A Bastarda
20 Capítulo XIX
Notas iniciais
Os cabelos de America estavam espalhados pelo travesseiro, enquanto os lençóis cobriam seu corpo nu, deixando apenas um de seus seios amostra.
Maxon a observava. Ela estava tão serena.
Enquanto ela dormia as imagens do que havia acabado de acontecer repassaram em sua mente, como flashbacks. Suas mãos correndo por seu corpo e seus seios, os dedos finos dela em suas costas e os sons escapando de sua boca quase intencionalmente. Ficou com um olhar vago para a parede, e estas lembranças passavam e repassavam em sua cabeça várias vezes. Tapou o rosto com suas mãos, querendo gritar, quebrar algo. Mal conseguia controlar sua respiração. O que ele havia acabado de fazer?
Levantou-se com cuidado, vestiu sua calça de dormir e colocou um casaco. Arrumou o lençol, cobrindo o corpo de America, saindo do quarto em seguida. Desceu as escadas em silêncio e entrou no escritório. Tirou uma garrafa de whisky e encheu seu copo, bebendo tudo em um só gole. Quando percebeu, estava chorando de forma descontrolada, mal sabendo o motivo. O que seria aquela angústia que sentia?
Sentou-se numa cadeira e permaneceu lá, olhando para o teto. Ele estava sentindo algo de estranho em seu peito, enquanto novamente toda a cena repassava em sua mente. Sentia na ponta de seus dedos a pele de Meri e uma ternura, felicidade e emoção, todas juntas de uma só vez o atingindo. O que seria aquele sentimento? Ela jamais havia sentido algo tão intenso quanto sentiu com America. Começou a imaginar se não estava doente, enquanto várias outras perguntas lhe acertavam a mente. De repente pensou na pessoa mais aconselhável para conversar e fazer perguntas, seu tio Shalom.
Após várias horas sentado olhando para as paredes ou andando de um lado para o outro no escritório, se deu conta de que já estava começando a sair pequenos raios de sol do horizonte e iniciando a agitação dos criados lá fora. Resolveu sair do escritório e voltar para o quarto, o que menos queria naquele instante era dar de cara com o pai. Ao entrar no quarto viu que Meri estava deitada, da mesma forma que ele havia deixado antes de sair. Tirou seu casaco e o jogou numa das poltronas, deitando-se ao seu lado e a observando dormir, até que o sol ficasse alto.
Não demorou muito para America acordar, ao ver Maxon ao seu lado olhando para seu rosto ela não pode deixar de sorrir. Espreguiçou-se e se sentou puxando o lençol consigo para cobrir o corpo.
— Bom dia minha cara donzela. – disse Maxon alargando seu sorriso.
— Bom dia! – ela respondeu um pouco sonolenta.
— Dormiu bem? – perguntou mesmo sabendo a resposta.
— Depois de um tempo sim. – ela respondeu sorrindo um pouco sem graça e encarou seus olhos. – Mas não é o que parece vindo de você.
Maxon desviou o olhar forçando um sorriso para disfarçar, mas America não se enganava. Havia percebido as suas olheiras e seu olhar cansado.
— Não se preocupe querida. – balançou a cabeça e abraçou seus joelhos. – Foi apenas mais uma das minhas insônias noturnas.
America desviou o olhar se sentindo um pouco mais tranquila, pois se perguntou se havia feito algo de errado.
— Acho melhor nos arrumarmos para descer. – ele disse dando um sorriso de canto e ela o encarou.
— É claro. – respondeu acenando com a cabeça.
Antes de se levantar Maxon involuntariamente tocou sua mão e ela parou na beira da cama. Ele encarou seus olhos e tocou seu rosto levemente fazendo ter arrepios, em seguida selaram seus lábios. Maxon mal sabia porque o havia feito, apenas fez. Ao se afastarem um pouco ele sorriu e beijou o topo de sua cabeça se levantando em seguida, deixando-a na cama.
Ao descerem Clarkson já estava à mesa com alguns papéis em sua frente, mal notando a presença do filho e de America.
— Bom dia Sr e Sra Schreave. – diz uma das criadas e Clarkson ergue seu olhar.
— Ah, bom dia. – diz dando um pequeno aceno com a cabeça para os dois e voltando sua atenção para os papéis. – Ainda bem que desceu logo Maxon, estava mesmo querendo falar com você.
— Espero que não seja para atormentar minha cabeça. – disse Maxon em um tom duro.
Clarkson suspirou se segurando para não berrar com o filho.
