7 Vidas
1 Capítulo 1
Capítulo 1
Ouço um barulho vindo da entrada, provavelmente meu pai bêbado novamente. Meu coração bate descompassado, enquanto ouço seus passos vindos da escada. Sei que ele está vindo em direção ao meu quarto, sei o que irá acontecer, mas isso não torna mais fácil aceitar o que está por vir.
Depois de alguns segundos a porta do meu quarto é escancarada. Não consigo conter as lágrimas no momento em que ele entra e retira o cinto.
Já sei como é o processo, sei o que ele quer. Sem gritar ou espernear, me levanto da cama e ele vem até mim. Segura meu rosto em suas mãos e como sempre sussurra a mesma frase: — Você se parece tanto com sua mãe.
Ele se aproxima mais, e me beija com voracidade, me desejando cada vez mais. E me empurra contra a parede sem desgrudar nossos lábios.
O gosto do álcool e do cigarro me inundou, e é neste momento eu esqueço quem sou. Lágrimas escorrem pelo meu rosto, e eu não faço questão de pará-las. Pois sei que isso não mudará o que está para acontecer.
Coloco minhas pernas ao redor de sua cintura, puxando-o para mais perto, desejando que esse pesadelo acabe logo.
Depois de se divertir, a culpa o consome. Enxugando as falsas lágrimas, abaixa-se, pega o cinto caído no chão e desfere vários golpes em diferentes partes do meu corpo. Assim aliviando todo ódio de si em mim.
Quando finalmente acaba a tortura, ele puxa meus cabelos, me fazendo chegar ainda mais perto. Um soluço involuntário escapa de minha garganta, enquanto ele sussurra em meu ouvido: — Não conte para sua mãe.
Suas palavras machucaram mais que todas essas atrocidades, quebraram o último pedaço intacto em meu coração. O assisti sair cambaleante, derrubando vários móveis que ousaram ficar em sua frente.
— Eu não contaria nem se quisesse. — sussurro, antes que outra onda de soluços me invada.
Há alguns anos atrás, minha mãe havia falecido. Deixando-me sozinha com esse monstro que eu me recuso lembrar o nome. Desde que ela nos deixou, ele começou a beber mais, ficar mais agressivo, e abusivo que o normal. Eu perdi a noção do tempo, da vida e de quantas vezes fui usada para aliviar “a dor de sua perda”, assim como ele dizia.
Depois de longos e tortuosos minutos, ouvi a porta da frente ser aberta, me avisando que o monstro havia saído de casa novamente. Soltei a respiração que eu sequer tinha percebido estar prendendo.
Incontáveis vezes tentei suicídio, mas sempre me acovardo. Hoje será diferente, não suporto mais isso. Depois de tudo que ocorreu ao longo destes tortuosos anos, acho que finalmente perdi a razão, se é que algum dia a possuí.
Fui até o canto do quarto, peguei uma antiga corda que minha mãe me dera de aniversário de oito anos. Amarrei-a no ventilador de teto, que há algum tempo não havia mais utilidade. Com a cadeira posicionada logo abaixo, onde estava a corda amarrada em forma de laço apertando-a em meu pescoço. Fiquei nervosa, mas já havia me decidido. Pulei da cadeira, chutando-a logo em seguida. Agora não havia mais volta.
O aperto em meu pescoço era insuportável. Eu não era tão forte para aguentar aquilo, o arrependimento bateu no mesmo instante em que a cadeira caiu no chão. Minha garganta começou a se fechar, e o ar faltar. Dando lugar ao desespero. Minhas mãos voaram imediatamente para a corda em meu pescoço, tentando aliviar o aperto, mas é tarde demais. Eu sei que é. É quase impossível me libertar do cativeiro que eu mesma me coloquei. Minha visão foi escurecendo, não consegui pensar em nada que não fosse confuso. Então eu me entreguei. Entreguei-me á minha escolha, meu destino. Entreguei-me á morte.
O medo preencheu todo meu corpo. Era tanto que chegava a me sufocar, como se a corda ainda estivesse em meu pescoço. E ela de fato estava. Minhas mãos tatearam todo local, incansavelmente tentando encontrar algum vestígio de sangue, ou esfoliação em meu pescoço. Mas não havia nada disso. A corda não estava mais amarrada no ventilador de teto, ela apenas estava jogada no chão. O ventilador também não está mais em meu quarto, ou melhor, meu quarto não está mais aqui.
A escuridão havia me engolido, a dor tinha ido embora, e eu estava completamente vestida. O vestido branco e macabro que eu estava usando me fez lembrar todos os filmes de terror que eu havia assistido com Jared quando éramos mais novos. Meu cabelo estava solto e caia em minhas costas, eu peguei uma mecha entre meus dedos e fiquei chocada em como sua cor avermelhada se destacava em meio a escuridão. Foi quando percebi que não estava completamente escuro. Era como se todas as paredes do local fossem pintadas de preto, dando profundidade. Mas eu ainda conseguia enxergar como se todas as luzes estivessem acesas, e o local todo iluminado, eu não sabia como isso era possível.
Eu sabia que iria ser castigada, sabia que não seria tão fácil quanto parecia. Eu não era tão tola ao ponto de acreditar que estaria livre depois de cometer suicídio. Mas se meu castigo fosse ficar sozinha para sempre na escuridão, estava tudo bem pra mim.
Foi quando algo se acendeu no lado oposto do local, era um brilho dourado e instável. Minha curiosidade falou mais alto que os sinais de alerta em minha cabeça. Não pensei duas vezes antes de ir em direção à luz. No momento em que dei o primeiro passo, eu parei de enxergar, era como se as luzes que antes estivessem ligadas em meus olhos estivessem sido desligadas imediatamente e tudo não passava de escuridão. Mas o brilho dourado ainda continuava lá, do outro lado da sala, me desafiando ir até ele.
Eu nunca me considerei uma garota corajosa, mas sou curiosa ao extremo. Jared disse que um dia isso iria me matar, mas com o que me preocupar agora? Eu já estou morta mesmo, o que mais poderia acontecer?
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