A Aranha na Teia

13 Capítulo bônus de Natal


Notas iniciais
Então, como prometi, aqui estou com o capítulo bônus! Ok, 48 minutos atrasada, mas cheguei! Espero que todo tenham tido um maravilhoso Natal, e sem delongas, um capítulo bem levinho, no espírito do Natal!

A decisão por uma festa de final de ano para toda a equipe acabará por não ocorrer apenas a Natasha, mas a todos. O caos se instalara apenas quando se tratara de decidir a Jane passaria com os pais, então Thor gostaria de passar essa primeira celebração terráquea com ela. Pepper também viajaria em seu recesso para visitar a família, e tirar um ou dois dias para ficar exclusivamente com Tony em um hotel à beira-mar. Clint, obviamente, tinha a própria família, e o fato só foi revelado quando até mesmo JARVIS foi silenciado, para os ouvidos unicamente dos colegas de equipe. Steve sugerira celebrar no dia de Ação de Graças, mas a careta de Natasha ante a menção ao feriado mais americano que poderia haver fez todos rirem. No final, foi Thor quem resolveu o problema, sugerindo que celebrassem na data do Solstício de Inverno, já que via muitos paralelos entre o Natal e a celebração pagã européia. Posteriormente, Banner explicaria ao amigo que muitas das tradições natalinas eram apenas incorporações de elementos pagãos, e a isso se devia a similaridade.

Discussões resolvidas, a data ficara decidida para o dia 21. Agora, à véspera do dia, todos haviam enfim decidido fazer seu merecido recesso e passar alguns poucos dias que fosse fora do risco constante de morte que era seu trabalho.

Natasha acordou cedo, como de costume, e já não despertava tão surpresa com a sensação dos braços de Steve ao seu redor. Na verdade, isso apenas lhe arrancava um sorriso do rosto, enquanto ninguém ainda podia ver. Com cuidado, esquivou-se ao abraço do soldado que, mesmo assim, despertou e lhe lançou uma de suas radiantes expressões de felicidade:

— Bom dia, Nat.

— Bom dia, Capitão. — A russa começava a se arrumar para ir à sala de balé, em vez de sua costumeira natação matinal, e Rogers nunca deixava de se sentir fascinado pelo corpo perfeito e flexível de sua amada. Não se tratava de algo apenas sexual: como artista, amava ver a fluidez dos movimentos, o modo como a luz refletia na pele de alabastro, o contraste entre o collant escuro e o branco marfim da pele que parecia esculpida em mármore de Carrara. Não tinha certeza se ela sabia (provavelmente sim), mas o americano possuía dúzias de desenhos de sua companheira, em vários ângulos e atividades. — Pare de me encarar como se houvesse alguma coisa em mim que você ainda não viu, Steve!

— Cada vez que olho para você, descubro um detalhe novo para me apaixonar.

— Americano sentimental. — Por detrás do resmungo, um leve sorriso de canto denunciou a falsa irritação. — Vou mostrar e começar a ensinar Suíte do Quebra-Nozes para Lucy. É bem vindo para assistir, se quiser.

O Capitão não respondeu, mas o barulho da cama denunciou que se levantara e, quando Natasha já prendia os compridos cabelos ruivos, sentiu o namorado abraçá-la pelas costas. Pousando a mão sobre o braço musculoso em torno de sua cintura, mirou a imagem de ambos no espelho, e não podia discordar de que era o tipo de situação que, em sua juventude, desejara com frequência. Agora, quando já havia quase se esquecido de um dia ter sonhado com algo assim, a vida colocava esse homem fora do próprio tempo em seu caminho, e logo a seguir uma garotinha maravilhosa. A vida era, no mínimo, irônica. Mas começava a acreditar que o mundo não era necessariamente tão cruel quanto sempre pensara. Rogers, por sua vez, não conseguia deixar de se sentir agraciado, e perceber o quanto Natasha se tornará mais próxima, nos últimos oito meses. Nunca antes ela teria permitido aquele contato tão prolongado, mesmo que sua esquiva fosse apenas uma piada ou brincadeira.

— Vamos? — ela se virou no enlace dia braços de Steve e depositou um selinho em seus lábios, antes de se esquivar e seguir para o quarto de Lucy. Sem muitas surpresas, a pequena não estava na cama, mas tinha vários pequenos globos de vidro aos quais adicionava símbolos e cores. — O que está fazendo?

— Privet, mama!! — O puro entusiasmo do rosto da pequena se refletia em sua voz. — Estou fazendo enfeites de Natal com o tema da nossa família! Olha só: — ela mostrou uma esfera pintada de preto, com uma ampulheta vermelha, uma azul, com o escudo de Steve pintado, uma verde, com tubos de ensaio e fórmulas químicas, outra vermelha e dourada, com um Reator Arc azul, outra ainda azul e vermelha, com Mjolnir retratado e, finalmente, uma preta e roxa com um brilhante arco e flechas dourado.

— Está lindo! — Steve se abaixou, ignorando as manchas de tinta pelas mãos, braços e roupa da filha, admirado com o cuidado dela com as cores e os contornos. — Você sempre tem uma habilidade nova, escondida? E onde achou os globos de vidro?

— Ah, a tia Pep tem uma caixa cheia, para colocar imagens dentro e pendurar na árvore! Ainda tenho que fazer uma imagem para ela! E pra tia Jane, e para o doutor Selvig, e...

— Vamos precisar de muitas árvores. — Natasha sorriu e limpou com o polegar um pouco de tinta azul no rosto da filha. — Por que não deixa esses secando, e vamos dançar um pouco? Na volta, seu pai e eu te ajudamos a fazer os que faltarem.

