A Águia e o Falcão
18 Uma bênção - Parte II
Notas iniciais
A barriga de Wyvia já estava enorme e bem redonda indicando a aproximação do momento do parto. Já andava com dificuldades e passava a maior parte do tempo deitada, sentindo o peso no pé da barriga e como as pernas chegavam a doer após algum tempo de pé. Sentia falta de Mihawk dormindo ao seu lado e massageando suas costas em alguns momentos da noite. Quando dormiam juntos, o falcão geralmente levava algum tempo para finalmente pegar no sono, pois acariciava a barriga de sua amada e sentia a movimentação abaixo da pele. Por várias vezes conversou com o bebê enquanto Wyvia dormia, e recebia respostas em formas de chutes. O falcão nunca pensou que aquela sensação seria tão única e devastadora... até mesmo ele, tão rude as vezes, sério demais, impenetrável... até ele sentia o calor de um momento com seu bebê, que estava prestes a nascer.
Mas em um fatídico dia recebeu um visitante inesperado na ilha, e com isso também recebeu um chamado urgente de todos os Shichibukais, tendo que partir imediatamente. Queria poder faltar, pois Wyvia já estava com oito meses de gestação, e o bebê poderia nascer a qualquer momento. Perder o nascimento do filho por uma reunião chata não era bom. Mesmo que naquele caso... não fosse apenas uma reunião chata.
Pelo menos partiu um pouco mais tranquilo, pois Wyvia estava bem cuidada com Perona e com aquele rapaz. Alertara aos dois de antemão que cuidassem de Wyvia e que dessem todo o suporte para caso ele não chegasse a tempo... mas que quando chegasse, levaria alguém importante para ajuda-los naquele momento tão glorioso e esperado.
Naquela manhã, Wyvia acordou com sons de gritos e reclamações vindas do quarto ao lado. Ela revirou os olhos, pois não era nenhuma novidade. Levantou-se com um pouco de dificuldade e vestiu um roupão de cetim que Mihawk comprara há algum tempo. A barriga grande se sobressaía, e ela passava pelo espelho, admirando aquilo. Acariciou o ventre, pensando que logo seu bebê estaria em seus braços. Aquilo a deixava tão feliz que era inexplicável.
A gravidez fez bem para a beleza dela. A pele parecia mais alva e macia, os cabelos mais brilhantes, que cresceram até ultrapassar os ombros, enrolados e cheios de volume. Estava magnífica daquela forma. E assim, feliz e descontraída saiu do quarto e já deu de cara com Perona, que segurava nas mãos um kit médico.
— Adivinha? –perguntou Perona entregando o kit para a moça.
— Nós combinamos com ele que hoje seria dia do treinamento de parto –comentou Wyvia segurando o Kit e olhando para a porta do quarto, entreaberta.
— Você acha que ele sabe fazer alguma coisa além de treinar? Vai atrapalhar a gente, isso sim –retrucou Perona fazendo drama e começando a flutuar de forma dramática pelo corredor. — Eu tenho que fazer o café da manhã agora... ele está bem ferido hoje. Acha que pode dar conta disso? Digo, você devia estar de repouso.
— Está tudo bem... já estou entediada de ficar deitada o tempo todo.
Enquanto Perona flutuava para a cozinha, Wyvia entrou no quarto, carregando o kit médico. Assim que entrou já viu o rapaz, com um ferimento no braço que sangrava, mas ele parecia não se incomodar com aquilo. Segurava um haltere pesado no braço e flexionava rapidamente, fazendo com que o sangue escapulisse mais. Assim que viu a aproximação de Wyvia, ele franziu o cenho. Os cabelos esverdeados pingavam de suor.
— Eu ouvi vocês duas reclamando aí fora! Você não devia estar de... é... resguardo? –perguntou ele, meio estressado como sempre era. A pele morena reluzia pelo suor e sangue misturados.
— Resguardo é no pós-parto, Zoro-kun –disse Wyvia apontando para a cama em um gesto de ordem, que foi imediatamente obedecido pelo espadachim vistante. Ele não desobedecia Wyvia... descobriu que tinha um pouco de medo de mulheres grávidas. Será que era porque elas eram autoritárias demais e poderosas? Claro, para aguentar uma criança dentro de si, as mulheres com filhos deviam ser assustadoras.
