A Arca de Pandora

9 Epidemia do Medo


Notas iniciais
Ahoy, navegantes! Glossário náutico ao fim do capítulo, ainda que seja um glossário reduzido. rsrs Ansiosos para as próximas desventuras de Hope e seus amigos? Boa leitura!!

Entretanto, para infelicidade dos piratas ingleses, o navio infernal que prenunciava a morte se foi, mas a calmaria permaneceu.

Mortal, silenciosa, envolvendo com seus tentáculos, pegajosos e inescapáveis como os do Kraken o galeão espanhol amaldiçoado pelas forças sobrenaturais obscuras.

A lua e a noite foram embora, e o sol voltou ardente, castigador, fazendo suar os marujos semimortos, cujas gargantas estavam ressecadas e as línguas pareciam lixas. A ausência de vento era mesmo sua sentença de morte. Os homens continuavam amanhecendo com marcas de picada no pescoço, no estômago e nas mãos. Reclamavam de cansaço, surgiam pálidos e não gostavam de se expor ao sol. Preferiam a escuridão acolhedora e úmida dos porões.

Aquilo que Hope classificara como escorbuto não se cansava de atacar os marujos.

Parecia drenar-lhes as forças, o sangue. Talvez Hope houvesse chamado isso de escorbuto porque alguns sintomas eram semelhantes, tais como palidez, hemorragia e anemia, que parecia ser o que acometia os piratas, já que eles morriam apresentando não possuir mais sangue nos corpos. Mas escorbuto não deixava marcas de picada. E não matava tão rápido também. Tinha de ser outra coisa.

Depois de vislumbrar o navio fantasma, os marujos não tinham mais dúvidas que o Pandora estava amaldiçoado. Quem precisava ir até o porão fazia questão de ficar bem longe do local onde jazia a maldita arca.

Certa tarde a tripulação ouviu um homem cantando em espanhol; a música vinha do porão, justamente do ponto onde repousava o funesto baú. Carrasco se dispôs a ir verificar. Minutos depois, ouviu-se um grito de horror do pirata, seguido de um estampido seco.

Foram ver o que se passava e acharam o destemido corsário meio agachado, trêmulo, empunhando a pistola fumegante. A custo ele conseguiu explicar que descera as escadas seguindo a voz hispânica que cantava. Ao se aproximar, o silêncio reinou. Então ele vira, no escuro do porão, um cão negro grande e de olhos perversamente vermelhos, que mostrou-lhe os dentes rosnando e retesou-se nas patas traseiras, pronto para saltar sobre o pirata. Gritando de horror, dando dois passos para trás, Carrasco sacou rapidamente a arma e disparou, tropeçando em um barril e indo ao chão.

O tiro raspou o sinistro cão, que fugiu para o fundo do porão e abrigou-se atrás da arca amaldiçoada, onde ninguém tinha coragem de ir. Ouvindo a história do homem, e ajudando-o a se erguer, os piratas foram em grupo vasculhar o local onde o bicho havia se escondido, mas, como era de se esperar, não acharam nem sinal do animal. No entanto, nenhum dos piratas duvidou da veracidade do relato de seu companheiro.

É verdade que, devido à inesperada imobilidade do barco preso na calmaria, boa parte da comida estragara ou fora roída por ratos, e a água potável estava quase se esgotando, assim como as bebidas alcoólicas. Portanto, a fome, a sede, e a misteriosa doença que atacava os tripulantes poderiam contribuir para que os piratas fossem vitimados por alucinações. Porém, todos sabiam, mesmo os mais céticos, que não era o que acontecera a Carrasco. O homem vira realmente algo estranho no porão naquela tarde. Precisavam se livrar daquela arca infernal. Resolveram atirá-la ao mar.

Decidiram comunicar o fato ao capitão Hope, mas ele se opôs imediatamente. Furioso, bradou que ninguém devia tocar naquele baú. Falava e brandia ameaçadoramente sua rapieira de prata a fim de intimidar os homens, todos tomados por palidez mórbida e suor febril.

Hope reagiu de um modo inesperado quando citaram a arca.

Desde a noite em que tinha avistado o navio fantasma, o capitão não fazia mais nada senão permanecer em sua cabine entornando, uma por uma, as garrafas de vinho espanhol que ali havia. Mais do que nunca, vivia bêbado, e aparentemente mal se importava com sua tripulação. Parecia totalmente alheio ao que acontecia ao seu redor; exceto, é claro, quando o assunto era a maldita arca. Aquela urna sombria o havia enfeitiçado, não havia outra explicação. E, apesar de tudo, sua vontade foi respeitada.

Mas os homens estavam descontentes.

Dos cinqüenta marujos que tinha permanecido ao lado de Hope durante o motim incitado por William Mathison, restaram apenas trinta e sete que estavam relativamente bem. Os enfermos portadores do mal misterioso, que rapidamente se tornavam moribundos, eram levados para o castelo de proa; tinha sido delimitada uma ala de quarentena lá pelos próprios marujos, pois havia entre os mesmos temor de que, de alguma forma, aquela enfermidade não identificada fosse contagiosa.

Com a falta de comida e bebida, tiveram de racionar rigorosamente os mantimentos, e isso afetou principalmente os doentes, os quais dependiam de boa alimentação para conseguir contar com alguma chance de recuperação, por mais ínfima que fosse.

A situação, gerando o caos e o pânico, chegou ao ápice de desespero, pois, quando um marujo era encaminhado para a área isolada para quarentena, sabia que não tinha escapatória.

Tomados pela consternação, enlouquecidos, muitos marinheiros começaram a culpar o capitão, maldizendo a hora em que ele havia aberto aquela arca. Estavam se mobilizando para atirar Hope e o baú ao mar porque desse modo, imaginavam, talvez aplacassem um pouco a ira dos deuses e o vento voltasse a soprar.

Outros achavam que deviam abandonar o navio, com ou sem o capitão, para que tentassem se salvar já que, permanecer a bordo do Pandora naquelas condições não era apenas mais inviável, como também se tornara impossível.

Para impedir que se estourasse um novo motim a bordo do galeão espanhol, o cozinheiro Peter Crawford, que era um homem velho e sábio, logo, imensamente respeitado pela tripulação, resolveu se pronunciar. Fazendo um gesto para exigir silêncio, assim que a tripulação se calou, o cozinheiro disse de modo cauteloso e solene:

— Vamos fazer uma votação.

Rapidamente organizou-se o procedimento para decidir, de modo democrático, o futuro do Pandora, do capitão Jason Hope, da arca maldita e da tripulação. O velho Crawford foi o esteio para que tudo acontecesse dentro da ordem na medida do possível. Depois de uma acirrada discussão, apurados os votos, descobriu-se que a maioria optara por abandonar o navio.

Notas finais
Aviso aos navegantes: Castelo: Nas embarcações, parte que se eleva acima do convés principal. Proa: A parte anterior (ou dianteira) da embarcação. Nos vemos amanhã para saber o que a tripulação do Pandora vai fazer a respeito de Hope. Obrigado por navegar comigo, marujos! Hurra!!!