A Aurora
2 Sobrevivo a manobras radicais de um bode
UMA COISA SOBRE DEIXAR UM HOMEM-BODE dirigir uma mini van em alta velocidade fugindo de lestrigões: não deixe isso acontecer.
Enquanto disparávamos naquela van roubada – que adulto responsável o Sr. Pattrich era – percebi que quase fomos atingidos por grandes bolas de fogo várias vezes. O que – milagrosamente – nos impedia de explodir com elas era a perícia do Sr. Pattrich com o carro, que embora derrapasse maior parte do tempo na neve nos livrava frequentemente de uma morte quase certa.
Cometi o erro de olhar pelo espelho retrovisor, e vi dezenas de enormes homens rosados com roupas esfarrapadas nos seguindo e esmagando tudo pelo caminho: árvores, latas de lixo e carros. Em suas mãos haviam grandes e impressionantemente não originais bolas de fogo. Uma foi arremessada tão perto que tive que dar um pulo e me agarrar no banco enquanto o Sr. Pattich dava um cavalinho de pau. Me assustei tanto que quase deixei cair o ovo de fênix em minhas mãos, mas coloquei no bolsinho da minha camisa para protege-lo.
– O que diabos? – perguntei para ele.
– Lestrigões! – disse ele, fazendo mais manobras perigosas e parecendo estar se divertindo como nunca – Gigantes do norte que comem humanos, ou seus pratos favoritos: semideuses!
– E o que eu tenho haver com isso! – gritei enquanto me agarrava ao banco novamente tentando não ser arremessada do carro por outra manobra.
– Novidade para você filha! – ele gritou – Você é uma semideusa! Parabéns!
– Hã, o que?! Como Hércules e Helena de Tróia?! – vociferei.
– Exatamente! Embora Hércules seja muito viril e Helena muito feminina! Honestamente, acho que você seja um meio termo! – ele disse enquanto fazia uma curva ridiculamente fechada e eu batia com a cabeça no vidro.
Não perdi a consciência, mais pude ver algumas dezenas de lestrigões quase nos alcançando. Pensei em gritar para ele se apressar, mais além de estarmos mais rápidos que trens-bala japoneses, eu tinha certeza que ele sabia da situação.
Aproveitei o momento de quase silêncio para ver onde estávamos, aparentemente, nos poucos minutos tínhamos atravessado quase toda a Long Island e estávamos em um lugar desconhecido para mim: era uma longa avenida que parecia ter muitas árvores de todos os lados, lindos pinheiros que estavam salpicados de neve branca. Após o que foi um ou dois minutos, os pinheiros tinha desaparecido para dar lugar a arbustos, e então vi que eram grandes campos. Não tive certeza do que eram, mais não eram pastos uma vez que parecia ter algo plantado – embora nada além de hortênsias brotem no inverno.
– Estamos quase chegando! – disse ele, não tive tempo para perguntar onde, uma vez que um lestrigão arremessou uma bola de fogo na nossa frente, e o carro virou, se livrando de uma explosão, mas não de uma derrapada.
Acordei sendo arrastada para fora do carro pelo Sr. Pattrich. Levantei o olhar para sua cara séria e instantaneamente pulei para ficar em pé. Ele me empurrou sutilmente para frente, indicando o caminho e me livrando de uma bola de fogo.
– Corre! – ele disse, e eu fiz exatamente isso.
Eu não tinha certeza para onde eu estava indo – e honestamente não tinha certeza de nada além de que minha vida corria sério perigo.
Disparei por uma floresta de pinheiros açucarados com neve, era uma visão muito linda e o chão se afofava sob meus pés causando muitos tombos fora de hora. Olhei sobre o ombro várias vezes para saber se o Sr. Pattich estava me acompanhando, ele sempre fazia ok com as mãos e me apontava o caminho novamente. Era estranho eu não estar com frio usando apenas uma camisa de algodão e jeans no meio do inverno rigoroso de Long Island, mas não tive tempo de parar para ver se o frio vinha.
