A última Cruzada
2 O fim
A Última Cruzada
O Fim
Acordou-se com o apetitoso aroma de um ensopado recém preparado. Ao abrir o olho, viu Celeste separando os alimentos em dois pratos, fumegantes.
- Não é como a comida de uma boa matrona, mas espero que goste. – ela disse com seriedade.
- Está com um bom aspecto. – ele respondeu timidamente enquanto pegava um prato que ela oferecia.
Ficaram saboreando o ensopado durante algum tempo calados. A perturbação inicial do cavaleiro parecia ter acabado e após terminarem suas refeições, Jean foi o primeiro a falar.
- Eu quero lhe agradecer por ter salvado a minha vida e pedir desculpas pela minha arrogância com você hoje de manhã... Celeste.
- Eu já disse que não precisa agradecer e quanto a sua... Arrogância, não se preocupe. O ópio sempre provoca esse efeito mesmo.
- Ópio?! Você me drogou?!
- Claro! Ou você achava que agüentaria toda a dor da costura a sangue frio?
- É verdade... – depois de mais algum tempo de hesitação, voltou a falar. – Você é da ordem dos Templários? Eu não sabia que a Igreja aceitava mulheres no exército.
- Sim, sou uma templária. – ela respondeu. – Mas sou a única. A Igreja não aceita mulheres nas guerras. Para os homens, mulheres só nasceram para cuidar dos deveres do lar e ter filhos.
- Eu não concordo.
- Não? – Celeste indagou com surpresa ao ver o ar sério de Jean ao proferir a negativa.
- Não. – ele voltou a repetir. – As mulheres nasceram para serem protegidas e amadas. Não concordo quando dizem que uma mulher é um instrumento do demônio, pois a mulher foi a última criação do Senhor... foi a complementação de Adão... foi o olhar mais suave de Deus.
A ruiva não deixou de sorrir ao ouvir tão singelas palavras vindas de Jean.
- Quem criou você? – ela perguntou agora mais interessada no que o jovem templário poderia dizer.
- Meu pai. Minha mãe morreu logo depois que Joanne nasceu. De uma doença conhecida como rubéola. Ah! Joanne é o nome da minha irmãzinha.
- Então devem ser uma família bem feliz.
- Sim, somos. Como você descobriu? – ele perguntou ressabiado.
- Fácil. Seu olhar me disse tudo. – ela falou enquanto se levantou rumo a uma pequena mesa feita de madeira tosca, pegando de lá, tiras limpas de pano e um frasco. – E antes que pense que sou uma bruxa, vou logo dizendo: na arte da guerra, é imprescindível que possamos conhecer os atos do inimigo através do simples olhar. Entendeu?
- Entendi. – ele respondeu ao ver a mulher se aproximar de sua cama e começar a retirar as ataduras que cobriam sua ferida. – E você? Foi criada com seus pais ou é órfã?
Nesse momento, Celeste levantou o olhar para o rapaz. O que responder a ele? Como tentar amenizar a sua real história? E como explicar as suas reais intenções naquele lugar? Agora, ela se sentia incomodada com tudo aquilo, pois sabia que ele estava sendo sincero em suas palavras, mas ela...
- Vamos começar do princípio. – ela começou, após um leve suspiro. – O meu nome é Celeste e fui criada pelo meu pai até um certo tempo... Depois, eu me tornei órfã... Na realidade... Eu morri para o meu pai.
- Seu pai a renegou, Celeste? – Jean parecia cada vez mais interessado.
- De certa forma sim.
- E foi por causa dele que veio parar aqui? Como uma templária?
- Sim. – ela respondeu ao abaixar os olhos em direção à ferida do rapaz que já começava a dar os primeiros sinais de cicatrização. Detestava lembrar de tudo. Queria que com o seu castigo, suas memórias mais amargas tivessem sido apagadas, mas isso era pedir muito a Ele.
- Ah... O meu nome é Jean.
- Um belo nome. — Ela voltou a sorrir, contente também por ver que ele mudara o assunto. – Muito prazer.