— VAMOS!!!

A pequena correu em trocar a camiseta e o shorts sujos de tinta por suas roupas de ginástica, lavou as manchas da pele (com alguma ajuda de Steve, que arrancou protestos ao passar a esponja atrás das orelhas da menina) e deixou a mãe prender seus cabelos em um coque alto. Tudo isso levou apenas alguns minutos e, pouco depois, o trio se encontrava na sala de ginástica, diante dos espelhos com barras que, Natasha suspeitava, Tony ou Pepper haviam mandado instalar por sua causa, posto ser a única dançarina da equipe, na época...

A russa colocou o vinil na vitrola e, enquanto estavam no prelúdio, começou a contar à filha a história do balé, enquanto realizavam exercícios simples de barras para aquecer e alongar. Steve, sentado próximo a elas com uma prancheta, conseguia apenas sorrir e captar cada movimento. Família... Quem diria? Achava que o homem que desejava isso morrera naquela queda de avião. E ainda assim, aqui estava ele. Não importava que ele e Romanoff não fossem casados, ou que Lucy não fosse sua filha biológica, ou mesmo legalmente... Ela eram sua família, e só Deus sabia o quanto as amava! Era esse o sentimento que transportava para o papel, esboçando os movimentos da bailarina adulta e da jovem iniciante, que já demonstrava sua paixão pela dança, como possuía por todas as artes.

Mesmo que as memórias do balé fossem falsas, a mente e o corpo de Natasha não sentiam qualquer diferença, realizando os movimentos com leveza, fluidez e graça como se fosse uma leve pluma soprada pelo vento. E como a rápida e dedicada aluna que era, Lucy apreendia cada rodopio, pirueta, ondulação, movimentos de pés e braços, totalmente entregue ao deleite daquele momento, seus olhos índigo e rostinho pueril plenos de esfuziante alegria, que o pai captava minuciosamente em seus esboços, os quais detalharia posteriormente.

Tudo aquilo durou perto de uma hora, ao fim da qual um consenso não-verbal entre a família encerrou a dança das russas. Nenhuma das duas estava realmente cansada, apenas relaxadas e satisfeitas com a endorfina percorrendo suas veias.

— Nada mal, ptenetz. — Natasha tinha um olhar de pura aprovação ao pegar as toalhas nos respectivos armários e jogar uma para a criança, ambas se sentando uma de cada lado de Steve, que passou os braços em redor dos ombros de cada uma.

— Vocês são maravilhosas.

— Podia dançar com a gente, um dia, Daidí!

Steve riu baixo:

— A minha coordenação não age tão bem quanto a de vocês. Prefiro admirar e retratar. — Ele não impediu quando ambas se inclinaram para ver, fascinadas com a precisão dos traços.

— Ainda não sei por que você não seguiu a carreira, Steve. Isso é realmente incrível. — Um elogio de Natasha, assim, abertamente?

— Bom, você ainda pode desistir do ramo de Vingadora e ser a primeira bailarina de qualquer companhia que quiser. — Rebateu o americano, antes de se voltar para a filha. — E você, cisnezinho: não nega ser filha de sua mãe. Poderia fazer disso uma carreira.

— Obrigada, Daidí. — A criança deitou a cabeça no colo do pai, descansando um pouco, aproveitando aquele dia tão simplesmente tranquilo! Não era sempre que tinha férias e toda a família em casa, ao mesmo tempo! — Eca, estou grudenta.

— nós duas. Vamos subir, tomar um banho, e café da manhã depois? — Ela olhou para Steve. — O que preciso te pagar para convencer você a fazer seus waffles?

O Capitão riu gostosamente:

— Vou pensar em alguma coisa, depois. Já que estamos no espírito de Natal, vou deixar o presente equivalente para a imaginação de vocês.

Os três se levantaram e iam em direção ao elevador, quando soou por todo o recinto a voz de JARVIS, pedindo-lhes para vir ao andar comum. Estranho, mas não tanto, quando se vivia na Avengers Tower. Mas assim que as portas do elevador se abriram no andar comum, o que viram foi Thor carregando uma árvore tão grande que seus braços sequer conseguiam abarcar toda a circunferência do tronco, e a copa quase tocava o teto do andar com pé direito triplo!

— Thor... De onde veio isso?! — perplexidade definia as expressões de todos, exceto Lucy, cujo rosto se iluminou ao ver a folhagem mista de verde, prata e dourado.

— Stark me encarregou de escolher uma árvore, e é o primeiro Natal de Lucy. Os pinheiros de Midgard são pequenos e monocromáticos... Este aqui é um Pinheiro Dourado de Asgard. — Como se a planta de quase uma tonelada não pesasse quase nada, Thor acomodou a árvore e seu "vaso" no centro do vão. — O que acham do lugar? Aqui, ou mais perto da janela?

— Ahn, Shakespeare no Parque, você conseguiu exagerar até para os meus padrões... — Tony ainda não conseguia entender exatamente como Thor pegara uma árvore imensa, colocara em um vaso e, o mais difícil, conseguira manobrar aquilo para dentro, por mais lindo que fosse.

— Tínhamos acertado de ter apenas o melhor, para o primeiro Natal da pequena Lady Romanoff. — Thor se abaixou ao lado de Lucy, que correra para a árvore e agora a observava com ambas as mãozinhas cobrindo a boca, em estupefação e encanto! — Gostou!

— É a árvore mais linda que já vi!!! — A garotinha simplesmente pulou no pescoço de Thor, abraçando-o. — Obrigada, tio Thor!!!

