A árvore de sinos
1 O som da chuva.
Notas iniciais
Em uma viela mal iluminada da cidade de Valkiria, uma menina se abrigava da chuva entre os arcos de um viaduto. A chuva torrencial lavava a cidade, apesar de ainda ser dia, as nuvens carregadas impediam a passagem dos raios de sol deixando a cidade em penumbra.
A garota em questão não tinha lembranças sobre a sua identidade, de sua família ou de onde veio. Ela vagava pelas ruas sozinha vestindo roupas sujas e em farrapos ela sobrevivia dependendo da caridade dos moradores e visitantes da cidade. A luz cálida da porta de serviço de um pequeno restaurante familiar chamou a sua atenção, apesar de não ter nenhum dinheiro cultivava a esperança de conseguir algumas sobras.
Ela respirou fundo e foi em direção a porta, no caminho, a chuva fria a encharcou por completo. Mesmo que a porta estivesse entreaberta a bateu com o intuito de chamar atenção e pedir permissão para entrar, depois de alguns instantes uma garota franzina de rosto rosado abriu a porta. Ela tinha volumosos cachos dourados que devido o calor e o trabalho na cozinha estava murchos e oleosos. Ela observou a pedinte dos pés a cabeça e falou:
— Entre, não quero que você pegue uma tuberculose e infeccione toda a cidade, mas — Falando um pouco mais alto com a intenção de ser ouvida — nem pense que vai comer de graça, pegue esse pão, vai no banheiro, se lave e troque essas roupas.
A adolescente, sem falar nada, fez o que lhe foi ordenado. A água do chuveiro parecia infinitamente mais fria do que a água da chuva, no pequeno banheiro, onde o chuveiro e a bacia sanitária dividiam quase o mesmo espaço ela se lavou rapidamente e antes de sair tentou deixar tudo limpo. Ao fechar a porta do banheiro viu, em uma pequena mesa de metal, um prato de pirão de carne bem quente a esperava.
— Coma rápido não quero que a minha mãe brigue comigo por ter te pago antecipadamente.
A menina respondeu afirmativamente com a cabeça e sentou a mesa. Seus cabelos eram longos, negros e lisos que se espalharam cobrindo o seu corpo. A loira, que na verdade era filha do dono do pequeno restaurante, se aproximou da morena, passou a mão pelos seus longos cabelos que estavam molhados e tirou uma parte da umidade depois o prendeu em um alto e desajeitado rabo de cavalo.
— Que engraçado, você não fala muito né, você é muda?
A garota respondeu quase inaudível.
— Não.
Em um tom de brincadeira ela falou:
— Olha! Você fala! Esse tempo todo você não falou o seu nome.
— E que… Eu não tenho nome.
— O que?!
Surpresa, a jovem não controlou o seu tom de voz, a menina de rua, por sua vez tentou se explicar.
— Alguém me disse que para ter um nome é preciso que alguém te dê um e nunca me deram um nome.
— E por quê essa pessoa não te deu esse nome? — em resposta a morena balançou a cabeça em negativa — Entendi. Vá comendo então, precisamos de alguém para lavar os pratos, com essa chuva um dos funcionários não conseguiu chegar.
A pia de pratos estava cheia, mesmo o dia estando chuvoso não diminuiu a quantidade de clientes ávidos por uma comida quente e reconfortante. Alimentada a pedinte se aproximou da grande pilha de louças e talheres para lavar, rapidamente ela diminuiu o volume. Esporadicamente a cacheada se aproximava para observar o progresso que colega havia feito e trazer mais pratos sujos. A loira trabalhava para repor a comida do buffet enquanto sua mãe recebia o pagamento e fazia a limpeza do salão. Já era quase na hora do jantar quando a funcionária do restaurante se aproximou de onde a moradora de rua estava.
— Já podemos tirar um descanso.
A garota se afastou da pia, só faltava algumas panelas. Depois de dar uma leve vista nas panelas que estavam no fogão mantendo a comida da janta aquecida quando uma idéia acendeu o seu rosto.
— Sabe de uma coisa? E se eu te dê um nome?
Uma voz madura surgiu por trás das duas.
— Você não vai fazer isso de jeito nenhum.
A mulher com raiva agarrou a pedinte pelo braço a levantando da cadeira.
