A Única Exceção do Rei
17 Traumas
Notas iniciais

Assisti os olhos do elfo encarando-me surpresos se afastando após a minha frase. Engoli em seco e o encarei temerosa, rejeitando o seu beijo tão tentador. Uma parte de mim o queria, a outra ainda estava gritando na praia, pedindo por socorro, sentindo o toque daquele asqueroso intimamente, a ponto de me revirar o estômago e fazer as batidas do meu coração se descompassarem.
Respirei fundo e fechei os olhos na tentativa de recobrar os meus sentidos plenos. Senti o toque das mãos do rei em meu ombro, demonstrando que estava ali pronto para me socorrer caso precise.
— Estás machucada por dentro, sei disso. – Comunicou, notando o meu corpo suar involuntariamente enquanto as mãos recomeçavam a tremer. – Mas estás segura aqui, e poderá ficar pelo tempo que quiser. Eu não vou machucá-la, prometo.
— Obrigada. – Disse agradecida pela paciência do rei. – Mas sinto que perdi o controle de mim mesma.
— Deixe o tempo curar suas feridas, Ris. Vão cicatrizar. És forte, menina, e não vai ser um evento como esse que a fará parar, não é? – As palavras dele eram ternas e cheias de gentileza. Eu até desconfiava de suas intenções quando até mesmo a sua entonação de voz mudava. E que apelido era aquele? De repente ele estava usando-o, e não o achei tão comum.
— Claro que não. – Respondi pensativa, não acreditando cem por cento em minhas palavras. Não conseguiria passar por aquilo sem deixar alguma marca que permanecesse em meu coração, relembrando-me de tempos em tempos o que havia acontecido.
Comemos em silêncio por um tempo até ele recomeçar a me perguntar sobre a minha viagem. Felizmente nada de mais havia acontecido, mas também não tinha algo de surpreendente para dizer. A melhor parte foi conhecer o mar e eu estava ansiosa por aquilo. Contei como os elfos me trataram ao se deparar comigo na praia, em como eles eram frios e reservados. Thranduil não parecia tão diferente dos demais, afinal. Todos eram estranhos e muito quietos, e com exceção de algumas elfas que se mostraram gentis e generosas, não tinha nenhuma história positiva sobre aqueles indivíduos da raça do rei.
Após alguns goles de vinho senti mais liberdade em conversar com ele. Pela primeira vez desde que nos conhecemos conseguimos fazer isso sem trocas de farpas ou acusações. Claro, não falamos sobre coisas que pudessem nos condenar a julgamentos um do outro, e tudo não passava de um diálogo genérico que nos obrigava a esquecer os eventos anteriores.
Após isso, me deitei no sofá e observei o rei ler um livro velho em linguagem Quênia em voz alta. Ele parava uns segundos e explicava o que cada palavra significava para mim, me ensinando um pouco. Adormecei entre um parágrafo e outro mais cansada do que poderia admitir e surpreendida pois dormira o dia inteiro em cima da ave.
Os olhos dele reapareceram de repente para mim. Aquela luminosidade amarela, aquela íris fina e aqueles cabelos flamejantes se transformavam aos poucos em uma fera selvagem que crescia a cada segundo em pelos e músculos. Tentei correr, mas meus pés estavam paralisados no lugar enquanto eu o assistia se reaproximar sem nada fazer. A voz sumira como antes, abafada pelos panos. De repente estava novamente lá, no meio da areia, nua e amordaçada sentindo o cheiro de sua saliva pingando em meu rosto enquanto ele me encarava com fulgor em seus olhos. As suas garras estavam dentro de mim remexendo em meu ventre, rindo do meu desespero e cuspindo palavras esdrúxulas. O seu peso animalesco sobre o meu corpo frágil, os uivos saindo de sua boca como se ele fosse um lobo prestes a atacar.
Quando dei por mim, estava sendo acudida novamente por Thranduil. Demorei a entender que estava segura e numa confortável cama na cabana no meio do nada, e aquilo não passava de um sonho de mal gosto. Recomei a chorar desesperadamente, a garganta fechada em agonia queimava possivelmente por causa de algum grito de dor anteriormente. O elfo me encarava assustado, mas firme com as suas mãos.
— Acalme-se, Ris. – Sua voz foi o que me trouxe de volta para a realidade. – Foi um sonho... um sonho.
Repetiu diversas vezes até conseguir recuperar o ar. O rei segurava minhas mãos e as apertava com grande pesar, sentindo-as tremerem.
