99 Problems
14 — Chair ◆
Notas iniciais
Aomine Daiki estava desesperado. Sim, o imponente e arrogante ás de Touou estava completamente desnorteado. E somente por não ter nenhuma outra opção, que ele estava parado na frente da porta daquele apartamento, esperando que o letárgico morador do antro lhe atendesse logo.
Kise Ryouta se divertia ao fazer o outro esperar, ainda que fosse por alguns segundos. O moreno era tão cheio de si e em momentos como esse ele sempre recorria ao loiro que – depois de torturá-lo – o ajudava de bom grado. E o motivo da aparição repentina do colega de Teiko era o mesmo da maioria: Momoi Satsuki.
Somente a garota de cabelos rosados era capaz de fazer Daiki se sujeitar aos conselhos amorosos vindos do jogador de Kaijo; e mesmo que não admitisse em voz alta, muitas vezes o loiro tinha razão. E uma espécie de amizade estranha foi desenvolvida entre eles – afinal, não dava para falar sobre mulheres com Kagami Taiga que era um idiota.
Kise era igualmente idiota, mas ao menos, entendia o coração e os sentimentos femininos. Afinal de contas, o que podia esperar de um mulherengo?
Aomine estava prestes a tocar a campanhia novamente, mas a porta se abriu e revelou aquele ser cujos dentes brancos ficaram em evidência naquele sorriso irritante que ele sempre esboçava quando o moreno ia à sua procura.
– Aominecchi, que bom te ver-ssu! – o tom de voz melodioso de Kise era o bastante para fazer uma veia saltar na testa do outro. – Vamos, entre.
Sem dizer uma palavra, Daiki acatou o convite e adentrou o apartamento que não era mais estranho para ele, apesar de ser o novo endereço do loiro. Para ficar mais perto de Kaijo e se livrar das irmãs mais velhas, o copiador decidiu morar sozinho num apartamento pequeno que custeava com o dinheiro recebido de suas modelagens. Apesar de ser modesto, era um ambiente confortável e aconchegante, até.
Já que o outro não falava nada, Ryouta decidiu quebrar o gelo.
– O que te traz aqui, Aominecchi?
Tudo que o loiro ouviu foi um bufar vindo dos lábios alheios. Aomine colocou a mão nos bolsos da calça e fitou os próprios pés.
– Eu estraguei tudo. A Satsuki ‘tá puta comigo. – a voz era grave como sempre, mas Kise conseguiu identificar uma pitada de culpa naquele tom que ele tentava disfarçar.
– Como assim? Aconteceu alguma coisa? – indagou, exasperadamente.
O ala-pivô de Touou pareceu ponderar numa resposta que não demorou para sair.
– Hoje é o nosso aniversário. – disse, quase displicente. – De um ano. E eu, obviamente, esqueci.
Kise levou uma das mãos para selar os próprios lábios antes que dissesse alguma besteira, ao mesmo tempo que parecia chocado ao ouvir aquilo. Sabia que Daiki era desligado e que a maior parte de seu interesse era centrado no basquete, mas não imaginava que seria a ponto de esquecer a data que começaram o namoro.
– Qual o problema das mulheres com datas? É só mais um dia como qualquer outro. – resmungou o maior, indignado.
Kise estapeou a própria testa. Se ele disse essas coisas para Satsuki, o loiro já podia imaginar o tamanho da tempestade pela qual o antigo colega de time havia sido atingido e o fato dele estar ali já era um bom sinal, significava que ele queria consertar as coisas.
– Quero consertar as coisas. – disse o moreno, praticamente lendo a mente de Kise. – O que eu posso fazer pra reverter a situação?
Um sorriso iluminou a face do ás de Kaijou que começou a planejar um curso de ação que faria Daiki – que jazia resignado – sair por cima naquela situação. Dando alguns passos no centro da sala com o olhar vago e com a mão no queixo. Ao mesmo tempo assumia uma postura convencida, o que sempre fazia Aomine se arrepender por procurá-lo. Mas Kise era sua única opção, já que procurar Kuroko Tetsuya – o antigo alvo amoroso de Momoi – estava fora de cogitação. Após minutos que seriam de completo silêncio se o copiador não estivesse falando sozinho, o mesmo chegou a uma conclusão.