Após oito meses de convivência, o asgardiano apenas sorriu e abraçou de volta a garotinha, acostumado agora ao contato com os mortais. Não era como se ela fosse mais frágil do que Jane, Darcy ou o resto da equipe, então o deus se sentia perfeitamente seguro, e deu uma sonora gargalhada, deixando-se cair sentado no chão.

— Só o melhor para nossa futura Valquíria. — Ele apontou a árvore. — Vê como ela é toda salpicada de ouro e prata? Quando nascem, são apenas verdes, mas seus galhos e folhas começam a mudar, à medida que são expostos ao sol e à lua, como se guardassem a luz dentro de si. — E ante o deslumbramento completo de Lucy, prosseguiu. — Há uma enorme floresta com essas árvores, em Asgard. Você um dia pode ver.

— Pode me levar?!

— Não perderia essa oportunidade, nunca. Mas quando for um pouco mais velha, ou sua mãe vai descobrir como se mata um deus. — Ele sorriu para Natasha, que levantou uma sobrancelha e meneou a cabeça, divertida. Thor era um guerreiro sem igual em campo, mas quase uma criança quando se tratava de brincar com Lucy, festejar ou qualquer coisa vagamente similar.

— Apesar do claro exagero, com certeza é uma bela árvore. — Steve se sentia bastante empolgado com a aproximação do Natal, que não comemorava adequadamente há muito tempo. — Hey, Lucy, agora não precisamos de mais de uma árvore para todos os enfeites.

— SIM! Posso terminar de pintar, e pendurar todos! E vou ajudar a tia Pep a colocar os enfeites nos outros globos de vidro, e depois podemos enfeitar a árvore juntos!

Nenhum dos adultos conseguiu ficar sério com tanta empolgação, e Stark puxou a "coisinha" para seu colo:

— Vai precisar de alguém que voe, para colocar os enfeites lá em cima. Fazemos isso juntos?

— CLARO!!! Você coloca a armadura, e eu subo nas suas costas!

— Feito, mini terrorista. Mas agora você devia ir tomar um banho, porque está toda grudenta e nojenta de suor.

— Eca... Preciso, mesmo. — Lucy desceu do colo do padrinho e foi para junto da mãe. — Vão ajudar a montar a árvore, também, não é?

Natasha e Steve trocaram um olhar e deram de ombros; a ruiva sorriu levemente para sua menina e confirmou:

— Vamos, é claro. Essa árvore não ficará pronta hoje, se não participarmos. — Embora já houvesse admirado muitas vezes as decorações de Natal, Natasha não fazia a menor ideia de por onde começar, mas tudo bem... Bastava imitar os outros e continuar agindo como se soubesse fazer qualquer coisa. — E você tem que terminar os enfeites que começou, então, para o banho, mocinha. Eu já desço para te encontrar.

Lucy saiu aos pulinhos da sala, todo aquele entusiasmo mostrando o quanto, a despeito do intelecto assustadoramente avançado para a idade, ainda era apenas uma criança deslumbrada com seu primeiro Natal.

— Alguém viu a Pepper? — A voz de Bruce Banner se fez ouvir, quando entrou na sala com uma caixa cuidadosamente carregada e depositada no chão. Dentro, frascos com substâncias brilhantes, em cores diferentes. — Luminol e luciferina, para os enfeites. Prometi ajudar com isso.

Uma sensação gostosa aquecia o peito de Romanoff, que fitou longa e silenciosamente os amigos, um sorriso interno manifesto não no rosto, mas nos olhos. Todos haviam aceitado fazer aquilo por Lucy. De Pepper a Banner, estavam todos nisso muito mais pela vontade de criar algo inesquecível para a menina, do que por si mesmos, e nenhuma das diversas línguas que dominava possuía palavras suficientes para explicar o que sentia, naquele momento. Gratidão, certamente, era uma dessas coisas, mas havia mais. Conseguia olhar para os amigos e sentir que, de algum modo, todos eles pertenciam a uma coisa só, e não tinha a ver com trabalho. Importava-se com eles e, loucura acima de qualquer outra, confiava na certeza de que também se importavam com ela. Talvez isso fosse família, afinal.

— Natasha? — Steve tocou seu ombro com cuidado, sabendo que surpreender a espiã era sempre uma atitude arriscada, mas não recebeu nada além de um mínimo chacoalhar de cabeça, e olhos verdes intensos se voltando para seu rosto. — Está tudo bem?

— Apenas pensando no que ainda temos de preparar. — Nunca mentira tão mal em sua vida, e algo assim certamente lhe renderia um açoitamento impiedoso, na KGB, mas ali ninguém insistiria. Voltando-se para Thor, Bruce e Tony, anuiu discretamente em aprovação. — Obrigada a vocês todos.

— Qualquer coisa pela baixinha. — Respondeu Bruce. — Não é como se fosse um sacrifício, ou nós também não fôssemos gostar disso.

— Banner tem razão: começou sendo pela Lucy, mas é por nós, também. Eu nunca rejeito uma boa celebração com meus amigos, e acredito que não seja tão diferente para os terráqueos.

Tony poderia muito bem ter dado mais uma de suas piadas fora de hora, mas apenas encarou Romanoff com algo que pareceu cumplicidade:

— De nada. — E no fundo, Natasha sabia que ele também ficava feliz por uma festa onde teria pessoas que estavam ali não por ele ser Anthony Stark, o Homem de Ferro, o dono das Stark Industries, mas apenas por serem amigos. De certa forma, isso lhe era quase tão novo quanto para Natasha.

Enquanto Bruce retirava os vidros com cuidado da caixa e os colocava em cima da mesa previamente forrada, a Black Widow cruzou os braços e comentou com alguma diversão:

— Se não forem explodir nada, ainda, vou trocar de roupa. — Ela lançou um olhar letal para Stark, que acabará de abrir a boca. — Não se atreva a dizer coisa alguma sobre a minha roupa de ginástica, Tony. Sangue não faz parte da decoração de Natal.