— Ele está morto. – Comunicou, passando os seus dedos por entre meus cabelos. – E está a salvo aqui. Veja!
Pacientemente, Thranduil apontou para o quarto apertado, mas aconchegante. Olhei ao redor, notando que ainda havia algumas velas acesas que estavam quase totalmente consumidas, prestes a apagarem. Notei a cortina vermelha que tanto me lembrava os seus aposentos pessoais num jardim em meio ao castelo. Notei as cômodas e a penteadeira que tanto me agradavam de aparência. E o encarei ali, por último, fitando os seus olhos azuis tão gélidos, mas que agora pareciam tão calorosos e acolhedores.
Por que o rei estava me ajudando daquela forma? O que ele queria? Eu não tinha absolutamente nada para o oferecer além de insultos. No entanto, estava tão terno que mais uma vez duvidei que se tratasse dele.
— Me perdoe. – Minha voz falhou quando emiti. Engoli em seco, suspirei e inspirei, ainda sentindo as suas mãos em meu corpo, que me trouxeram segurança sobre o que era real naquele instante.
— Tudo bem. – O elfo sorriu fraco, emitindo um sentimento de pena em sua voz. – Teve um pesadelo, não foi?
Afirmei com um movimento. Thranduil pegara um copo de água de uma jarra que estava ao meu lado e me entregou.
— Via ele? – Questionou enquanto assistia-me beber os goles com ferocidade.
— Parecia um monstro maior desta vez, como um lobo com cabelos de leão e olhar de cobra.
— É comum ter pesadelos com coisas que nos marcam tão profundamente. – Sussurrou terno, me fazendo sentir o calor de sua voz aquecendo meu corpo como um ato de proteção. – Mas tem que enfrentar o seu próprio medo dentro dos seus sonhos também. Só assim não será mais perturbada por eles. Felizmente aquele falso elfo está morto e você não terá que se preocupar com ele mais, então não o deixe tomar sua mente e estragar a sua vida, tornando as suas noites de sono um tormento.
Seus conselhos eram preciosos. Ele tinha razão, mas tudo estava tão recente que ainda podia sentir o toque de suas mãos sob a minha pele e o seu cheiro. Aquilo perturbou as minhas lembranças novamente, e a água embrulhara o meu estômago em resposta.
O rei fora para a sala quando percebeu que eu estava mais calma. Acendeu mais algumas velas para deixar o ambiente claro, caso eu acordasse mais uma vez e me sentisse desprotegida. Fiquei imaginando se ele havia me carregado até a cama, mas era tão óbvio que eu não precisava nem perguntar. Forcei a minha mente a não pensar mais naquele indivíduo, então ela se voltava para as perguntas que eu tinha sobre o rei. E foi pensando nele que adormeci novamente, vencida pelo cansaço.
Quando acordei na manhã seguinte já havia chá de limão num bule de porcelana acompanhado por xícaras, um conjunto fino e antigo pintado à mão com flores silvestres. Saia vapor do seu bico e o cheiro denunciava o seu sabor. Um potinho de mel estava ao lado, lembas em cima de um pratinho tampadas com um pano, frutas frescas vindas do pomar farto que cercava a cabana – laranja, limão, uvas e alguns morangos.
Thranduil não estava por ali, e fiquei pensando se ele havia partido para o seu castelo sem se despedir. Isso não fazia o seu estilo, mas não tratei de procura-lo aos arredores da casa.
Sentei-me à mesa sentindo um pouco mais de fome do que o habitual, aquela mesa posta estava convidativa. Coloquei algumas uvas num prato e me servi de chá com mel, um pedaço pequeno de lembas e alguns morangos. Após me fartar, me perguntei se não era falta de educação fazer aquilo sem a presença do rei. Entretanto, o sol já estava alto e passava das dez da manhã, imaginava que possivelmente ele pudesse já ter tomado o seu desjejum.
Havia um barril cheio de água, que tratei de pegar em alguns baldes e despejar dentro da banheira que estava num cômodo também um pouco apertado adjacente ao quarto. O sonho perturbado da noite anterior me deixou suada e o vestido pegajoso. Escolhi um novo rosado que estava perfeitamente dobrado no meio das “minhas coisas” e o estendi na colcha da cama.
Despia os ombros distraidamente quando fui pega de surpresa pela presença repentina de alguém. Num ato de precaução, peguei uma vareta de ferro que estava do lado da porta antes que me atacassem. Meu coração se acelerou em adrenalina, meu corpo saltou para trás e meus braços se estenderam numa posição de contra-ataque. O fôlego sumiu novamente e por pouco não acertara a cabeça dele.