– Já sei! – afirmou em bom tom, como se tivesse descoberto a cura do câncer. – Você precisa dar para Momocchi o que ela tanto quer.
“E o que a Satsuki quer?”, Aomine perguntou a si mesmo sem erguer a voz. Sua expressão confusa foi o bastante para Kise responder a sua pergunta mental.
– Romance. – anunciou, com um sorriso divertido.
xXx
Momoi Satsuki estaria trancada em seu quarto, se não fosse obrigada a ajudar a mãe nos afazeres domésticos ao longo daquele dia que ela achava estar desastroso o bastante. Viu as tarefas como uma distração para afastar seus pensamentos de Daiki e da sua crescente vontade de matá-lo. Como ele poderia ter esquecido uma data tão especial? Era especial, não era? Um ano atrás eles oficializaram a relação e deixaram de serem melhores amigos e se tornaram melhores amigos que namoravam. Sentia um misto de sentimentos: raiva, frustração... Tinha tantas expectativas para aquele dia, tantos planos! Mas Daiki era idiota demais para compreender seus sentimentos feridos.
– Ahomine...! – gritou para o ursinho de pelúcia que ganhara dele meses atrás, jogando-o contra a parede. – Idiota, estúpido, burro!
Seu celular começou a tocar e por um minuto ela se encheu de esperança novamente, esperando que fosse um pedido de desculpas do outro. Toda sua empolgação esmoreceu ao ver no visor o nome de outra pessoa. Levou o aparelho até a orelha esquerda.
– Oi, Riko. – disse, sem a costumeira animação.
Do outro lado da linha, a técnica de Seirin estranhou o comportamento da amiga.
– Achou que fosse o Aomine, né? Já disse pra você não ficar desse jeito. – disse, com um suspiro cansado. – Homens são idiotas, principalmente nessa idade.
Satsuki não conseguiu evitar um sorriso ao ouvir um protesto masculino do outro lado da linha, provavelmente a voz de Hyuga Junpei tentando – em vão – defender a honra dos homens.
– Cala a boca, Hyuga. – contestou Riko. – Mas sério, você está bem? Eu posso ir aí e a gente faz alguma coisa, só as meninas.
Um sorriso decorou os lábios da gerente de Touou outra vez. Riko estava sendo tão atenciosa que a vontade era de dizer que queria a companhia dela apenas para não ficar sozinha, mas não estava disposta a atrapalhar o encontro dela com Hyuga para isso.
– Obrigada, Riko. Estou bem, de verdade. – fingiu entusiasmo, apenas para poupar a amiga de preocupações. – Aproveite o seu encontro! Não é todo dia que o capitão te chama para sair, sua sem-peitos.
A provocação entre as duas nunca podia faltar, mas Riko enrubesceu do outro lado.
– Não tenho culpa por você ter duas bolas de basquete no lugar dos peitos, Momoi! – conseguiu ouvir Satsuki rir do outro lado da linha. – Ok, mais tarde eu te ligo.
– Quero saber todos os detalhes do encontro!
– ‘Tá, ‘tá. – disse, se esquivando do assunto. – Tchau.
– Bye-bye.
Segundos após finalizar sua chamada com Aida Riko, o celular voltou a tocar mas agora era som de notificação da rede social de mensagens instantâneas. Viu que era uma mensagem de Daiki, o que a fez rolar os olhos. Conseguiu ler o conteúdo da mensagem sem visualizá-la diretamente, mas acabou clicando sem querer e foi direcionada ao aplicativo. Satsuki quase jogou o celular na parede, uma vez que sua intenção era ignorar.
“Eu sei que você está online, Satsuki.”
Momoi gritava internamente, como podia ser tão burra?
“Venha até a minha casa, agora. Não me faça ir te buscar.”