- Celeste. – Jean voltou a falar. – Onde realmente estamos?
- Dentro de Jerusalém. – ela respondeu com naturalidade.
- O QUE?! DENTRO DE JERUSALÉM?!?!?!
- Pare de gritar! – Celeste disse em um tom ríspido. – Assim os sarracenos vão descobrir que há inimigos deles aqui!
- E eles não sabem?!
- É claro que não! Se soubessem, sua cabeça já estava pendurada em um poste há séculos!
- E a sua?! – ele indagou estreitando os olhos em direção à ruiva que parecia não se importar com aquela situação nada interessante.
- Não precisa se preocupar comigo. Eu sei me virar sozinha. – ela respondeu enquanto dava uma piscadela de olho para ele. – Agora descanse. Amanhã será um longo dia.
Nesse mesmo momento, no palácio real de Jerusalém, um homem de feições enegrecidas, trajando uma túnica e portando um ostentoso turbante na cabeça, se ajoelhava diante de um outro homem que sentado em um trono finamente decorado com ouro e com o mais puro veludo na cor roxa, ouvia o relato do outro, enquanto degustava uma bebida de cor avermelhada em uma taça de prata.
- Os inimigos sucumbiram aos nossos pés. Não se conta mais nenhum templário nos territórios circunvizinhos de Jerusalém.
- Perfeito. – o outro respondeu. – Saiba que todos vocês continuarão tendo o meu apoio e que essas terras “sagradas”, serão de vocês enquanto forem obedientes aos meus conselhos.
- Senhor. – o mesmo homem interrompeu respeitosamente. – Agradecemos a Alá por ter enviado seu anjo como o mensageiro das boas-novas. Mas é certo que todo o exército espera com expectativa o dia em que vossa santidade dirá seu verdadeiro nome e mostrará sua face de luz para que todos que ainda duvidem, caiam imediatamente aos pés do poder celestial.
Nesse momento, o outro homem se levanta do trono e indo em direção ao trêmulo homem, diz com um leve tom de escárnio na voz. – Ora, ora... então os homens ainda com toda a vitória que tiveram hoje continuam a ter as suas forças de fé tão fracas assim? Diga apenas que se são vitoriosos, dêem graças a mim, o mensageiro da ira divina. E se querem me chamar pelo nome, me chamem de “Mensageiro”.
- Sim, grande senhor.
E sem encarar o ser a sua frente, o homem sai com humildade da sala comunal do palácio, deixando o “Mensageiro” sozinho. Ele por sua vez, vai até uma espécie de espelho feito de bronze polido. Ao se mirar no objeto, ele se vê completamente coberto com uma manta de cor púrpura, que começando a cair, revela que aquele ser tinha um rosto e um aspecto corporal bastante feminino, apesar da voz extremamente grave e masculinizada. Possuía pele e cabelos claros, como um europeu, mas seus olhos violetas eram, ao contrário do que se esperavam, frios e cruéis e a boca de lábios finos formava um sorriso perigoso. Um ser, ao mesmo tempo, feminino e masculino. Um mensageiro das trevas. E assim, ele começa um monólogo desconexo e rouco.
- Sinto o seu cheiro podre e humano cada vez mais perto. Pois que assim seja. Venha até a mim e eu lhe darei a honra de morrer através da arma que matou Ele...venha...venha sem medo e atrevida como sempre foi...venha até a mim, Celeste...
...x...x...x...
Naquela noite, Celeste não dormiu. Eram tantos os pensamentos, tantas as ânsias, que sentiu que talvez não dormisse jamais. Porém, seus pensamentos não estavam centrados na batalha que travaria em algumas horas mais tarde, mas sim, no seu passado...seu passado mais remoto que a própria história da humanidade...
FLASHBACK
- Pare.
- Não me mande parar!
- E onde pensas que poderá chegar...assim?
