A Ascensão Do Dragão
2 Aterrissamos em uma ilha escondida
Na maioria das vezes, eu tinha sonhos esquisitos e raramente pesadelos que me faziam saltar da cama. Mas o que eu havia sonhado, mesmo sem entender o significado acabou me assustando muito. Eu estava em um lugar totalmente escuro — não exatamente "eu", pois olhei para baixo na procura do meu corpo e não encontrei nada — , como se o sol nunca tivesse dado uma passadinha por ali. O lugar era extremamente gelado, mais até que as costas do dragão, e eu me sentia numa gruta — não podia ver nada, mas sentia que o lugar era imenso. Pude sentir uma respiração extremamente pesada — no início pensei que fosse eu, mas depois percebi que vinha de outra pessoa, ou até talvez de outro monstro, que estava na mesma escuridão que eu.
- Você falhou comigo.. E se eles conseguirem? Já estou começando a roê-lá, mas terei apenas alguns dias antes da previsão das Nornas se realizar — sua voz era horrível, e praticamente não devia existir, pois o som não se assimilava a nada.
- Não, meu caro amigo, eu não falhei. Aquilo que aconteceu em Miami, foi apenas um teste para o garoto, afinal não teríamos como saber se ele era o Abençoado. — sua voz era masculina e incrivelmente grossa, mas era como se sua presença ali, não existisse, estando apenas sua voz.
- Mas eu tenho que sair daqui! Preciso de sua ajuda para derrubar os deuses, da mesma forma que você precisa da minha na Batalha Final! — agora sua "voz" se transformara em urros e rugidos assustadores.
- Como se atreve duvidar de mim? Eu deveria lhe transformar em cinzas por causa disso, mas você pode me ser útil. E aí, meu caro amigo, destruiremos os deuses e governaremos o novo mundo! — sua voz agora tomava conta de tudo, tornando as trevas ainda mais obscuras, se é que isso era possível. Agora todo o imenso vazio ia se preenchendo e por mais incrível que pareça, começou a tomar conta de mim, me sufocando até o último espaço ser preenchido.
Acordei com um salto, suando frio, ofegando e quase caindo das costas do dragão. Já era noite e ainda não tinhamos chegado aonde Klaus queria me levar. Agora voavámos abaixo das nuvens. O mar sob nós era de um azul totalmente escuro.
- Ainda bem que você acordou. — disse Klaus, na nuca do dragão.
- Estamos quase chegando. — olhei ao redor e não vi nada além do mar.
- Onde estamos? — perguntei à ele.
- Se aproximando de Boston, Massachussets. — Massachussets? Isso era o quê? Mais de cinco estados de distância desde Miami? Não, era até mais do que isso.
- Você acha mesmo que um dragão vai chegar no meio de Boston e ninguém vai reparar nada? — afinal, super normal ver dragões em sua cidade, algo bem cotidiano.
- Mas quem falou que nós vamos aterrissar em Boston? — ele apontou para longe, onde surgia uma ilha do tamanho de uma cidade grande. Por um minuto, tentei me lembrar daquela ilha no mapa da aula de geografia. Ela simplesmente não existia.
- Como essa ilha é invísivel? Digo, em mapas ela não aparecia. Em cruzeiros pelo mar, ninguém relatou ter vido essa ilha. — por um segundo, Klaus ficou sério, como se estivesse louco para chegar naquela ilha.
- Eu já te disse antes e agora digo novamente: contarei tudo à você quando aterrissarmos lá. — eu já estava cansado daquilo. O que realmente ele teria que me contar? O que ou quem me esperava naquela ilha desconhecida?
Quando estávamos chegando perto, vi que aquela ilha era totalmente diferente de como eu imaginava. Ela era cercada por uma enorme muralha de pedra, com torres de vigilância a cada vinte metros. A praia ficava fora da muralha, mas era acessível pois nos quatro pontos cardiais haviam grandes portões de ferro, como em filmes medievais. Do lado de dentro da muralha haviam grandes florestas, cabanas de madeira, armazéns, estábulos e até mesmo uma arena — uma construção baixa e circular com arquibancadas e o espaço para a luta, no estilo gladiador-.
Passamos voando por cima da muralha, o que fez alguns sentinelas sacarem seus arcos.Uau, o lugar era realmente imenso. Voamos na direção de um grande vale no meio da ilha, o qual no topo se encontrava um enorme castelo de pedra branca, com paredes extremamentes lisas, impossíveis de serem escaladas.
Aterrissamos na grama verde e crianças e adolescentes com camisas vermelhas, espadas, lanças e escudos nas mãos nos olhavam fixamente. Eles sim, pareciam estar vendo um dragão, diferente do pessoal de Miami. Descemos do dragão gelado e Klaus me conduziu na direção do enorme castelo que tinha diferentes níveis e diversas torres pontiagudas e uma bandeira hasteada na torre principal — uma bandeira vermelha, com um punho e duas lanças cruzadas- .