Uma risada sarcástica ecoou pelo quarto ao visualizar. Daiki realmente sabia como irritá-la.
– Só pode ser brincadeira! – gritou contra a tela do celular.
“Se eu for te buscar vai ser pior.”
Satsuki sentiu um arrepio percorrer a espinha ao ler tal ameaça. Mas como estava tão nervosa, resolveu comprar aquela briga. Daiki mal podia perder por esperar.
– Você me paga, seu idiota. – falou para o celular outra vez, como se ele ouvisse.
Pegou uma sacola com uma caixa embrulhada para presente, ao menos poderia jogar aquilo na cara dele quando viesse com suas desculpas esfarrapadas. Desceu as escadas com passo firme, parecendo o Godzilla em sua caminhada de destruição em Tóquio. Avisou seus pais que iria na casa de Daiki e eles deram permissão. O caminho até a casa ao lado da sua nunca pareceu tão longo; em meio ao trajeto, ela repassava mentalmente tudo o que iria dizer para o moreno. Estava realmente magoada e ele precisava saber.
Quando pisou na grama perto do jardim de entrada da casa Aomine, Satsuki achou estranho o fato de todas as luzes estarem apagadas e mesmo um tanto desconfiada, abriu a porta com o corpo em alerta. A casa estava toda escura, e ela se preparava psicologicamente para qualquer pegadinha ou peça que Daiki fosse lhe pregar dando sustos, afinal, ela sempre se assustava pra valer.
– Daiki, se você me assustar eu vou te matar... – advertiu ao chamá-lo, andando às cegas pela sala.
Daquele cômodo, conseguiu notar um pequeno feixe luz que vinha de outro canto da casa que identificou como cozinha. Satsuki não tinha dificuldades de andar no escuro pela casa do ala-pivô, a conhecia quase tão bem quanto a própria casa e por isso não demorou ao chegar na cozinha; mas não estava preparada para o que viu.
– Dai... – sua voz morreu na garganta ao olhar para a mesa.
Aomine estava de pé ao lado da mesa que estava decorada com um forro vermelho, um par de velas acesas, taças e pratos e talheres organizados em cada extremidade do móvel. No meio dele, havia uma redoma onde certamente estava a comida e próximo dele havia um jarro com alguns galhos de cerejeira em flor – a que ela mais gostava. Satsuki ainda estava imóvel como uma estátua e o olhar em rosto era uma mistura de surpresa e alegria, justo os efeitos que ele queria causar.
Um sorriso cheio de confiança surgiu nos lábios de Daiki.
– Sente-se. – disse, ao andar até a cadeira destinada para ela, sendo cavalheiro o bastante ao puxá-la quando a garota veio ao seu encontro. – Espero que esteja com fome.
– Estou faminta! – disse após se sentar, esquecendo-se momentaneamente que estava com raiva dele.
Depois que a acomodou na cadeira, Daiki deu a volta na mesa e foi até a geladeira – buscar a bebida. Satsuki aproveitou para deixar a sacola no chão, próximo de seus pés, torcendo para que ele não tenha notado aquele grande pacote que ela trouxera. Foi despertada de seus devaneios ao ouvir o som da latinha de refrigerante ao ser aberta; deixando escapar uma risadinha baixa que não passou despercebida pelo outro.
– O que foi? – indagou, enquanto a servia.
– Nada, Dai-chan! – respondeu alegremente.
A risada surgiu devido a uma comparação que ela fez em sua cabeça, lembrando de seus filmes de romance onde o jantar era regado a vinho ou bebidas alcóolicas – mas ambos eram menores de idade, e sequer podiam cogitar a ideia de provar. Após servir a própria taça, e tomar um pouco do líquido gaseificado, Daiki se aproximou o bastante de Satsuki para que ela pudesse vê-lo com clareza. Tirou do bolso uma caixinha preta e alongada, em formato retangular.
– Feliz aniversário, Satsuki. – proferiu, com sua voz grave e forte, ao estender o presente para ela.