Corri pelo que pareceu um km, sentindo cheiro de madeira queimada e ouvindo sibilos exagerados, tal como risadas grotescas e algo como “comer, comer!”. Desconfiei que os monstros estivessem nos alcançando no momento que senti um calor crescendo pelas minhas costas, instantaneamente me joguei para a esquerda escapando de raspão de uma bola de fogo.
Aterrissei dolorosamente na neve fria, que não parecia mais tão macia porém muito úmida. Ouvi algo como “garota!” do que parecia ser o Sr. Pattrich, mas não tive tempo de chamar por sua ajuda pois outra bola de fogo vinha em minha direção.
Felizmente, o Sr. Pattrich parecia ter um pouco mais de juízo do que esperado e me puxou antes que eu virasse um churrasquinho de gato. Arfei enquanto ele me arrastava pela neve, me dando um bom ângulo dos lestrigões.
Eu achava eles apavorantes de longe? Eles eram muito piores de perto, gargalhando ensopados em suor e o que parecia catarro (ew), usando trapos por cima das peles rosadas e musculosas com músculos hediondos e veias saltando, com suas caras deformadas e cabeças com poucos tufos de cabelos multicoloridos em seus 3 metros de altura, alguns maiores ou menores.
Dei um berro e levantei-me abruptamente correndo ainda mais que o Sr. Pattich, que levou meio segundo para se perguntar que tipo de retardada eu era e então voltar a correr. Acho que tomei uns 15 metros de dianteira dele nesse meio segundo pois quando avistei o que parecia ser o começo de uma colina, ouvi um grito estridente às minhas costas.
Virei para trás e quase enfartei quando vi um lestrigão arrastando o Sr. Pattrich pelo colarinho, torcendo o nariz deformado enquanto outros riam e grasnavam algo como “carne de bode!”. O Sr. Pattrich abanou a mão na direção da colina indicando para que eu aproveitasse sua captura para fugir, mais eu sabia que não poderia fazer aquilo – mesmo que eu me salvasse, passaria o resto da minha vida me culpando por isso.
Sabendo que eu não sairia dali sem ele e que eu estava em uma situação de absoluta desvantagem, analisei minhas opções: estando desarmada, eu não poderia simplesmente correr para eles e tentar dar uma de Chuck Norris. Eu também não poderia tentar puxá-lo sorrateiramente, e não poderia tramar um plano com ele uma vez que o dele era se sacrificar para me salvar. Então me lembrei do que ele tinha me gritado no carro sobre lestrigões: que eram canibais e comiam humanos, mas sua comida favorita era semideuses. Ele tinha me dito que eu era uma semideusa, como Hércules e Helena, e o lestrigão que o segurava parecia um tanto enojado.
– Eu grandão! – gritei para os lestrigões, o que fez o Sr. Pattrich me olhar com cara de “está louca filha?” – Não acha esse bode meio malcheiroso!
– Nem me fale! – disse o lestrigão que segurava o Sr. Pattich.
– Não seria melhor uma semideusa no capricho?! – perguntei aumentando o volume da minha voz, fazendo com que vários dos outros lestrigões tirassem sua atenção do Sr. Pattich e olhassem para mim com cara de fome.
– Você é uma semideusa! – gritou um dos gigantes apontando para mim.
– E você é esperto! – menti – O que acha de trocar esse bode fedido por um carne de qualidade? – vários gigantes concordaram risonhos e animados com a ideia, murmurando entre si coisas inteligíveis. Quase tive esperança quando o lestrigão estava para largar o Sr. Pattich, mas então outro teve uma ideia melhor.
– E por que não comemos os dois? – todos os lestrigões concordaram.
Devo admitir que por essa eu não esperava.
