68º Edição: Jogos Vorazes
12 Doze
Não demorou muito para que Etha chegasse e anunciasse o almoço com seu entusiasmo repentino. Me perguntei se tinha esse costume todos os anos, Blight não parecia se incomodar com a mulher que a todo instante lançava comentários maldosos e repetitivos com a intenção de machucar alguém.
Ninguém interferiu o monólogo da agente de Capitol durante os instantes passados, ninguém sequer trocou uma palavra. Mair sentara ao meu lado, e a todo instante olhava para mim, como eu se tivesse algo a mais para fazer ou falar para ele. Blight olhava entediado para a comida.
Toda a minha fome do café da manhã havia evaporado. As novas notícias causaram um efeito oposto meu estômago e não consegui comer mais que uma colher de comida. Logo me levantei e me sentei no sofá em frente ao projetor. Eles iriam começar a mostrar os outros tributos em instantes e não queria perder a oportunidade de ver meus caçadores, além de ver o que aconteceu após meu desmaio, pois sabia que mostrariam isso, “tributo feminino do Sete desmaia após ser chamada”. Quis me amaldiçoar por me mostrar tão fraca e tão frágil, e por isso uma presa tão fácil.
Não demorou muito para que as quatro figuras estivessem reunidas em frente à televisão ligada, que mostrava a imagem de um apresentador de cabelos cor de mar em diversas tonalidades e um terno cor de areia. Na TV, alguém fizera um comentário sobre haver um favoritismo para o Quatro, onde Ethe foi a única a disparar na risada junto com o próprio apresentador humorado chamado Caesar Flickerman.
Foi aberta com o inicio de um discurso do presidente Snow para os habitantes de Capitol, em seguida foram mostrando trechos dos discuros dos prefeitos e das escoltas dos tributos. Houve em seguida pequenos relances de imagens mostrando alguns dos tributos, tentei não ficar desolada ao ver que uma das imagens era o meu desmaio.
Em seguida Casear aparecera, dizendo que havia sido um dia de grandes surpresas e emoções, com tributos que logo de cara se destacaram. Referia-se aos distritos carreiristas Um, Dois e Quatro, que pareciam estar sempre praparados para disputar os Jogos com adolescentes treinados.
Tentei memorizar os nomes e os rostos de cada um, mas minha cabeça girava em nervosismo sobre o que mostrariam e falariam sobre mim. Sabia que o discurso errado me renderia poucos patrocinadores ou nenhum. Mas a memória eidética não pertence à divindade de Afrodite, e os únicos rostos que consegui lembrar foram os que mais me assombraram. Os gêmeos do Um, com um emocionante discurso sobre “fazer sacrifícios necessários para meu Distrito mas acima de tudo, para Panem” — o que pareceu agradar ao apresentador; os orgulhosos do Dois, que se voluntariaram no mesmo segundo, o menino do Quatro que tinha o físico de um urso, e a garota do Nove que tinha o olhar de assassino.
O resto parecia tão fraco ou amedrontados quanto eu. A primeira polêmica veio com o três, no sorteio dos tributos masculinos, onde o garoto se recusara terminantemente a subir ao palco, sendo forçado por pacificadores. Não tinha mais de 13 anos, assim como sua parceira, uma garotinha de olhos assustados atrás de enormes óculos. Meu coração pesou ao imaginar que apenas um sairia campeão.
Não era justo colocarem crianças que nem sequer sairam da escola para lutarem até a morte. A maioria sem preparo algum, que, tinham como primeiro sacríficio se inscrevem para não morrerem de fome, para em seguida, serem lançados numa roleta da sorte onde dois seriam sorteados para morrer de qualquer jeito.
Em seguida mostraram a colheita do Sete. Meu coração entrara em disparada só com a menção, mas ao final da apresentação, tinha a cabeça baixa tentando não pensar em como tudo aquilo era desgostoso para todos.
Após subir ao palco carregada de lágrimas, tudo pareceu uma neblina para mim. Sabia que estava lá, mas não sabia ao certo o que enxergava. Pois bem, o garoto, Mair, havia sido sorteado, e diferentemente de mim, subira pálido, mas sem lágrimas. Assim que Etha finalizava seu discurso cheio de palavras agradáveis aos ouvidos de Capitol, desmaiei dramáticamente, quase caindo de cara no chão de terra se não fosse um pacificador. Fizeram questão de mostrar meu pai desesperado com Walsh atrás dele, pedindo para ao menos ajudar a filha. Mas tudo que fizeram foi carregar meu corpo direto para o trem.
Me senti completamente rídicula vendo aquilo. Panem inteira via aquilo e provavelmente, meu pai também estava revivendo a situação. Me arrependi profundamente por ter me deixador agir daquele jeito sem tentar ser mais forte.
Agora era motivo de risada para todos. Caesar fizera questão de brincar, dizendo que esperava que eu não desmaisse nos primeiros segundos da arena, pois assims eu iria explodir.
O resto da apresentação foi um desconforto para mim, notei que entre os tributos havia uma garota sem uma mão, mas não sabia dizer de qual Distrito era. Não deixei de perceber que fui a sensação da Colheita, e não sabia o que esperar como resultado além de coisas negativas. Blight a todo instante lançava olhares para mim, negativamente balançando a cabeça como se lamentasse minha situação.
Não precisava de conselhos para saber que teria que ser esperta, traçar uma estratégia que mostrasse que também era forte. Como iria fazer isso, não sabia, mas o primeiro passo teria que ser rápido, assim que saisse do trem já teria que estar pronta.
Por anos assistindo aos Jogos, sabia que assim que o trem parasse, os tributos iam para uma espécie de treinamento preparatório, mas antes disso, tinham alguns segundos diante da câmera e dos habitantes de Capitol. Teria que me esforçar para parecer feliz e alegre por estar ali, pois por alguma razão doentia as pessoas daquele local gostavam quando os participantes exibiam sorrisos felizes, como se estivesse satisfeitos por estarem naquela situação.
Olhei para o lado e percebi que Mair olhava para mim, parecia preocupado, talvez realmente esperasse que eu falasse algo para consolá-lo. O garoto merecia morrer tanto quanto eu merecia, ou qualquer outra criança sorteada, até mesmo aquelas que foram treinadas como máquinas por seus Distritos. Tudo isso para alimentar ainda mais a sensação de poder de Capitol sobre os Distritos. Fazendo crianças lutarem, com o simples pretexto que era necessário. A pior parte é que no fundo do fundo, todo mundo sabia disso, mas ninguém lutava contra, conformados com a situação ou por não serem atingidos ou oprimidos por quererem fazer algo. Sentia pena de todos nós, que, mesmo com a verdade diante da gente, gostávamos de acreditar na mentira de que tudo era para o bem de todos.
Não deixei de pensar na frase de minha mãe, que a verdade é uma loucura e por isso é tão difícil de se aceitar. Agora minha mãe voltara a ser mais um sonho distante, encoberto com a volta da realidade tão dura. Uma parte de mim lutava para ter esperanças, para pensar que poderia ganhar, mas havia outra parte de mim, que sabia que era burrice acreditar que tinha chances. Mas uma coisa era certa, e dolorosamente admitia para mim, minha chances de morrer eram maiores que a maioria dos outros tributos. Minhas chances de ganhar dos Carreiristas, quase nulas. Talvez minha mãe pudesse me ajudar em alguma coisa, mas teria que esperar até a noite, onde contava que minha mãe aparecesse para mim, antes disso, teria que contar com minha sorte. Pensei em como havia sido corrido meu segundo encontro com Afrodite enquanto via a tarde passar lentamente.
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