A Avox
1 A Avox
Notas iniciais
Espero que gostem ^^
Parte 1
"Deixa tudo como está!" –– grita Katniss Everdeen.
Meus olhos ainda estão arregalados por conta da cena que acabei de presenciar. O quarto está uma verdadeira bagunça, com pedaços de porcelana espalhados por todos os cantos. Por um momento, pergunto-me se ela também foi assim. Será que ela chorou à noite, quando ninguém estava vendo? Será que ela quebrou pratos? Ou talvez ela tenha apenas ficado deitada na cama, cantando o tempo inteiro até sua voz ficar rouca, relembrando-se pela última vez dos momentos felizes em que ela teve quando estava em casa.
O pensamento faz uma pontada de dor surgir em meu peito, porque os últimos momentos felizes que ela teve também foram os meus. Fecho a porta atrás de mim e caminho até o banheiro, onde pego um pano e o molho com água. Volto para o quarto a ajudo o tributo do Distrito 12 a limpar o sangue de suas mãos; sou muito boa em ler as pessoas, mas é particularmente fácil perceber o quão relutante ela fica com a minha presença.
"Eu deveria ter tentado te salvar" –– ela sussurra.
Sua voz soa tão baixa que mal posso escutá-la. Sou pega de surpresa; não esperava por isso, e, para ser bem franca, nem sequer me importo mais. É bem verdade que durante muito tempo eu a odiei; ela, e aquele garoto de seu Distrito, que poderiam ter salvado minha vida, que poderiam ter impedido a morte de Sam... Eles foram pegos de surpresa, embora. Quando poderiam imaginar que algo assim iria acontecer? Com o tempo, percebi que a culpa não era de nenhum dos dois, realmente. A culpa não é de ninguém. Apenas balanço a cabeça, tentando tranquilizá-la. "Está tudo bem", digo mentalmente. E espero que ela seja capaz de entender.
Ela é.
"Não, o que fiz foi errado" –– retruca Katniss.
Bato em meus lábios e depois aponto em sua direção. "Se você tivesse me ajudado, teria acabado como eu". E sei que esta garota não poderia se dar ao luxo de ser uma prisioneira da Capital, de ser transformada em uma avox como eu, ainda mais por alguma coisa na qual ela não tinha envolvimento; eu a vi na Colheita, e sei que tem uma irmã mais nova pela qual se arriscou para estar aqui. Eu entendo a sua dor muito mais do que ela jamais poderá imaginar.
Nas próximas horas, ela me ajuda a recolher todos os pedaços de prato que ainda estavam espalhados pelo chão. Ela já não está tão tensa, e eu vejo que o peso da culpa não está mais carregando seus ombros. Isso me deixa feliz. Não quero ser mais uma coisa que vá tirar seu sono precioso esta noite; e, talvez porque ela me lembre tanto a mim mesma (principalmente quando se trata de esconder sentimentos), eu acabo percebendo que estou torcendo para que ela vença os Jogos. As probabilidades são poucas, contudo, e se há algo que eu aprendi nesses anos é de que isso geralmente nunca funciona ao seu favor.
Katniss parece cansada, portanto, assim que terminamos, arrumo sua cama e a ajudo a se deitar. Cubro-a com o cobertor, e trocamos um longo olhar de despedida. Porque, seja como for daqui para frente, eu sei que nunca mais vou vê-la. Sinto as lágrimas se acumulando em meus olhos quando penso nela outra vez. E quando fecho a porta do quarto logo atrás de mim, tudo o que eu queria era poder voltar no tempo e ter tomado seu lugar na Colheita. Eu não fui corajosa o suficiente, embora.
E ninguém mais foi.
Parte 2
"Eles estão atrás da gente!" –– grita Sam. "É tarde demais!"
"Continue correndo!" –– digo ofegante. "Não pare!"
Mas sei que nenhum de nós conseguirá manter o ritmo por muito mais tempo. O aerodeslizador está cada vez mais próximo, e os músculos das minhas pernas protestam contra o esforço contínuo; se continuarmos, morreremos por causa do cansaço e da desnutrição; se pararmos, uma rede descerá sobre nós e estaremos perdidos. O que aconteceria se a Capital colocasse suas mãos na gente? Seremos mortos, provavelmente. Saber disso é apenas um combustível extra que faz com que eu dê tudo de mim nessa corrida. Nossas vidas estão em jogos; já chegamos longe demais para sermos apanhados agora.