Stark apenas lançou um olhar indignado enquanto Natasha saía, e Steve continha o riso. Se alguém, algum dia, quisesse explodir a Torre dos Vingadores, só precisaria deixar Natasha e Tony sozinhos ali dentro, no mesmo recinto, por meia hora. Sem ligar para os resmungos de Tony sobre a "russa louca e psicopata", o Capitão foi para a cozinha. Waffles, Natasha e Lucy tinham pedido? Certo. Bastava aumentar a receita e fazer para o time todo.

*****

O café da manhã em conjunto foi seguido por Virgínia Potts orientando Lucy e, por conseguinte, os demais, como decorar os globos de vidro para que se tornassem enfeites personalizados. Assim, além dos orbes pintados pela menina com o símbolo de cada membro (para Pepper, nada parecera mais irônico, divertido e adequado do que sua representação ser uma esfera bastante natalina, vermelha com um círculo branco em cujo centro havia uma pimenta), havia esferas com flocos de neve coloridos em seu interior, bonecos de neve, casinhas de natal, figuras de renas e Papais-Noel, trenós e estrelas. Em vez das tradicionais luzinhas piscantes, os menores globos foram preenchidos com Luminol e luciferina, ambas substâncias fosforecentes que brilhavam lindamente quando as luzes se apagavam!

Tony ainda criou ele mesmo um cordão de luzes nas cores de cada Vingador, deixando o branco para sua doce e pura Pepper Potts, e o azul índigo para a garotinha ruiva atrevida que chamava de afilhada, a mesma cor dos olhos iridescentes da pequena, e também o tom favorito dela.

Finalmente, a tarde fora dedicada a decorar a árvore!

Perto do chão, em alturas menores, Natasha e Pepper começaram a pendurar as esferas pintadas por Lucy, ou melhor: erguiam a menina para que ela as pendurasse, enquanto os rapazes penduravam os outros globos, mais acima.

— Mama, acabei de perceber que não tenho um símbolo, na nossa família. — A pequena comentou, ao pendurar a última esfera pintada. Clint acariciou seu rostinho e pegou a estrela que iria no topo da árvore:

— Quem disse que não? Você é a nossa pequena estrela brilhante. O último enfeite a ser colocado, porque foi a última a chegar nas nossas vidas. Mas colocada bem no alto, porque brilha e encanta mais do que todos os outros, e sem você, seríamos como uma arvore de natal sem estrela: incompletos.

Natasha não podia ser mais grata ao amigo, e a troca de olhares que se seguiu foi mais significante do que qualquer longa conversa. Clint apenas sorriu de volta para a amiga e pegou Lucy nos ombros, para que ela alcançasse mais alto do que conseguiria nos ombros das mulheres. Dos ombros de Clint, passou aos de Steve e, depois, Thor, até ser inviável alcançar mais alto. Então, como prometido, Stark vestiu sua armadura quase completa, e colocou a afilhada nos ombros.

— Segure firme, pirralha. — apesar das palavras, ele mesmo a segurou firmemente no colo enquanto subia no ar, permitindo que a pequena alcançasse os lugares que os demais não conseguiriam, fossem Banner, Pepper e Clint usando a escada, ou Natasha se equilibrando em pé nos ombros de Steve. Thor, sem querer arriscar girar Mjolnir dentro do prédio, ocupou-se colocando as luzes e guilandas nas paredes e corrimão, e aos poucos os demais se juntaram a ele, quando não havia mais como alcançar além do que já estava decorado. Não era tão diferente de um Solstício de Inverno, afinal!

Tony e Lucy colocaram vários dos enfeites juntos, as esferas fluorescentes cuidadosamente arrumadas em uma espiral em redor da árvore, os olhos da criança brilhando com alegria e deslumbramento que cativaram totalmente o Homem de Ferro. A menina era um cristal precioso para todos, e sua alegria pura era o maior presente que podia querer. A mesma alegria fascinada que via agora. Contudo, antes que terminassem, a ruivinha se virou para o padrinho e sussurrou ao seu ouvido:

— Padrinho, eu sei que quer me ver feliz, e eu estou muito, mas agora pega a tia Pepper no colo, para ela terminar de fazer isso com você. Ela vai gostar!

E lá se ia a tampinha dando conselhos aos adultos sobre coisas que eles próprios não pensavam! Pepper tivera péssimas experiências com as armaduras, antes, e com todo o trabalho dos últimos meses, ambos haviam tido pouco tempo realmente juntos. A ideia era realmente boa!

— Você é demais, pimentinha. — O milionário desceu para o chão e entregou a pequena no colo de Bruce, para então se virar para a namorada. — Vamos terminar a parte de cima, Pep?

— Tony... Essa armadura não vai surtar e nos derrubar, ou nos matar, vai? — Apesar de hesitante, Potts deixou o namorado pegá-la no colo, e se agarrou com alguma força a ele quando saíram do chão. Sentindo a estabilidade do "voo", contudo, relaxou aos poucos, especialmente quando Tony sussurrou ao seu ouvido:

— Pode confiar em mim, Pep. Eu nunca mais vou te deixar cair.

Assim, após alguns minutos, o que começou com muito receio terminou com a executiva sentada em um dos ombros de Stark, que tinha um braço envolvendo sua cintura, e o outro, as pernas, enquanto a mulher terminava de arrumar os enfeites com seu habitual capricho.

