50 Tons De Uchiha
43 Irrevogável.
Notas iniciais
Capítulo 43 – Irrevogável.
Mikoto Yuuhi tinha se casado muito cedo.
Ela mal tinha dezesseis anos quando conheceu Fugaku Uchiha, que era quase cinco anos mais velho do que ela. Apesar de não ter sido oficialmente apresentado como um pretendente, as intenções da família Yuuhi eram claras: seus pais queriam que ela investisse em seu relacionamento com o jovem herdeiro da Uchiha.
Boa parte da boa vontade de sua família sobre o relacionamento dava-se ao fato de que os Yuuhi passavam por uma situação financeiramente delicada, e precisavam aumentar suas conexões.
Fugaku era inteligente, gentil e a tratava com carinho, então ela não viu problemas em prolongar seu contato. Não que tivesse muita escolha... Mas Fugaku parecia gostar dela, então as coisas seguiram de forma bastante simples.
Três meses depois de se conhecerem, Mikoto e Fugaku começaram um relacionamento. Foi um namoro curto e absolutamente respeitável, e um ano depois eles estavam subindo no altar.
Mikoto tinha dezessete anos quando aconteceu.
Apesar de ser jovem, saudável, e manter uma boa relação com o marido, Mikoto levou algum tempo para engravidar. No começo ela só ficou decepcionada, mas quando completou dois anos de casada, o desespero a consumia.
Os Uchiha não eram apenas poderosos e absurdamente ricos; ela sabia que ao se casar entrara em uma família antiga e tradicional, que via sua concepção como uma obrigação. E por mais estúpido que a ideia pudesse soar, ela sabia que os sogros acreditavam que gerar um filho era uma responsabilidade da mulher, não do casal.
Fugaku sinceramente não se importava muito. Ele era feliz com seu casamento, e realmente amava a esposa. Quando os pais – e a mãe, especialmente – tentavam alfinetá-lo com sua escolha para esposa, ele dava de ombros e garantia que não se importava em ter Mikoto só para ele por mais um ou dois anos.
Mas, aparentemente, a opinião de Fugaku não importava muito.
Kaede Uchiha sempre foi uma mulher firme, que comandava a família com mãos de aço. Para ela, tudo devia acontecer no momento em que desejasse, e a falta de disposição de Mikoto para gerar o que seria o próximo herdeiro da linhagem Uchiha a frustrava de tal forma que ela não teve o menor tato quando decidiu que faria da vida da jovem nora um inferno.
Mikoto foi obrigada a freqüentar uma dúzia de médicos, a fazer uma centena de exames, e a sogra nunca parecia satisfeita o suficiente. Sempre duvidava dos diagnósticos positivos, e ficava furiosa quando os médicos insinuavam que “talvez o problema estivesse no marido”.
E apesar de aquela época ter sido um inferno, Mikoto conseguiu aguentar tudo calada. Temia que Fugaku pudesse ter uma discussão mais séria com os pais – que já estavam furiosos com o mal desempenho de Obito no colégio. Ela tinha conhecimento dos sentimentos do marido, sabia que ele a defenderia, mas temia no que algo como aquilo pudesse terminar.
E então, do nada, sua menstruação atrasou.
Ela esperou as semanas necessárias para fazer o exame – porque odiava a ideia de alertar falsamente qualquer um dos Uchihas – e quando descobriu que estava grávida, seu mundo se iluminou.
Que alívio!, era só o que ela conseguia pensar.
A família ficou radiante.
Fugaku e Obito comemoraram a gravidez inteira, e compravam tantas coisas que algumas delas Itachi sequer teve a oportunidade de usar. Suzuki decidiu que aprenderia a tricotar só para fazer ela mesma as roupas do sobrinho e Madara reformou não só o quarto que seria do primeiro neto, como também boa parte da estrutura da casa.
“Segurança em primeiro lugar”, era o que ele sempre dizia quando Fugaku insinuava que ele estava exagerando.
Kaede a infernizou por mais um tempo: Mikoto tinha que comer o que ela dizia, nas horas em que ela decidia; tinha que fazer os exercícios que ela falava nas horas que ela mandava e não podia fazer essa ou aquela atividade, pois podia ser perigoso. A sogra se mostrou insuportavelmente atenciosa, mas para Mikoto, aquilo era um paraíso.
Ela estava só infernizando, não mais julgando.
Quando Itachi nasceu, tudo ficou ainda melhor: os Uchihas se encantaram pelo primogênito, e ele era um menino!... Nada podia ser melhor. Itachi seria o herdeiro de tudo: comandaria a empresa, a casa e se tornaria o próximo patrono da família.
Todo o alívio que havia sentido durante o começo da gravidez tinha se transformado durante os meses de espera, mas quando ele nasceu foi... Diferente.
Quando Mikoto sentiu aquele pequenino ser humano em suas mãos, foi tomada por uma enorme consciência de que aquela criança que era um pedaço dela e um pedaço do homem que ela amava: o fruto de seu amor.
Era o seu filho, e ela morreria por ele se necessário.
Madara e Kaede traçaram muitos planos para o primeiro neto, mesmo durante seus primeiros meses de vida, mas Fugaku e Mikoto – e principalmente Mikoto – só pensavam em uma coisa: Itachi seria amado.
Os primeiros dois anos de Itachi foram repletos de amor e união: toda a Uchiha estava disposta a fazer parte do crescimento do pequeno, e Mikoto, de alguma forma, finalmente foi tomando espaço em sua nova família.
Os sogros ainda pareciam vê-la como uma jovem tola, mas na maior parte do tempo pareciam gostar dela. Madara estava satisfeito com o cuidado que ela sempre demonstrava ter com o marido e ainda mais satisfeito com a educação que Mikoto tentava dar ao filho, sempre o incentivando a desenvolver sua mente e inteligência, fosse com brinquedos, gravuras ou livros infantis.
Quando Itachi tinha três anos, as coisas com Obito ficaram mais difíceis.
Obito Uchiha sempre foi um garoto de personalidade difícil: era briguento e adorava uma confusão, mas apesar de parecer gostar de ser “a ovelha negra” de sua família, Obito nunca tinha sido rebelde ao ponto de ir contra as regras dos pais, ou contra uma decisão firme tomada por Madara.