Ela parou e se olhou com aqueles olhos humanos pela primeira vez. Estava com os pés feridos e o corpo que coberto por uma veste feita de pele de animal, estava completamente lavado de suor e poeira. A poeira do deserto rochoso da região hoje conhecida como Arábia Saudita vinha de encontro à mulher que fechava os olhos marejados de lágrimas a fim de protegê-los do pó seco. Sentindo-se fraca e vulnerável, replicou:
- Eu preciso encontrá-la...eu...eu fui a única culpada pelo fato dela existir agora...por isso eu tenho que encontra-la e destruí-la. Será que não compreende?
A resposta veio após outra rajada de vento.
- Você irá encontrá-la e destruí-la. Mas isso não será hoje. Nem amanhã.
A mulher sentiu-se mais impotente diante das palavras proféticas que acabou de ouvir. Como sinal de todo seu desespero, deixou-se cair de joelhos no chão pedregoso e assim, lágrimas incontidas em um olhar completamente perdido caíram naquele solo que não era tocado por uma gota de água sequer há muito tempo. Nesse momento, sentiu que era tocada no ombro. Levantou a cabeça e se viu dentro daquele olhar santo e angelical. E foi nesse exato instante, que sentiu a paz pela primeira vez, depois de tudo o que havia acontecido.
- Criança...menina que Ele chamou de Celeste. Ainda viverá muito até que chegue o “Dia do Juízo”. E durante esse tempo, viverá como mortal e sentirá tudo o que um mortal pode sentir. E assim, somente assim, estará preparada para enfrentar o seu outro “eu”. Aquele “eu” que afastou o seu verdadeiro “eu” das esferas celestiais.
Celeste agarrou aquela mão que a tocava e encostando o rosto sujo contra a pele alva daquele ser, confessou entre soluços. – Metraton! Ele ainda me odeia? Ainda vira a Face quando ouve sobre mim? Por favor, me diga!
- Celeste. – o arcanjo porta-voz dos céus responde em meio a um doce sorriso. – Como podes pensar que é odiada se foi Ele próprio que lhe deu tão sublime missão?
- Camille...
Celeste despertou abruptamente de tão longínquo pensamento, ao ver que Jean sussurrava tal nome com doçura. Sem dúvida, o jovem templário estava envolvido em um doce sonho. Com cuidado, ela se aproximou e o cobriu com outro lençol. Ao vê-lo tão jovem e tão destemido, lembrou-se dele naquele campo de batalha que a essa altura, estava apenas habitado pelos urubus. Nesse instante, Celeste finalmente decidiu o que iria fazer com ele.
O sol ainda nem havia nascido, quando Jean foi acordado por Celeste. Para o loiro, o sono – ou a provável reação da anestesia que havia tomado – era mais forte e por mais que tentasse seus olhos não o obedeceram e preferiram dormir novamente.
- Acorde Jean! – Celeste balançava o seu ombro com mais força. – Acorde agora, vamos!
- Celeste... – ele finalmente falou. – Me deixe dormir...
- Dormir?! Ora vamos! Acorde agora ou do contrário...
- O que você quer?! – ele finalmente despertou, sobressaltado.
- Quero que volte para o lugar onde você nasceu o mais rápido possível, vamos!
- Como é? – ele replicou surpreso.
- Vamos logo! – Celeste repetiu enquanto jogava para o assustado rapaz uma trouxa com roupas e algum alimento. – O cavalo já está selado. Saia daqui antes que os sarracenos o vejam dentro de Jerusalém!
- E você?!
- Eu vou terminar a minha missão. – ela respondeu enquanto dava uma piscadela marota de olho em direção a Jean que replicou mais uma vez.
- Espere! Não se esqueça que eu sou um templário também! Eu não posso retornar com uma derrota nas costas! Tenho que lutar para vingar todos os meus companheiros e principalmente Phillip!
- Jean. – Celeste respondeu com mais calma. – Você não tem a menor noção do que realmente está acontecendo nesta guerra. Há forças e interesses bem maiores do que você pode realmente imaginar. Mas eu não posso impedi-lo de ficar e lutar, pois os humanos têm aquilo que é considerado pelos anjos como o “dom maior”: o livre arbítrio. Mas é por isso, exatamente pela livre escolha que você pode fazer que eu lhe peço: volte para Saint Christ, cuide de seu velho pai e de sua irmãzinha mais nova e peça Camille em casamento. Jean...isso não é uma ordem. É uma súplica.