Um punhado de gigantes avançaram para mim, rindo alegremente e grunhindo coisas como “finalmente um almoço farto!” ou “a coxa é minha!”. O menor gigante do punhado chegou em mim primeiro, avançando com uma braçada para me pegar – foi então que decidi não dar mole para eles.
Me abaixei bem a tempo de escapar, fazendo com que o lestrigão menor girasse o braço ao seu redor e desse um tapa em outro que vinha chegando, provocando uma briga de tabefes entre lestrigões retardados. Dei um rolinho na neve quando outro lestrigão – um que parecia ter mais fome – avançou para mim, e que quando levantei quase me esmagou com um tabefe. Desviei novamente, sempre me perguntando como diabos estava fazendo isso, até que o maior – e mais lento – do bando avançou para mim, mirando um soco com seu punho que era maior que meu tronco em mim. Tive tempo de me virar apenas alguns centímetros, e pensei que tudo estava acabado.
Incrivelmente, o gigante mirou errado, acertando um ponto à um metro de mim. Os outros pareciam confusos, e então o grandão atacou novamente, mirando mais embaixo e errando de novo por centímetros.
– Pare quieta! – ele gritou, embora eu não tivesse me movido um único centímetro na última vez.
Depois de ter um diálogo interno de dois segundos – que foi o tempo de eu perceber que tinha uma vantagem – me virei rapidamente deslizando por entre as pernas do maior gigante, e então correndo até o lestrigão que segurava o Sr. Pattich.
Devo dizer que a reação do lestrigão foi estúpida? Não, foi patética. Invés de tentar proteger seu lanche de bode, ele deu um berrinho, largou o Sr. Pattich na neve e saiu correndo pela floresta. Senti uma vontade escaldante de rir, mas não tinha tempo: os lestrigões já estavam atrás de nós.
Peguei o Sr. Pattich pelo braço e quase o arrastei dando a volta mais rápida possível ao redor dos lestrigões. Muitos estavam ridiculamente confusos, olhando de um lado para o outro e se perguntando “onde está ela?”, “onde está o almoço?”. Estava quase no meio da colina e o Sr. Pattich já havia voltado a si – ele estava um tanto atordoado quando o peguei – quando algum lestrigão olhou para nós e apontou gritando.
Ter um bando de lestrigões no seu cangote não é uma coisa lá muito boa, mas te dá ânimo pra correr colina acima. O chão da colina estava dois pés de uma neve que afundava com nossos passos, mas as bolas de fogo e os grunhidos nos fizeram continuar. Eu havia tropeçado inúmeras vezes – de novo – quando finalmente chegamos no que parecia ser o topo.
O topo da colina era um lugar lindo, havia um grande arco de madeira meio alaranjada onde eu pude ler Acampamento Meio-Sangue. Era estranho poder ler tão facilmente, mas então percebi que estava em grego. Como que uma espécie de muro, havia algumas árvores ao redor da colina demarcando o que parecia um local, e ao lado do arco um grande pinheiro açucarado com um dragão empoleirado de vigia nas raízes.
Sim, um dragão de vigia.
Antes que eu pudesse argumentar com o Sr. Pattich (havia um dragão lá!) ele me pegou pelo ombro e me arrastou até a passagem do arco, escapando por pouco de uma bola de fogo. Quando estávamos quase no arco, o dragão fungou para nós (ou para o Sr. Pattich) e então olhou para os lestrigões, levantando-se e rugindo para os lestrigões, que hesitaram por tempo suficiente para atravessarmos o arco.
O Sr. Pattich continuou correndo para dentro do campo, mas pelo canto do olho pude ver o dragão expulsando os lestrigões, que rapidamente desistiram da semideusa no capricho.
–
– Ei filha! – disse o Sr. Pattich – Já estamos a salvo! Pode parar de correr.
