A Aposta - Frerard
1 One
Notas iniciais
Enjoy (:
O insuportável toque do despertador lutava para me acordar, mas a inconsciência estava agradável demais ceder.
- GERARD WAY! EM PÉ, JÁ! – Minha mãe esmurrava a porta, e gritava, me acordando abruptamente.
- Não quero ir – Retruquei, enterrando a cabeça no travesseiro.
- AGORA GERARD! – Gritou ela mais uma vez, então pude ouvir seus passos se distanciando. Suspirei alto, rolando os olhos. Eu odiava acordar aquele horário apenas para ir para a escola. Do que me adiantaria ir para aquele inferno? Levantei-me, jogando a coberta longe, e fui ao banheiro. Tomei banho, escovei os dentes, me sequei e tentei ajeitar meu cabelo. Delineei meus olhos com um lápis preto e finalizei com um rímel. Encarei-me no espelho. Cabelos pretos compridos, corpo com músculos pouco definidos, mas dava para o gasto, e olhos verde-oliva. Em pouco tempo, tornei-me o cara mais desejado da escola. E, é, eu gosto disso. Fui para o quarto e comecei a me vestir. Calça jeans preta e justa, camiseta preta com alguns desenhos aleatórios e um Converse de cano alto.
Apanhei minha mochila e enfiei nela tudo o que precisaria hoje para a escola. Peguei minha carteira, as chaves do meu carro, meu celular e meu IPOD e joguei lá dentro também. Então desci para a cozinha.
-Hey mãe, já to pronto. – Murmurei, dando-lhe um beijo na testa.
- Que bom, o café está quase pronto. – Respondeu-me ela, sorrindo.
Me joguei em uma cadeira e fechei os olhos, inclinando a cabeça para trás, inspirando o delicioso cheiro de café fresco.
- Oi filho, que bom que já acordou – Ouvi minha mãe dizer e entreabri os olhos, vendo Mikey, meu irmão mais novo.
- Bom dia Miks.
- Bom dia Gee, bom dia mãe. – Mikey beijou minha mãe, assim como eu havia feito, depois bagunçou meus cabelos e se sentou ao meu lado. Michael era alto, magro e esguio, com cabelos castanhos claros, usava óculos de aros retangular, que dava a seu rosto um formato infantil. E tinha os olhos castanhos esverdeados, mais escuros que os meus. Caso você não tenha percebido, eu sou um grande observador, acho que isso ajuda muito com os meus desenhos.
- E o Frank, querido? – Perguntou minha mãe, enquanto nos servia torradas com ovos mexidos. Hum, delícia. Peraí, FRANK?
- O bichinha dormiu aqui de novo? – Perguntei, chocado. Aquele moleque tava levando meu irmão para o mau caminho.
- Dormi sim – Murmurou alguém atrás da porta. Me virei automaticamente e o vi. Frank Iero, o melhor amigo do meu irmão. Não tinha nada de incomum nele, a não ser o fato dele ser gay. Era pequeno, tipo um pigmeu, seus cabelos eram pretos e compridos (embora não chegassem ao comprimento do meu), tinha os olhos castanhos esverdeados, eu acho, nunca prestei muita atenção. Enfim, o nanico tinha o corpo completamente tatuado, até os dedos. Além de ter um pequeno arco preto no lábio inferior.
- Do que você o chamou Gerard Arthur Way?- Minha mãe falou pausada e perigosamente. Engoli em seco. Ela acolhera Frank de tal modo que não percebia o desgarrado do mundo que ele era. Por deus! Ele era gay!
- Chamei-o de baixinho mãe – Disfarcei, sorrindo torto.
- Bom mesmo, pensei ter ouvido errado – Depois de estreitar os olhos para mim, ela virou-se para Frank – Bom dia querido.
- Bom dia tia – Ele sorriu sem graça e a beijou no rosto também. Ah, fala sério, tia? Quantos anos ele tem? 10?
Rolei os olhos e enchi meu prato, começando a comer imediatamente. Servi uma xícara de café, para acompanhar.
- Você podia comer que nem gente? – Debochou Mikey, erguendo as sobrancelhas com desdém para mim. Percebi que minha mãe não estava na cozinha e abri um sorriso malicioso.
- Desculpe por não comer igual ao bicha do seu namorado. – Ao lado de Mikey, Frank virou um pimentão e baixou os olhos, parecendo se concentrar demasiadamente em sua comida. Ele nunca revidou um comentário meu sobre sua sexualidade, sempre baixava a cabeça e ouvia calado. Era bom no começo, mas ficava chato depois de um tempo.