O jovem ficou completamente desarmado com as palavras de Celeste que eram tão puras e sinceras. Antes que ele abrisse os lábios para falar qualquer outra coisa, Celeste o abraçou de uma forma carinhosa e fraternal. Assim, continuou a dizer:
- E antes que você pense algo contrário, sei de Camille porque agora há pouco ouvi você dizer o nome dela repetidas vezes.
- Ela...se parece muito com você, Celeste.
- É? – ela o encarou e sorriu. – Então prometo que um dia os visitarei em Saint Christ.
Assim, o cavaleiro templário saiu do pequeno casebre e montando no cavalo que já o esperava impaciente, trotou, rumo ao portão principal das muralhas de Jerusalém que naquele momento, não tinham quase nenhuma segurança, o deixando passar sem nenhum problema, graças a um capuz que cobria o seu rosto completamente, não revelando assim a sua verdadeira identidade.
Ao vê-lo desaparecer por entre as ruas estreitas da cidade, Celeste entrou no casebre novamente, indo até um canto escuro, pegando um objeto que estava coberto por um tecido desgastado pelo tempo. Ao desenrolar tal objeto, um brilho frio e prateado permeou discretamente pelo local. Mais uma vez, ela usaria aquela arma tão divina, quanto mortal.
- Já estou chegando...Sephiroth.
...x...x...x...
O cavalo parecia voar tal era a sua agilidade e a de seu condutor. Jean não parou de cavalgar desde que saíra de Jerusalém e a cada metro que se distanciava da cidade, mais seu coração pulava de alegria e ansiedade. A vontade de retornar para os seus parentes e para a mulher que ele amava, eram bem maiores do que a sede orgulhosa de se tornar um herói, principalmente depois do que presenciou em campo de batalha e com as palavras ditas por Celeste. Assim, fechou os olhos e pôde sentir o doce aroma dos campos de trigo de Saint Christ.
Naquele exato momento, Celeste também cavalgava, mas seu rumo era outro: o castelo do Reino de Jerusalém. Não demorou muito para que seu cavalo fosse interceptado por dezenas de sarracenos.
- Alto lá! – um deles gritou, enquanto o cavalo de Celeste levantava as patas, assustado. – Como um templário como você entrou aqui?!
A resposta veio na forma de uma lança encravada no ombro do homem que se ajoelhou gemendo de dor, quando esta foi retirada com mais ímpeto.
- Meu assunto não é com vocês! – Celeste respondeu com convicção. – Meu assunto, é com o líder de vocês!
- Jamais verá a face do “Mensageiro da Ira Divina”! – outro gritou e assim, a ruiva se viu rodeada por homens armados e ensandecidos.
- Parem. – uma voz mais calma interrompeu, e todos viram outro sarraceno com um olhar calmo. – Diga o seu nome, mulher.
- Celeste Archangellus.
- Certo. – ele fechou os olhos e continuou. – Nosso senhor quer vê-la. Permita meus irmãos, a passagem dessa mulher até o castelo.
Imediatamente, um corredor humano se formou, dando passagem a jovem que dando ordens mecânicas ao animal, voltou a cavalgar novamente rumo ao portão principal do Castelo.
...x...x...x...
Os pesados portões estavam estranhamente, entreabertos. Mesmo assim, o cavalo passou pela fresta oferecida e cavalgou calmamente, enquanto seu condutor observava de olhos arregalados o mercado que geralmente, era abarrotado de gente e que naquele momento estava completamente destruído e onde as poucas barracas que ainda estavam de pé, eram lentamente consumidas pelo fogo. Com um mal pressentimento que invadiu sua alma, ele deu ordem ao cavalo que trotou rapidamente, adentrando mais no coração daquele feudo que pouco a pouco, mostrava toda a destruição e morte que agora resguardava. Homens, mulheres e até mesmo crianças jaziam mortas agora, pelas ruas lamacentas. Ele não chegou a tempo, mas toda a atmosfera daquele lugar o fez compreender tudo: Saint Christ havia sido devastado por mercenários e seus moradores não tiveram tempo algum de se protegerem daquele fim trágico.