Quando Zoro chegou na ilha estava tão ferido que a moça se perguntava como ele se aguentava de pé. Após aquele tempo na presença dele percebeu o quanto era tolerante a dor, de uma maneira que ela nunca imaginou que fosse possível. Até brincou com ele uma vez, dizendo que ele não aguentaria a dor de um parto, e o rapaz disse que aguentaria dois seguidos se fosse possível... mas era óbvio que estava apenas brincando, pois nem conseguia imaginar alguma coisa saindo de si por uma área tão... sensível. Ele geralmente ficava nervoso quando tratava de um assunto assim.
— Os babuínos estão pegando pesado? –perguntou ela sentando ao lado dele e ajudando a limpar a enorme ferida.
— Eu já estou me acostumando com as habilidades deles. Mihawk disse que eles imitaram a força dele... então creio que estou no rumo certo –disse Zoro em tom sério. Ele até lembrava Mihawk um pouco naquele quesito. — Então... como será esse treinamento?
Wyvia fez as bandagens no braço de Zoro com cuidado e atenção. Quase não ouviu o que ele disse, pois sua mente vagava pela lembrança de Mihawk e das palavras dele. Ele dissera que havia um chamado urgente para todos os Shichibukais em um lugar chamado Marineford. Além disso, ele queria procurar alguém que pudesse ajudar ele naquele momento tão delicado. Queria ir até alguma cidade e comprar tudo necessário para o bebê. Mihawk até pensou na possibilidade de perder o nascimento do próprio filho, o que não seria bom, mas ele torcia para que desse tudo certo. Se acontecesse, ele ao menos devia estar pronto para começar a lidar com a situação, e por isso deu a Zoro todas as indicações possíveis para que cuidasse de Wyvia no lugar dele.
— Ele deve chegar a tempo –disse Zoro reparando no olhar distante de Wyvia. — Deve estar chegando.
Wyvia sorriu com a esperança. Após terminar os curativos de Zoro, ela se levantou, pronta para ir para o quarto, porém foi acometida por uma dor intensa no ventre. Parou alguns segundos e segurou a barriga, acariciando levemente e sentindo o bebê em movimento.
— Calma, meu amor –disse ela massageando levemente. Zoro entrou na sua frente, um pouco preocupado e assustado, mas ela o tranquilizou com o olhar. — Ele está se mexendo muito esses dias... acho que estamos chegando perto. Melhor começar o treinamento.
Zoro não entendia o que significava essa história de treinamento. Imaginou um milhão de coisas, cada uma mais improvável que a outra. Afinal, os bebês não tinham que ser tirados a força da barriga da mãe? Ele sacudiu a cabeça, tentando não imaginar na bagunça que seria e do tão constrangido que estava.
Após algum tempo, Perona surgiu. Usaram o quarto do casal para fazer os preparativos, pois Wyvia já reclamava muito de dores no ventre. Ficaram atentos a contrações, portanto resolveram preparar tudo de antemão. Claro que Perona sabia que no momento certo, tudo seria diferente, eles ficariam nervosos e provavelmente as coisas seriam bem mais complicadas, mas torcia para se manter firme e forte. Seu medo era de que Zoro fosse tão idiota quanto parecia e chegasse a atrapalhar as coisas... por isso resolveu ensinar algumas coisas a ele antes.
— Zoro, o que você vai fazer se de repente a bolsa estourar? –ela perguntou, seriamente. Estava de pé diante dele, em pose autoritária.
Ele coçou a cabeça, tentando lembrar do que deveria fazer. Passou alguns segundos pensando, e olhou para Wyvia na esperança de que ela dissesse alguma coisa para ajudar, mas ele notou que a expressão dela era de dor. Estava sentada na cama, apoiando o pé da barriga com a mão e estendendo a cabeça para frente, como se suportasse a dor de alguma forma. Ele não imaginava a dor que ela estava sentindo, mas deveria ser forte.
— Eu... preparo a piscina? –ele perguntou, encarando Perona.
Suspirando aliviada, Perona confirmou com a cabeça. Haviam colocado uma piscina infantil e mediana no meio do quarto, para que enchessem de água morna para relaxar os músculos de Wyvia no momento certo. A mulher então pegou um livro antigo que havia na biblioteca e começou a ler. Era um livro sobre partos humanizados, então seria importante que fizesse bem a leitura pela segunda vez.