Por último, Tony levou Lucy uma última vez para o topo da árvore, a fim de a pequena colocar a estrela no topo. Ao ser colocada no lugar e ligada ao cordão de LEDs coloridas, a estrela brilhou intensamente em dourado, e a expressão da garotinha era pura maravilha!

— Isso é tão lindo... — As palavras saíram como um sussurro, insuficientes para dizer o que sentia. Então, na ausência do que falar, a criança apenas sentiu, e expandiu a própria consciência de modo a permitir que todos pudessem sentir e compreender a intensidade de emoções que a tomava: deslumbramento, felicidade, gratidão, a certeza absoluta de ser amada, a segurança de estar rodeada de sua família... E não havia como permanecerem incólumes! Um a um, todos os Vingadores reagiram de algum modo, fosse sorrindo ou marejando os olhos de água.

Com todos de volta ao chão, e Lucy de volta aos braços da mãe, tomaram alguns minutos para admirar juntos a decoração da árvore e do ambiente: parecia quase um outro mundo. Um mundo mais feliz e colorido do que o costumeiro, mesmo que fosse apenas por um ou dois dias. A atitude da telepata de compartilhar como ela mesma enxergava tudo aquilo apenas intensificação as sensações. A pequena era a jovem Clara, descobrindo as maravilhas da terra dos doces, e por meio do contato que estabelecia com todos, cada adulto podia sentir um pouco do mesmo.

— Está vendo tudo isso, moy tsvetok? — Natasha sussurrou ao ouvido da filha. — Não vai ser o único dia especial, na sua vida. O mundo não é perfeito, mas existem momentos que podem ser. E você foi o que causou um desses momentos.

— A minha vida é perfeita, Mama. Eu fico feliz de saber que esses momentos são perfeitos para vocês, também.

— Você tem feito esses momentos mais frequentes, baixinha. — Banner piscou para a criança, que retribuiu o sorriso. Realmente estava sendo um dia muito feliz!

****

Natasha mirou a própria imagem no espelho: o vestido negro até os joelhos abraçava suas formas de modo elegante e sem exageros, com mangas longas que deixavam os ombros parcialmente expostos. Saltos baixos também pretos, brincos e colar dourados discretos — apenas filetes dourados entrelaçados em uma mecha curta e fina — completavam sua figura, assim como os cabelos longos soltos. Tudo em si gritava para não tomar parte naquilo, que estava se vinculando cada vez mais à própria equipe e abrindo brechas gigantescas na própria armadura, mas dessa vez ela não silenciou as próprias emoções, e sim o condicionamento incutido pela Sala Vermelha. Eles eram brechas, sim, mas também escudos que protegiam essas brechas. Pessoas que guardavam suas costas, no combate. Pessoas com as quais se importava, e isso a tornava mais forte, não mais fraca. Mais além, de que serviam todas as habilidades em sobreviver, se não houvesse uma vida a ser vivida? Ela não era mais apenas a máquina letal que a haviam projetado para ser, e hoje estava decidida a assumir isso para si mesma, definitivamente. Não precisava dizer nada aos demais — ainda que Clint, Steve e Lucy obviamente fossem perceber — mas sabia, em seu interior, que do momento em que se juntasse aos demais, estaria enterrando toda e qualquer relutância em relação a assumir aquele time como seu círculo. Sua família.

Banindo todo e qualquer pensamento negativo ou de dúvidas, entrou no quarto de Lucy para encontrar Steve passando uma maquiagem extremamente leve na pequena. Divertida, ela se encostou à porta e apenas assistiu, até ele terminar.

— Desde quando você entende de maquiagem, Capitão? — Provocou quando ele finalmente terminou.

— Não entendo muito, mas não é tão diferente de pintar ou desenhar. São tons sobrepostos para dar o efeito, certo? A tinta só está em pó. — Rogers estava estonteante naquela camisa social branca e calças de terno azul-escuras, e quando o americano se ergueu e a abraçou pela cintura, sua pele formigou através do vestido. Roubando um breve selinho, que fez Lucy rir baixinho,

— Do que está rindo, mini-terrorista? — Natasha piscou para a filha, que parecia um verdadeiro anjo em seu vestido branco e azul, de manguinhas bufantes e fitas no decote, calçada com sapatilhas brancas, os cabelos cor de fogo caindo em ondas arrumadas do penteado semipreso que a mãe fizera, antes de ir ela mesma se arrumar. — Você está linda.

— Você também, Mama. E eu estava rindo porque você e Daidí podem ser muito durões em tudo, mas são duas gelatinas derretidas, um com o outro. É fofo.

— Derretido, só o seu pai. — Romanoff não podia perder a chance de alfinetar, e olhou por cima do ombro para Steve, uma sobrancelha levantada e um sorriso de lado nos lábios.

— Errada não está. — Ele também sorria, porém de modo sereno, e se abaixou junto à filha. — Pronta?

— Totalmente. E vocês? — Suas emoções podiam ser as de uma criança, mas os olhos argutos e mente vivaz não deixavam de captar e entender as reticências de seus pais em comparecerem a festas como eles mesmos, em vez de a serviço, usando uma personalidade falsa. — Se ficarem com medo, estou bem aqui.

— D’yavolenoka. — Natasha beijou a fronte da filha e se ergueu com Steve, que lhe ofereceu o braço:

— Senhorita Romanoff?

— Os tempos podem mudar, mas não você, Capitão. — A ruiva passou seu braço pelo dele, enquanto a outra mão segurava a da filha ao seguirem para o elevador. Bem… Ponto sem retorno, dali.