Quando parei e dei uma trégua para meus pulmões, percebi que era um imenso campo e pude ver longe um lago, uma quadra, vários chalezinhos, uma área que pareceu uma pista de esportes, vários cômodos ao redor parecendo celeiros baixos, uma área com um espaço que parecia ser para fogueira e várias mesas ao ar livre e uma grande mansão azul que parecia ser em estilo alemão. Havia vários garotos com camisetas laranja, alguns estavam próximos aos chalés, outros jogavam basquete, outros cuidavam de flores, e outros pareciam estar simplesmente dando um passeio.
O vale se estendia até a praia, que estava muito longe. Pude ver várias árvores indicando floresta e também para os lados de onde nós tínhamos vindo havia vários arbustos que pareciam ser frutíferos.
Algumas garotas apontavam para nós, cochichando. Outros garotos limitavam-se a olhar e acenar a cabeça, muitos deram olá para o Sr. Pattich, que me guiou até a sacada da mansão azul.
Sentado na varanda, estava um homem de meia idade, olhando para o campo e suspirando solitariamente. Ele tinha feições bondosas, uma cabeleira castanha tão bagunçada quanto a minha e a barba bem cortada. Estava em uma cadeira de rodas com um chalezinho por cima das pernas. Sorri para o homem – ele parecia um vovó amável.
– Sr. Quíron. – disse o Sr. Pattich – Esta é Evee. – ele deu uma batidinha no meu ombro e me empurrou para frente.
– Olá Evee. – disse Quíron, sorrindo – Eu sou Quíron, instrutor dos heróis do acampamento meio-sangue.
– Oi. – consegui dizer. Ele sorriu calorosamente, como se entendesse minha incapacidade de formular frases completas.
– Não se preocupe. – ele disse, dando umas batidinhas no degrau ao seu lado para que eu me sentasse. Quando o fiz, ele gesticulou para o Sr. Pattich – Pode ir descansar Jorge, eu sei que você tem trabalhado em dobro. – o Sr. Pattich coçou a cabeça e deu uma risadinha, deu um tapinha no meu ombro e desapareceu pela floresta – Evee, eu sei que você deve estar cheia de dúvidas certo?
– Certo.
– Bem, você conhece os deuses gregos? – ele e perguntou calmamente.
– Como Zeus e Athena?
– Exatamente. – ele disse olhando para mim – Bem, os deuses sempre existiram, apenas seguiram a elite mundial conforme os tempos foram passando: foram primeiro adorados na Grécia, e então Roma, depois passaram muitos anos na Inglaterra, e então foram para os Estados Unidos, que é a atual potência ocidental.
– Eles não estão mais no monte Olimpo?
– Não, esse era a sede deles na Grécia, eles estão agora sobre o Edifício Empire State. Mas mantemos o nome Olimpo só para manter as honras. – assenti para ele – Você parece muito calma em relação a isso. – ele observou.
– Eu apenas... – suspirei, olhando para meus pés, havia tanta coisa, tanta coisa, eu pude presenciar meu pai sendo arrastado até o lago, minha professora em Washington deslizando por uma cortina negra na escada, os lestrigões acertando dois pés de distância de mim, apenas tanta coisa – sempre foi difícil para mim acreditar que existiam coincidências. – eu consegui dizer – Sempre me pareceu... que essas coisas existiam. – ele levantou as sobrancelhas.
– Treinei muitos heróis Evee. – ele me disse – muitos realmente. Mas depois que a humanidade parou de adorar os deuses, pouquíssimos heróis me disseram isso. – ele sorriu e deu uns tapinhas no meu ombro – Bem, que tal conhecer o acampamento? Tenho certeza que você tem muitas outras dúvidas. – sorri para ele.
– Parece uma boa ideia.
Então ele – para meu espanto – se levantou, desdobrando a cadeira de rodas em uma impressionante... bunda de cavalo. Quase caí para trás quando um garanhão branco apareceu no lugar da cintura para baixo de Quíron.
– V-você... – eu disse pasma. Ele riu suavemente e gesticulou para os campistas.
– Vamos Evee, você tem muito à aprender.
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