Na cama, Wyvia sentiu os músculos se contraírem de uma maneira muito forte. Ela reprimiu um gemido, sentindo as entranhas queimarem enquanto o corpo se contorcia para frente... e então o líquido morno escorreu por suas pernas e molhou o chão. Na hora certa, como ela imaginou. Já sentia desde a noite anterior que o dia estava próximo... de certa forma sabia que aconteceria naquele dia mesmo.
— Perona.... –ela chamou a mulher, que estava distraída na leitura.
Diante dela, Zoro olhava a cena, abismado. Não sabia mais o que fazer ou o que dizer. Perona ouviu e ergueu os olhos. Quase soltou um gritinho agudo quando viu e começou a flutuar rapidamente até Wyvia.
— A bolsa!!! –ela girou a cabeça para Zoro, que estava paralisado. — Anda, baka! Faça o que tem que fazer!
O homem se agitou um pouco, mas logo o sangue voltou a circular e ele se lembrou o que tinha que fazer. Ele correu para o banheiro, onde Perona já tinha deixado baldes, prontos para pegar água morna do chuveiro. Ele começou a encher então a piscina enquanto que Perona ajudava Wyvia a contar o espaço das contrações.
— Tenho que anotar os intervalos –disse Perona ajudando Wyvia a se levantar. — Vamos, mulher, hora de abrir esses quadris aí! Hora dos agachamentos.
Como já estudado antes, aquele momento em que a bolsa havia estourado significava a aproximação do parto. As contrações estavam ainda espaçadas, mas Wyvia já tinha que exercitar os quadris para facilitar no momento do parto. A moça fez agachamentos com o auxílio de uma corda amarrada no balaústre da cama. Mesmo dolorida e aguentando as contrações que chegavam de quinze em quinze minutos. Levaram horas naquele processo, mas em devido momento, Wyvia já suava e gemia tanto de dor que era hora de coloca-la na piscina. Tirando as roupas de baixo da moça, Perona a ajudou a sentar na piscina, sendo relaxada imediatamente pela água morna que Zoro havia colocado. Apenas com um top cobrindo os seios, a moça estava praticamente nua lá dentro, mas não ligava nem um pouco para a presença de Zoro. Ele acompanharia um nascimento naquele momento, uma experiência única, o que certamente iria emocioná-lo de alguma forma.
Já ele, encostado na parede e tentando se concentrar, estava um pouco nervoso. Nunca havia presenciado um momento como aquele, nem sabia o que fazer. Ao contrário dele, Perona parecia no total comando da situação, segurando a mão de Wyvia e cronometrando as contrações. Os intervalos diminuíram, chegando a dez minutos.
— Eu não sei ver como está a dilatação –disse ela, nervosa e quase chorando. — Se não souber... pode ser que não haja espaço para o bebê sair.
Wyvia não ficou nervosa e nem se deixou abalar. Apenas ela tinha uma conversa física com seu filho naquele momento, sentindo o mesmo se movimentando dentro de seu ventre, como se ficasse pronto para se posicionar de cabeça para baixo, como se já soubesse como nascer. Ela não sofria... aquilo não era sofrimento. Aquela dor era importante... apenas a dor demonstrava a ela que aquele momento era real e que estava prestes a acontecer.
Em uma das contrações ela acabou soltando um gritinho.
— Calma, meu filho –ela disse, suspirando e se colocando na posição de cócoras. — Você está com muita pressa... Perona... acho que ele está vindo.
Zoro não tinha o que fazer. Só podia aguardar. Ele se sentou no chão, perto das duas e cruzou as pernas. Não conseguiria dormir naquele momento, de maneira alguma. Presenciaria alí um nascimento... o filho de seu mestre, da pessoa que queria superar um dia. Aquele seria um instante memorável e que mudaria a vida dele. Ficou observando as duas, Wyvia sofrendo e Perona nervosa, segurando o cronômetro com uma das mãos e anotando os intervalos de contrações com a outra.