Não até Rin Nohara aparecer.
Naquela época Fugaku estava cheio de coisas na cabeça. Ele tinha só vinte e sete anos quando Madara decidiu que devia “tomar a frente dos negócios”. Não tinha nem tempo, nem cabeça para prestar atenção no que acontecia ou não com a família, então não podia se importar menos com o caso do irmão.
Mas Mikoto... Mikoto estava sempre em casa.
E sempre presenciava as infernais discussões.
Ela e Obito tinham se aproximado depois do nascimento de Itachi. Eles não tinham muito em comum, nem conversavam muito de fato, mas Obito adorava Itachi, e isso por si só fazia com que Mikoto gostasse dele.
Mas Obito era tolo e idiota. Até um pouco burro, para falar a verdade.
Ela não duvidou quando os sogros falaram que Rin Nohara estava tentando dar algum tipo de golpe, e quando descobriu suas origens... Bem, ela teve certeza de que aquela mulher – que não era mais que uma garota na época – não podia se tornar tia do seu filho.
Mikoto ficou o tempo inteiro a par da situação dos sogros: ela viu cartas e ouviu ligações entre Hiroto e Madara, acompanhou as negociações que Kaede fizera com alguma escola do exterior para reservar uma vaga para a jovem golpista e até chegou a ajudá-la a achar um lugar – nem muito luxuoso, nem muito medíocre – para que Rin pudesse ficar enquanto estudasse na América.
No fim, parecia que tudo ia terminar bem para todos, menos para Obito: Rin Nohara seria enviada para estudar no mundo a fora por conta dos Uchiha, seus pais receberiam uma bela pensão enquanto ela estivesse no exterior, e Kaede e Madara não teriam que se preocupar com Obito dizendo que ia casar com uma qualquer.
A princípio ele ficaria destruído, mas superaria. Um dia ou outro ia ter que entender que tudo aquilo tinha sido arranjado para o seu próprio bem.
Parecia tudo certo e resolvido, mas em uma noite, enquanto pai e filho brigavam, Madara explodiu quando Obito o acusou de estar obrigando Rin a se afastar, e jogou todas aquelas verdades nas fuças dele: falou sobre a negociação, sobre a bolsa que Kaede conseguira para a garota no exterior e sobre a maldita quantia que teria que pagar aos pais dela.
Obito ficou tão chocado que por um instante Mikoto pensou que ele jamais ia voltar a falar. Era um retrato cruel e uma verdade dolorosa, mas ela acreditava que o cunhado finalmente superaria a ilusão que era a sua síndrome de Romeu.
Era o que pensava, pelo menos. Até o dia seguinte, quando os Uchihas foram tomados com a notícia de que Obito e Rin Nohara simplesmente sumiram.
Fugaku não demorou nem um dia inteiro para descobrir que ele tinha ido se abrigar na casa do amigo, Kakashi Hatake, junto com a pequena golpista, que agora Obito chamava orgulhosamente de “noiva”.
Para os Uchihas – Mikoto inclusa – era certo que Rin Nohara decidira que um casamento seria mais vantajoso do que uma bolsa de estudos, então Madara e Kaede decidiram deserdá-lo – e tomaram todas as providências necessárias para isso.
Mas apesar de tirarem tudo o que podiam do de seu segundo filho, poucos meses depois de fugirem, Obito e Rin oficializaram sua união.
A notícia chocou Mikoto.
Obito agora literalmente vivia de favores, e mesmo assim a garota Nohara aceitara casar-se com ele. Essa conclusão fez com que Mikoto repensasse seu julgamento, mas Kaede logo a convenceu de que a espertinha Nohara não devia acreditar que os sogros morreriam sem deixar um centavo para o filho, ou que mesmo que deixassem, ela devia saber que Fugaku dificilmente fosse permitir que o irmão se rebaixasse a uma vida muito humilde.
O que era verdade.
Foi mais ou menos nessa época em que o casamento de Suzuki foi arranjado. Ela tinha a mesma idade que Mikoto tinha quando subiu ao altar, mas diferente de Fugaku, seu noivo era quase dez anos mais velho.
Para Mikoto ficou claro que Madara e Kaede queriam se certificar que Suzuki não teria um destino parecido com o do irmão. Eles esconderam o máximo que podiam para evitar que a jovem Uchiha fosse ludibriada com a tola ideia de tentar bancar a Julieta, e a despacharam de casa em questão de poucos meses.
Apesar de não concordar com as decisões do irmão, Fugaku tentou não se meter na vida dele. E ao contrário dos pais, não interferiu – e proibiu Mikoto de interferir – na relação entre Obito e Itachi. Ele sabia do carinho que o irmão sentia pelo filho e vice-versa, e detestava a ideia de privar ambos daquela relação.
Mesmo à distância, Itachi e Obito continuaram a se comunicar. E foi graças ao pequeno Itachi que meses depois a família descobriu que ele partiria para tentar um novo negócio no exterior, onde fundaria um startup ao lado do amigo.
Fugaku não só acompanhou a vida empresarial do irmão, como também investiu – secreta e pessoalmente, é claro – nela, por isso Mikoto sabia que o os negócios do cunhado iam até muito bem.
Saber disso fez com que Madara se orgulhasse do filho, de certa forma. Era bom saber que Obito estava se virando, que estava conseguindo conquistar certa independência.
Ele costumava perguntar sobre Obito para Fugaku com freqüência, e apesar de sempre mostrar uma distância desinteressada, seu filho mais velho sabia que ele gostava de receber boas notícias.
Mas ao contrário do marido, cada boa notícia sobre a vida de Obito tornava Kaede Uchiha mais frustrada e azeda. Ela não aceitava a ideia de que seu filho ingrato pudesse por ventura se dar bem sem a ajuda da Uchiha.
Suzuki tinha ido embora, e como Kaede jamais faria nem Madara, nem Fugaku perderem tempo com suas frustrações pessoais, todo o mau-humor da sogra recaiu sobre as costas de Mikoto – e foi como uma bomba.
De uma hora para a outra, todo o esforço de três anos se foi. E o espaço que a jovem Uchiha acreditava ter conquistado dentro da família se mostrou tão pequeno que era humilhante.
