A Assassina
1 Capítulo 1
Na maioria das vezes, durante a nossa infância, planejamos com afinco o que nos tornaremos. Para nós, o futuro está tão distante que podemos planejar qualquer coisa. Podemos ser o que quisermos ser. Podemos fazer o que quisermos.
A realidade, por outro lado, varia muito. De onde você vem, quem são seus pais, a qualidade da escola onde você estudou. Nem todos têm as mesmas oportunidades e, por esse motivo, nem sempre nos tornamos o que um dia desejamos. Nem sempre nos tornamos aquilo que poderia vir a orgulhar os nossos pais.
Eu sempre fui uma boa menina. Eu ainda sou, do meu jeito. Eu não escolhi essa vida, se vocês querem saber. Eu não escolhi ser uma assassina.
Quando eu tinha seis anos meu pai me deu um cãozinho. Era tão pequeno e frágil, tão dócil, que logo ficamos amigos. Eu o amava, de verdade. Ele morreu atropelado quando eu tinha nove anos e, desde então, eu não fui a mesma.
Ver o Tobi – este era seu nome – morrer na minha frente foi, sem dúvida, a experiência mais traumática da minha vida. Seu sangue escorria pelo asfalto. Ele morreu na hora, mas seus olhos abertos me diziam outra coisa. Seu enterro foi simples, no fundo do quintal da nossa casa, e não havia ninguém para chorar sua morte, a não ser eu.
Algumas semanas depois meu pai me presenteou com outro cãozinho. Desta vez, uma fêmea. Nós a chamamos de Fifi, embora eu sequer gostasse desse nome. Fifi era chata, em comparação ao Tobi. Um dia, quando cheguei da escola, Fifi havia mordido minhas sapatilhas de ballet recém adquiridas. Eu fiquei irritada, pois Tobi nunca tinha feito algo assim. Jamais me ocorrera machuca-la, mas eu a chutei e ela voou pela janela. Eu corri para analisar o estrago e lá estava ela, seu corpo tinha ido de encontro a uma árvore que tínhamos em nosso jardim. Ela caíra como um pacote de areia, no chão duro, já sem vida. Eu gostei do que vi. Fifi, minha cadelinha insuportável, fora minha primeira vítima.
Alguns anos se passaram depois disso. Toda noite eu me lembrava do que havia feito e, por algum motivo, isso me ajudava a dormir. Você pode me julgar, se quiser, mas lembre-se de suas imperfeições. Nem você é tão perfeito.
Numa noite a chuva caia pesadamente sobre nosso telhado. Meu pai havia saído, estava no bar com os amigos beberrões. Uma luz de farol foi acesa perto de casa e a luz refletiu janela a dentro, na sala onde eu estava. Àquela hora, talvez eu devesse ter me assustado. Já passava das duas da madrugada e eu estava sozinha. Tinha dezessete anos.
Meu pai entrou em seguida. Não sei se isso me deixou mais aliviada.
Ele estava cambaleando, bêbado, e tinha uma garrafa quase vazia entre os dedos. Acho que ele não sabia se segurava a garrafa ou a parede ao lado. Finalmente ele decidiu que se segurar a parede poderia ser a melhor escolha.
Ele me olhou e, por um momento, eu sabia o que viria a seguir.
Era sempre a mesma coisa...
Ele me mandou limpar o lugar. Aquela garrafa que havia caído e se partido, agora tinha uma poça de alguma coisa que certamente era alcoólico.
- O senhor não devia dirigir bêbado – eu disse. – Pode acabar se machucando.
Meu pai me olhou com raiva. Ele sempre olhava, mesmo assim eu me preocupava.
Alguns anos antes, talvez, ele fosse um pai amoroso. Mas naquele momento, bêbado, ele não passava do que aparentava: um louco bêbado e sem noção da realidade.
Ele desabotoou o cinto com dificuldade, como todo bêbado de respeito. Esperei pacientemente até que ele terminasse. Ele sinalizou para que eu me virasse – achava que ia me bater – então eu virei. A tática era bem simples... eu corria depois da segunda ou terceira cintada, antes que ela ficasse violento. Bêbado, ele não poderia me seguir correndo. No dia seguinte tudo estaria esquecido.
Ele me acertou pela primeira vez entre a coxa e o joelho. Não doeu.
Ele resmungava coisas, dizia, entre palavras de bêbado, que eu não era ninguém para dizer o que ele devia fazer. Eu ficava calada.
O segundo golpe acertou minhas costas. Eu gritei de dor e corri. Ele tentou correr atrás de mim, mas caiu no sofá. Eu me tranquei no quarto.
Naquela noite eu chorei. Havia muito tempo que eu não chorava. Quando tirei a camiseta para troca-la por uma roupa de dormir entendi porque aquela cintada, que na maioria das vezes era inofensiva, havia doído tanto. Nas minhas costas, cerca de dez centímetros abaixo do ombro direito, um vergão em forma de fivela se formava. Eu toquei, pressionando para baixo. Talvez isso fizesse com que doesse menos. Não funcionou.
