A Agonia que é Viver

6 Parte II - O inimigo dos outros.


Silêncio,

Ele está dormindo.

Não acordem aquele

Que se diz inimigo

Inimigo de quem?

Dos outros.

O inimigo deitado em sua cama

Você o observa, percebendo,

Que o convidou para entrar

Quando negou a própria raiva

Quando a enfiou em seu coração

(Tranca!) chorou, ao gritar.

Você o convidou para entrar

Quando escolheu fingir

Que não via o nojo dentro de si

Tantas mentiras a vida toda

Mas a náusea era a prova

De que a repulsa existia.

E agora,

Em suas entranhas ele vive

O sangue que corre, que jorra

Enquanto ele se acomoda

É mais aceitável que o nojo

Que vive em sua mente

Uma resposta, uma reação

Ao inevitável pensamento

Inevitável sentimento doente

Você o convidou para entrar

Quando quis jogar fora a própria pele

Mas escolheu mantê-la

Ele sabe que você é covarde

Mas não te julga

Te invade

Ele dorme mas sabe de tudo

Sabe pois você o permitiu saber

Em suas entranhas ele vive

Se acomodando

Fazendo seu ventre doer

Silêncio enquanto ele dorme em seu ventre

Ele já examinou a sua tristeza

Quando você chora, ele sente

Ele não some e nem foge

Não trabalha com metáforas,

É sempre claro e direto:

“Hoje te guio, hoje já és minha

Quando eu acordar, me alimentarei da sua alma

Vomitarei contigo o nojo que você sente

Encontraremos os restos de culpa jorrados

Resíduos amargos de raiva e cansaço

Iremos vomitar por sete dias seguidos

Para então, finalmente, trocar o seu corpo

Irei virá-lo do avesso, esse corpo vazio e sem alma

Pronto para virar algo novo

Algo que ainda não existe.”