- Por aqui, o chefe quer falar com você. — chefe? Bem, acho que isso não significava nada bom, o chefe de um lugar onde havia dragões e crianças com espadas. Nada bom.
Passamos por um grande portão de ferro que se abriu — melhor, levantou — para nós passarmos. Passamos por pátios, saguões, subimos escadarias e enfim chegamos ao nosso destino. Paramos em frente a uma grande porta de madeira.
- Vamos, — disse Klaus — abra.
Empurrei a porta devagar, e ela me revelou um pequeno quarto onde um grande homem ruivo, forte e carrancudo duelava com uma garota também ruiva, ambos desferindo golpes com espadas. Eles então pararam de lutar e se viraram para mim.
- É ele senhor. Ainda não aconteceu, mas só pode ser ele. — Klaus tinha medo na voz.
O cara que devia ser o chefe ficou me observando, coçando a barba ruiva.
- Entre, por favor. — ele chamou com a voz grossa e finalmente pude perceber que ele tinha um grande tapa-olho cobrindo seu olho esquerdo. Não sabia se era brincadeira, mas não ousei perguntar. Entrei junto com Klaus e nos sentamos em cadeiras de madeira. Os outros dois estavam de pé, me observando.
- Qual seu nome, garoto? — o homem forte indagou.
- Connor. — respondi — Connor Pierce, senhor. E quem é o senhor? — ele me fitou por um momento, extremamente sério.
- Jordan Smith. Eu sou o líder desse clã. Os Guerreiros de Týr. — Guerreiros do quê? Klaus olhou constrangido para Jordan.
- S-senhor, ele ainda não sabe.. precisamos explicar tudo a ele. — a cara do Sr. Smith se fechou.
- Saber do quê? — protestei.
- Deuses, garoto. — ele bradou, extremamente sério. Deuses não podiam existir.
- Deuses? C-como assim? Tipo, Zeus e etc?
- Não rapaz, deuses como Thor, Odin e Týr.
- Q-que mitologia é essa?
- Nórdica. Agora preciso que você apenas me ouça. Depois, você pode fazer suas perguntas. — ele segurou meus braços, como se sempre passasse por isso.
Ele começou a contar a história dos deuses nórdicos, sobre os deuses Aesir que eram deuses da guerra e os Vanir, que estavam mais para deuses da natureza. Me contou sobre uma árvore mágica chamada Yggdrasil, e que ela sustentava nosso mundo. E me falou dos outros oito mundos: no meio da árvore, estava nosso planeta, Midgard — a Terra -.
No nível mais alto da árvore, estava Asgard, a terra dos deuses Aesir. Um pouco abaixo de Asgard, estava Alfheim, terra dos Elfos da Luz — família de Klaus -, que era governada pelo deus Frey, o deus chefe da agricultura e também da fertilidade e da alegria. Abaixo de Alfheim, mas ainda acima de Midgard, nos galhos de Yggdrasil está Vanaheim, o mundo dos deuses Vanir. Ao redor de Midgard, está Jotunheim o mundo dos caras maus, os gigantes. Abaixo de Midgard se encontra Svartalfheim, a terra dos anões e elfos escuros. No lado sul da árvore, abaixo de Svartalfheim, estava Musphelhein a terra dos gigantes de fogo. Logo abaixo, estava Helgardh, o domícilio dos mortos, governado por Hel. E o último mundo, no lado norte de Yggdrasil, estava Nilfheim, o reino de gelo onde moravam trolls e gigantes de gelo. As raízes de Yggdrasil, estam sobre aquele lugar, frio e escuro. Me explicou que o Ragnarok — a batalha final entre os deuses e gigantes- pode acontecer a qualquer momento
- Mas qual o motivo para eu estar aqui? E por quê eu vejo coisas, como dragões e espadas e mais ninguém vê? — tinha de ter um motivo para aquela ilha, o dragão e os lobisomens não terem sido notados. Jordan respirou fundo. Parecia que ele passava por isso todos os dias.
-Você, eu, Beatrice — ele apontou para a garota de cabelos vermelhos que estava de pé ouvindo tudo — e todos os outros aqui, temos o sangue dos heróis. Nossos antepassados tem linhagem nórdica ou alemã. Isso é que nos torna os Filhos de Odin.
- Como assim filhos de Odin? E como você sabe que eu tenho parentes com sangue nórdico? Eu não tenho família. — novamente, ele respirou fundo.