Kaede parecia estar decidida a tratá-la como uma rival: questionava suas atitudes como mãe, seus cuidados como esposa e zombava de sua autoridade na Uchiha, desmandando toda e qualquer ordem que a nora tentasse impor sobre a casa.
Foram meses infernais, e foi uma sorte Mikoto ter engravidado de novo.
Fazia pouco mais de um ano que Obito tinha deixado a Uchiha, e todos – com exceção de Kaede, é claro – fingiam levar suas vidas como se isso não fosse de sua conta.
Até que em uma tarde qualquer, enquanto Mikoto procurava aumentar o enxoval do caçula em uma loja especializada em bebês, encontrou-se com ninguém mais, ninguém menos do que a própria Rin Nohara.
Uma Rin Nohara grávida, e grande demais para alguém que tinha se casado há tão pouco tempo.
Ela também reconheceu Mikoto, e tentou ser gentil. E apesar de não gostar dela, Mikoto retribuiu a gentileza por educação e em consideração à Obito e Fugaku – que já a tinha pedido pelo menos uma dúzia de vezes para a esposa não se meter nos assuntos do irmão.
Naquela mesma tarde, quando chegou a mansão Uchiha, Mikoto seguiu para o escritório do sogro. E naquela mesma tarde, poucas horas depois, ela simplesmente contou aos sogros sobre seu encontro.
Eles ficaram furiosos.
Um mau casamento era uma coisa reversível, mas um filho?... Um filho era algo que o prenderia a vida inteira àquela mulher. Além disso, eles nem sabiam se o bebê realmente era de Obito, não é verdade? Sempre tinham estranhado o fato de o casamento dar-se tão rápido, e isso explicava os motivos da menina Nohara ter jogado para o ar todo o acordo que os Uchiha e os Nohara tinham tratado por meses.
E mesmo que a criança realmente tivesse sido concebida depois da união – coisa que Kaede duvidava muito—, como é que Obito poderia ser o pai? Ele estava no exterior, pelo amor de Deus!... E aquela garota tinha origens tão baixas que os Uchihas esperavam tudo, menos que a criança fosse sua neta.
Foi Kaede quem decidiu que eles tinham que agir de alguma forma, mas antes de qualquer passo ou decisão, foi acertado que Mikoto serviria como uma isca para Rin, que parecia muito interessada em se relacionar com ela.
Apesar de não fazer nem ideia do que os sogros planejavam, Mikoto de certa forma não estava infeliz por ser envolvida... Ela não gostava do que estavam fazendo, mas os Uchihas pareciam tão certos sobre o mau-caráter de Rin que ela não podia pensar neles como errados.
Estavam sempre certos, afinal de contas.
Os Uchiha começaram a tratá-la como aliada, e sentir-se amiga de Kaede e Madara Uchiha deu-lhe uma sensação de poder tão grande que Mikoto finalmente conseguia ver a si mesma como Mikoto Uchiha, um membro da família.
E aos poucos, ela perdeu toda e qualquer noção de empatia sobre tudo o que dizia respeito à garota Nohara.
Rin estava sozinha e carente, então foi muito receptiva quando esposa de Fugaku demonstrou interesse na aproximação. Ela tinha se mostrado muito doce e tranquila durante os poucos encontros que tinha tido com Mikoto, mas a Uchiha simplesmente não queria acreditar nela, ou em sua inocência.
Rin chegou a confidenciar à Uchiha que Obito ainda não sabia da gestação; ela tinha medo de que ele se preocupasse demais, e acreditava que provavelmente voltaria para as terras japonesas assim que soubesse da notícia.
E apesar de sentir saudades do marido, ela queria que ele continuasse focando sua mente no trabalho, uma vez que estava tão decidido a prosperar.
Tanto para Mikoto quanto para os Uchihas, a omissão de Rin sobre sua gravidez era uma carta de culpa assinada, e naquela mesma noite Madara comandou o seqüestro – que vinha sendo arquitetado há semanas.
Mas os bandidinhos que Madara arranjou, por um acaso, não eram nada além de gatunos de esquina, e deram para trás muito antes de o plano dar certo.
De alguma forma – Mikoto nunca soube como, exatamente – Rin foi parar no hospital, aonde teve um parto difícil e perigoso, que quase levou mãe e filha à morte.
Foi para Mikoto que eles ligaram para avisar sobre o estado dela: seu telefone estava na bolsa de Rin quando a encontraram. Mikoto estava assustada – já tinha se envolvido demais—, mas ainda assim foi até o hospital, como os sogros haviam-lhe mandado.
Ela serviu de ponte para um primeiro contato com os responsáveis do hospital, e apesar de não fazer ideia do que tinha sido negociado entre aqueles desconhecidos e os seus sogros, foi a responsável por entregar uma maleta de dinheiro a uma enfermeira que parecia estar longe de qualquer suspeita.
Mikoto não sabia exatamente o que eles estavam tramando, e isso só fazia seu medo aumentar.
Para começo de conversa, ela tinha descoberto que a polícia investigava o sumiço de Rin desde poucos dias após seu seqüestro. E a criança já tinha nascido, de qualquer forma! Nada mais poderia ser feito.
Mas é claro que os Uchiha deram seu jeito.
Era início da tarde quando Kaede decidiu procurá-la em seu quarto. Ela não deu muitas explicações de início, mas a chamou para acompanhá-la a um lugar, e como sempre, Mikoto a obedeceu sem qualquer questionamento.
Elas entraram num carro diferente do habitual, muito mais simples, e seguiram até um bairro pobre da cidade, aonde Mikoto viria a conhecer a mãe de Rin.
A senhora Nohara era muito bonita, e aparentava ser bem mais jovem que Kaede; estava vestida de um jeito discreto, com roupas elegantes e que... Bem, não pareciam ser para o bico de gente como ela.
Mas as roupas eram o menos importante. O que mais chocou Mikoto foi o fato de que a senhora Nohara trazia em suas mãos um pacotinho embrulhado com uma manta de crochê vermelho.
Um pacotinho que ela soube imediatamente ser o bebê de Rin e Obito.
Mikoto quis vomitar.