- Meu pai...Joanne... – Jean balbuciava pelos parentes enquanto seus olhos petrificados miravam o interior da taverna de seu pai, agora completamente destruída. Mas o seu desespero finalmente aflorou quando lembrou-se de uma outra pessoa. – Camille!!!
Puxando as rédeas do animal com força, o jovem percorreu em um curto espaço de tempo, a distancia que o separava da casa onde Camille, a jovem que ele amou desde a mais tenra idade, morava. Chegando ao local, desceu do cavalo e sem dificuldades, abriu a portinhola que dava acesso ao cômodo central.
- Camille!!!
Desesperadamente, ele correu para junto da jovem que olhava para o nada. Jean rapidamente retirou o obstáculo que o impedia de tê-la nos braços — uma afiada espada que havia transpassado o tórax da moça e que agora estava prendendo seu corpo a uma porta de madeira – e imediatamente, o corpo desfalecido dela pousou nos braços do jovem que não conseguia controlar as lágrimas de desespero e dor.
- Camille! Camille fale comigo, por favor! – ele clamava sem obter nenhuma resposta. E foi nesse momento, que pôde ver que a jovem estava semi-nua, pois seu vestido azulado estava completamente rasgado e na região interna das coxas, ele notou que escorria um líquido viscoso.
- Ela poderia ter vivido um pouco mais, se não tivesse sido tão malcriada! Ehehehehe...
- Foi você!!!
O homem que apareceu por detrás de Jean, apenas deu de ombros. Imediatamente, mais dois homens saíram da penumbra. Ao contrário do que o loiro pensava aqueles não eram nem mercenários, tampouco, sarracenos. Tinham um aspecto louco, próximo às feições demoníacas que sempre o perseguia em seus pesadelos quando ele era uma criança. Antes mesmo que pudesse dizer alguma coisa, sentiu que um deles dava uma gravata em seu pescoço, o suspendendo do chão enquanto outro a sua frente, passava por cima do corpo da jovem, rindo maliciosamente e sacando a espada, atravessou-la no abdômen de Jean, que ainda se debatia. A dor, a frustração e a ira eram tão grandes, que nem mesmo a falta de ar pelo asfixiamento que sofria, o impediu de gritar.
- NÃO!!!
Uma rajada mais brusca de vento fez com que o cavalo desse uma leve empinada, despertando seu guiador do breve pesadelo. Jean ao contrário do que se pensava, não havia ainda nem chegado ao porto, mas sim, estava em um planalto, onde via-se na planície milhares de urubus satisfazendo sua fome com a carne pútrida dos combatentes templários mortos em batalha. O loiro deveria também fazer parte desse exército vencido, mas concluiu que não era a vontade de seu Senhor uma morte tão inglória como aquela, muito menos, a fuga covarde para Saint Christ. Com ímpeto, o jovem toma as rédeas do cavalo, tomando agora um rumo contrário: as muralhas centenárias de Jerusalém.
This is the end of all hope
É o fim de toda a esperança
To lose the child, the faith
Perder a criança, a fé
To end all the innocence
Acabar com toda a inocência
To be someone like me
Ser alguém como eu
O castelo estava completamente vazio, mas Celeste sentia que todo o ar ali estava impregnado pelo poder maligno das trevas. Após descer do cavalo e caminhar pelos longos corredores durante mais algum tempo, a jovem viu diante de sim uma grande entrada, completamente coberta por tecidos em cores vibrantes. Imediatamente, retirou o elmo que usava, e o atirou ao chão, fazendo um baque surdo. Os olhos dourados da mulher se estreitaram quando as cortinas a sua frente começaram a se abrir, dando passagem para um belo tapete vermelho que indicava em seu final, um esplendido trono onde o homem de aparência feminina a esperava, com um sorriso cínico nos lábios.