- Filhos de Odin é apenas um termo, pois ele é chamado de Pai de Todos. Já o fato de você ter parentes com sangue nórdico, é simples: todos nós temos parentes com sangue nórdico. Nem todos lutaram, mas nós temos parentes assim. É isso que nos torna especiais, aptos para lutar e ver coisas que os outros não veem. — centenas de ideias se formava na minha cabeça. Monstros existiam. Dragões, lobisomens, deuses e gigantes. Uma enorme árvore nos sustentava. A qualquer momento, gigantes poderiam surgiam em Midgard. Tremendamente assustador. Super legal.
- Mas por quê reunir todos, hm, Filhos de Odin neste lugar?
- Nós ajudaremos os deuses na batalha final. Eles precisam de força total. E nós, Filhos de Odin, precisamos de um lugar para nos proteger. E não é um lugar, é um clã. Os Guerreiros de Týr — Týr era o deus da guerra, então não há nome melhor para um clã que pode guerrear a qualquer momento. Ele se levantou e caminhou até a porta, abrindo-a. Acho que nossa conversinha havia terminado.
- Beatrice, leve Connor para conhecer nosso clã. Seja boazinha com ele. — ela me olhou severamente com seus grandes olhos verdes, me examinando de cima à baixo. Eu fiz uma cara de "Por favor, não me machuque".
- Ok, vamos ver se ele é mesmo o que dizem. — Espera. Mal cheguei nesse clã maluco, e já tem fofoca? Nada legal.
Depois de cinco minutos descendo escadas e atravessando pátios, chegamos do lado de fora do castelo, sem falar nada.
- Você é filha de Jordan, certo? — tentei puxar assunto, enquanto descíamos o vale. Ela demorou para responder.
- Sim. Mesmo não sendo da sua conta. — Beatrice um, Connor zero. Chegamos no pé do vale, onde dezesseis cabanas de madeiras estavam enfileiradas, oito de cada lado formando um "l l". Adolescentes e crianças brincavam dentro das cabanas, outros dormiam e alguns até treinavam com espadas.
- Essas são as cabanas, — nenhuma novidade — onde nós ficamos. Os guerreiros são escolhidos a dedo para cada cabana. — continuamos andando. Passamos por florestas, uma plantação de cevada, um arsenal lotado de armas de todos os tipos, estábulos com bonitos cavalos e uma pequena arena circular, onde podia-se ouvir o retinir de aço. Logo depois passamos por uma cantina imensa da onde vinha um cheiro de comida delicioso, que fez meu estômago roncar. Ela me mostrou o subsolo, onde anões — pequenos homens feios, porém legais — trabalhavam forjando armas para o clã. Chegamos no pé de uma grande montanha, perto de um lago, do lado norte da ilha.
- Lá em cima, nossos dragões dormem. — "Dragões". Eles tinham mais de um? Incrível.
Por último, ela me levou até a praia, onde grandes caravelas com o símbolo do clã — um punho com duas lanças cruzadas — estavam atracados. Já era noite.
- Precisamos voltar. Você vai para a Cabana 16. Amanhã teremos treinamentos e atividades. Veremos se você sobreviverá. — ela era extremamente rígida, para uma garota de 13 anos.
Depois de subir grandes ladeiras de grama, vales e florestas, finalmente chegamos na área das cabanas. Ela foi na direção da Cabana 1, e antes de eu me despedir, ela entrou fechando a porta bruscamente.
- É, Cabana 16, veremos o que me espera em você. — subi os dois degraus de madeira, e abri a porta devagar. Por fora, as cabanas pareciam pequenas, mas por dentro, era incrívelmente grandes. Adolescentes se batiam com travesseiros, outros pulavam de uma beliche para outra. Tinham cerca de dez garotos naquela cabana. A bagunça cessou quando abri a porta. Alguns sussuravam "Será que é ele?" ou "Não pode ser, ele é tão fraco para ser o abençoado". Eles sabiam de alguma coisa sobre mim. Da mesma forma que Nick, sabia quando me chamou de O Abençoado. Um cara que devia ter uns vinte anos, de cabelo extremamente preto veio na minha direção, com um sorriso amistoso.
- Vejo que temos um novo membro na nossa cabana, rapazes. — ele devia ser o líder ou algo do tipo daquela cabana. — Qual seu nome, garoto? — ele perguntou a mim.
- Connor Pierce. — respondi — E você é..?
- Tyler Mitchell — ele disse, com um tom sombrio. — Bom rapazes, acho que está na hora de dormirmos, amanhã temos treino para os jogos, e não queremos perder outra vez! — todos disseram um "aahhh" em uníssono. Tyler me levou até uma beliche vazia, perto de uma janela e disse que eu deveria dormir ali.
Me deitei, e em um piscar de olhos, dormi.
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