Thranduil desviou com precisão antes que a barra o atingisse no rosto. Arregalou os seus olhos surpreso com a minha atitude, possivelmente achara que eu estava disposta a matá-lo repentinamente.
Tratei de voltar ao normal abaixando a guarda, mas minhas mãos tremiam novamente. Sorte não ter conseguido atingi-lo, aquilo era demais para qualquer pessoa.
— Tome cuidado com essas coisas, pode machucar alguém. – O elfo disse. Engoli o ar com grande dificuldade e assenti.
— Perdoe-me, foi um ato impensado. – Tentei me desculpar, percebendo que sequer havia raciocinado sobre o que faria. Meu corpo respondeu a um mísero barulho de forma brusca sem ao menos refletir. – Eu me assustei.
Abaixei a cabeça envergonhada e querendo enfiá-la no chão. Certamente Thranduil achava que eu estava ficando louca, e possivelmente estava mesmo.
Ele tomara a barra de ferro que servia na verdade para mexer na lareira de minhas mãos. Encarou-me severo, procurando verdade em minhas palavras.
— Está preocupada com a sua defesa pessoal. – Comunicou, analisando a minha postura rígida à sua frente. – Mais um reflexo do medo que se apoderou de você, menina.
Talvez fosse. Não havia pensando naquilo ainda, afinal era tão recente.
— Dê tempo ao tempo, e verá que conseguirá ter autocontrole sobre si.
Assenti.
— Contudo, acho que deveria aprender algo para se defender, caso precise se algum dia quiser viajar novamente. – O elfo sugeriu, analisando a barra em suas mãos. – Uma espada, um arco e flecha, uma lança. Escolha algo e eu a ensinarei a usá-los. Tens interesse?
Eu nunca quis aprender a lutar. Nunca achei que algum dia tivesse a necessidade de aprender a me defender, pois não pretendia me enfiar numa guerra. Entretanto não era má ideia.
— O que o senhor estiver disposto a ensinar, eu quero aprender. – Esclareci, dando um sorriso grato ao rei.
Thranduil tomou o rumo da porta após afirmar com a cabeça.
— Ótimo. Começaremos esta tarde.
O rei entregou-me a sua espada e começou a explicar coisas básicas sobre elas.
— Esta é um sabre, uma espada curvada dada à cavalaria. Elas são leves e muito fáceis de trabalhar, seus movimentos são graciosos, precisos. Contudo, seu material não é dos melhores justamente por causa da leveza. É muito fácil quebrar uma espada dessas até mesmo por acidente. Entretanto, ela é perfeita para dar lições. Cuidado, a sua lâmina está mais afiada do que a sua língua, senhorita.
O rei brincou. Senti meu rosto corar por um segundo, mas lancei um olhar interrogativo e nada agradável para ele após.
— Tens um perfeito olhar ameaçador, sabia? Use-o quando for preciso. – Ele tornou a rir, e eu desviei o seu olhar do meu.
— Tudo bem.
Naquela tarde ele me explicou pacientemente como eram dados os golpes. Pegou a mesma barra de ferro que eu havia tentado contra a sua vida naquela manhã e me ensinara inclusive passos ensaiados que me fariam derrotar o inimigo.
Já estava anoitecendo quando saímos do meio do campo, após horas e mais horas de treinamento.
— Você é muito esperta. – Elogiou, me deixando surpresa. Eu pensava que tinha sido um desastre.
— Mas eu quase arranquei um olho seu. – Lembrei. A espada praticamente voara de minha mão em sua direção.
— Pela segunda vez no dia! – Exclamou, deixando o objeto em cima da mesa e tirando um lenço de seu bolso para limpá-lo.
— Eu havia me esquecido disso. – Dessa vez eu ri descontroladamente. – Sinto muito.
O rei se aproximou enquanto tentava abafar os risinhos. Cruzou os braços e fez cara feia.
— Prometa-me de que não me matará até o final das suas lições. – Pediu.
— Não propositalmente. – Afirmei, notando um leve olhar divertido vindo dele. Thranduil sorriu confortável.
— Não, prometa-me de que fará de tudo para não me matar. Caso contrário pararei por aqui mesmo. – Comunicou e estendeu o seu dedo mindinho em minha direção.
— O que é isso? – Indaguei sobre o seu gesto curioso.