****

Ao contrário da grande maioria das festas de Stark, aquela contava com poucas pessoas: os Vingadores, Virgínia Potts, Laura, Lila e Cooper Barton. Simples. Sem som alto ou bebida regando o chão, sem a movimentação sufocante de corpos em excesso numa pista de dança. Apenas o fascínio dos filhos de Clint em conhecer todos os colegas de trabalho do pai, a divertida surpresa em conhecerem a família que Hawkeye escondia com a própria vida, e o conforto de estar entre pessoas conhecidas. Sem riscos de tiros ou facadas pelas costas.

Como era de se esperar, pouco depois de os Barton chegarem, as três crianças já se divertiam juntas enquanto os adultos se acomodavam nos sofás, conversando com animação.

— Não achei que o Legolas fosse casado. Ele nos pegou totalmente de surpresa quando contou, há alguns dias, e nos fez desligar até o JARVIS que, a propósito, fui obrigado a reprogramar para que todas as imagens e áudios de hoje sejam imediatamente deletados do sistema. — Tony comentou enquanto servia espumante para a Sra. Barton.

— Se ninguém sabe que você existe, não podem ir atrás de você. — Laura deu de ombros. — Fury e Natasha nos mantiveram fora do radar da SHIELD. Não dá para viver de outro jeito, quando se é civil e tem filhos. — A morena olhou para onde as crianças brincavam e sorriu. — Tirando as saudades do pai, as crianças lidam muito bem. Mas seria o mesmo se ele fosse um médico ou policial regular. — O casal tinha as mãos dadas, e o braço livre de Clint passava protetoramente pelos ombros de Laura. Sem fingimentos, sem qualquer necessidade de distanciamento. Era a primeira pessoa, fora Natasha, com quem o arqueiro se portava de forma tão espontânea, deixando ver mais um de seus lados. Quantas faces, afinal, aqueles espiões podiam ter?! Cada membro da equipe já contara cerca de duas dúzias de facetas em cada um dos assassinos, e as que mostravam hoje, bem… Era nova.

Natasha jamais relaxava completamente, mas era possível dizer que estava o mais próximo que consegui chegar disso; sentada entre Clint e Steve, sua figura pequena poderia quase sumir entre os dois, mas ela parecia quase brilhar. Estava satisfeita, alegre mesmo! Não fingia, não colocava uma de suas múltiplas máscaras. Aquilo era o mais genuíno da espiã que já revelara a alguém e, a despeito de não ostentar aquele olhar orgulhosos e desafiador constante, aquelas orbes de esmeralda brilhavam com o mesmo fogo de sempre. Apenas diferente. Sua própria postura era menos rígida, os gestos, mesmo que igualmente discretos e fluidos, pareiam de alguma forma mais naturais. Mais ela mesma, como se geralmente estivesse dentro de um traje muito justo, e hoje houvesse vestido que lhe permitia se mover com liberdade.

Até mesmo o humor ácido de Tony estava moderado, e o engenheiro parecia não apenas ansioso, mas nervoso — não de um modo ruim, como antes de seus ataques de pânico, mas como alguém que aguarda por um momento especial. Banner ria e conversava sem quaisquer sinais de estresse, qualquer preocupação com o Outro Cara, e Thor, bem… Era ele mesmo. Parecia ser, junto a Steve, o único sem qualquer problema em ser totalmente autêntico. Mas se Steve era calmo e mais reservado, Thor parecia uma criança no corpo de um adulto, dado seu entusiasmo.

A conversa logo deixou de orbitar a curiosidade acerca da família de Clint — o qual relaxou muito quando Natasha mudou o tópico das interações — e se tornou bem menos desconfortável. Enquanto Thor desafiava Steve e Natasha a um jogo de bebida que envolvia hidromel asgardiano, houve histórias contadas de todas as partes, em sua maioria hilárias, e muitas delas envolvendo a parceria de duas décadas entre Barton e Romanoff. Quando Laura se juntou a Natasha para contar os episódios mais cômicos do esposo, o Gavião protestou:

— Duas contra um é covardia! Laura, você devia estar do meu lado!

— Cupido, deixe todo mundo se divertir! Você é a melhor peça do time, quando se trata de diversão! — A resposta veio de Tony, que se encolheu levemente quando Pepper lhe lançou um olhar ao mesmo tempo travesso e ameaçador. Ah, merda… Estava deixando a namorada tempo demais em contato com Natasha.

— Eu adoraria poder contar as histórias do Tony, mas a maioria delas, mesmo que engraçada, não pode ser narrada na presença de crianças. — E ante a careta e revirar de olhos de Stark, riu e lhe deu tapinhas de consolo no braço. — Você melhorou muito, amor.

— E você continua me punindo.

— Eu disse que melhorou, não que se tornou um santo.

— Repita isso no fim da festa. — Ele sussurrou perto do ouvido de Pepper, apenas para deixá-la curiosa. Talvez a tenha deixado apreensiva, também, mas valeria a pena. E embora não fosse versado naquela linguagem minimalista de sinais, o milionário lançou uma quase imperceptível piscada para Natasha, que assentiu com aprovação.

Por curiosidade ou cansaço das brincadeiras, pouco depois os pequenos vieram para junto dos adultos: Lila escalou Natasha, como sempre fazia com a madrinha, que riu baixinho e a acomodou em seu colo, enquanto Cooper praticamente pulava em Thor, com Lucy, indagando sobre as histórias do asgardiano que a “prima” lhe contara.

— Treinamento de espionagem… — Clint meneou a cabeça para a cena. — Podiam só avisar que ter filhos é o combo completo, e pular os anos de treinamento.

— Não seja tão maldoso, Clint. Ser espião é infinitamente mais fácil. — Natasha continuou, fazendo cócegas em Lila, que gargalhou gostosamente. Quando a madrinha tomou mais um shot de hidromel, a filha de Barton indagou:

— Posso provar?