Para falar a verdade, não soube como conseguiu conter a vertigem. Sentiu sua cabeça flutuar por um longo tempo, e seu corpo perdeu toda a noção de equilíbrio, o que a obrigou a segurar-se no banco com firmeza.
Ela estava chocada, paralisada.
Não conseguia olhar para as janelas, nem tampouco para o rosto de nenhuma daquelas mulheres desprezíveis. E quando o pequeno pacote começou a se remexer nos braços daquela mulher horrível...
Ela se sentiu um monstro.
E percebeu que era tão desprezível quanto as outras duas.
Quando o bebê começou a chorar, Kaede mandou que Mikoto a segurasse. Ela tinha mais jeito com crianças, sua sogra disse, e como sempre tinha sido, Mikoto acatou sua ordem sem questioná-la.
A pequena Akane – que mais tarde viria a se tornar Kasumi – tinha um rostinho de joelho adorável; era cabeludinha, com a cabeça cheia de curtas madeixas castanhas e olhos num tom de chocolate, exatamente como os de Rin.
Ela se acalmou no instante em que Mikoto, cheia de carinho e cuidado, a aconchegou em seus braços. Ela tinha olhos grandes e curiosos, que ficaram o tempo inteiro olhando fixamente para o rosto da mais velha.
Mikoto se sentia um carrasco... E quando os dedinhos apertaram seus dedos, ela sentiu seu coração despedaçar.
Foi só no fim daquela tarde chuvosa, quando estavam perto de seu destino, que Mikoto descobriu os motivos de a sogra querer sua companhia naquela viagem: para todos os efeitos e diante de qualquer pergunta, ela seria Rin Nohara.
Por sorte – ou não –, ninguém no orfanato pareceu se preocupar se Mikoto era ou não a mãe do bebê. Ninguém tentou falar com a suposta Rin para convencê-la a ficar com a criança, e tampouco pareceram se importar com seu rosto pálido e sua expressão doente.
Apesar de Rin ter sido emancipada depois do casamento, foi a senhora Nohara que preencheu e assinou os papéis da adoção. E quando tudo estava terminado, a empregada do orfanato simplesmente se aproximou de Mikoto, pegou o bebê de seus braços e se afastou, deixando-a completamente perdida.
Ela voltou para casa sem trocar nem ouvir uma palavra das outras.
Passou dias sem dormir, e mal conseguia comer.
Ela queria falar com Obito, tinha que falar com Obito... Mas não poderia. Ela tinha feito parte de toda aquela desgraça, e ela era a única que realmente pagaria caso o cunhado tentasse punir alguém.
Mas ela precisava falar com Obito...
Precisava dizer que a filha dele estava viva, sozinha num orfanato.
Ela precisava salvar aquela menina... Precisava salvá-la...
Mas o que os sogros fariam com ela se descobrissem? Ela não tivera sequer uma notícia de Rin desde aquele hospital. Se a polícia descobrisse seu envolvimento, ela teria a proteção dos Uchiha. Mas se ela os traísse...
Teria o mesmo destino de Rin? Seria afastada dos filhos, arrancada da família que tinha construído com tanto esforço?... Os Yuuhi não tinham poder, seus negócios estavam falidos, e mesmo que pudessem fazer alguma coisa pela filha, porque se dariam o esforço? Mikoto praticamente os tinha abandonado depois do casamento.
Há quanto tempo não via sua própria mãe?
O stress de Mikoto foi tão grande, e lhe causou tantos problemas – emocionais e físicos – que o parto de Sasuke teve que ser apressado. Mikoto passou por uma operação delicada, e foi muita sorte que ambos, mãe e filho, saíssem da mesa de cirurgia sem sequelas.
Foi dentro de seu quarto na maternidade, uns três dias depois do parto de Sasuke, que Madara lhe deu a pior notícia que Mikoto já tinha recebido em todos os seus vinte e cinco anos de vida:
— Houve um incêndio no orfanato, Mikoto... – Ele dissera. – Ela está morta.
Mikoto ficou completamente paralisada, e sentiu todo o sangue fugir de seu rosto. Madara se aproximou, notando o abatimento da nora, e apertou as mãos de Mikoto com um carinho paternal que nunca tinha demonstrado até então.
— Não foi sua culpa. – Ele afirmou de um jeito quase caloroso, mas antes que Mikoto tivesse qualquer oportunidade demonstrar alguma emoção, ele continuou, e foi quase como se Madara estivesse jogando um balde de gelo em cima dela quando afirmou:
— Você só fez o necessário por essa família.
*~*
— E então... Eu encerrei o assunto. – Mikoto confessou.
Já tinha anoitecido, e elas ainda estavam na mesma mesa da mesma cafeteria. O chá de Kasumi estava intocado desde que a sogra começara a narrar sua história, e ela sinceramente não achava que conseguiria tomar mais um gole que fosse, nem daquele chá, nem de qualquer outra coisa durante o resto do dia.
Estava enojada.
— Minha mãe estava presa... Enjaulada numa clínica, perdida, doente e sozinha, e você... Você simplesmente “encerrou o assunto”?
Ela não podia acreditar.
— Só soube do que tinha acontecido com Rin uns anos depois daquilo... – A Uchiha suspirou longamente, e baixou os olhos negros até as próprias mãos, que se embolavam em seu colo. – Eu... Eu sabia que os Uchiha tinham dado um jeito nela, mas não fazia ideia de como. E quando soube...
Ela engoliu em seco.
— Sinceramente, a ideia de que pudessem fazer o mesmo comigo...
Ela não conseguiu terminar. Tinha se acovardado, e o medo a fez viver como se aquilo nunca tivesse acontecido, como se o caso da família de Obito tivesse sido um pesadelo superado e esquecido.
Kasumi não sabia o que dizer. Honestamente, não sabia nem o que pensar... Ela apertou os olhos e pressionou as têmporas, tentando recuperar a compostura. Tudo aquilo era tão absurdo e surreal... Era tão novela mexicana que era difícil acreditar.