— Porque você não está fazendo o seu trabalho?
A mulher empurrou a cabeça da criança sem nome contra a bancada a mesma, por sua vez fez um grande esforço para que sua a cabeça não batesse contra a pia de pedra e metal. A mulher ensandecida olhou com raiva para filha.
— Lorena sabe porquê esta garota não tem nome?
A loira que estava em choque pela situação balançou negativamente a cabeça.
— Porquê ela não tem família Lorena! O idiota que a nomear a terá como parente.
— Qual é o problema mãe? Ela passa a noite na rua e mesmo assim vem trabalhar apenas para comer! Ela poderia está fazendo coisas Ruins, poderia estar roubando ou fazendo outras coisas nojentas como todos dessa cidade fazem.
Lorena se virou para a garota que estava atônita, seus olhos arregalados demonstrava seu estado de choque. Lorena respirou fundo que continuou.
— Eu vou te dá um nome, seu nome vai ser…
Antes que ela pudesse completar sua fala ela foi interrompida por um tapão em seu rosto. Sua mãe estava completamente enlouquecida.
— Essa mendiga não vai ter o brasão da minha família Lorena!
Ainda com a mão no seu rosto Lorena a olhou com raiva e reprovação.
— Mãe, você é maluca! Eu não faço questão de ser da mesma família que você.
Ela saiu pela porta puxando a garota pelos braços ao fundo sua mãe gritava “Você vai se arrepender!” depois que a voz da sua mãe desapareceu ela ainda arrastou a garota por algumas esquinas. A morena recobrou a razão parando de repente.
— Você não precisava.
Os cabelos de Lorena estavam encharcados pela chuva torrencial os cachos que sobraram grudaram no seu rosto escondendo as lágrimas.
— Não precisamos conversar isso aqui.
Ela continuou caminhando na chuva, entrou em uma rua de descarga que dava acesso a um corredor de pequenos apartamentos. Ela sacou a sua varinha e abriu a porta com uma combinação de códigos mágicos e resmungou para a morena.
— Chaves não adiantam de nada nessa cidade.
A porta foi aberta dando acesso a um modesto apartamento de dois cômodos.
— Quando vivo, era aqui onde meu pai se encontrava com as amantes dele. Minha mãe não conhece esse lugar, — fechando a porta ela falou — podemos ficar por aqui.
A menina de cabelos negros e lisos se encostou contra a parede e deixou a gravidade e o cansaço agir sob o seu corpo. Levando as mãos ao rosto ela indagou.
— Porquê?
Com um sussurro quase inaudível Lorena respondeu
— Não sei. — ela entregou a morena umas roupas que estavam em algum armário. — Tire essa roupa molhada.
Enquanto a moradora de rua procurava o banheiro para se trocar Lorena já estava se despindo.
— Droga! Até minhas calcinhas estão molhadas.
Lorena se despiu por completo jogando roupas molhadas em um canto, ela vestiu uma camisola branca e se jogou na cama, soltando um largo suspiro.
— Pode se trocar eu não vou olhar, se isso te conforta.
Silenciosamente a morena foi se despindo enquanto isso Lorena reclamava.
— Eu deveria ter dado um soco na cara dela.
— E sua mãe você não deveria fazer isso de todo jeito.
A loira parou por um instante, realizando uma breve reflexão sobre seus atos ergueu as suas sobrancelhas.
— Me desculpe, acabei te usando de bode expiatório…
— O que é isso?
Surpresa ela se virou para a morena que vestia uma camisola amarela, devido ao seu corpo desnutrido parecia que ela era um picolé de vestido.
— Te usei para desafiar a minha mãe, poderia ter feito as coisas de outra maneira.
— Eu não acredito nisso, eu não reagiria de uma forma diferente, se eu tivesse mãe.
Lorena deixou escapar um sorriso, sentando-se da cama ela falou.
— Vem aqui, você precisa deixar o cabelo secar solto…
A morena sentou no chão entre as pernas de Lorena, ela soltou o rabo de cavalo deixando o cabelo se espalhar pelo corpo escovando pacientemente soltando um suspiro ela indagou:
— Eu sei que você ja me disse isso antes, mas você não se lembra de nada antes de chegar aqui?
A pedinte bocejou enquanto esfregava os olhos.