— Uma promessa de mindinho, não ouso fazer mais pactos com a senhorita. – Esclareceu, rindo alto dessa vez. – Porque não os cumpre.
Levantei minha mão para ele e entrelacei nossos dedos enquanto ainda levava aquilo numa ingênua brincadeira. Era um ato infantil, mas muito meigo vindo de sua parte, o que me fazia imaginar mais uma vez que estava diante de outro ser à minha frente, e que aquele não era o verdadeiro rei da Floresta das Trevas.
— Não me ofenda, Thranduil. Sabes muito bem o porque não cumpri. – Disse.
— Tens medo de mim, por isso. – Ainda a dedos cruzados, brincou. – Não a culpo, minha figura tem quase o dobro do tamanho da sua. Entendo o seu espanto.
— Ora, que exagero. – Retirei meu dedo e cruzei os braços dessa vez, fitando-o com a altivez.
— Exagero? – O ele se aproximou um pouco mais, tocando a ponta do meu queixo. – Precisa ficar na ponta de seus pés para conseguir me beijar. E isso porque estou com a cabeça abaixada.
Senti meu rosto corar com a sua lembrança e meu corpo estremecer tendo-o tão perto novamente. Por um segundo me senti tentada à sua provocação enquanto o assistia molhar os lábios na expectativa que eu pudesse roubá-lo um beijo, mas no exato momento seguinte, não consegui permanecer firme perante si.
Os teus olhos tão azuis de repente, num lapso, tornaram-se amarelos. Pendi o pescoço para o lado e fitei o chão, desviando do olhar esperançoso de Thranduil, enquanto perdia o fôlego sozinha e sentia meu coração se acelerar descompassado com aquela visão perturbadora.
— Você está bem? – Assustado ele me perguntou, notando minha indisposição repentina. Ter alguém com intenções parecidas como aquela, mesmo a me respeitar, me deixava desconfortável. Não conseguia parar de associar aquela situação com o desejo voraz daquele monstro, seus olhos faiscantes cheios de más intenções e meu corpo a rejeitá-lo.
— Sinto, Majestade, mas quando chega assim tão perto... – Comecei a explica-lo, procurando palavras que ainda não existiam para conseguir expressar o sentimento de angústia que se apoderara de mim.
Comecei a chorar novamente sem ao menos entender o porquê. Meu corpo paralisou-se diante do rei, que me assistia perder o fôlego aos poucos.
Procurei apoio em seus braços quando senti a cabeça rodar. A sala parecia um borrão naquele instante, e o ar se fez falta. Quanto mais eu tentava puxá-lo para os meus pulmões, mais fechada a minha garganta ficava.
Por um tempo, a voz de Thranduil não passara de um ruído indecifrável. Tudo o que sentia era as suas mãos firmes em mim e a roupa molhada pelas lágrimas. Eu não entendia porque aquilo continuava a acontecer, mesmo por causa de uma pequena lembrança.
Perdi o controle dos meus movimentos, perdi a capacidade de raciocínio por causa de uma noite. Me mostrava ainda mais fraca para o elfo, sendo que em nenhum momento em seu reino eu deixei que algo me afetasse daquela maneira.
Quando consegui retomar um pouco dos sentidos percebi que estava no sofá. Thranduil, mais uma vez com extrema paciência, segurava as minhas mãos e falava coisas que eu não entendia a sua grande maioria.
Abracei-o sem pensar muito. Sentir seu corpo protegendo o meu me dava um pouco mais de confiança, e ouvir as batidas do seu coração naquele instante fez as minhas se normalizarem após alguns minutos.
Ele estava acariciando meus cabelos num afago, cheirando-os no topo. Eu me sentia ridícula, pois me portava feito uma adolescente indefesa, e nunca quis passar essa imagem para ninguém. Eu queria ser forte, dona de mim, autoconfiante, mas naquele instante perdia o controle até mesmo da minha consciência.
— Vai passar, eu prometo. – Quando finalmente entendi as suas palavras, tomei coragem de fita-lo novamente. – Você só está traumatizada, e com razão. Sua vida estava por um fio. Mas vai ficar tudo bem, Ris.
O rei suspirou e emitiu uma insegurança quase palpável em seu rosto. Parecia pesaroso por mim. Soltei-me dele, mais uma vez envergonhada. Limpei as lágrimas que ainda estavam descendo aos poucos pelo meu rosto e assenti.
Teria mesmo que ficar tudo bem porque eu sabia que Thranduil não ficaria ali e me protegeria pelo resto de minha vida.
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