A Agonia que é Viver

23 "How to keep yourself locked".


Havia um outro eu, em um outro mundo

Ele vivia isolado em uma ilha deserta

Exilado de tudo.

Não foi difícil para mim me desprender

O desapego veio facilmente

Eu mal esperava para deixar de o ver.

E quando ele chorava, eu não ouvia

Quando ele gritava, eu não ouvia

Quando esperneava, surtava e implorava

Eu não ouvia.

Em minha própria dimensão

Eu vivia livre de sua companhia

Com o coração leve e a mente vazia

Finalmente só, os dois em sintonia.

E ele lá, esquecido

Brincando com a areia

Sem água ou comida

Os lábios ressecados

Nas noites frias e ríspidas.

E eu nem pensava nele

Nem notava sua ausência

A única coisa que lembrava,

Com certeza,

Era apenas sua aparência.

Seu olhar profundo, decorado por olheiras

Lábios inchados, de chorar a noite inteira

Mas nada disso me comovia

Era tudo uma grande besteira.

Mas depois de um tempo

Comecei a notar

Que ele havia conseguido ganhar voz

E comecei a o escutar.

De alguma forma, real ou mística

Começou a se comunicar através dos meus sonhos

Me enviando mensagens

Em formas de imagens.

Mesmo longe, expulso de mim

Ele continuava incomodando o meu ser

Transbordando em meus sonhos

Nunca bem vindo, mas sempre aqui

Tentando aparecer, alcançando a mim.

Talvez tenha encontrado um barco

Construído uma jangada

Para finalmente voltar

Enquanto isso busco formas

De o fazer parar.

Será que voltará pior do que antes?

Com raiva por ter sido abandonado?

Com remorso por ter sido deixado de lado?

Sinto que em breve saberei

Já consigo ouvir os seus lamentos

Silenciosos, como sussurros

Murmúrios bruscos e soluços.

Abandonado, sentia-se como uma criança

Em um quarto onde as janelas abertas

Traziam lembranças.

Ventos que balançavam as cortinas

O frescor do vazio

Deixado por seus responsáveis

Sozinho e com frio.

Era isso que eu havia feito

Ao deixá-lo naquela ilha

Mas nem sequer me culpar, ele poderia.

Pois com ele ao meu lado,

Eu não existia.