Quando chegamos ao centro do Distrito o lugar já começava a encher de pessoas. Havia muitas câmeras espalhada por todos os cantos e muitos pacificadores ainda se organizavam. O palco já havia sido montado, e contava com seu telão no centro, as duas urnas e três cadeiras para os convidados de honra, tendo duas já ocupadas pela ilustre companhia da prefeita e seu marido, que mais viviam em viagens a Capitol do que no Distrito. Tinham seu costume olhar mortificado e entediado de sempre, como se estivessem presos na pior peça de teatro eternamente. Olhavam um para cara do outro. As duas únicas figuras gordas de todo o local, estavam de braços cruzados e trocavam algumas palavras impacientes. A prefeita tentou sorrir algumas vezes mas sorrir parecia fazer seu rosto doer e logo desistiu.

Ficamos juntos o tempo inteiro, alguns amigos e colegas de meu pai apareceram pra nos cumprimentar, mas logo iam apoiar suas famílias. Um parou diante de nós, lançou uma cara feia as estátuas humanas do palco, e disse a nós: “a cada ano aparecem mais gordos. Talvez devêssemos tomar cuidado com nossa pouca comida ou as comerão também.” Meu pai soltou um riso ao mesmo tempo que olhava ao redor.

“Você deveria tomar cuidado, meu amigo. Quer fazer um comentário desses justo no dia que mais tem pacificadores por aqui. Se eles ouvem…” E completou a frase com uma careta. O amigo se afastou aceitando o conselho do meu pai e indo se juntar a sua família.

Meu pai lançou-me um olhar: “alguma amiga para poder conversar?” Ao qual respondi com um balançar negativo da cabeça. E resolvemos todos aproveitar os últimos instantes juntos antes da cerimônia. Estava entre Walsh e meu pai, e olhávamos todos para a figura maquiada que subia ao palco. Sorria e acenava como se todos estivessem ali para vê-la, mas alguém falou-lhe que ainda não haviam começado e seu rosto se fechou, voltado a ser a Etha Wistborn que todos conheciam. Vestia algo difícil de se descrever pois não parecia ter um começo, um meio ou um fim, entre a maquiagem a roupa e os sapatos.

Estavamos todos nervosos e achei que fosse a hora de repensar no meu sonho. Ninguém falava nada e escutavam apenas passos indo e vindo e a voz de Etha ralhando com alguém.

Espero que esteja errada, pensei. Profundamente errada. Foi somente um sonho e nada mais. Mas... parecia tão real. A mulher, ou minha mãe, não sei. Não pode ser real. Foi tudo que consegui aceitar. A hipótese de ir para arena, deixar meu pai só, morrer. Morrer. Repeti. Não. Não poderia aceitar que havia recebido um recado dos céus me avisando sobre meu destino. Sempre tive sonhos sobre os Jogos, mas aquele fora diferente. Certamente foi, mas talvez não significasse nada. Talvez fosse somente uma emoção a mais por ser meu último ano.

Mas seja o que for, meus pensamentos foram interrompidos quando vieram nos avisar que a seleção ia começar. Respirei fundo e tentei conter meu nervosismo. Minhas mãos tremiam, mas meu pai as segurou delicadamente, lançou-me um olhar "tudo vai ficar bem, querida" e um abraçado tão forte e aconchegante que poderia ter ficado horas e horas ali. Algumas lágrimas ameaçaram cair e nós dois e tentamos contê-las.

"Força filha. É seu último ano. Já enfrentamos coisas piores. Seu nome... está escrito apenas duas vezes, perdido num mar de papeis..." Me abraçou novamente antes de me soltar.

Estava tão nervosa quanto antes, mas fiz de tudo para me mostrar confiante, mesmo não sabendo ao certo se havia falhado ou conseguido. Sorri para o Walsh e nos abraçamos. Não falamos nada, mas seus olhos silenciosos também indicavam que estava preocupado.

O momento de abraços e choros não era algo singular no meu distrito. Talvez significasse a última vez que veríamos quem amamos sem o peso da morte rondando certo sobre nós. Ninguém quer que soe como uma despedida fúnebre, mas entre a dúvida, era melhor a resposta mais ampla.

"Vou indo agora." soltei entre engasgos. Quis dizer qualquer coisa que demonstrasse confiança, mas um "até logo" foi tudo que consegui pronunciar antes de me virar e ir de encontro a coluna de tributos femininos.

Não foi algo corajoso a se fazer. Mas quando estamos nervosos, nem sempre conseguimos demonstrar tudo aquilo que queremos. Quis dizer que tudo ficaria bem, mesmo que dúvidasse dessa verdade, mesmo que meu íntimo dissesse que havia uma grande possibilidade louca de meu sonho estar correto. Meu sonho... Desejei ter contado sobre o pesadelo para o meu pai. Teria me dito algo que me confortaria e me faria sentir melhor. Mas era tarde para estes pensamentos. É sempre tarde para a verdade.

Quando voltei a si, já estava parada diante do telão. Exprimida entre duas garotas tão geladas quanto eu. Não as reconhecia. Meus olhos miravam na figura de Etha subindo ao palanque, segurando um sorriso falso e dando inicio a Colheita.