Sam nunca foi um bom corredor, contudo. Dê-lhe uma faca, e ele é capaz de matar em questão de segundos; se estamos vivos até hoje, é por causa de seus conhecimentos adquiridos durante o treinamento sobre sobrevivência. Não é o bastante para nos manter devidamente alimentados, mas é o suficiente para nos manter vivos. Porém, aos sete anos, ele sofreu um acidente; foi uma coisa estúpida. Ele estava brincando com aquela maldita bola dentro de casa como nosso pai falou milhares de vezes para que ele não fizesse, e num chute, ela acabou batendo em um vaso de vidro. Sam saiu correndo para buscar a bola, mas, desastrado como era, tropeçou nos próprios pés e caiu em cima de um pedaço grande, que ficou preso em sua panturrilha. Meus pais não tinham dinheiro para os tratamentos caros disponibilizados pela Capital; e, desde então, a perna do meu irmão nunca mais foi a mesma.
É por isso que ele acaba alguns metros atrás de mim; é por isso que o aerodeslizador me pega primeiro. Eu tento me soltar da rede quando vejo a lança; meu coração bate mais rápido no peito e olho para baixo a tempo de ver o objeto perfurar o corpo do meu irmão.
"Sam!" –– grito.
Mas sei que é tarde demais. Ele está morto.
Parte 3
"Você tem certeza de que quer fazer isso, Fabray?" –– pergunta Santana, lançando-me um olhar preocupado.
"É perigoso" –– diz Brittany. "Você sabe"
"Eles a mataram" –– digo entredentes. "O que devo fazer? Ficar aqui, sentada, de braços cruzados, fingindo que nada disso aconteceu?"
"Não –– retruca Santana. "Você fica de luto como as pessoas normais. O que vai ganhar se tentar atacar o Presidente Snow? Ele vai te matar Q."
"Eu já estou morta" –– sussurro.
Sei que elas escutaram, porque as duas me lançam um olhar de pena. O que me irrita. Não quero que sintam pena de mim; quero que, pelo menos uma vez em suas malditas vidas, elas me ajudem na vingança contra o homem que matou a minha garota. Não literalmente, claro –– o sangue está nas mãos daquele tributo do Distrito 2. Se ele não a tivesse traído, então eu sei que ela teria sido a vencedora. Mas ele também sabia disso, e esse foi exatamente o problema. Entretanto, há um quadro maior a ser analisado. Sim, eu faço questão de ir atrás desse garoto e matá-lo com minhas próprias mãos; porém, eu também quero encontrar uma maneira de atingir a Capital; de mostrar-lhes que eles não podem matar pessoas sem sofrer qualquer tipo de consequência.
"Ouvi dizer que Snow tem um filho" –– comenta Santana, dando-se por vencida.
"E uma neta" –– acrescenta Brittany. "Mas ela é só uma criança, Quinn, não a machuque"
"Por que não deveria?" –– pergunto, sentindo uma carranca se formar em meu rosto.
"Porque ela é foda de uma criança, Fabray. Ela não tem culpa se o avô é um filho da puta. Se vai fazer alguma coisa, faça com o filho"
"Você tem razão" –– digo sombriamente. "Talvez alguém cuide da garota mais tarde. O filho dele mora na Capital, presumo?"
"Sim" –– diz Brittany, soltando um longo suspiro. "Acho que você deveria falar com o Finn. Ele pode te ajudar com o transporte"
"Finn Hudson?"
Santana confirma com um aceno de cabeça.
"E Jesse St. James faz parte do setor de comunicações. Talvez seja bom falar com ele também. Quanto mais rápido você fizer tudo isso, melhor"
É uma ideia. Jesse pode atrasar a divulgação da notícia da morte do tributo do Distrito 2 (todas as notícias passam pelo nosso Distrito antes de serem enviadas à Capital) por tempo o suficiente que me permita chegar à Capital em segurança; quando Snow souber que estou indo para ele, será tarde demais. Seu filho estará morto antes mesmo que o Presidente se dê conta do que está acontecendo. Um largo sorriso aparece em meu rosto, e eu me sinto um pouco fora de controle. Não importa. Eu vou matá-los; eu preciso matá-los.
"Só mais uma coisa" –– diz Santana, soltando um longo suspiro. "Você vai ter que fugir. Nunca mais pode voltar. Entende isso, não é?"