— Eu não me orgulho de nada do que fiz, Kasumi. Não importa o quanto eu diga que agi pela família, a verdade é que eu agi por impulso, para conseguir conquistar a confiança de pessoas que nunca gostaram de mim de fato. Mas eu era jovem, estúpida, e juro que se pudesse voltar no tempo... Se eu ao menos suspeitasse que você estava viva, eu teria ido até seu pai. Teria ido até Obito e...
Mikoto ofegou; apertou os olhos e tentou segurar as lágrimas.
Não importava o quanto jurasse, a antiga Mikoto faria as mesmas coisas... E a nova Mikoto jamais poderia voltar no tempo para nada.
— Você disse que Madara e Kaede a convenceram da culpa da minha mãe de tal maneira que mesmo a conhecendo não conseguiu acreditar nela. Diga-me, Mikoto: o que a fez mudar de ideia?... Por que quando discutimos você tinha tanta certeza sobre o que falava sobre Rin Nohara, e agora parece estar doente de culpa?... O que mudou?
Mikoto soltou um suspiro trêmulo.
— Mesmo se Rin tivesse feito tudo o que eu pensava que tinha feito... Mesmo que tivesse casado com Obito por conveniência, mesmo que você não fosse filha dele...
— O que eu sou. – Kasumi voltou a afirmar, quase friamente.
— Nada disso justificaria as coisas que fizemos a vocês. – Mikoto prosseguiu, tentando ignorar a acidez na voz da nora. – Durante todo esse tempo eu não quis pensar nisso, durante todo esse tempo eu tentei colocar na minha cabeça que só estava tentando fazer o bem a uma pessoa importante... Mas quando vocês voltaram...
Mikoto bateu no próprio peito com força, agonizada.
Mal conseguia falar.
— Tudo voltou, e toda a consciência que eu fingia não ter se tornou palpável e insuportável. – Ela falava sufocada. – Quando eu soube que você estava viva... Eu senti tanto, tanto alívio...
Mikoto começou a chorar, e seu choro soou tão desesperado, que ainda que estivesse possessa e furiosa, Kasumi nem interferiu, nem interrompeu.
Ela se recostou à cadeira, puxou o chá – que agora devia estar gelado – e bebericou um gole pequeno para molhar a garganta. No fim, tudo tinha sido muito pior do que ela tinha imaginado.
— O incêndio no meu primeiro orfanato foi criminoso, mas só invadiu uma parte pequena do lugar. – Ela falou cuidadosamente, depois de um tempo. – Eu pesquisei depois de toda confusão com meu pai... Alguns documentos foram perdidos, mas ninguém se machucou. Tenho certeza que se tivesse procurado...
— Eu não conseguiria ver a notícia da sua morte estampada na minha cara. Evitei jornais, noticiários... Tudo. Eu não imaginava que os Uchihas pudessem saber do que passava na minha cabeça, então nunca pensei que pudessem ter mentido para mim.
Kasumi assentiu lentamente, compreendendo.
— Eu era... Eu ainda sou... Ainda sou uma grande covarde, Kasumi...
— Seu marido nunca soube de nada? – Kasumi perguntou de repente, realmente curiosa. As menções à Fugaku foram tão singelas que ela não fazia ideia do que pensar sobre o sogro.
— Imagino que tenha descoberto antes de Sasuke nascer, mas... – Mikoto apertou os olhos. – Eu só disse tudo depois de alguns meses. – Confessou. – Não conseguia... Não conseguia superar, não conseguia viver.
Ela lançou um olhar desgraçado na direção da nora, que parecia impassível.
— Precisei de ajuda profissional, e Fugaku ficou o tempo inteiro ao meu lado.
— Então ele sabia. – A mais jovem concluiu, e Mikoto concordou lentamente.
Kasumi bufou, desacreditada.
Ele sabia, e ainda assim não tinha feito nada. Que bela família!
— Eu... Não espero que me perdoe, menina... Mas espero que agora entenda o que eu quis dizer quando pedi para não se aproximar dos Nohara...
Kasumi balançou a cabeça, exasperada; sentiu os olhos queimarem e sentiu-se frustrada quando uma lágrima estúpida escorreu por seu rosto. Ela limpou tão rápido quando a lágrima tinha descido, e voltou a beber do chá.
— Eu não devia me aproximar de nenhum de vocês! – Cuspiu as palavras.
E apesar de ser uma conclusão dolorosa, Mikoto não podia discutir. Ela era culpada, afinal. E se o preço por seus pecados era o desprezo daquela criança, teria que arcar com isso.
— Eu não vou tentar discutir... Faz sentido não querer se aproximar de nenhum de nós, mas Kasumi... Você se casou com Itachi, está esperando uma filha dele. Sei que não quer contato com os Uchihas, mas não pode se afastar dele.
Kasumi se levantou abruptamente.
— Honestamente, Mikoto: não diga mais nada. Por hoje basta para mim. Não quero conselhos, não quero pedidos... Não quero nada. Por mais bem intencionada que possa estar tentando ser, só de ouvir sua voz minha dor de cabeça aumenta.
Ela pressionou a têmpora e praguejou. Estava grávida, pelo amor de Deus! Será que ninguém percebia que aquele era o pior momento para a revelação dos grandes mistérios que rondavam seu nascimento?
— Só estou...
— Preocupada, eu sei. E entendo isso. Entendo que é uma covarde, entendo que era ambiciosa e entendo que deixou tudo isso subir à sua cabeça. Talvez algum dia, quando eu absorver tudo o que acabei de ouvir, eu consiga olhar para sua cara de novo sem sentir ódio, mas acredite: esse dia não é hoje. Hoje, pra mim, você não é mais do que uma vadia egoísta que ajudou a arquitetar a merda que foi minha vida.
Ela agarrou uma nota alta na carteira, deixou sobre a mesa e simplesmente saiu, sem dar nem tempo, nem espaço para a sogra retrucar.
Mikoto levou quase quinze minutos para conseguir se mexer de novo. Ela tentou engolir a mágoa que a reação de Kasumi a fez sentir... Tentou engolir a dor, o arrependimento e as lágrimas que queriam sair a qualquer custo, e só se levantou quando um dos rapazes da cafeteria veio pergunta ser ela desejava mais algo.
