A Alma de Agome
2 A Lenda da Lua
Notas iniciais
Saint-Exupery
Quando cheguei em casa, fui recebida com muita alegria pela minha mãe que me abraçou e me beijou a testa.
__Filha, que bom que veio com tempo para ir ao aniversário da Yuka!—disse minha mãe sorridente como sempre.
Apenas sorri concordando.
Ela começou a olhar por trás de mim, como se esperasse mais alguém.
Suspirei. –Ele não vai vir mãe.
Ela ficou preocupada, o que era a última coisa que eu ia desejar para aquela noite. Então, sorri para espantar as imagens da minha mente e disse á ela para que não se preocupasse.
Enquanto vestia minha fantasia de coelhinha (minha fantasia consistia em um vestido branco bem justo e com um rabinho de pompom rosa, sem mangas e nos pulsos braceletes do mesmo material que o rabinho e lógico, orelhas de coelho), lembrei que tinha que levar um presente! E agora, o que eu ia fazer? Nem tinha terminado de formular meu pensamento e minha mãe apareceu na porta do quarto com um embrulho vermelho.
Suspirei aliviada. __ Você realmente é a melhor mãe do mundo!
Chegando à festa, encontrei Yuka e minhas outras amigas rindo. Elas estavam tão felizes que doía. Me aproximei e quando elas me viram, fizeram uma cara de espanto tamanha que era como se eu fosse uma assombração. Mas depois elas sorriram e me abraçaram. Minhas amigas. Tinha sentido tanta saudade delas!
__ Agome! Seu avô tinha dito que você tinha quebrado a perna e por isso não viria. –disse Yuka
Dei uma risadinha pra disfarçar minha surpresa.
__ Meu avô exagera demais! Foi alarme falso, fui ao médico e ele disse que eu apenas tinha torcido. Mas não tem importância. Aqui está seu presente! Espero que goste.
Em seguida desejei tudo de bom que uma amiga deseja à outra em seu aniversário. Menos namorados. Isso eu fiz questão de não falar. Ela não precisava de mais dor de cabeça e sofrimento.
__ Agome, agora, nos conta do seu namorado, aquele insensível e bruto!—pediu Ayume
__Conta as novidades! Contaaa... —insistiu Eri ao ver que eu não queria falar no assunto.
__ Eu não quero falar dele...Hoje é seu aniversário, Yuka. Vamos falar de você, o que conta de bom?—Disse eu tentando mudar de assunto rapidamente.
Eu disse tentando. Isso mesmo, TENTANDO, porque eu não consegui, obviamente.
__ Não Agome, agora você tem que nos contar! O que ele te fez?- disse Yuka.
As lágrimas queriam sair enquanto eu tentava contê-las. Eu não queria falar disso, eu não queria lembrar isso! Enquanto elas insistiam sem parar eu me confundia cada vez mais até que aconteceu.
__ Chega!!! Eu já disse que não quero falar no Inuyasha. – gritei e acrescentei suplicando—Por favor...
Neste momento as lágrimas já escorriam pelo meu rosto manchando toda a minha fantasia.
Elas ficaram boquiabertas iguais as pessoas das mesas ao redor. – Desculpe. Disse baixinho e sai correndo como sempre.
Sentei no jardim e olhei a Lua. Estava igual á noite anterior quando vi Inuyasha e Kikyou juntos. Esta imagem não podia ficar me torturando a vida inteira, afinal, quantas vezes eu já tinha visto os dois assim? Mas me doíam ainda as palavras proferidas por Inuyasha. Para ele, eu era um nada. Um nada! Como ele podia dizer isso? Eu o libertei do lacre da Kikyou, eu sempre estive ao lado dele em todos os perigos que corremos juntos, eu que... Eu localizava os fragmentos. Claro. Isso era o bastante para que ele ainda me aceitasse no grupo. Não importaria quantas vezes eu o salvasse, ajudasse, implorasse. Se por um acaso esse dom de sentir os fragmentos me fosse tirado, a primeira coisa que ele faria era me jogar poço abaixo, lacrar o portal e com os fragmentos que tinha se tornaria um youkai completo ou então, ressuscitaria Kikyou. Ele que fizesse o que bem entendesse!
Eu tinha partido a Jóia, agora era meu dever juntá-la de novo. Depois de cumprida a minha parte, iria embora para minha Era e não me importaria com o que ele iria fazer com a Jóia. Estava decidido. Então porque eu ainda não tinha parado de chorar? A dor ainda latejava em meu coração cada vez mais judiado e flagelado.
__ A Lua está linda não acha?—Levei um susto ao ver que Houjo estava do meu lado olhando para a Lua, como se não tivesse percebido que eu estava chorando, ou então, não queria tocar no assunto. Agradeci por isso.
__Está mesmo... —disse enquanto secava meu rosto com costas das mãos.
__Quando eu era criança minha mãe contava a história do Sol e da Lua. Gostaria de ouvir?
Confirmei com a cabeça sem parar de olhar para o astro brilhante no céu estrelado
-- “Quando o Sol e a Lua se encontraram pela primeira vez, se apaixonaram perdidamente e a partir daí começaram a viver um grande amor.
