A Única Solução
1 Capítulo Único
Eu adentrei a casa dela, estava deserta, subi as escadas e entrei em seu enorme quarto, totalmente arrumado, o que me aguardava estava no banheiro, abri a porta e me deparei com a tragédia.
O aroma de perfume estava muito forte, no chão havia vários objetos jogados e quebrados, como cacos de frascos de perfume e também do grande espelho que antes havia na parede.
Fui até a banheira, que havia transbordado um pouco, ao lado um grande caco de espelho ensanguentado mostrava que aquela foi a arma usada. A água estava tingida com seu sangue vermelho e seu belo corpo agora com vários cortes ali jazia.
Essa era a parte complicada de ser anjo, aquilo uma hora ou outra iria acontecer, mas não imaginava que seria agora e nem daquela maneira.
Sem ao menos perceber eu a senti tocando meu braço, ou melhor, sua alma tocando meu braço.
— Ângelo? – Ela disse.
— Sim, eu vim te buscar. – Eu a fitei.
— Me buscar? Então eu vou para o céu?
— Sim. – Eu respondi.
— Eu achei que ficaria vagando por ai, ou então que iria para o inferno.
— Eu não deixaria que isso acontecesse. Mas apenas me responda: Por quê?
— Foi a única solução.
— Carmem, não era a única solução, e as pessoas que te amam? Seus pais, o Jeremias, seu amigos.
— Você sabe que eu não tenho realmente amigos e que meus pais pouco se importam comigo, eu morri e cadê eles?
— Quando eles souberem vão ficar muito tristes, Carmem!
— Sim, mas logo vão se esquecer, eu não era tão importante pra ninguém mesmo. Eu também não era boa para ninguém, não fui boa para o Jeremias, não fui boa para meus supostos amigos e também não seria boa para ela, será que você não percebe? Foi a única solução! Nem todo meu dinheiro, minha beleza, nada iria fazer com que ela me amasse, e por isso eu só causaria mal a ela. Foi melhor deixar que a água enchesse meus pulmões e meu sangue se diluir na banheira.
— Eu não estou entendendo.
— E não precisa, apenas entregue aquele colar juntamente com a carta para a pessoa a quem está destinada. – Ela disse apontando para a pia. – Você pode me deixar vagando ou me mandar para o inferno, apenas faça o que estou te pedindo.
Eu fui até a pia e lá havia um colar com um pingente de coração com o nome Carmem gravado e uma carta um pouco molhada com algumas manchas vermelhas e as letras totalmente trêmulas que diziam "Me desculpe Denise, eu te amo!". Precisei de um momento para processar o verdadeiro significado daquilo.
— Esse amor não era de amiga, né? – Eu perguntei voltando para próximo dela que apenas balançou a cabeça negativamente escondendo seu rosto entre os cabelos loiros. – Não precisa esconder seu rosto, você não pode mais chorar nem corar. Pode deixar que eu entrego a carta pra ela. Agora vamos!
— Tudo bem então? – Ela me perguntou.
— Acho que sim, quando se trata de amor, certas loucuras são até perdoadas. – Peguei o colar e a carta e coloquei no bolso da minha calça, depois tirei o casaco que cobria as minhas asas e entreguei a ela.
— O que está fazendo? – Ela perguntou.
— Ora, nós vamos embora. Voando, ou você queria um teletransporte?
— Não sabia que anjos usavam de ironia. Mas você tem certeza que eu vou pro céu?
— Sim, e eu vou endireitar você, quem sabe mais pra frente você não se torna uma anjinha. – Pisquei.
— Acho que está apelando.
— É, estou. Apenas não me faça arrepender de não deixar você vagando por ai. – Eu a peguei no colo e sai voando pela janela do seu quarto.
Essa era uma das funções de anjo além de proteger, e eu estava feliz com o meu primeiro "resgate", eu ainda teria que entregar a carta, e ajudar o pessoal a não enlouquecer quando descobrissem toda a verdade. É, vida de anjo não é fácil!
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