Ela negou quando tentou sorrir para ele, que pegou o dinheiro que Kasumi deixara mais cedo, e levantou-se para sair, mas quando chegou lá fora... Não sabia para onde ir. Estava perdida, à deriva. Seu coração pesava insuportavelmente, e sua mente não parava de se perguntar por que ainda estava aqui, viva nesse mundo, quando só fazia tudo piorar.
— Mikoto...
A voz suave e tristonha do marido soou, e Mikoto finalmente ergueu os olhos do chão. Fugaku saiu do carro, e tinha uma expressão tão dolorosa que Mikoto não conseguiu mais se segurar: correu até ele aos tropeços, agarrou-o pela cintura e desatou a chorar.
~
Quando Sasuke se deparou com a imagem de Sakura, toda tímida e sem graça perto da porta de seu apartamento, pela primeira vez no que parecia ser muito tempo, ele pensou que a vida podia ser muito justa de vez em quando.
Ele se perguntou como sua querida ex-namorada reagiria se, ao invés de exausto, Sasuke aparecesse animadinho, sorridente e pior: acompanhado. E verdade fosse dita: ele realmente tinha andado muito bem acompanhado nos últimos tempos.
Sasuke mal conseguiu calcular o tamanho de sua sorte por estar tão cansado para procurar companhia, e abençoou Karin Uzumaki com toda a força de seus pensamentos.
Afinal, se Karin não fosse a garota mimada que era e fizesse o trabalho do qual tinha se responsabilizado por fazer... Bem, Sakura certamente teria uma impressão bem ruim – embora bastante verídica – sobre as coisas que seu ex- andava fazendo desde o fim de seu relacionamento.
E já que Sakura Haruno era uma grande apreciadora do trabalho duro, Sasuke sabia que aparecer na frente dela cansado, faminto, cheio de olheiras e com uma cara de zumbi o faria subir em seu conceito.
Um momento de silêncio constrangedor tomou conta do local depois de se darem conta da presença um do outro, e quando não podia aguentar mais aquele clima, Sakura pigarreou.
— Será que nós podemos...?
Ela nem conseguiu terminar; estava muito nervosa, muito ansiosa, então gesticulou para a porta de um jeito sugestivo e constrangido.
Honestamente, Sasuke Uchiha não conseguia pensar em uma ideia pior do que deixar Sakura entrar naquele apartamento. Ele estava com um péssimo humor, exausto e só a postura da Haruno deixava claro que ela estava disposta a uma longa e esclarecedora DR.
Coisa que Sasuke não estava.
O Uchiha arqueou a sobrancelha de um jeito antipático, e deixou que aquele momento constrangedor – muito mais para ela do que para ele – se prolongasse propositalmente antes de enfim dar os ombros, ir até a porta, abri-la e dar espaço para que a ex entrasse primeiro.
Ela já estava lá, afinal de contas. E não tinha como mandá-la embora de um jeito que soasse educado.
Sakura sinceramente não fazia ideia do que a esperava daquele encontro. Ela tinha passado a última uma hora e meia pensando e repensando no que dizer e fazer, e em como Sasuke deveria reagir às suas frases feitas.
Tinha ficado mal humorada enquanto se perguntava aonde aquele desgraçado devia estar àquela hora da noite, mas seu humor foi amenizado quando concluiu que ele sem dúvidas voltava do trabalho.
Mais calma, agora ela estava focada, decidida a ter uma conversa séria e esclarecedora.
Mas todos os parágrafos que ela redigira mentalmente durante a última hora simplesmente sumiram de sua cabeça quando ela entrou naquele apartamento, e por um segundo até o seu nervosismo desapareceu.
Sakura esperava tudo e nada quando chegou ao prédio de Sasuke, mas em sua mente, toda a cena da discussão que certamente se seguiria se daria no mesmo apartamento de suas memórias, que definitivamente não era aquele.
Não que estivesse em um apartamento diferente. Era o mesmo número, no mesmo andar, no mesmo prédio, mas ainda assim...
— Um furacão passou por aqui?
Ela teve que perguntar.
O lugar estava pavoroso em tantos sentidos que ela mal conseguia pensar em como Sasuke conseguia viver naquele antro de sujeira: a sala estava quase assustadora, com roupas e caixas de comida por todos os lados, canecas e copos sujos espalhados e garrafas praticamente empilhadas sobre a estante, ao lado, embaixo e sobre as prateleiras de cima da grande TV.
— Você mudou o bar de lugar?... Pelo amor de Deus! – Ela o olhou com espanto sincero. – Como é que consegue morar aqui?!
Sakura realmente estava chocada, e perceber isso fez Sasuke soltar uma risadinha muito divertida. Ele balançou a cabeça, mal acreditando na falta de bom senso da ex-namorada em ofendê-lo cinco segundos depois de pisar na casa dele; fechou a porta e seguiu para a cozinha.
— A empregada se demitiu há uns dias... – Ele disse em voz alta. – Talvez um pouco mais de uma semana.
Sasuke sabia que Sakura olhava em sua direção com uma expressão interrogativa, mas por mais que ela parecesse curiosa, até abismada, achou que não seria muito bom para o início da conversa dizer que a velha senhora que trabalhava há anos limpando o seu apartamento decidira se demitir depois de acidentalmente presenciar uma cena no Quarto dos Prazeres.
Ele vasculhou os armários na busca de qualquer coisa que pudesse mastigar, e puxou o primeiro saco de besteiras que encontrou. Quando voltou para a sala – já atacando o saco de bolachas em questão – encontrou Sakura com os olhos vidrados nele; ela tinha uma expressão que parecia contrastar entre admiração e repulsa.
— Parece que se demitiu faz um ano. – A rosada observou.
Parecia tão bobinha que Sasuke não conseguiu evitar um sorriso de canto.
— Veio para falar da minha mania de bagunça ou da minha empregada?
Sakura emudeceu e enrubesceu. Ela tentou olhar para as paredes, constrangida, e Sasuke percebeu que era mais provável que ela realmente quisesse falar sobre aqueles tópicos do que sobre a bendita declaração de semanas atrás.
Não que se importasse...
Ele tinha ficado furioso quando ela o ignorou naquele dia, tão furioso que mal conseguiu conter a própria frustração, e acabara agindo como um garoto mimado e revoltado durante a briga que tiveram na casa de Obito.