— Ha… eu só lembro que… eu cheguei na estação, sozinha acho que passei uns dias por lá até me expulsarem. Saíndo de lá, me juntei a um monte de mendigos. — Ela coçou o nariz com o torço da mão ela soltou um suspiro enquanto lorena escovava seus cabelos — Acabou que eles eram vampiros de um clã bem inferior e para ter um lugar para dormir eu tinha que pagar com uma bolsa de sangue a cada 15 dias.
— Nossa... que pesado, cada bolsa tem 500 ml né?
— Sim, mas eu não cheguei a passar fome, eles tomavam sangue até de rato, então… ter sangue de ser humano era importante para eles. De alguma forma.
A cidade de Valkiria era o centro de uma disputa política bruxos e feiticeiros eles disputavam quem deveria administrar a cidade. Os feiticeiros possuíam mais da metade das propriedades da cidade e entre as duas raças os bruxos eram os mais populosos. Entretanto, ainda assim Valkiria era uma grande cidade muitas espécies e raças de manipuladores de magia habitam esse local vampiros, lobisomens, fadas, féricos entre outras viviam quase em harmonia na segunda maior cidade do território bruxo.
Valkiria sempre foi uma cidade fortificada, ficava ao leste próximo às montanhas, onde os gigantes viviam há séculos, os bruxos por sua vez não são conhecidos pela sua capacidade de viver em harmonia entre eles e os diferentes, sempre estão buscando maneiras de classificar e subjugar os que são diferentes ou que não concordam com eles.
Lorena soltou os cabelos da garota e colocou a escova na mesinha de cabeceira.
— Complicado eles devem ter roubado as suas coisas, você consegue fazer magia?
— Não sei.
A loira deu um tapinha nas costas da menina para que ela desse espaço, ela se dirigiu até o armário onde as roupas estavam guardadas e de lá tirou uma caixa de madeira levemente avermelhada os entalhes dela remetia a sinos. Com um sorriso no rosto Lorena mostrou a caixa para nova amiga.
— Aqui está, essa foi a varinha do meu pai, ela se chama Autem, meu pai foi um babaca, mas deixou muitas coisas para mim. Ela é um pouco temperamental por isso talvez ela não te aceite.
A garota balançou a cabeça em negativa.
— Eu não posso.
— Não pode? Por que? Ela não me aceitou, ela vai ficar guardada de todo jeito. Você sabe varinhas são bem… difíceis de se lidar, deve ser por causa do método de construção, a madeira e o cerne. Ela tem madeira de mogno e cerne de cabelo de fulozinha.
— Eu não sei se mereço...
Lorena apesar de um pouco desapontada, deu um sorriso e colocou a caixa em cima da mesa, ela se aproximou da menina e lhe deu um abraço.
— Bem… ainda precisamos te dar um nome né?!
A surpresa atingiu os olhos da morena.
— Eu sempre gostei do nome Suzuki, o que acha?!
— Eu não sei nada sobre nomes
A jovem falou.
— Combina com a varinha, significa Árvore de sinos.
Lorena ria ela ergueu seus braços soltando a morena fazendo movimentos com os dedos ela falou divertidamente.
— A partir de hoje seu nome é Suzuki e como eu renunciei o sobrenome de minha mãe nós duas, agora somos “Padilha”! Êeee!
Com seu novo nome a menina deu um sorriso, o maior sorriso que ela deu desde que se lembrava.
— Mas é só isso?
— Basicamente.
A noite foi tranquila, embora chovesse lá fora, o barulho da chuva constante só embalava o sono das meninas afastando as preocupações o dia amanheceu ainda nublado, Lorena acordou e sem se importar muito em manter o silêncio saiu para comprar os ingredientes do café da manhã, quando ela voltou Suzuki ainda estava na cama.
— Acorde! — Ela falou a sacudindo.
— O que foi?
— Olha o que eu encontrei — ela mostrou um cartaz com um sorriso no rosto, mas a morena tinha em seu rosto uma expressão de incompreensão, que desfez o sorriso da loira de imediato. — O que foi? Tem algo de errado?
— Não sei o que esse papel diz.
— Como não? Ta escrito: “seleção de aprendizes”.
Suzuki se acomodou na cama e completamente constrangida ela falou.
— E que… Eu não sei ler.
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