"Eu sei, Santana"
"E para onde você vai?" –– pergunta Brittany.
"Distrito 13" –– sussurro.
"Você tem certeza? Quero dizer, nem ao menos temos plena certeza de que ele realmente está lá" –– diz Santana apreensiva.
"Então eu vou ter que tomar minhas chances" –– dou de ombros. "Não me importa. Seja o que for que acontecer, eu terei minha vingança"
"Apenas se cuide, ok, Q.?" –– murmura Brittany. "Eu te amo, e vou sentir sua falta"
"Eu também te amo, B." –– digo, abraçando-a apertado. "Você sempre será minha prima favorita"
"E eu? Vou sempre ser sua vadia favorita?" –– pergunta Santana rindo.
"Vai se foder" –– resmungo.
E então, ela envolve seus braços ao redor de minha cintura. Elas entendem a minha dor; elas sabem que eu preciso fazer isso. Eu as amo, mas isso não faz com que a dor em meu peito seja menor. Vingança talvez não seja a melhor solução, mas é a única que tenho.
Parte 4
"Você vai escondida no compartimento de carga" –– alerta Finn. "Você pode levar minha credencial, caso precise. Amanhã eu digo que fui roubado; será o tempo em que Jesse alertará sobre a morte do cara do Distrito 2, e as pessoas vão associar tudo a você"
"Obrigada" –– agradeço, soltando um pequeno suspiro. "De verdade, Finn, muito obrigada"
"Eu te entendo" –– murmura ele. "Apenas... Faça o que tem que fazer, ok? Não deixe que eles saíam impunes pela morte da Rach"
"Não vou" –– prometo.
Ele dá um tapinha em meu ombro e me deseja boa sorte. Aceno para ele em despedida e caminho em direção à minha casa; tenho certeza de que meus pais sabem que estou tramando alguma coisa, mas nenhum deles fez algo para me impedir. Talvez porque, para eles, Rachel fosse como uma segunda filha; ou talvez porque eles saibam que não importa o que façam, nada vai me impedir de seguir em frente. Escrevi-lhes um bilhete de despedida; sinto que é necessário.
Não há ninguém em casa quando chego. Ou, ao menos, foi isso o que pensei ao ver todas as luzes apagadas. Mas, assim que entro, uma delas se acende e vejo Sam parado perto da porta, os braços cruzados sobre o peito e dois envelopes brancos em uma de suas mãos. Ele me lança um olhar irritado, e um longo suspiro escapa de meus lábios.
"Não vou desistir" –– digo.
"Não é isso" –– retruca ele. "Mas ela era uma irmã para mim, Lucy"
Faço uma careta, porque odeio ser chamada assim. Sam não é realmente meu irmão; nós fomos criados juntos porque seus pais morreram em um trágico acidente quando ele era pequeno. Sempre fomos muito apegados um ao outro, embora, e os laços de sangue não fazem a menor diferença para nós dois. Ele está falando a verdade sobre Rachel. Ela era sua melhor amiga; eles compartilhavam várias coisas em comum, e era sempre ela quem Sam procurava quando estava triste ou apenas precisava conversar. Algumas pessoas chegaram até a comentar que os dois formavam um casal –– isso, claro, até Rachel e eu assumirmos nossa relação.
Não é uma coisa rara que duas pessoas do mesmo sexo acabem juntas. Os próprios pais de Rachel são gays –– ela teve uma mãe de aluguel que é professora de canto na nossa escola ––, e há também outros adolescentes, como Kurt e Blaine que estão assumidamente juntos. Posso citar Santana e Brittany como um exemplo, mas a verdade é que a relação das duas é um pouco complicada. Elas estão juntas, e ao mesmo tempo não estão. É confuso para mim; se as faz feliz, contudo, então quem sou eu para dizer-lhes que é errado? É tão difícil encontrar a felicidade que, quando a achamos, nós simplesmente nos seguramos a ela com todas as nossas forças.
Eu deveria ter imaginado que, às vezes, essa força não é o suficiente.
"O que você quer exatamente, Samuel?" –– pergunto desconfiada.
"Eu vou com você" –– diz ele. "E nem pense em dizer não, Lucy, porque eu juro que acabo com seu plano aqui e agora. Conto tudo o que você planeja ao primeiro Pacificador que encontrar, e você sabe que eles não exitariam em fazer uma execução em praça pública"
"Você não faria isso" –– digo. "Mas não se preocupe, não vou impedir você de ir"
"Não?" –– ele parece surpreso; apenas dou de ombros.
