"Olá, olá, olá!" disse entusiasmada. "Bem-vindos a sexagésima oitava edição dos Jogos Vorazes!" explodiu animada na expectativa de alguém apaludir. Não funcionou e fechou a cara para todos.

"Enfim..." continuou já não tão animada quanto antes. Pensei em como ela fazia isso todos os anos e em como era tola em acreditar que haveria outra recepção. "Prefeita o espaço é todo seu." disse, apontando para o microfone.

A prefeita levantou-se de muito mal grado. Postou-se sobre a multidão. Alguns minutos foram perdidos enquanto a prefeita organizava seu discurso maçante. A mulher tinha uma voz forte que se sobrepunha sobre o microfone e lançou-se ao discurso imutável sobre como os jogos começaram e como aquilo era necessário.

Havia muita gente ali, talvez não prestando atenção no discurso da prefeita, mas, enquanto a mulher falava, em uma parte do telão eram mostrado as fileiras e fileiras de adolescente e adultos. Pude contemplar meu rosto no telão enquanto a câmera passava. Parecia perdida no meio de tantos rostos preocupados e aflitos, lembrei-me de tentar voltar a atenção ao discurso, mas o sabia de cor, assim como todos ali.

A prefeita não fazia muito esforço em convencer e suas palavras soavam vazias como se não acreditasse no discurso que fazia. Ouviu-se um suspiro antes do fim. Sua conclusão foi somente um: "Feliz Jogos Vorazes! Que a morte esteja sempre ao seu favor... não, não desculpem. A sorte. Que a sorte esteja sempre ao seu favor. Terrível engano. Desculpem-me" Houve um momento de silêncio pertubador antes da prefeita se corrigir, mas recebeu meio aplauso de meia platéia ouvinte.

Etha não demorou a voltar ao microfone, enquanto tantava dispersar o erro da prefeita. Carregava um sorriso na face e afirmou que esse era o ano de sorte para o nosso Distrito, certamente. Também jogou algumas palavras amáveis sobre Capitol e sobre o Presidente; fez menção ao único mentor vivo do Distrito, alguém chamado Blight Fairbain que mais parecia morto. Este tentou um aceno quando as câmeras mostraram seu rosto, depois voltou a desaparecer entre as pessoas.

O telão mostrava o rosto da voz de Capitol. "Vamos ao sorteio, então." Finalizou.

Era momento. Não pude deixar de sentir um frio na barriga, enquanto Etha caminhava para as urnas acrílicas postadas lado a lado, bem no centro do palco. "E como sempre, meninas primeiro." disse, enquanto enfiava a mão na urna e mexia os papéis. Meu corpo todo estremecia e podia sentir minhas mãos geladas. Parecia indecisa sobre qual alma ia jogar a morte. Mas enfim escolheu uma.

As mãos de Ethel descobraram o pequeno papel branco, e meu coração batia a mil por hora quando a voz da mulher revelou meu nome. Houve um silêncio profundo acompanhado pelo choque em que entrei. Estava paralisada e podia sentir meu coração na boca. Todos olhavam para mim e eu olhava somente para o meu rosto incrédulo no telão. Por um instante que mais tarde julguei eterno, permaneci ali, paralisada de medo ao ouvir meu nome.

Fui despertada pelos gritos de protestos e choro de meu pai, que caiam em mim como raios. Alguns pacificadores já vinham em minha direção para me levar ao palco. Me adiantei e sai da fila. Todos olhavam enquanto me virava a procura de meu pai.

Tudo ocorreu rápido naquele instante. Lembro-me de ter visto meu pai seguido por Walsh correrem até mim. Meu pai tinha o rosto em completa dor. Ia me abraçar, mas foi quando dois pacificadores apareceram e nos separaram. Tentei gritar e me desvencilhar dos braços daquele homem, e meus olhos encontraram com o do meu pai e naquele instante não pude respirar, meu pai chorava ao chão enquanto outro pacificador o ameçava com um bastão.

Tentei me recompor. Walsh estava ao lado do meu pai e olhou para mim. Me soltei do pacificador, limpei as lágrimas que corriam dos meus olhos e fiz uma afirmação com a cabeça antes de me virar e seguir para o palco.

Etha me olhava com desprezo, como se reprovasse minha reação. Subi as escadas e me postei atrás dela. Ela também provavelmente não gostou nada da minha segunda reação logo após sortear o nome de algum garoto e terminar a cerimônia. Minha cabeça rodava e sentia como se estivesse perdendo os sentidos, ouvi algo parecido com o farfalhar de asas e depois desmaiei. Sim. Ousei desmaiar em pleno palco e tirar todas as atenções de Etha, que finalizava o evento falando algo sobre coragem, bravura e sacrifícios.