- Para com isso Gerard – Resmungou meu irmão, irritado – Nós somos amigos.
- Aham, sei. E dormem juntos todos os dias por quê?
Mikey corou também.
- Isso não é da sua conta.
Eu gargalhei, tomando mais um gole de café.
- Toquei no ponto fraco não é?
Mikey começou a se levantar, mas o viadinho o puxou de volta.
- Deixa Miks. – Sussurrou ele.
Eu ri novamente.
- Ah, que cena romântica!
- Cala a boca Gerard! – Meu irmão levantou a voz, semicerrando os olhos.
- Só estava perguntando o porquê desse viado ficar aqui todos os dias. – Dei de ombros e encarei o casalzinho. – Por que hein?
Frank suspirou alto e ergueu os olhos para mim.
- Meus pais me expulsaram de casa, desde a sua última brincadeira.
Sua resposta me surpreendeu, e eu tentei me lembrar qual tinha sido a última vez que aprontara com ele. Foram tantas...
- O que? – Foi só o que eu consegui pensar em falar.
- Quando você disse para a escola toda que me viu beijando o
Tyler. E tirou fotos. – Frank sorriu irônico – Meus pais foram avisados, eles ainda não sabiam de nada.
Franzi a testa, lembrando agora do ocorrido.
- Hum, coitados. Acho que eu também enlouqueceria se tivesse um filho gay – Eu ri alto novamente, enfiando mais ovos e torradas na boca.
Mikey se levantou novamente, havia raiva no seu olhar.
- Se continuar falando isso, você não vai ter um filho nunca! – Ele avançou, mas Frank o segurou com força por trás.
- Chega Mikey! – Disse, levantando a voz – Vai escovar os dentes, senão nós perdemos o ônibus.
Mikey se soltou com violência e saiu da cozinha, batendo os pés. Frank sentou novamente e fechou os olhos, começando a estalar a língua. Aquilo me irritou.
- Quer parar? – Pedi com ignorância. Ele abriu os olhos, parecendo surpreso.
- Desculpe. – Murmurou. Então levantou-se novamente e colocou sua louça na pia. Eu já tinha comido o bastante, e fiz o mesmo que ele.
- Bom meninos, acho melhor irem indo, o ônibus vai passar daqui a pouco. – Minha mãe surgiu novamente na cozinha, agora com os braços cheios de roupas limpas recém recolhidas do varal.
- Meu carro voltou do conserto! – Exclamei, animado com a novidade. Meu amado carro tivera alguns problemas no motor e eu tive que ir pra escola de ônibus durante duas semanas. Mas finalmente o martírio tinha acabado.
- Ótimo! Então você pode levar os dois e... – Começou ela, mas eu a interrompi, meio chocado.
- Quê?
- Oras, pra que gastar dinheiro indo de ônibus se o carro está à disposição?
- Meu carro não está à disposição do Mikey e daquela bicha desgraçado! – Vociferei extremamente irritado. – Sabe o que vai acontecer se eu chegar na escola com ele? Vou ser motivo de piada por toda a escola!
- Olha como fala comigo Gerard! – Disse minha mãe, levantando a voz – Não quero saber o que seus amigos vão falar. Quero o Mikey e o Frank naquele carro, AGORA!
Saí esbravejando baixinho, pendurei minha mochila em um dos ombros e coloquei os óculos escuros para esconder as olheiras sempre presentes em meu rosto. Não era minha culpa se eu tinha insônia e só conseguia pegar no sono quando já era quase de manhã.
- Dá pra vir logo? – Berrei para a escada, ainda irritado. Os outros alunos iam cair matando em cima de mim quando eu chegasse com o Iero. Eu estremecia só de pensar nisso.
Logo meu irmão e o projeto de gente desceram as escadas. Estavam rindo de alguma coisa.
- Estão prontos? – Perguntei, ainda irritado.
- Prontos – Disse Mikey – Só de pensar que não vou ter que ficar esmagado no ônibus...
- Garanto que não se importa em esmagar a minha popularidade e... – Quando eu ia começar a xingá-lo, Frank me interrompeu.
- Olha, se você preferir, eu posso ir de ônibus, eles não se importam de te ver com o Miks.
Me virei ainda mais irritado para ele.
- Quer parar de bancar o bonzinho? Vai dar o cú pra alguém e não me enche o saco! – Sai de perto deles e fui para a garagem – E ANDEM LOGO!