Eu saí do quarto sorrateiramente. Meu pai estava jogado no sofá em que caíra, parecia estar dormindo. Ele emitia alguns sons estranhos, um BRRRR de vez em quando. Eu passei direito por ele e segui para a cozinha, precisava de gelo.
Eu estava voltando para o meu quarto quando notei uma movimentação estranha no jardim, através da janela da cozinha. Eu vi duas formas escuras se movendo de um lado para o outro. Um terceiro elemento terminou de pular a cerca do vizinho diretamente para o meu quintal. Entrei em pânico. Meu pai estava bêbado, não havia nada que ele pudesse fazer, mesmo que quisesse. Talvez eles vão embora, pensei. Mas não foram. Os três começaram a se aproximar da casa cada vez mais e, então, um deles aproximou a mão da fechadura. Eu estava a exato meio metro da porta. Eu me agachei perto da pia. A gaveta mais baixa continha os objetos perigosos da casa, como as facas maiores e mais pontudas, mais afiadas. Eu a abri com cuidado de não fazer barulho e peguei a primeira coisa que vi: uma faca de descamar peixes. Tinha cerca de quarenta centímetros, com um cabo de madeira maciça. A lâmina era tão afiada que poderia cortar só de olhar. Eu adorava aquela faca.
A maçaneta da porta se mexeu, a porta se abriu e eu me encolhi ainda mais perto da pia. Os três elementos entraram na casa sorrateiramente. O primeiro se virou na minha direção e eu pude ver seu rosto: Isaac Mendes. Ele já havia sido preso por furto qualificado. Os outros dois deviam ser, portanto, seus parceiros de sempre: Robert e Blake.
Eu me levantei ruidosamente, a faca na mão. Isaac sorriu sarcasticamente, analisando suas chances contra mim. Ele estava armado.
Os amigos riram para ele, os dentes tortos e amarelos me deixaram com vontade de vomitar. Eu ergui a faca, tentando parecer corajosa.
- Saiam daqui e eu não os denuncio – disse com firmeza. – Agora, tentem algo e vão passar o resto da vida na cadeia.
Blake, o mais jovem dos três, se aproximou tão de pressa que eu não tive tempo de pensar. Com um movimento brusco, enfiei a faca em sua barriga. Ele gemeu e os amigos arregalaram os olhos para mim. Eu os olhei nos olhos, como se faz com cães raivosos. Torci a faca no corpo de Blake, um sorriso se formou em meus lábios. Eu puxei a faca com um movimento simples. Blake estava morto. E eu estava feliz.
Isaac apontou a arma em minha direção. Eu sabia que ele atiraria a qualquer momento, então fiz o que era óbvio: Ataquei. A faca retiniu contra o revolver e um disparo foi ouvido. Robert correu para fora da casa, apavorado. Isaac tentou fazer o mesmo, mas já era tarde para ele. Eu o esfaqueei no ombro. Ele caiu, atordoado, e eu o esfaqueei novamente, dessa vez nas costas. Projetei a faca para cima, um talho enorme se formou, alcançando o ombro. Eu a torci e tirei. Não sabia se ele estava morto, na verdade não importava, a sensação era ótima.
Meu pai entrou na cozinha atordoado. Ele tinha algo perto do bigode que lembrava água condensada, logo vi que era baba. Ele me olhou, tentando entender o que estava acontecendo quando a casa foi invadida por policiais. Um deles me mandou largar a faca, o que eu fiz sem oferecer resistência. Ele apanhou a faca cuidadosamente e a enfiou em um saco plástico. Ele disse meus direitos, de acordo com o artigo trinta e um. Eu estava tranquila, feliz.
Meu pai berrava em algum idioma de bêbado. Ele gritava que havia sido ele – e isso foi muito legal da parte dele – e para me deixarem em paz. Eu assumi minha responsabilidade, ainda assim não fui presa. Uma mulher apareceu para falar comigo, uma assistente social. Por algum motivo, achavam que eu não estava bem com meu pai.
Eu admiti que tinha matado Blake e ferido Isaac. Admiti também que teria matado Robert se ele tivesse tentado me atacar. Assumi legítima defesa. Os testes para pólvora identificaram que Isaac havia atirado em mim. Robert foi preso e Isaac foi mais tarde. E eu fiquei livre, por ser uma menina corajosa. Quanto a meu pai, posso dizer que ele mudou um pouco. Ele parou de beber com tanta frequência e já não me batia, ou não tentava. Mesmo assim havia algo terrivelmente errado. Eu sentia um desejo repentino de fazer novamente. Precisava terminar o que havia começado. Precisava matar Isaac.
Fale com o autor