68º Edição: Jogos Vorazes
3 Três
Poderia ter continuado naquele transe se não tivesse percebido sem querer a presença de uma ave com penas cor de pérola, pousada no tronco de árvore que tentei cortar. Era uma pomba que me olhava com certa curiosidade animal. Sorri para ela sem esperar qualquer resposta. Mas ela pareceu entender. Seus olhos pareciam dois circulos em breu, extremamente intimidadores, e os abaixou junto com cabeça e pescoço, como fazemos quando queremos agradecer a algo com certa delicadeza. Depois continou a me olhar.
Talvez fosse o silêncio do lugar junto com a solidão que me encontrava, que me fez imaginar coisas. Mas posso jurar que por um instante, a pomba branca, com seus olhos escuros, tentou se comunicar comigo. Mas vendo a incompreensão no meu rosto perante a seu simples ato, pareceu desistir e lançar vôo novamente.
Permaneci ali, sentada, tentando compreender aquela avesinha cuja a semelhança era enorme com a pomba de porcelana que havia no meu quarto. Até mesmo os olhos, tão escuros, tinham em comum o fato de intimidar e parecer estar sempre em vigilância. Não sei quanto tempo permaneci ali, pensando, avoada, mas não tardei a escutar passos se aproximando.
Meu pai vinha com sua costumeira calma, caminhando e aproveitando todo o caminho com uma sabedoria que nunca vou chegar a entender. Quando se aproximou de mim, logo lançou um olhar para as pistas que indicavam meu motivo de estar lá, indo do machado para a árvore, da árvore para mim.
– Eu achei que talvez fosse hora para uma nova tentativa. Cedo ou tarde terei que aprender, certo? — Tentei, esforçando um sorriso.
A resposta de meu pai foi uma careta que logo se transfigurou em sorriso.
– Melhor deixarmos para outra hora, outro dia, ou… outra vida… Uma em que você segurando um machado não seja um risco para o mundo. — Brincou. — Anda, vamos entrar. Está muito cedo, querida.
Disse, segurando minha mão com delicadeza e me conduzindo de volta à nossa casa. Os materiais, assim como a floresta foram deixados para trás.
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