- Prefiro você de cabelos longos, Celeste.
- E você continua patético, Sephiroth. – Celeste respondeu não menos sarcástica. – Tão ridículo que me dá até vergonha de lutar contra você, mas fazer o quê, não é?
- É mesmo. Fazer o quê. – ele responde, se levantando e dando mostras de que por baixo dos leves tecidos que usava, ele também vestia uma armadura de tom enegrecido. – Também me sinto ridículo ao ter que enfrentar uma humanazinha de araque como você, mas sabe...Eu tenho que cumprir ordens do seu lado digamos...Mais inteligente.
Imediatamente Celeste se pôs em posição de ataque.
- Sabe o que eu sempre detestei em você, Sephiroth? As suas piadas sem graça! – e sem mais palavras, a mulher parte para cima do homem, empunhando sua reluzente lança prateada. Rapidamente ele se desvia da arma, em um único ataque parte o trono e uma pesada coluna ao meio.
- Que menina mal criada. – Sephiroth lamenta sorrindo.
- Fique quieto! – Celeste investe novamente, elevando seu cosmos e fazendo com que a lança, em um movimento de como se cortasse o ar, criasse uma forte rajada de vento vai a direção dele, que mal teve tempo de se defender, sendo assim, lançado ao encontro de vários pilares que desabam. Ao se aproximar cautelosamente até o provável local da queda, ela vê que uma nuvem de pó prateado parece cair do céu. Antes que tentasse compreender o que teria sido aquilo, a voz arrastada de Sephiroth se faz por detrás da jovem.
- Tsc, tsc...A poderosa Celeste é enganada pelo truque mais velho do oriente. Enganada pelo reflexo do espelho. – imediatamente, ele a abraça por trás, elevando o seu poder ao máximo. Nesse momento, a ruiva sente um odor fétido como se milhares de sepulturas estivessem sendo abertos naquele instante. Ao olhar para o chão, vê apenas um enorme buraco negro que logo pode perceber que era uma enorme cova aberta, repleta dos mais enojos répteis e insetos. – Conheça a sua nova casa, meu anjo...A última parada, antes do Inferno! – imediatamente seus braços a apertam mais, fazendo com que Celeste sentisse os som de seus ossos quebrando tal como a fina porcelana. A força aumentava cada vez mais e ela deixou que sua lança caísse naquele abismo imundo. O sabor do sangue já chegava a sua garganta e antes que se ferisse ainda mais, ela trincou os dentes, elevando novamente seu poder e com um movimento brusco, saiu do abraço do inimigo, dando um chute em seu rosto logo em seguida. Tal movimento a fez se desequilibrar, quase caindo no abismo. Segurando-se na borda, ela apenas ouve Sephiroth gritando palavras inteligíveis de dor.
- Vamos Celeste, isso não passa de uma ilusão! – a jovem dizia a si mesma, enquanto segurava sua lança que estava presa entre algumas ramagens empestadas por insetos. Com um movimento giratório, ela encravou a lâmina da lança na parede do abismo, que tal como um espelho, começou a se desfragmentar, “rachando” e “quebrando” toda aquela ilusãtoda aquela ilus parede do abismo, que tal como um espelho, começou a se desfragmentar, .o novamente seu poder e com um movimeno. Ao se levantar, a jovem sentiu que seus ferimentos estavam bastante graves. Cometera o erro de subestimar o poder daquele demônio.
- Ah...Você veio até aqui para saber se eu havia encontrado \"ela\", não é mesmo? — Sephiroth volta a falar, aparecendo por entre a poeira prateada de seu espelho ilusório. — Bem, \"ela\" está bem aqui, na minha mão.
Celeste arregalou os olhos. A lendária Lança do Destino, estava nas mãos daquele demônio que sorria alegremente. Ela jamais havia imaginado que Sephiroth a havia achado com tanta rapidez.
- Como a encontrou?! — Celeste indagou um tanto surpresa.