— Também quero! — Lucy e Cooper fizeram coro, e Clint apenas riu, enquanto Laura cumpriu o papel de adulto responsável:

— Nem pensar. Os únicos adultos tomando isso são os que não ficam bêbados.

— Eu tenho o soro da Black Widow. — Ponderou Lucy. — Não fico bêbada, na teoria.

— Pode tirar seu pônei da chuva, mini-aranha. — Pepper pescou a afilhada por um braço e a puxou para seu colo. — Seu corpo pode até se reparar depressa, mas álcool causa danos cerebrais, e você ainda está crescendo.

— O tio Tony bebia horrores, e ainda é um gênio. — Tony escondeu o rosto nas mãos, resmungando um “eu mereço”, enquanto a maioria sufocava o riso.

— Pois é. Imagine o que ele seria, se não bebesse. Talvez tivesse habilidades sociais. — Pepper foi irredutível, e um olhar de Natasha disse à filha que o assunto estava encerrado, fazendo a pequena apenas dar de ombros.

— O álcool é o que compõe as minhas habilidades sociais. — Stark resmungou baixinho, mas não estava realmente aborrecido.

Não tardou muito mais para o cronômetro da ceia zerar, e a voz de JARVIS avisar polidamente que a ceia estava pronta. Foi o sinal para Steve, Banner, Clint e Natasha se levantarem e irem retirar tudo do forno; embora Tony fosse a favor de encomendar a ceia, Banner e Steve haviam sido a favor de preparar tudo eles mesmos, e tanto Natasha quanto Pepper aceitaram ajudar, ainda que suas habilidades culinárias estivessem aquém das dos rapazes. Desse modo, peru assado ao molho gravy, purê de batatas com ervas, torta de carne e legumes e outros pratos encheram o andar com seu cheiro delicioso. As sobremesas, como os pães de gengibre e bolos haviam sido encomendados por Tony e Pepper.

O delicioso jantar em conjunto pareceu algo ainda mais íntimo e familiar: havia algo de muito próximo em partilhar o alimento, sentados à mesma mesa. Os assuntos prosseguiram livremente, até Lila olhar para os presentes embaixo da árvore, e de volta para os adultos, dando voz à pergunta que queria fazer:

— Como o Papai Noel pode ter passado aqui, se ainda não é dia de natal?

— Esses não são do Papai Noel, Lila. — Banner falou gentilmente, antes que Lucy dissesse qualquer coisa. Por uma troca de olhares, a menina entendeu que a prima ainda acreditava que Papai Noel era real, e não um símbolo, e que era saudável deixá-la pensar assim mais algum tempo. — Ele só vem no dia de natal, mas, como fizemos essa festa para juntar toda a equipe, nós mesmos compramos os presentes, para dar uns aos outros, e para vocês.

— Ah! Legal! Dois natais!!! — A resposta pareceu satisfazer a menina e o irmão, mas a garota Romanoff estava confusa:

“Tio Bruce, por que mentem para as crianças?”
“Não é exatamente uma mentira, Lucy. Fantasia, magia e encanto geralmente fazem parte da infância. E, ao contrário de você, a maioria das crianças confunde símbolos e ideias abstratas com a realidade. É mais fácil entenderem um conceito personificado, uma lenda. Entende?”

“Mais ou menos.” A verdade é que não entendia muito bem, mas afinal… Como podia saber o que era saudável ou não, quando só agora começava a experimentar o que era ser uma criança?

A mão da mãe em suas costas confortou Lucy, assim como os pensamentos da mãe:

“Não tem nada de errado com você. Absolutamente nada. Você é diferente, mas não é ruim: pode participar de coisas que a maioria nunca poderia. Não estaríamos tendo uma das melhores noites de nossas vidas, se não fosse por você.”

A menina sorriu e deitou a cabeça no ombro da mãe, que acariciou seus cachos com ternura. Sua garotinha especial. O amor que se pensara incapaz de sentir, maior do que qualquer outro.

***

As crianças agora brincavam com os presentes ganhos de Natasha — sabres de luz para simulações de combate real, resistentes a impactos, um para cada criança, na cor favorita de cada um: azul para Lucy, verde para Cooper e roxo para Lila — do casal Barton — um escudo do Capitão América para Lila, uma réplica do Mjolnir para Cooper e um arco e flechas sem ponta para Lucy — e dos demais. Lucy também ganhara coisas como três conjuntos de roupas de balé, de Pepper, em azul, branco e preto, com as sapatilhas combinando, um mini-laboratório de química e livros de bioquímica básica de Banner (ao qual amava ajudar no laboratório) e material de pintura. Thor dera às crianças punhais asgardianos legítimos, sem fio para os filhos de Clint, e afiado para Lucy, motivo pelo qual o presente foi deixado em sua bela caixa aveludada. Fora realmente um natal proveitoso para os pequenos!

Os adultos também trocaram seus presentes: Natasha dera a Steve uma caixa de desenho e pintura que, aberta, tornava-se também um cavalete ou prancheta; Thor presenteara o arqueiro com flechas congelantes de Asgard; Tony ganhou do amigo uma garrafa do raro hidromel de Alfheim, capaz de acelerar a recuperação do corpo e da mente — particularmente útil para um dos membros da equipe no qual geralmente se concentrava a carga pesada. Banner ganhara de Romanoff um conjunto de vasos tibetanos em puro bronze, para auxiliá-lo na meditação, mas também porque sabia o quanto o amigo apreciava a cultura mística do oriente. Foram apenas alguns dos presentes trocados, mas o de Tony para Pepper foi deixado por último.