Mas no fim, quando mais tarde parou para pensar, Sasuke chegou à conclusão de que Sakura se fazer de desentendida tinha sido a melhor coisa do mundo: ela não tinha feito perguntas e, graças a isso, o assunto morrera ali, naquele quarto.
O que era horrível, mas ao mesmo tempo ótimo, já que o próprio Sasuke já tinha chegado à conclusão de que o melhor a se fazer era ficar longe dela.
— Talvez esteja aqui em nome da Kasumi? – Ele palpitou.
A cunhada ainda não tinha entrado em contato com ele, mas Sasuke acreditava que não demoraria a acontecer. Além disso, ele não conseguia imaginar Sakura Haruno indo visitá-lo para falar sobre aquela declaração infeliz, não importava o quanto estivesse mexida com ela – e ele sabia que ela devia estar.
Mas quando viu Sakura negar lentamente, inevitavelmente ele sentiu seu coração esquentar com uma pequena chama de esperança.
Mas se deu conta de que aquela era uma pequena chama inútil de esperança, já que ele sabia que não podia fazer aquela conversa dar em alguma coisa.
Não importava o quão crente Itachi estivesse nas garantias de Madara, Sasuke não conseguia confiar no avô. O futuro de Sakura podia estar em suas mãos, e se Sasuke tivesse que abrir mão dela para mantê-la em segurança, faria isso sem nem pestanejar.
Já tinha decidido.
— Ino acha que estamos mal resolvidos...
A rosada explicou lentamente, hesitante, e conseguiu tirar Sasuke do estupor de seus pensamentos. Ele estreitou os olhos negros, com a mente momentaneamente confusa... E estreitou as sobrancelhas quando conseguiu absorver a frase.
Sakura Haruno era inacreditável.
Ele queria gargalhar da própria desgraça, mas nem isso conseguia fazer. E como de qualquer jeito ele tinha mesmo que afastá-la, ofereceu-lhe um meio sorriso maldoso e um olhar desdenhoso, que fez Sakura se sentir mal.
— Ino acha?
Sua voz soou irônica, e a irritou profundamente.
A postura que Sasuke adotara era exatamente a mesma que ele tinha assumido meses atrás, quando começou a persegui-la antes do início de seu relacionamento: uma postura altiva, com um sorriso debochado e um olhar de dono da verdade.
Era frustrante, e a deixava furiosa.
Sakura desviou os olhos dele e tentou se concentrar.
Tinha prometido a Ino – e a si mesma – que não deixaria Sasuke irritá-la; prometera que agiria como uma pessoa adulta e madura e, por Deus, faria isso.
— Ela achou que talvez eu devesse vir falar com você. – A rosada soltou num murmúrio, e deu os ombros como se considerasse a ideia tola.
Sasuke ficou paralisado.
De raiva, irritação, frustração.
— Então... – Ele coçou o próprio queixo. – Ino acha que nós dois estamos mal resolvidos, e você decidiu bancar o pet bonzinho e obedecê-la quando ela mandou vir falar comigo?
Ele parecia indiferente, mas Sakura notou que estava zangado, então suspirou.
— Não seja imaturo... – Pediu cautelosamente – Estou tentando ter uma conversa adulta com você.
Sasuke riu.
— Desculpe, mas eu sinceramente não consigo imaginar atitude mais imatura do que tentar falar com seu ex- usando sua melhor amiga como desculpa.
Sakura enrubesceu e o encarou cheia de raiva.
Quando Sasuke deu os ombros, ela sentiu que podia voar em cima dele e arrancar todos os seus cabelos... Mas se segurou, respirou fundo e fechou os olhos enquanto tentava se acalmar.
Uma conversa adulta, sem gritos, xingos e acusações.
Ela podia fazer isso... Faria isso, tanto por ela quanto por sua relação com Ino.
Demorou apenas um segundo para que os olhos verdes voltassem a se abrir e se fixassem nos negros do Uchiha, que olhava para ela com uma expressão zombeteira que só a fazia se sentir pior.
— Sei que não é o melhor momento, — Ela tentou ponderar. – Eu sei que está tendo problemas com a sua família... Sei que brigou com Kasumi...
Sasuke de um suspiro alto e longo, interrompendo-a. Ele balançou a cabeça e riu, completamente desacreditado. Deixou o pacote de biscoitos de lado e se aproximou de Sakura com os braços cruzados.
— Eu não sei por que tive a ilusão de que você poderia ser sincera. De que estava aqui para ser honesta consigo mesma, pelo menos uma vez na vida. Tolice a minha, não é? Não importa a sua idade... A sua mente – Ele apontou para a própria cabeça. – Tem a maturidade de uma garota de quinze anos que não sabe o que fazer com os próprios sentimentos. Não importa o quão brilhante seja academicamente... Socialmente você consegue ser mais imatura do que o próprio Naruto.
O sorriso dele estava cheio de deboche, e ele parecia divertido com o nervosismo de Sakura. Ela se sentiu uma formiga, pequena e humilhada, mas não conseguiu tirar os olhos dos dele.
— Não fale dos problemas da minha família. Não importa o que tenha ouvido daquela discussão, o meu relacionamento com Kasumi não tem nada a ver com você. – Ele pontuou, e Sakura sentiu como se ele tivesse socado seu estômago.
— Mas estou curioso! – Sasuke prosseguiu com uma exclamação, e estreitou os lábios. – Diga-me, Sakura: você realmente veio aqui com a ideia de que podia ignorar o que ouviu?... Até quando vai se fingir de desentendida, hein?
Ela quis chorar... Mas por mais que seus olhos queimassem, Sakura segurou as lágrimas e continuou sustentando o olhar maldoso do Uchiha, que tinha uma postura altiva e imponente.
Sasuke viu os olhos verdes piscarem, chorosos, e sentiu seu coração apertar de angústia. Talvez tivesse ido longe demais, afinal... Por mais que soubesse que devia mantê-la afastada, talvez...
— Você me traiu. – Ela falou de repente, com a voz esganiçada, e tirou o Uchiha de sua reflexão silenciosa. – Traiu a minha confiança, traiu o nosso relacionamento.
Ah.
Então era daquilo que ela tinha vindo falar. De novo.