- Na realidade, ela me encontrou. — ele replicou, enquanto beijava a lâmina desgastada da velha arma. — E sabe o que a Lança me disse? Ela disse que está com sede...E que quer matar a sua sede com o seu sangue, ordinária! — rapidamente ele empunhou a lança e disse em um tom louco. — Eu, Sephiroth, o serafim maldito, senhor das catacumbas milenares, irei acabar com você de uma vez com todas, Celeste Archangellus!
Não havia mais tempo. A Lança era rápida demais em sua trajetória e Celeste ainda se encontrava de joelhos, arquejando de dor. Ela sabia que se tal arma a tocasse, sua alma estaria completamente condenada ao Inferno, nas mãos de seus inimigos. A mesma arma que havia perfurado o corpo do Ser Celestial, poderia facilmente aniquilar a vida de um anjo caído, como ela. Mas seus olhos não se desviaram da lança. Foi por ela que Celeste havia atravessado desertos para tomá-la das mãos do demônio Sephiroth e se assim fosse, morreria e continuaria a sua surda guerra contra as ordas infernais, no próprio Inferno.
Angels, they fell first but I\'m still here
Os anjos, eles caíram primeiro mas eu ainda estou aqui
Alone as they are drawing near
Sozinho enquanto eles se aproximam
In heaven my masterpiece will finally be sung
No paraíso minha obra-prima será finalmente cantada
- O quê?!
A indagação surpresa de Sephiroth fez com que Celeste voltasse a realidade. A arma teve seu destino bruscamente freado pelo corpo de Jean que servira de escudo.
- Jean!!! — Celeste gritou, tirando forças não se sabe bem de onde, para se levantar e aparar a queda do rapaz que ainda estava com a arma atravessada em seu abdômen. — O que está fazendo aqui?! Eu disse para você retornar!
- E vê...Tudo o que eu amo...Desaparecer? — Jean respondeu arfando, enquanto segurava a lança cravada com as mãos. — Não...Não sou um covarde...Eu sou... — ele arranca a arma, dando um grito de dor que logo é abafado por mais palavras. — Eu sou...Um herói.
Sephiroth não deixou de dar uma gargalhada com as palavras ditas pelo templário. — É isso que você protege, Celeste? Ai, ai...Que ridículo.
- Celeste... — Jean não se intimidou. — Vá e acabe com esse...Miserável... — ele lhe entrega a posse da Lança do Destino. — Por favor.
- É uma ordem. — Celeste respondeu enigmática. — Agüente só um pouco. Vai ser rápido.
Jean sorriu com dificuldade e Celeste se pôs na frente do rapaz. Nesse momento o demônio se deu conta do perigo que a sua imprudência o fez cair. — Eu poderia acabar com você com a Lança do Destino, mas essa arma merece um sangue bem melhor. — ela atira a Lança para um lado do salão e segura a sua lança mais firmemente. — Acho que essa vai cair como uma luva para você. — e elevando seu cosmo, cria uma névoa prateada que envolve todo o lugar. — Volte para o quinto dos infernos de onde nunca deveria ter saído! SOPRO DIVINO! — centenas de milhares de feixes de luz cortam o ar, desfazendo toda a pesada aura negra e atravessando o corpo do demônio que mal levantara o punho para contra-atacar, viu-se decepar rapidamente, como se cada feixe de luz fosse uma fina lâmina.
- Nã... — Sephiroth não chegou nem a completar a sua súplica de piedade, pois todo o seu corpo explodiu no ar, infestando o chão com os mais variados tipos de insetos e seres pegajosos.
- Viu? Esta foi pra você... — Celeste se virou falando, mas logo se calou. O jovem havia morrido, e seus olhos estavam perdidos em um enigmático e último horizonte a ser observado.
No will to wake for this morn Sem vontade de acordar para esta manhã To see another black rose born Para ver outra rosa negra nascida Deathbed is slowly covered with snow O leito de morte é lentamente coberto com neve
Silenciosamente o anjo caído se aproximou e se ajoelhando próximo, o abraçou, com ternura. Tentou não chorar, mas isso se tornou impossível. A afeição que tivera com aquele valente rapaz já havia dominado seu coração tão manchado pela dor e pela morte. Após algum tempo, ela fechou seus olhos azulados, logo em seguida retirou sua espada e uma pequena corrente com a insígnia de são Jorge desenhada que ele usava por fora da armadura. Agora, Celeste tinha outra missão a cumprir.
