7 Dias

2 A confusão de um sábado


Notas iniciais
Que tal a gente conhecer melhor a casa do Júlio?!

Era sábado e era o primeiro dia que passaríamos juntos para resolver como ficaria dividido o trabalho para ficarmos o máximo possível distantes um do outro (essa era minha intenção).

Subi as escadas do apartamento dele e respirei fundo três vezes antes de bater na porta, mas ele a abriu antes e com aquele sorrisinho idiota cravado no canto da boca.

- Aí está você. Ainda bem que abri a porta antes de você descer correndo!

Um misto de alívio por ele ter me poupado de falar primeiro, ou de ter batido na porta, invadiu a minha mente e deve ter suavizado um pouco as rugas que estavam no meu rosto por horas a fio. Ele percebeu, claro, parece ter ficado aliviado em resposta.

- Até que seu apartamento está.. limpo. — Custei a falar, mas quando cheguei no meio da sala clara e organizada não consegui segurar. Era uma surpresa que um garoto pudesse ter um apartamento tão organizado.

Fazia dois anos que uma corda fina e frouxa nos ligou e ela agora estava meio embolada nas minhas pernas, sempre me fazendo tropeçar nele, na vida dele, na casa dele.. Eu não sabia como me livrar desse arremedo de história.

Sem demorar, falar qualquer coisa, ou olhar pra trás, ele me tirou da sala sem tocar em mim, apenas andou lentamente em direção ao interior do apartamento. Alguns passos e estávamos na cozinha, sentados numa mesa pequena, um de frente para o outro.

A falta de assunto pessoais me fez rir baixo. Escondi meu nervosismo dentro da mochila e peguei minha agenda e a apostila de exercícios. Ele respeitou, como ele fazia raramente, meu momento estúpido de adolescente confusa. O que me deixava mais nervosa é saber que ele estava preparado, que ele não se importava se as coisas eram complicadas de se entender. Ele apenas vivia. E me olhava com um olhar tão meigo que dava vontade de voar na cara dele e estragar aquela perfeição.

- Tem muito tempo que você está sozinho? Digo, seus pais não vem aqui?

Tirei ele do transe. Não pense que minha voz estava falhada ou fraca, nunca perco a compostura. Não sei se pela rebeldia latente ou pelo costume de me fazer de forte. Meu trunfo era desconcertá-lo antes que ele pudesse fazer alguma coisa.

- Sim. Eles pararam de vir depois que o Daniel nasceu. Mas.. — A pausa e a coçadinha na nuca eram um artíficio para se recompor. Eu havia tocado num assunto chato pra ele. — Está tudo bem agora. Vamos ao que interessa?

Indiquei a apostila em cima da mesa, arqueando a sombrancelha e rodando a caneta nos dedos.

- Então, Júlio... — O nome dele amargou na minha garganta, eu não deveria ter dito o nome dele assim. Era como confessar que ainda me lembrava dele. Ai, que porcaria. O que eu estava pensando? Que diferença fazia se eu estava sentada na cadeira dele, no apartamento dele? — Ficamos com o cérebro. Teremos que descrever tudo que tem no nosso livro e responder cada exercício indicando mais dois livros que confirmam nossas respostas. Ou seja.. — respirei, eu havia entrado no clima da corrida. — vamos ter que dividir as tarefas de acordo que dê tempo de responder e ler tudo até sexta. Sábado quero só revisar e domingo quero estar livre.

Silêncio. Olhos verdes. Entardecer. Era tudo que havia entre eu e ele. Aquele olhar morto, de uma contemplação de estátua que ele sabia ter como ninguém. E eu ali, ofegante por ter falado. Parecia até mesmo que eu estava gritando, a diferença entre minha fala e o silêncio parecia de uma multidão em frenesi e um quarto vazio de hospital. Era quase tão doentio quanto.

- Como você consegue? — Ele sorria agora, mas com seu melhor sorriso. — Como consegue sempre ter as rédeas de tudo?

Júlio é quem mantinha a calma e veio me dizer que eu tenho as rédeas de tudo. Tem mais contradição aí, gente? Deve ter, mas eu conhecia essa como a máxima delas. Eu ali, suando frio. Ele bem na minha frente escutando e calculando cada mexida no cabelo. Cada deslumbre que eu tinha aumentava minha raiva dele.

Depois de duas horas chegamos a um acordo. Eu leria os livros extras enquanto ele pesquisava no nosso material e na rede para responder aos exercicios. Até na quarta teríamos que estar com tudo pronto para montar uma apresentação decente para a Bruxa.

- Então, está tudo marcado. Assim que você chegar em casa me mande sua parte do relatório pra eu montar o meu e enviar pra louca.

Ele me conduzia de novo para a sala depois de fazermos um lanche com pão de forma regado com azeite e um queijo saboroso que eu não conhecia. No final, eu me senti mais a vontade vendo que ele também tentava deixar tudo no campo do nosso trabalho, não tocando no assunto de nós dois.

- Foi muito produtivo, não acha? — Como eu estava segura, mais fora do que dentro do apartamento, arrisquei. — Vamos nos falar por email ou o que?

Ele apoiou o antebraço na lateral da porta e me olhou de cima pra baixo. É claro que eu me arrepiei, mas não sei de quê: de raiva, de medo, de.. deixa pra lá.

- Que tal a gente tomar um café amanhã cedo? E aí resolvemos...

- Tá.. — É, desse jeito. Seca e sem saída, como Katy aceitando o pedido de dança de Mr. Darcy na casa de Mr. Bingley.

- Ótimo. Qualquer coisa pode mandar email, estarei online.

Toda a tarde se resumiu aí, bem no final. Ele se desbruçou sobre meus ombros, beijou meu rosto de leve e bem longe da minha boca, mas perigosamente perto da minha orelha. O perfume dele invadiu todo ar em volta de mim, uma mistura de sabonete e menta. A pele morna, os lábios quase molhados, macios e praticamente imperceptíveis ao toque da pele. Tudo muito rápido, foi só um beijo de despedida.

- Você não existe. E espero que não se repita. — Fui grossa, fui curta e cada confusão que eu havia escondido dentro de mim estavam lá, ruborizando cada centímetro do meu rosto.

Corri pra casa sem saber se ele havia engolido minha encenação. Cada parte do meu corpo estava confusa, minha cabeça rodava e eu não sabia se sobreviveria àquela semana. Eu só precisava dormir.. Meu quarto pareceu o lugar mais seguro e eu tentei esquecer o perfume dele enquanto dizia pra mim mesma que eu o odiava.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.