"A decisão é sua. Não posso impedir que você faça exatamente aquilo o que eu pretendo fazer"
Ele sorri.
"Quando partimos?"
"Amanhã de manhã"
E então, ele corre para arrumar suas coisas.
Parte 5
"Quando é que você sente mais falta dela?" –– pergunta Sam.
Pelo relógio que Finn me deu, sei que estamos perto do Distrito 2. Os trens da Capital são extremamente rápidos, e a viagem dura cerca de algumas horas; nesse meio tempo, Sam e eu estamos sentados em um dos vagões de transporte, esperando pelo momento de finalmente colocar o plano em ação. Eu o deixei a par de todo o plano; ele não fez alguma objeção.
"Seria mais fácil perguntar quando eu não sinto" –– digo-lhe, e é verdade. Não há um momento sequer em que Rachel não ocupe meus pensamentos. "E você?"
"Você lembra quando tínhamos sete anos e eu me machuquei com o vidro?"
"Sim" –– concordo.
"Eu me lembro de estar chorando no Hospital, completamente assustado. E então ela apareceu, segurou minha mão, e disse que tudo ficaria bem" –– ele sussurra. "É nesses momentos que eu sinto mais falta dela. Quando estou com medo, ou assustado. Ela fazia com que eu me sentiss seguro"
Nenhum de nós fala mais alguma coisa. Não é preciso. Às vezes, o silêncio é a melhor forma de comunicação. E, naquele momento, ele significava uma única coisa: saudade.
Parte 6
Encontrá-lo é muito mais fácil do que jamais imaginei. Estamos correndo contra o tempo, embora, e precisamos esperar que ele fique sozinho para realizar o trabalho. Sam tem uma faca em mãos, e eu estou com uma lança. Ele vai entender, porque foi exatamente assim que ele a matou. Uma lança enfiada pelas suas costas, quando ela não estava olhando, quando ela nem ao menos teve a chance de se defender. Sinto a irritação crescer dentro de mim; eu quero que o momento chegasse logo. Eu quero matá-lo.
E quando finalmente o faço, não é tão prazeroso quanto imaginei.
Por ser um vencedor, ele não precisa mais ir à escola. Ele passa grande parte do seu dia dentro de um bar, enchendo a cara, vangloriando-se das mortes dentro da arena. Sei que ele se sente um lixo sobre si mesmo, contudo, porque sou muito boa em ler as pessoas. Acho que é algo que aprendi com Rachel. Quando ele avista Sam o esperando do lado de fora com uma faca em mãos, seu olhar percorre a rua e a única pessoa que ele encontra sou eu, com a lança em mãos, pronta para acabar com tudo.
"Ela me disse que tinha alguém especial" –– diz ele com uma voz cansada. "Estive esperando muito tempo por você, senhorita Fabray"
"Oh, acredite" –– digo, colocando toda a minha ira em cada palavra. "Você não pode ter esperado isso tanto quanto eu"
Sam o esfaqueia na perna, e isso pega de surpresa. Ele se vira rapidamente na direção do meu irmão, e é tempo o suficiente que eu tenho para aproximar-me por trás e enfiar a lança em suas costas, e espero que ela tenha ido fundo o suficiente para perfurar o coração.
Porém, não fico lá para saber.
Parte 7
O plano falha. Não deveria ser uma surpresa tão grande, considerando todas as possibilidades de ele dar errado; eu só não estava feliz em desistir. Snow sairia impune, é verdade, mas pelo menos fui capaz de derrubar um dos responsáveis pela morte de minha Rachel. Sei que o garoto do Distrito 2 já estava esperando por isso; ele provavelmente soube desde o momento que a matou. Pude ler arrependimento em seus olhos, nos poucos segundos em que mantive contato visual, mas não foi o suficiente para que me fizesse ter pena dele. Ele tirou o amor de minha vida; eu poderia ter tirado o da dele –– se ele tivesse algum ––, mas a morte de um tributo vencedor causaria mais impacto do que qualquer outra coisa.
Exceto que ele não morreu. Eu deveria ter checado se ele estava morto, mas, na pressa, saí correndo de volta ao vagão. Sam e eu descobrimos através de um noticiário que vimos numa breve parada no nosso Distrito. Foi quando soubemos que não podíamos ir para a Capital, e muito menos voltar para casa. Por mim, o plano continuaria, mas, acima de tudo, eu ainda precisava manter Sam seguro. Eu prometi isso aos meus pais. Eu prometi isso a mim mesma.