E ele se arrastou pelo chão e ficou mais perto da piscininha. Tomou uma das mãos de Wyvia e segurou. Imediatamente, recebeu um olhar agradecido dela... e logo ela já começou a apertar com força a mão dele. Ele tinha o controle estampado em sua face agora. Não queria deixar as duas sozinhas naquela ocasião, especialmente porque seu mestre pediu que não fosse daquela forma. E ele se lembrou do falcão, que antes de sair cruzou os braços pra ele e deixou que o chapéu cobrisse seu rosto. Naquele dia, Mihawk parecia preocupado, distante e mesmo assim frio como sempre.
— Roronoa Zoro –dissera, sério e penetrante para seu discípulo — Eu encontrei Wyvia no mar, prestes a morrer de tão fraca. Ela tinha uma fratura na perna, então concordei em trazê-la para cá e tratar de seus ferimentos até que pudesse voltar para sua casa... e descobri que a ilha em que ela morava era o verdadeiro inferno, onde pessoas lutavam apenas para caçá-la, alimentados por uma lenda imbecil e coordenada por um líder monstruoso... uma verdadeira seita.
“ Quando eu trouxe Wyvia pra cá, nunca passou pela minha cabeça que um dia ela seria minha mulher. Eu nunca pensei nisso, nunca tive a vontade de refletir sobre ter uma companheira na minha vida... e por conta disso eu me sentia incompleto todas as noites, dormindo sozinho e vivendo na solidão, achando que pra mim isso era o melhor, que era bom... mas era apenas um costume. E esse costume acabou quando ela se deitou do meu lado. Eu me apaixonei por ela com a convivência, cuidando dela e vendo aquele sorriso pra mim, me aquecendo de alguma forma que até hoje eu nunca vou entender.”
Mihawk fizera uma pausa daquele discurso para olhar para Zoro. Seu discípulo tinha o olhar curioso e atento, como se realmente estivesse aprendendo uma lição de vida, algo importante para ele. E então, Mihawk prosseguira:
“Hoje estou deixando nas suas mãos meu bem mais precioso... e ela espera um filho meu. Se eu não estiver aqui quando chegar o momento do meu filho nascer, quero que você fique ao lado dela e dê apoio. Perona já cuida dela sem que eu precise pedir... ela já sabe o que Wyvia significa pra mim. Estou te dando mais do que um voto de confiança, Zoro. Estou te confiando tudo o que mais amo e tenho orgulho. Meu título, o de melhor espadachim do mundo, passará para você um dia, e só o que me importa agora é que meu filho chegue saudável, e que Wyvia fique bem... ela já será uma boa mãe, eu tenho certeza disso. Posso contar com você?”
E deixando que a lembrança aquecesse seu coração, Zoro permaneceu segurando a mão de Wyvia, dando apoio e força para ela. Ficou bem próximo da piscina, olhando seriamente pra ela e usando outra das mãos para massagear as costas dela, meio sem jeito, mas isso a ajudou bastante.
Perona sorriu naquele momento. Ver aquele gesto de responsabilidade e cuidado da parte de Zoro foi exatamente o que esperava de alguém que queria ser melhor que Mihawk. Enfim, ele era um homem de verdade.
— Vai, Wyvia –disse Zoro, seriamente. — Você consegue. Eu e Perona estamos aqui para dar apoio... sei que Mihawk queria estar aqui pra cuidar de você e se certificar de que tudo ficará bem nesse momento, sei muito bem disso... e eu prometi a ele que daria tudo certo... e vai dar.
— Você não é tão burro quanto eu pensei –disse Perona rindo. Descontraiu o momento da maneira perfeita.
— Ahhh cala a boca! Estou cumprindo minhas promessas! –gritou Zoro, escandaloso.
Wyvia sorriu. Queria que Mihawk chegasse agora mesmo na ilha... queria que ele visse o nascimento de seu filho... não queria mais nada nesse mundo. Ela sentiu as contrações ficando menos espaçadas e sentiu os ossos da pélvis se afrouxar. Ela gemeu e apertou com mais força a mão de Zoro. O momento realmente estava chegando.
E na praia, um navio gigantesco atracou. Sua bandeira continha uma Jolly Roger de uma caveira com três marcas vermelhas no lugar dos olhos. Os piratas chegaram no momento certo com seu anfitrião.
Fale com o autor