— Acabei de receber uma visita de Sir Elliott, ele trouxe uma carta do Imperador me convocando para uma reunião. – disse Clarkson com seu olhar num dos papéis. – Nossas tropas estão com problemas na fronteira da França.
— Achei que estávamos com vantagem na guerra. – disse Maxon franzindo a sobrancelha. – Quando voltei de Waterloo, estávamos mais que bem.
— Sim, era o planejado, mas fomos pegos de surpresa por Napoleão, a maioria dos soldados morreram. – ele balança a cabeça em um olhar frustrado. – Tenho que acionar mais tropas britânicas e viajar para Bruxelas o mais rápido possível com o Marquês e o Visconde.
Maxon encarou o pai.
— E enquanto a mim?
— Assim como os filhos dos meus companheiros, você ficará cuidando dos meus negócios. – disse Clarkson encarando o filho
Maxon o encarou como se fosse um louco e deu uma risada sarcástica.
— Que absurdo! – protestou. – Tenho o direito de ir e....
— Apenas Deus sabe o que está por vir. – Clarkson o interrompeu já bastante impaciente. – Você já sabe do risco que corre quando vai para a guerra, não vamos arriscar sua vida ainda mais gora que casou. Eu me recuso a arriscar a vida do meu futuro herdeiro.
Maxon virou o rosto impaciente querendo protestar, mas novamente o pai não permitiu.
— Não ouse se opor as minhas ordens. Você vai ficar aqui cuidando dos negócios e isso não está em discursão Maxon. – disse por fim.
Clarkson voltou sua atenção para seu café e o silêncio pairou no ar.
— E enquanto ao meu tio? – perguntou Maxon por fim.
— O Imperador está sabendo de suas condições precárias, por isso permitiu que ele ficasse isento, é inútil manda-lo para lá. – respondeu. – Ele apenas vai colaborar com tributos para a guerra e nada mais.
Maxon apenas acenou com a cabeça e America, que permaneceu calada, suspirou de alívio, não queria que seu único considerável amigo fosse para longe e para uma situação tão perigosa como uma guerra, já bastava a situação que estava. Clarkson saiu da mesa logo em seguida e America nada disse após a conversa, pois Maxon ficou mal-humorado e não disse mais palavra alguma após a discussão com o pai, deixando todo o ambiente silencioso.
Quando Maxon terminou, levantou-se da mesa e foi até o estábulo. Os criados estavam bastante agitados, pois preparavam a carruagem e os cavalos para levar Clarkson até o porto, isso só o deixou mais irritado.
— Brandon! – Maxon chamou.
O rapaz um pouco barbudo e musculoso entregou as cordas para outro criado e caminhou em sua direção.
— O que deseja milorde?
— Prepare meu cavalo, preciso visitar meu tio. – disse Maxon.
— Sim senhor! – ele fez uma reverência e caminhou para dentro do estábulo.
Maxon voltou para dentro, para vestir uma roupa mais apresentável e desceu novamente. Passou pela por uma das portas e viu um vulto ruivo. Parou imediatamente e voltou na porta que dava para a sala de música. America estava caminhando pelo meio, olhando os instrumentos. Estava distraída em seus pensamentos, o suficiente para não perceber sua presença. Maxon começou a se sentir mal por quase não ter lhe dado atenção naquela manhã como devia ter feito, ele acabara de tê-la por completo.
Deu três batidas fracas na porta e entrou.
— Meri?
Ela o encarou em forma de resposta. Ele sentiu que ela estava um tanto chateada com suas atitudes e ele se amaldiçoou por ser tão estúpido.
— Irá cuidar dos negócios? – perguntou ela, com o intuito de quebrar aquele silêncio incômodo na sala.
— Não exatamente. – respondeu passando as mãos nos cabelos. – Irei visitar meu tio agora.
America manteve sua expressão neutra e acenou com a cabeça desviando o olhar. Maxon se sentiu pior.
— Meri, sei que eu estou um pouco distante agora – ele começou. –, te garanto que esse não era meu objetivo. Hoje não está sendo um bom dia.
— Eu entendo. – ela respondeu, ainda sem olhar em seu rosto. – Você tem seus deveres.
Maxon respirou fundo.
— Mas você é meu dever também, um dos meus principais. – as palavras saltaram de sua boca.
America enfim o encarou. Sentia seu coração palpitando forte em seu peito.
— Não se preocupe comigo. – respondeu por fim.
— Eu volto à noite. – disse.
