A Arca de Pandora
12 O Último Pesadelo
Notas iniciais
No entanto, o espanhol não era mesmo um ser humano como qualquer outro mais. Dom Filipe fora sábio ao escolher sua espada vingadora para enviar aos ingleses. O cigano, ainda caído de costas, após tossir um pouco daquele sangue escuro e pútrido, começou a rir tenebrosamente e abriu os braços como se fosse voar.
Enquanto isso, desprezando a gravidade, seu corpo se ergueu de modo fantasmagórico, sobrenatural. Sem que ao menos precisasse fazer o mínimo esforço ou sequer flexionar os joelhos, Dom Esteban foi içado do chão e, de modo flutuante, o ângulo de seu corpo mudou, endireitando-se até que estivesse de pé novamente, como se mãos invisíveis o estivessem levantando. A bala foi expulsa da carne e o rombo no peito se fechou milagrosamente.
Incrédulo, Hope esfregou os olhos, sem poder acreditar no que eles enxergavam. Com um grunhido, Esteban fitou Hope de modo irônico e exclamou:
— Ê, cabrón! Bom disparo, mas a dor me deixa muito furioso. Prepara-te, que sua hora chegou! Vai entender porque me chamam de El Diablo e vai saber de una vez por todas o que soy yo!
Em seguida, Dom Esteban Ramirez rugiu como fera. Seus olhos negros transformaram-se em duas bolas infernais, vermelhas como sangue e ardentes como brasas. Sua pele estava mais pálida e tétrica do que nunca. Abriu a boca e exibiu seus dentes; os caninos tinham crescido incrivelmente e eram perigosamente pontiagudos.
— Vampiro? – murmurou Hope, entre perplexo e apavorado.
A coisa com dentes afiados e olhos malignos riu com voz inumana diante do inglês, sua silhueta realçada de maneira fantasmagórica pelo luar frio e mortal.
— Si, mortal orgulloso. Un vampiro. Eu sou seu último pesadelo. Don Filipe predisse que eu seria sua última aflição. Sua última praga. Me gusta pensar assim, capitán. Que soy un anjo vingador español. Comandante Jason Hope, esta noche soy tu castigo de Diós!
Trêmulo, Hope olhou para a pistola ainda quente em suas mãos. Era uma arma inútil, já que o monstro não lhe daria tempo para recarregar. Atirou longe a pistola, desesperado. Percebeu então que o cigano sobrenatural fitava a espada em sua cintura. Não era um olhar de sarcasmo, mas de certo temor. Hope sentiu uma faísca de esperança surgir em seu interior. A rapieira espanhola tinha a lâmina feita de prata pura. Se a criatura por algum motivo temia esse metal, talvez houvesse um modo de destruí-la ou, pelo menos, detê-la.
Depositando toda sua vontade e energia no gesto, Hope levou a mão ao cabo da espada e conseguiu puxá-la da bainha. Contudo, não teve tempo de usá-la.
Veloz como o vento, antevendo a manobra do oponente, o cigano sacou seu punhal da cintura e o arremessou com força e precisão, demonstrando uma habilidade que estarreceria um artista circense. A lâmina cruzou o ar zunindo, atravessando a escuridão com rapidez.
Hope soltou um grito e largou a espada quando uma dor atroz surgiu inesperadamente. A lâmina arremessada cravara-se firme e dolorosamente em sua carne, atravessando a mão que usava para esgrimir. A palma fora trespassada pelo punhal hispânico. O sangue brotou vermelho e quente, em meio a espasmos de dor. O cheiro metálico emanado pelo sangramento fez com que o vampiro ficasse fora de si. Esboçou um sorriso psicótico para o inglês que fazia careta de dor e segurava a mão ferida.
— Está escrito que o sangre es la vida. – disse o monstro se aproximando, agarrando violentamente a mão ferida do pirata e lambendo-a com sofreguidão, sem que Hope, tomado de asco, pudesse evitar.
Com uma expressão de deleite, o cigano espectral parou de lamber o machucado e ergueu a cabeça para a lua que flutuava acima da altíssima mastreação do galeão. Lambeu os lábios rubros e fitou o inimigo amedrontado:
— Quem escreveu estava certo. Sangue é vida. E por isso necessito dele. Preciso dele em mim, porque yo soy la Muerte!
Hope sentiu que garras afiadas o envolviam num abraço mortal. Viu-se jogado com força sobrenatural, estrondosamente de costas contra o mastro principal, e a pancada foi muito grande, a ponto de fazê-lo imaginar que sua espinha se partira.
O ar entrando em seus pulmões parecia repleto de fogo. Dificuldade para respirar. Uma porção de costelas quebradas, com certeza.
Antes que o pirata fosse ao chão, tão rápido quanto um piscar de olhos o maldito cigano já o havia alcançado novamente. Hope arrancou o punhal da mão ferida e bravamente tentou golpear a fera, tendo em seguida sua mão segura com irritante facilidade. Como se ele fosse uma criança tentando socar um adulto.
Dom Esteban Ramirez, após arrancar o punhal das mãos sangrentas do pirata, segurou-o rudemente pelo pescoço e decolou junto ao mastro principal.
O movimento, de tão rápido e brusco, quase destroncou o pescoço do inglês, que arfou. Hope, embora tendo os olhos marejados pela dor e pelo quase estrangulamento, percebeu que estavam subindo.
Voavam?
Seu cérebro já embotado compreendeu que mais uma vez o espanhol estava desafiando as regras regentes do mundo natural. As botas do monstro produziam um rangido seco ao atingir a madeira do poste.
Segurando a presa pelo pescoço, o vampiro estava correndo ao longo do mastro.
Correndo na vertical!
Tão tranqüilo, como se fosse a coisa mais normal. Seus olhos em brasa ardiam bem perto do rosto do agonizante pirata.
Enquanto escalava a mastreação com a agilidade de um macaco diabólico, Esteban cantarolava sua canção espanhola, que imprimia em seu olhar insano um quê de saudosismo.
Jason Hope estava sufocando. Fervendo em ódio impotente nas garras do inimigo praticamente indestrutível.
Humilhado no momento de sua morte por aquele ser que nascera em terras espanholas. Hope notou que o outro parara de cantar. Continuavam subindo, como se não fossem parar nunca, como se viajassem rumo ao céu noturno, onde boiava uma belíssima lua cheia.
O capitão pirata viu dentes longos e afiados se aproximando.
Uma fisgada no pescoço.
Estremeceu.
Seu sangue, sua vida, sendo sugados com avidez para o interior do morto-vivo que o assassinava.
Desespero. Aflição. Ódio. Dor.
A última visão de Jason Hope antes que tudo se apagasse, a derradeira lembrança que levou desse mundo foi envolta por alucinações. Ele viu o mar, mas o mesmo estava vermelho.
O oceano revolto tinha a cor do sangue.
Do seu sangue.
Uma maré de sangue onde, vagarosamente, o bravo pirata inglês naufragou solitário naquela noite de terror.
Fale com o autor