A gerente sufocou um gritinho histérico na garganta e por isso apenas um suspiro afetado escapou de seus lábios – que estavam entreabertos, formando um “o” de surpresa, embora seus olhos brilhassem de felicidade e satisfação.
– Para mim? – perguntou, enquanto ele assentia com a cabeça que sim.
Tomou a caixinha em mãos e então abriu a pequena caixa, revelando um colar banhado à ouro que ela ergueu até a altura do próprio rosto. O colar tinha como pingente um coração também dourado. O tocou com os dedos e aproximou do rosto para olhá-lo mais atentamente, até perceber que o pingente abria, revelando duas fotos em cada lado: uma do Dai-chan e a outra do Dai-nyan. Os olhos de Momoi se iluminaram, mesmo levemente marejados, quando ficou de pé para abraçá-lo.
– Dai-chan! Eu amei, é tão lindo...
– Eu sei que sou lindo. – respondeu com um sorriso vitorioso, retribuindo o abraço até desvencilhar-se dela. – Posso? – questionou, se referindo ao calor.
– Por favor! – respondeu, ficando de costas para ele.
Após entregar o colar para Aomine, a jovem levou uma das mãos até as madeixas longas e rosadas e a as afastou, dando espaço para que o fino fio do colar rodeasse seu pescoço enquanto o ás o fechava em sua nuca. Não conseguiu conter os suaves arrepios que assolaram sua pele com o simples roçar dos dedos dele em seu pescoço, era uma sensação nova e empolgante.
– Ah, eu também tenho algo para você! – a voz eufórica dela ecoou pelo cômodo quando ela se abaixou e tirou um pacote de dentro da sacola e então entregou para ele. – Feliz aniversário, Dai-chan!
– Você tem um pacote grande aqui, o que é? – o moreno franziu a testa, desconfiado.
– Só vai saber se abrir! – o respondeu, com um sorriso de orelha a orelha.
Daiki alternou seus olhares do pacote para Satsuki, vendo que ela aparentava estar muito ansiosa para que ele abrisse logo. E ela realmente estava ansiosa; queria ver a reação dele diante do presente e o suspense estava para matá-la a qualquer momento.
– Abre logo, Dai-chan! – gritou para ele.
Ele sorriu e decidiu dar um fim à própria curiosidade. Ao se livrar do embrulho, se deu conta de que era uma caixa de calçado. Até então, nenhuma surpresa. Satsuki e ele sempre saíam para comprar materiais esportivos juntos, ela sabia todos os dados sobre as proporções de seu corpo; o que ele não esperava ao abrir a caixa era que fosse não somente um tênis, e sim um Air Jordan preto com detalhes em vermelho de uma edição limitada, havia somente 250 peças em todo o mundo e uma delas estava em suas mãos.
Satsuki queria ter registrado as feições dele no momento, mas seu celular estava em sua casa. Mesmo assim, estava satisfeita em testemunhar ele completamente sem palavras de camarote.
– Satsuki... Eu... – o moreno não sabia o que dizer, tudo o que ele conseguia pensar era em jogar basquete numa quadra usando os tênis. – Vou estar usando isso quando derrotar o Kagami novamente.
Momoi irrompeu em risadas e com a mão livre, ele a puxou pela cintura e roubou um beijo daqueles lábios rosados com gosto de cereja. Ela se rendeu e correspondeu ao beijo, cessando-o somente quando o ar esvaiu de seus pulmões. Após a euforia da troca de presentes, ambos voltaram para suas respectivas cadeiras e ele revelou o que tinha dentro da cúpula: dois teriyaki burgers, sanduíches comprados no Maji Burger.
Depois de jantar, Daiki sequer quis esperar muito tempo e enfiou os tênis nos pés e foi para o quintal dos fundos, experimentá-lo enquanto arremessava a bola contra a tabela acoplada à parede. Satsuki apenas o admirava, distraída, brincando com o pingente de coração entre os dedos.
E no fim, Aomine constatou que um pouco de romance não faz mal à ninguém.
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