Tratava-se de uma caixa mediana, não tão funda, mas ampla. Quando a moça rasgou o papel, viu várias coisas cuidadosamente arrumadas ali: um álbum encadernado que, ao ser aberto, revelou fotos de todos os seus melhores momentos com Tony. Momentos que fizeram seus olhos marejarem. Um pendrive etiquetado como “todas as melhores músicas da Pepper”; uma garrafa de seu espumante favorito, junto com pequenas lembranças como o primeiro contrato que assinara com as Stark Industries, suas promoções, acordos fantásticos que conseguira fechar… Era como… Uma reconstrução de suas vitórias, e dos momentos em que estivera com Tony. E no centro, em uma cestinha redonda e almofadada, uma carta sob uma caixinha de veludo. O coração da executiva batia tão rápido e com tanta força, que podia sentir a pulsação em seus ouvidos, as mãos trêmulas quando abriu a carta — selada com cera e sinete, do modo como ela amava ver em filmes — e leu as linhas escritas na inconfundível caligrafia de Tony:

Meu amor

Por todos os últimos anos, você esteve ao meu lado. Sei que nem sempre fui alguém fácil de conviver… Certo, eu muitas vezes fui péssimo de se conviver, mas ainda assim você esteve ao meu lado. E como o idiota que sou, nunca falei as coisas que devia dizer na hora, então preferi escrever: escrever que, desde o começo, eu vi você. Vi suas conquistas, seu esforço, inteligência. Sua coragem e gentileza. Como consegue ser firme, empática, doce, ou assustadora. Nunca falei, mas sempre te enxerguei, mais clara que o sol, o único ponto estável nas minhas loucuras. E por tudo o que você é, por todas essas qualidades, eu te amei.

Não me considero digno de você, é verdade. Mas tento todos os dias ser um homem melhor. Um homem que te mereça. E por você, quase sem perceber, eu mudei, porque esse é o seu dom, Pep: posso ser um engenheiro, e consertar máquinas quebradas, mas você… Você tem essa magia especial de enxergar alguém por sob todos os disfarces, e consertá-las, fazê-las a melhor versão de si mesmas, com nada além de seu bom senso, generosidade, firmeza e caráter.

Então, o que quero dizer com esta carta, e com tudo o que está na caixa, é que eu te amo. Amo tudo em você, e cada menor pedaço da sua vida, seja um sorriso, uma lágrima, um olhar, é um tesouro que quero capturar e guardar para sempre. Você me fez descobrir que tenho um coração, e ele te pertence por completo.

Não posso prometer que uma vida comigo será fácil… Você bem sabe que não é. Mas posso prometer fazer o impossível para te proteger, jamais mentir ou esconder algo novamente, confiar em você… Ser digno da mulher que está lendo essa carta. E acima de tudo, faço a promessa mais importante, e também a mais fácil: te amar todos os dias da minha vida, a cada segundo, e ser eternamente grato por ter ao meu lado a prova de que anjos realmente existem, mas não têm asas: têm olhos mágicos, que enfeitiçam e trazem à tona tudo o que há de melhor em que os cerca.

Então, tendo dito um pouco de tudo o que você mereceria ouvir — o que levaria tempo e número de folhas impraticável — peço que abra a caixinha de veludo, e responda a pergunta ali dentro.

Potts já sequer tentava segurar o choro que molhava seu sorriso, quando abriu a caixinha. Ali, um anel de brilhantes, lindo e provavelmente caro, mas discreto o suficiente, como ela gostava. E na parte de dentro da tampa, um simples bilhete:

Casa comigo?

Pepper colocou a caixa com cuidado ao seu lado, e se virou para Tony com lágrimas escorrendo profusamente por seu rosto bonito. O engenheiro também estava emocionado, e foi com voz embargada que perguntou, agora verbalmente:

— Virginia Potts, quer se casar comigo?

A resposta da mulher foi beijá-lo com toda a emoção que sentia, alheia à comoção causada na sala. Vagamente ouvia os rapazes congratulando o casal, e palmas, mas tudo em que conseguia focar era Tony: seu gosto, seu cheiro, seu calor, a barba macia que arranhava devagar seu rosto… E quando finalmente se afastaram, ambos eram apenas sorrisos:

— Mesmo que isso me custe a minha sanidade, física ou mental, Tony Stark, não há nada que eu queira mais do que ser sua esposa!

Tony poderia explodir ali mesmo, de pura e perfeita felicidade. Suas mãos acariciavam o rosto de Pepper, fitando-a em estupefação e maravilha, quando uma vozinha infantil se fez ouvir:

— Ah, beija logo!!! — E vindo de um lugar acima, um ramo de visgo flutuou no ar bem acima de suas cabeças! Ah, não, não flutuando! Pendurado em uma linha fina, bem segura na mão de Lucy, que se debruçava no peitoril do andar de cima!

— Lucy!!! — Steve começou a ralhar, mas Natasha interveio:

— Tradição é tradição.

Tony olhou para a afilhada em meio a risos, meneando a cabeça com extrema diversão, então voltou a fitar Pepper. Com cuidado, segurou sua mão direita e deslizou o anel em seu dedo, antes de repetir as palavras de Natasha:

— Tradição é tradição. — E ante o maravilhoso sorriso da mulher, beijou-a novamente, dessa vez mais suave, profundo e lento, perdendo-se totalmente na mulher que possuía hoje e sempre seu coração. Depois precisaria agradecer a Lucy e Natasha pela ajuda em criar o pedido de casamento perfeito, mas no momento Pepper era seu universo.

Notas finais
É isso, gente! Feliz Natal atrasado, e um excelente ano-novo! Que venha 2021, com menos loucuras do que 2020! Toda a felicidade do mundo para vocês, meus anjos!!!