America forçou um sorriso e Maxon saiu. Caminhou para a porta da frente e andou em direção ao estábulo, onde Brandon já havia preparado seu cavalo. Maxon montou e cavalgou, rumo à casa de seu tio. Não demorou muito para chegar e ao fazer isso, entregou seu cavalo para um dos criados do tio. Ao entrar, viu Sarah, Celeste, Srta Taylor e Valerie sentadas na sala de estar. Quando Celeste o viu, rapidamente se ajeitou e ficou de pé, lançando seu sorriso mais atraente.
— Maxon, que bela surpresa! – disse se aproximando.
Maxon sem deixar de lado seu cavalheirismo pegou na mão de Celeste e beijou.
— Obrigado. – fez um pequeno aceno com a cabeça dando um pequeno sorriso e se voltou para Sarah. – Onde está meu tio?
— Na sala de música. – respondeu Sarah parecendo entediada. – Ele vive lá agora.
Maxon rapidamente pensou em America, que estava na sala de música antes de sair. Parece que Shalom e sua esposa tinha em comum passear pela sala de música para pensar ou se refugiar do tédio da casa. Limpou a garganta e se esforçou para afastar Meri de sua mente, se voltando para as damas na sala. Celeste ainda o encarava com aquele belo par de olhos, ainda esperado mais atenção de Maxon. Se perguntou o que o deixava tão distraído.
— Com licença miladys. – fez uma reverencia e se pôs a ir ao encontro de eu tio.
Enquanto se aproximava ele podia ouvir os passos de Shalom. Bateu na porta três vezes e recebeu o convite para entrar. Ao abrir a porta, viu seu tio com seu costumeiro roupão de seda, cor verde esmeralda e sua bengala.
— Maxon. – o tio deu um aceno com sua cabeça para o sobrinho e se manteve concentrado em sua arpa.
Maxon fechou a porta e caminhou para próximo do piano. O tio parecia triste e muito sério, logo, temeu que estivesse chateado por ter contado sobre o ultimo ocorrido com a cortesã.
— Estás bem tio?
— Sim, sim. – respondeu dando de ombros. – Na medida do possível.
— Eu... creio que saiba sobre as notícias da guerra.
— Ah, eu soube, é realmente preocupante. – Shalom suspirou. – Sir Elliott veio me trazer uma carta do Imperador exigindo de mim alguns tributos para que possam manter na guerra.
Maxon entortou os lábios.
— Creio que ficou chateado.
— Bobagem! – ele levantou uma de suas mãos para o ar. – O fato de eu ser um velho inútil não me torna menos importante, e é claro que sou importante, por isso recebi uma carta do imperador. – brincou.
Maxon não pôde evitar de sorrir. Gostava do fato de que mesmo em situações difíceis seu tio sabia como rir e viver de forma tranquila, pois para ele o desespero nunca foi a saída. A maturidade de seu velho tio, mal o fazia tornar possível imaginar o tremendo libertino e fanfarão que era quando jovem.
— Seu pai viaja hoje? – perguntou Shalom acordando Maxon de seus pensamentos.
— Sim. – respondeu sentindo um gosto amargo na boca. – Me deixou como responsável pelos seus negócios e domínios.
Shalom enfim o encarou.
— Isso é bom meu filho.
Maxon desviou o olhar inconformado. Para ele não era bom, era uma péssima ideia.
— Não para mim. – murmurou Maxon.
— Imaginei que não. – disse Shalom dando um pequeno sorriso. – Mas pela primeira vez seu pai tomou a decisão certa.
— Decisão certa tio? – exaltou-se Maxon. – Me deixando aqui com seus malditos papéis?
— Ser Duque não é apenas cuidar de papéis Maxon, você sabe disso. – repreendeu o tio.
Maxon bufou frustrado.
— Além disso – Shalom olhou com atenção para seu rosto. –, você também tem America.
Maxon rapidamente sentiu toda uma agonia sufocar seu peito novamente, o deixando sem ar. Ele soltou um dos botões de sua argola no pescoço e ficou de pé, andando de um lado para o outro passando as mãos nos cabelos blasfemando através de murmúrios.
— Droga! Sempre ela! – disse. – De novo ela!
— O que o atormenta Maxon? – perguntou franzindo as sobrancelhas.
Maxon respirava pesadamente e se sentou novamente.
— Tudo! – respondeu. – Em relação a ela, tudo. Arrependimento por ter me casado com ela, angústia, medo!
— São muito sentimentos ruins para uma pessoa só. – disse com sua voz tranquila e sentando-se em sua frente.