Nós conseguimos nos reabastecer de suprimentos, e, então, fugimos. Corremos tanto que nossas pernas não pareciam ser capazes de sustentar o peso dos nossos corpos; lutamos com todas as nossas forças para chegarmos em segurança ao Distrito 13, onde, talvez, teríamos um pouco de paz.
Tudo mudou, claro, quando Sam foi morto e quando foi transformada em Avox. Eles me levaram até a Capital dentro do aerodeslizador, e, ao chegar lá, cortaram a minha língua.
O último som que escapou de meus lábios foi seu nome.
Parte 8
"Só mais um ano" –– diz Rachel, e há um pequeno sorriso estampado em seu rosto. "E então, seremos livres"
"Mal posso esperar" –– digo, sorrindo também. "Todo esse pesadelo vai acabar; não poderemos mais ser eleitas. Eu vou começar a trabalhar na loja do meu pai, você vai dar aulas de canto na escola como Shelby, e nós vamos ficar juntas para sempre"
"Você promete?" –– pergunta Rachel, segurando minha mão e acariciando-a com o polegar. "Promete que, não importa o que acontecer, você sempre vai me amar? Que sempre vamos ficar juntas de alguma forma?"
"Eu prometo" –– respondo com sinceridade.
Ela se inclina em minha direção e seus lábios tocam os meus. Meu coração dispara no peito, como sempre faz quando ela me toca, e eu a trago para mais perto de mim, envolvendo meus braços ao redor de sua cintura. Eu não sei o que o futuro nos reserva, mas, se ela estiver ao meu lado, então eu serei completamente feliz. Só precisamos aguentar mais este ano, só mais essa colheita, e tudo ficará bem.
"É melhor irmos andando" –– diz minha namorada, separando-se de mim e bagunçando meu cabelo. "Faltam poucos minutos para começar"
Concordo com a cabeça, levanto-me, e entrelaço sua mão na minha. Andamos juntas até a praça pública da cidade, onde as pessoas já estão agrupadas para assistir a Colheita anual; dois tributos de cada Distrito –– um masculino e um feminino –– devem ser escolhidos para participar do que chamam de Jogos Vorazes, onde vinte e quatro pessoas lutam entre si para sobreviver. É sangrento, brutal, e assustador. Entretanto, geralmente são pessoas do nosso Distrito que saem vencedoras. Alguns dos habitantes daqui são realmente fiéis à Capital; e como não ser? Eles nos dão um grande suprimento de comida; nos treinam para pacificadores; fecham os olhos e fingem que não sabem sobre o treinamento ilegal que todos recebem para serem preparados para a arena... Somos muito beneficiados.
Há um pequeno grupo, embora –– e eu faço parte dele –– que vê a Capital como um lugar terrível; claro, não ousamos expressar nosso ódio em voz alta, não somos burros a esse ponto. Mas está lá, enraizado em nossos peitos. Muitos ainda sonham que o Distrito 13 finalmente revelará sua existência –– e nós sabemos de fato que ele ainda existe –– e começará uma nova guerra pela tomada do poder. Não sei quanto tempo isso vai levar, contudo, e talvez eu nem ao menos esteja viva quando a batalha começar. Tendo Rachel segurando a minha mão e dando-me um selinho de boa sorte, porém, eu não poderia me importar menos.
Sam está do outro lado e acena para nós duas; somos divididos por idade e sexo, portanto, fico na mesma área que Rachel e minhas duas melhores amigas: Santana e Brittany. Elas se aproximam de nós duas com olhares apreensivos em seus rostos.
"E aí, vadias?" –– diz Santana. Ela sente um prazer selvagem em ser irritante.
"Não fale assim com elas" –– resmunga Brittany, revirando os olhos. "Oi garotas"
"Oi Britt" –– diz Rach sorrindo.
"Bonita hoje, Rae. Será que essa produção toda é para alguém em especial?" –– pergunta Britt, dando uma piscadela em minha direção.
"Sempre" –– responde minha garota. "E você, Santana, alguma ocasião especial para sua carranca aparecer mais cedo que de costume, ou você só realmente pegou o jeito na arte de ser irritante?"
Brittany e eu abafamos o riso. Santana apenas revirou os olhos.