Entrei no carro e bati a porta. Liguei o motor e tamborilei os dedos no volante, tentando me acalmar. Aquele menino era idiota, sempre tentando dar uma de fodão, tentando ser bom em tudo. Aquela bondade toda me deixava puto da vida!
Logo os dois entraram no carro. Mikey parecia irritado, mas estava se controlando. Já Iero estava calmo. Em pedido de Mikey, ele se sentou ao meu lado, deixando meu irmão no banco de trás. Talvez fosse melhor assim, a reação do Mikey na cozinha me assustou um pouco, ele nunca tentara me bater, não com raiva daquele jeito.
Fiz o trajeto para a escola em silêncio. Mikey estava de olhos fechados e aparentava dormir. E Iero apenas olhava pela janela. Parei em um sinal e percebi, meio pasmo, que seus olhos estavam vermelhos.
- Você tá chorando? – Perguntei perplexo.
Ele estremeceu e não me respondeu.
- Hey, sua bicha, to falando contigo – Minha voz saiu rude, mas eu não me importei.
- O que você quer Gerard? – Perguntou ele cansado, virando-se para me olhar.
Seus olhos estavam mesmo vermelhos.
- Te perguntei se você estava chorando.
- E por que você quer saber? – Retrucou ele.
- Por que eu quero oras! – Respondi irritado, voltando a dirigir.
- Não, Gerard, eu não estou chorando. – Me dizendo isso, voltou a olhar pela janela.
Dei de ombros.
- Ouvi dizer que as bichas são sensíveis.
Ele suspirou pesadamente.
- Você não quer esperar para me humilhar na frente dos outros? Só estamos os dois aqui, ninguém vai fazer coro pra ti.
Fiquei quieto depois dessa.
Depois de um tempo dirigindo (a escola era longe) em silêncio, voltei meu olhar para Iero, que tinha pego um livro, e parecia realmente concentrado.
Espiei a capa: Harry Potter e a Câmera Secreta.
Pelo menos tinha bom gosto.
Quando eu estava tentando manobrar para entrar no estacionamento, ele guardou o livro e se inclinou para trás, apoiando um braço no meu banco para ter impulso.
O filho da puta cheirava bem.
Não gostei da proximidade, meu cérebro parecia programado para odiá-lo e repeli-lo de todas as formas, e a constatação dele tão perto me deixou sem graça.
- Hey Mikey – Sussurrou ele, acariciando os cabelos do meu irmão, em uma tentativa de acordá-lo. Hum, gay. – Miks, acorda! – Ele então levantou um pouco mais o tom de voz, e Mikey abriu os olhos.
- Chegamos? – Perguntou, desconcertado.
- Sim – Pude ver seu sorriso de relance, quando ele voltou para o seu lugar, encostando levemente seu braço no meu ombro.
- Me desculpe! – Disse sem graça, ao ver minha expressão.
Consegui estacionar o carro e eles desceram. Mikey passou reto, indo em direção a biblioteca, enquanto Iero-bicha arrumava a mochila, murmurando algo como: Obrigado pela carona. E saiu também.
Eca, enfim só.
Peguei minha mochila, ajeitei novamente meus cabelos e conferi se meu lápis não tinha borrado. Ok, tudo em ordem.
- Hey dude! – Ray, meu melhor amigo, apareceu assim que eu pus o pé para fora do carro.
- Hey. – Nós nos cumprimentamos e seguimos para dentro da escola. É claro que no caminho, várias pessoas paravam para me dar um oi, algumas meninas até se atreviam com um selinho. Eu sinceramente não me importava, e agradecia a Deus por ninguém ter me visto com o Iero-bicha.
- Ah, tem uma pessoa que quer falar com você. – Avisou Ray, assim que nos sentamos na sala de história.
- Quem? – Perguntei curioso, tirando meu caderno de dentro da mochila.
- O Bob.
- O Bob? – Repeti, certo que não tinha ouvido direito. Bob era o antigo “rei” da escola, e quando teve que se mudar, deixou o posto para mim. Enfim, éramos amigos. Mas da última vez que tive noticias dele, estava morando em Londres. – Ele voltou?
- Sim. E quer o lugar dele de volta. – Ray ergueu as sobrancelhas para mim, como se me perguntasse o que eu ia fazer. Dei de ombros, esperaria o Bob falar comigo.
Notas finais
obrigada pela compreensão.
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