Maxon balançou a cabeça em negativa, enquanto entrelaçava suas mãos e apoiava seu queixo nele. Amaldiçoava-se, não merecia o ar que respirava.
— Eu fiz amor com America tio. – Maxon o encarou abrindo suas mãos ao seu lado, sentindo-se perdido. – Fiz amor com ela.
Shalom se manteve calado, mal sabendo o que dizer.
— Eu fiz aquela situação suja e em seguida fiz amor com ela. – Maxon sentiu seus olhos marejarem e se aproximou, falando em voz baixa. – E sinto que... eu estou amando aquela mulher.
— Ama-la não é crime Maxon. – respondeu o tio por fim.
— Droga, você não entende! – Maxon se exaltou.
Ficou de pé e caminhou até o outro lado da sala.
— Eu não me reconheço mais. Isso me assusta, não sei como direi isso a ela e... não sei se quero amar ela. – Maxon foi sincero. O desespero tomava conta de sua expressão.
— Está assustado porque gostava da sua antiga vida. – o tio sorriu. – Porque achava medíocre amar, porque achava ridículo se casar.
Maxon voltou a encara-lo.
— Você está se tornando um verdadeiro homem. As responsabilidades o assustam. – ele suspirou. – Mas estava acostumado demais a farrear.
Maxon desviou o olhar e enterrou seu rosto nas mãos.
— Deixe tudo fluir naturalmente Maxon, não lute contra isso, vai ser pior. – disse Shalom. – Aceite o conselho de quem tem experiência própria.
— Devo dizer a ela? – Maxon perguntou receoso.
— Será libertador. – ele acenou com a cabeça. – O amor é muito sufocante, vai ajudar dizer.
— Não sei se irei conseguir. – disse Maxon.
— Deve se esforçar, ela merece saber. – ele ergueu as sobrancelhas. – E você merece saber dos sentimentos dela. Que acredito não serem tão diferentes.
Maxon engoliu em seco.
— E se não forem?
— Não acredito que não sejam, ela se entregou a você.
Maxon novamente desviou o olhar.
Flashback on
Suas mãos percorriam pela sua pele macia enquanto America se movimentava de forma lenta. Ele estava ofegante de mais para dizer algo ou reagir, sentia-se até um pouco tonto para dizer algo. As mãos dela pousaram sobre o rosto dele o fazendo encarar seus lindos olhos e se perder neles.
Maxon a deitou delicadamente e se pôs sobre seu corpo e olhando em seus olhos pôde ver desejo e ternura, de forma tão bela, como nunca havia visto antes. Começou a se movimentar devagar, enquanto as mãos dela pousavam sobre seus ombros e ela começava a arfar e aos poucos arquear as costas. Ele enterrou seu rosto em seu pescoço e inalou seu cheiro doce, sentindo uma onda de paixão e desejo crescendo dentro de si e acelerou o ritmo, ouvindo seus corpos se chocarem e pequenos gemidos saindo da boca de America.
Cada célula de seu ser despertou em perfeita sintonia e ele envolveu seus braços em seu corpo, sentiu-se em casa, não querendo sair de lá nunca mais, enquanto o desejo percorria em todo o seu corpo. Ela gemia e pronunciava seu nome, enquanto seus ritmos se tornavam cada vez mais frequentes e ela o abraçava com mais força, fazendo que seus corpos se tornassem cada vez mais um só. E ele soube que dentre todas aquelas sensações ele a queria, mais do que tudo.
Flashback off
Maxon sentiu uma lágrima escorrer de seu olho. A traição pesava em sua consciência.
— Eu sou um desgraçado. – disse abaixando a cabeça.
— Então precisa encarar a verdade. – Shalom o encarou de forma apreensiva.
Maxon ficou de pé. Queria achar alguma solução, mas mão sabia como lhe dar com tudo, mas ao mesmo tempo queria acovardar-se e fugir daquela situação, e a segunda opção falou mais alto.
— Obrigado por me ouvir tio. – disse com um olhar vago. – Preciso ir, tenho que ir para a cidade cuidar dos negócios.
Shalom não respondeu, apenas acenou com a cabeça e sorriu. Maxon caminhou a passos largos para fora da casa e cavalgou para a cidade. Chegando no Prédio Principal, não cumprimentou ninguém, apenas caminhou em direção à sua sala e pediu para não ser incomodado. Aprofundou-se nos seus deveres e por hora, esqueceu de America e seus problemas.
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