...x...x...x...
O homem não acreditava no que ouvia. Ela voltou a repetir:
- Seu filho, o Templário Jean morreu em combate, como um grande herói.
- Ele... — o robusto homem balbuciava. — Onde está...?
- Seu corpo está sepultado próximo ao Santo Sepulcro. Agora sua alma protegerá aquela cidade, para sempre.
E levantando do banco, Celeste sai da taverna na qual Jeremy, pai de Jean, era o dono. Antes de fechar a porta, a mulher vislumbrou a imagem de uma garotinha nos seus doze anos, encolhida no pé do balcão, com os olhos azuis fixos nos dela. Celeste percebeu que ela era a irmãzinha de Jean e então, arremessou para a garotinha a corrente que Jean usava no dia da batalha. Ao vê-la pegar no ar o objeto, Celeste sorriu, como se assim, pudesse encorajar a pequena. Logo, a bela ruiva se misturou ao grande fluxo de pessoas nas pequenas vielas de Saint Christ. Ainda não saberia qual rumo tomar a partir daquele momento. Talvez Metraton lhe indicasse um caminho, ou não. Mas isso não significava muito naquele momento. Sua bagagem, agora era mais valiosa: A Lança do Destino estava em meio aos seus escassos pertences, dividindo lugar com a sua fiel lança de prata. Enquanto caminhava rumo ao portão da cidadela, um menino passou correndo alegre com uma pequena pipa, tentando alçar vôo. Celeste então se lembrou mais uma vez das palavras daquele outro menino, daquele jovem que queria ser um herói e que não hesitou em obter seu sonho, mesmo que isso tenha significado o fim de sua caminhada na Terra. Sabia que não se esqueceria de Jean e de seus olhos vivazes e foi por ele, que ela parou de caminhar, fechando os olhos e fazendo uma prece em aramaico. Nessa pequena prece, prometeu a Ele e ao seu jovem amigo, que jamais retrocederia. Pode-se ouvir o final da oração:
- E se por acaso vier o dia em que não houver mais nenhum humano digno de se proteger, eu continuarei a lutar, pela memória dos bons homens que um dia pisaram nesse solo, assim como você, Jean.
Assim, recomeçou seu rumo incerto, mas longo e com um final que nem mesmo Celeste um dia poderia imaginar. E enquanto esse final não chegasse, ela amaria, choraria e se entristeceria como qualquer humano, um ser que apesar de sua aparente insignificância, tem a verdadeira essência dos filhos da luz.
FIM
* Metraton: arcanjo porta voz dos céus.
...x...x...x...
...x...x...x...
...x...x...x...
Notas da autora:
Terminei! Espero que tenha gostado do final Juli! Tentei ser fiel ao máximo na personalidade da Celeste e devo confessar que foi um grande prazer escrever um fic com essa personagem original que tanto admiro! Sem dúvida uma experiência riquíssima! Enfim, obrigada por ter-me \"emprestado\" a Celeste, Ju!
O Jean acabou tendo um papel bem mais estendido do que eu queria, mas também gostei muito de desenvolver ele. A irmãzinha dele que aparece de relance no final desse fic, será a protagonista de uma outra aventura, que em breve — assim eu espero — publicarei.
Pode-se ouvir (?) no fic, alguns trechos da poderosa música \"End Of All Hope\", da não menos poderosa banda de rock Nightwish e por fim, indico a todos o fic \"Terceiro Selo\" da Juli.chan, onde a Celeste aparece arrasando tudo e todos (Saga que o diga!)! Uma aventura maravilhosa mesmo!
Por fim, obrigada a todos que leram essa aventura e pelo apoio que me dão! Vocês são sem dúvida, a minha maior inspiração!
Até a próxima!
Arthemisys
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