"E que milagre é esse que você ainda não está cantando, GayBerry? Será que uma teleguiada picou sua língua?"
"Ha, ha, ha" –– diz Rachel sarcasticamente. "Como você é engraçada, Lopez"
Mas no final, nós quatro acabamos rindo. Dura apenas alguns segundos. É uma tradição nossa de todos os anos servirmos como distração uma das outras; agora, Holly Holliday está caminhando em direção ao palco, parando ao lado de Will Schuester, o prefeito, e Sue Sylvester, uma das treinadoras de preparamento físico. Ela sempre está presente nessas ocasiões, talvez para saber qual de seus alunos será o escolhido da vez. Às duas horas em ponto, o prefeito caminha até o centro do palco e conta a história de Panem, um país que ergueu das cinzas de um lugar que no passado foi chamado América do Norte. Logo em seguida, ele passa a falar sobre os Jogos Vorazes em si, e, antes de terminar seu discurso, ele nos lança um olhar penetrante e diz:
"É não só um tempo de arrependimento como também um tempo de agradecimento"
É aí que ele lê a extensa lista de vencedores do Distrito 1. Ele volta ao seu lugar, e Holly Holliday ocupa seu espaço no centro do palco.
"Feliz Jogos Vorazes" ela diz. "E que a sorte esteja sempre ao seu favor"
O nervosismo começa a levar o melhor de mim. Rachel ergue minha mão e a beija docemente, e tento sorrir para ela, mas é como se meu coração estivesse prestes a saltar para fora de meu peito. Pelo tremor na perna de Santana ao meu lado, sei que ela não deve estar muito diferente. Holly caminha até o globo cheio de papeis com todos os nomes dos tributos femininos –– as mulheres são escolhidas primeiro ––, e prendo a respiração quando ela puxa um.
"E o tributo femino do Distrito 1 é... Rachel Berry"
O mundo desaba sobre minhas costas, mas eu estou entorpecida demais para sentir a dor. Posso escutar um gritinho agudo que presumo vir de Brittany, e algumas palavras rápidas, urgentes, sendo ditas por alguém ao meu lado direito. Sinto o calor da mão de Rachel desaparecer da minha, e é quando finalmente consigo me mexer. Quero correr em sua direção, mas meus pés estão grudados no chão; quero me voluntariar –– ela sobe no palco, este é momento, mas a voz não saí de minha garganta. E quando eles a levam, eu finalmente consigo me mexer. É tarde demais. Ela já se foi.
Sue Sylvester aparece na minha frente e me puxa pelo braço. Santana grita alguma coisa para mim; não escuto o que é, embora. A treinadora me leva até o mesmo prédio para o qual Rachel foi conduzida, e nós subimos no elevador até o primeiro andar.
"Você não tem muito tempo" –– diz Sue. "Quinn, você está me escutando?"
Levo alguns segundos a mais para encontrar a minha voz.
"Sim" –– sussurro, sentindo-me quebrar por dentro.
"Eu realmente sinto muito" –– diz ela, soltando um longo suspiro. "Mas Rachel é forte, inteligente, bem treinada. Ela pode vencer"
"Ela precisa vencer", penso, desesperada. Porque sei que se eu a perder, então nunca mais serei a mesma. Rachel é a rocha que me mantém inteira; é a razão da minha felicidade; o motivo por trás de cada sorriso.
"Vá se despedir" –– diz Sue. "É o melhor que você pode fazer agora"
Ela me empurra gentilmente para dentro da sala onde Rachel está. Minha garota ergue os olhos ao me ver entrar, e corre em minha direção. E, então, eu estou chorando. Porque eu fui uma idiota por achar que realmente poderíamos ter um final feliz; porque eu não me ofereci em seu lugar; porque essa pode ser a última vez que vou vê-la em toda a minha vida.
"Quinn, querida" –– sussurra Rachel, limpando minhas lágrimas. "Eu vou voltar para você"
"Você promete?" –– pergunto insegura.
"Eu prometo que, não importa o que aconteça, eu sempre estarei com você de alguma forma" –– diz ela, colocando a mão sobre o lado esquerdo do meu peito. "Eu te amo"
"Eu também te amo"
Ela me beija, e eu gostaria que o tempo parasse nesse momento. Mas, cedo demais, os pacificadores aparecem e me tiram de seus braços. E a última coisa que vejo antes de ser arrancada para fora da sala é minha garota sorrindo para mim.
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