a boca e assoprou, fazendo o som de algum pássaro, semelhante a uma coruja. As duas moças atrás da árvore saíram da escuridão assustando o homem, que ao vê-las abriu um sorriso.
— Srta. Taylor. – cumprimentou o homem.
A mulher tirou o capuz da cabeça exibindo seu rosto. Seus olhos cinzas se destacavam à luz da lua.
— Detetive Henry. – saudou de volta.
— Achei que não viria. – disse o homem.
— Claro que vim, não fujo de meus negócios, principalmente se tratando de meu interesse. – disse dando um pequeno sorriso.
— Muito bem. – ele juntou as mãos. – O que quer de meus serviços?
— Quero que vigie Maxon Schereave. – disse, simplesmente.
O homem franziu as sobrancelhas e encarou a srta. Taylor um tanto confuso, dando um pequeno riso.
— Porque eu faria isso?
Dessa vez a srta. Taylor franziu as sobrancelhas, mas o encarou de forma incomodada.
— Eu lhe contratei, então acredito que eu deveria simplesmente mandar ou procuro outra pessoa.
Henry riu de forma debochada.
— Por favor srta. Taylor! – disse em tom de pena. – Qualquer um que você contrate não irá aceitar tal trabalho sem saber o motivo. Vigiar Maxon Schreave é como pedir ao rei para me dar uma apunhalada no peito. Entenda, não tenho como vigiar Maxon sem saber o que estou vigiando e segui-lo para todos os lugares é burrice, serei preso. – coçou sua barba impaciente. – Então ou me diz o motivo ou irei embora, tenho outras pessoas interessadas em meu trabalho.
A srta. Taylor suspirou irritada e desviou o olhar.
— Quero descobrir o que ele faz. – respondeu encarando de volta o detetive. – Se ele cuida dos negócios ou se anda se divertindo. – falou erguendo uma sobrancelha.
Henry ergueu a cabeça dando um sorriso maldoso.
— Quer saber e ele tem uma amante. – disse por fim.
Taylor não respondeu, apenas manteve sua expressão. O detetive franziu as sobrancelhas um tanto curioso.
— A esposa o mandou aqui?
— Está fazendo perguntas demais detetive, pensei que eu o tinha contratado para descobrir sobre Maxon e não a mim.
— Base para investigar. Saber o que devo vigiar. Posso ser pego. Posso ir para a cadeia. Ou posso desistir de seu negócio – disse o homem erguendo as sobrancelhas. – É tão difícil entender senhorita.
— Está bem. – falou rendida. – Quero algum motivo para que America vá para longe, ela estragará meus planos.
O detetive continuou encarando Taylor com curiosidade como dizendo para continuar. Ela suspirou e puxou Florence para perto de si, que parecia assustada como um animalzinho indefeso, cercada por predadores.
— Ela está ocupando a casa de Shalom como sua filha. – disse encarando o homem com um olhar mortal. – E... não é exatamente verdade.
— Hum... continue.
— Maldição! – praguejou a mulher. – Por pura coincidência a verdadeira filha está perto de nós, o tempo todo.
O detetive ficou em silêncio por um instante, até que sorriu.
— America Schreave. – disse.
A srta. Taylor permaneceu em silêncio.
— Então essa moça é uma impostora heim. – disse cruzando os braços.
Ela permaneceu calada.
— E eu devo afastar America porque se não, vocês serão mortas. – disse alargando seu sorriso.
— Ora, ora, você realmente é um detetive muito eficiente. – disse ela em deboche.
O homem suspirou satisfeito.
— Isso é interessante. – falou. – Mas quanto ganharei com isso? É uma situação arriscada demais.
A srta. Taylor voltou a sorrir, pois haviam chegado na parte que ela queria.
— Se conseguir afastar America daqui, Maxon ficará solteiro novamente. Já estou cuidando para haver alguma aproximação entre ele e Florence. – disse olhando para a jovem. – Mas a questão é que quando America se for, Florence vai estar lá para consolar o pobre Maxon, se é que me entende. – sorriu. – E quando se casarem, sendo ela filha mais velha de Shalom e esposa de Maxon, será quase tão rica quanto o próprio pai, até quase como o imperador. – disse satisfeita. – Lhe garanto que a quantia não será pouca.
O detetive Henry sentiu pulsações em seu peito e rapidamente se imaginou com toda uma quantia de ouro e dinheiro.
— Sua... proposta é muito interessante. – falou sorrindo de forma ansiosa. – E negar seria muita burrice.
— Que bom que sabe disso. – disse a srta. Taylor satisfeita. – Mas comece o quanto antes, pois quanto mais rápido America se for daqui, mais chances o plano tem de dar certo.
O detetive concordou rapidamente.
— Isso não é problema. Irei providenciar para que isso aconteça o mais rápido possível, amanhã mesmo se possível. – falou.
Taylor sorriu satisfeita.
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America estava ofegante enquanto Maxon saia de cima de seu corpo e se deitava ao seu lado. Ele a puxou para perto de si, fazendo-a se aninhar em seu corpo, respirando freneticamente juntos, até ficar mais lenta. Ele apenas abraçava seu corpo, mas não dizia nada e America se sentia um tanto incomodada com a falta de comunicação, desde que entrara no quarto. Ele nada disse. Apenas a beijou. Ela abriu a boca duas vezes, até criar coragem para dizer algo.
— Maxon? – chamou.
— Hum?
Piscou algumas vezes e novamente juntou mais forças para falar algo.
— Está tudo bem?
— Porque?
Comprimiu os lábios.
— Você está... quieto. – disse. Ele nada disse. – Fiz algo de errado?
Ele enfim a encarou.
— Não! Não, não! Você não fez nada. – disse acariciando sua bochecha com as sobrancelhas franzidas.
— Está assim porque... – fez uma pausa. – Porque seu pai viajou?
Maxon desviou o olhar novamente e comprimiu os lábios. Não queria falar sobre isso.
— Porque você quer saber America? – perguntou se sentando e encarando Meri.
— Eu já disse. Porque está quieto.
Maxon suspirou e fechou os olhos.
— Só estou um pouco cansado. – falou. E não era mentira.
America mordeu o lábio inferior.
— Tudo bem. – disse comprimindo os lábios e desviando o olhar.
Maxon se deitou e se virou de costas, enquanto America levantava para trocar de roupas, sentindo-se magoada e ao mesmo tempo irritada.
Quando Meri adormeceu, Maxon ficou olhando-a dormir. Quando ela perguntou sobre algo, por um momento jurou que ela havia descoberto algo que pra ele seria desagradável discutir. Temeu que descobrisse sua traição. O que faria? O que diria se ela descobrisse sobre Constance? Ou pior, sobre seu segredo do passado. Sobre quem ele deixou e negou quando estava voltando da guerra. Jurara nunca dizer a ninguém sobre, ninguém, nem mesmo seu tio, ele o repreenderia de todas as formas, talvez até o odiaria. E America nunca o perdoaria. Fechou os olhos com força para afastar o pensamento e se virou de costas novamente, fechando os olhos, mas não conseguindo pegar no sono.
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