Acontece que o mundo ainda não existia e no dia que Deus resolveu criá-lo, deu-lhes então o toque final... O brilho!
Ficou decidido também que o Sol iluminaria o dia e que a Lua iluminaria a noite, sendo assim, seriam obrigados a viverem separados.
Abateu-se sobre eles uma grande tristeza quando tomaram conhecimento de que nunca mais se encontrariam. A Lua foi ficando cada vez mais amargurada, mesmo com o brilho que Deus havia lhe dado, ela foi se tornando solitária. O Sol por sua vez havia ganhado um título de nobreza "ASTRO REI”, mas isso também não o fez feliz.
Deus então os chamou e explicou-lhes:
__ “Vocês não devem ficar tristes, ambos agora já possuem um brilho próprio.
Você Lua, iluminará as noites frias e quentes, encantará os enamorados e será diversas vezes motivo de poesias.
Quanto a você Sol, sustentará esse título porque será o mais importante dos astros, iluminará a terra durante o dia, fornecerá calor para o ser humano e a sua simples presença fará as pessoas mais felizes.”
A Lua entristeceu-se muito com seu terrível destino e chorou dias a fio ... já o Sol ao vê-la sofrer tanto, decidiu que não poderia deixar-se abater pois teria que dar-lhe forças e ajudá-la a aceitar o que havia sido decidido por Deus.
No entanto sua preocupação era tão grande que resolveu fazer um pedido a Ele:
--“ Senhor, ajude a Lua por favor, ela é mais frágil do que eu, não suportará a solidão...”
E Deus em sua imensa bondade criou então as estrelas para fazerem companhia a ela.
A Lua sempre que está muito triste recorre às estrelas que fazem de tudo para consolá-la, mas quase sempre não conseguem. Hoje eles vivem assim .. separados, o Sol finge que é feliz , a Lua não consegue esconder que é triste. O Sol ainda esquenta de paixão pela Lua e ela ainda vive na escuridão da saudade.
Dizem que a ordem de Deus era que a Lua deveria ser sempre cheia e luminosa, mas ela não consegue isso ... porque ela é mulher, e uma mulher tem fases. Quando feliz consegue ser cheia, mas quando infeliz é minguante e quando minguante nem sequer é possível ver o seu brilho.
Lua e Sol seguem seu destino, ele solitário mas forte, ela acompanhada das estrelas, mas fraca. Humanos tentam a todo instante conquistá-la, como se isso fosse possível. Vez por outra alguns deles vão até ela e voltam sempre sozinhos, nenhum deles jamais conseguiu trazê-la até a terra, nenhum deles realmente conseguiu conquistá-la, por mais que achem que sim. Acontece que Deus decidiu que nenhum amor nesse mundo seria de todo impossível, nem mesmo o da Lua e do Sol ... e foi aí então que ele criou o eclipse !
Hoje o Sol e a Lua vivem da espera desse instante, desses raros momentos que lhes foram concedidos e que custam tanto a acontecer. Quando você olhar para o céu a partir de agora e ver que o Sol encobriu a Lua é porque ele deitou-se sobre ela e começaram a se amar e é ao ato desse amor que se deu o nome de eclipse. Importante lembrar que o brilho do êxtase deles é tão grande que se aconselha não olhar para o céu nesse momento, seus olhos podem cegar de ver tanto amor.”
Fiquei quieta por um instante a mais, digerindo cada palavra que Houjo havia dito e pensando no sofrimento da pobre Lua, designada a assistir os enamorados todas as noites, zelando por eles que sentados observando-a muitas vezes nem sabem que ela está para sempre condenada a ficar longe do seu amado Sol, e obrigada a assistir tudo o que se passa frente á ela, forçando-a relembrar de cada instante de amor, de paixão que poderia ter ocorrido, mas não ocorreu.
__ É realmente lindo o que disse. –olhei para ele e sorri timidamente.
__ Depois que minha me contou essa lenda, todas as vezes que olho para a Lua, é como se eu sentisse seu sofrimento, entende? Condenada a viver na escuridão, tão solitária...
__Obrigada. – disse.
__Pelo que? Não te fiz nada, apenas contei uma história...
__ Me fez me sentir um pouco melhor... Ver que alguém também sente o mesmo que eu...
__ Minha mãe dizia que a Lua zela pelos namorados e trata dos corações feridos. Nunca tinha entendido, mas agora está tudo claro para mim. Ela é como uma amiga confidente, e pode consolar as pessoas, que como ela, estão sofrendo por amor.
__Sua mãe é muito sábia...
__ Mas...
__ Mas o que?
__ Estamos perdendo uma festança!! Vamos! Te ajudo a levantar. – Ele me deu sua mão para que eu me levantasse e colocando sua mão na minha cintura, perguntou: --Me concede a próxima dança, coelhinha?
__ Claro, claro.
E pela primeira vez em dois dias, eu tinha me esquecido que alguma vez na minha vida, tinha cruzado um portal que me levava á Era Feudal.
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