Que se danasse.
O sorriso de canto de Sasuke aumentou ligeiramente, e ele tinha uma expressão quase cruel. Seu sangue fervia, e ele sentia o corpo e o rosto queimarem de raiva, apesar de aparentar estar tranquilo.
— Certo, Sakura. – Se aproximou mais um passo, e Sakura se viu obrigada a recuar. – Eu já entendi. Nossas vinte discussões anteriores já deixaram claro para mim que não importa o que eu disser, essa suposta traição vai pesar mais do que os meus sentimentos. O que quero entender é o motivo de você estar aqui... Não é como se eu pudesse voltar atrás, e a menos que você conheça uma forma de fazer o relógio voltar... Eu dormi com a Karin aquela noite.
Sakura apertou os punhos.
— Dormi – Ele pontuou. – E só. Mas já deve ter entendido isso. E mesmo assim não faz diferença para você, faz?... Então o que mais eu posso fazer, além de assumir o meu erro? Já fiz isso, e se não me engano já tentei me desculpar um milhão de vezes. E se não foi o suficiente, — Ele prosseguiu quando a viu abrir a boca para retrucar. – Repito agora: me desculpe por fazê-la se sentir traída. Sinceramente.
Os olhos verdes se cerraram.
— Agora cabe a você me perdoar ou não, não é verdade?... Mas não acho que vá acontecer. Até agora tudo o que você fez foi me empurrar, me afastar e pisar no chão dizendo que tudo está acabado. Você não quer me perdoar.
Os lábios de Sakura se cerraram em linha reta, e ela chegou à terrível conclusão de que sim, queria perdoá-lo.
Queria tanto ser capaz de esquecer aquilo...
Queria tanto avançar o passo que os separava, queria tanto pegar a mão dele, entrelaçar seus dedos e dizer: “Tudo bem, então. Vamos seguir em frente”.
Mas por mais que quisesse...
Ela baixou os olhos, magoada.
— Não posso... – Balançou a cabeça, lamentando-se. – Não consigo. – Confessou.
Ela parecia tão sincera, e tão machucada com sua própria sinceridade que a mente de Sasuke apagou, e por um segundo toda a postura maldosa e debochada que ele tentava sustentar até ali foi para os ares. Os ombros dele relaxaram e seu rosto perdeu todo e qualquer brilho, fosse de diversão ou de crueldade.
— Parece que eu estava enganado, afinal.
Ele murmurou debilmente, com suavidade, e tinha tanta mágoa em seu tom de voz que os olhos de Sakura se ergueram ligeiramente até os olhos dele, que encarava seu rosto fixamente.
— Se você sentisse um terço do que eu sinto por você, nada disso importaria.
Ele soou tão sincero que Sakura sentiu seu coração sangrar.
— Não se trata... Não se trata do que eu sinto ou não por você, Sasuke... Eu só... – Ela apertou os olhos; sua garganta queimava. – Só não consigo parar de sentir, não consigo esquecer, não consigo superar. – Voltou a encará-lo, dessa vez com mais firmeza. – Tem ideia do que é imaginar vocês dois...?
— Eu amo você. – Ele a interrompeu de repente, sem nem pensar nisso.
E Sakura sentiu que podia desabar a qualquer momento.
— Sabe disso, mas mesmo assim veio aqui discutir aquela maldita noite perdida...
Ele riu, desacreditado. Sua risada soou fraca, tristonha e quase chorosa.
— Finalmente entendi. Não veio aqui por mim, não é? Ou por nós. Veio por você. Porque você quer que eu diga que sou o culpado, quer que eu me sinta e aja como culpado. Acha que quando eu fizer isso sua consciência vai ficar limpa e tranquila.
Sakura sentiu as lágrimas voltarem, mas segurou.
— Eu vim aqui para conversar... – Ela tentou ponderar, mas Sasuke negou.
— Só existem duas possibilidades para você ter vindo aqui hoje, amor...
Ele se aproximou mais, mas Sakura não se afastou dessa vez.
— Você ou veio voltar, ou terminar de vez.
Sakura sentiu o rosto queimar, e tentou desviar o olhar mais uma vez, mas Sasuke a segurou pelo queixo e a obrigou a manter o contato visual.
Não ia permitir que ela fugisse de novo.
— Eu amo você. – Ele voltou a dizer, mais firme que da última vez.
E esperou.
Ele sentiu que Sakura estremecera diante de sua declaração.
Viu os olhos verdes lagrimarem ligeiramente, viu o rosto delicado enrubescer até suas orelhas ficarem vermelhas e teve que se segurar muito para não beijá-la quando a viu morder os próprios lábios, num claro sinal de nervosismo.
Ele esperou... Esperou pelo que pareceu ser uma eternidade, e nada.
Ela não ia responder, e tudo estava acabado.
Sasuke não sabia se aquilo era bom ou ruim. Talvez fosse um pouco dos dois, mas naquele momento ele foi tomado por algo tão obscuro que mal conseguia reconhecer a si mesmo, que dirá os próprios sentimentos.
A única coisa que ele sabia naquele momento era que seu coração estava partido.
Tinha acabado de chegar àquela conclusão quando ouviu alguém abrindo a porta, e foi só quando ouviu a voz de Naruto praguejar e exclamar “Desculpe!” que Sasuke conseguiu reunir presença de espírito suficiente para se afastar da Haruno.
— Tudo bem.
Os olhos negros ainda estavam fixos nos verdes.
— A senhorita Haruno já estava saindo.
~
Os olhos castanhos de Kasumi Uchiha analisaram atentamente cada ponto do pequeno esquema cheio de anotações que tinha conseguido resenhar em uma folha de sulfite. Ela bateu a lapiseira tediosamente contra a folha, tentando imaginar quais pontos devia ligar ao outro, mas desistiu.
Ainda tinham muitas lacunas.
Ela suspirou longamente e se esticou de maneira preguiçosa na cadeira de seu escritório. Era incrível como não conseguia mais ficar confortável em lugar nenhum com aquela barriga.
Puxou o celular e fez uma careta ao ver o relógio: já era muito tarde, e seus pais com certeza deviam estar preocupados em casa. Ela suspirou, fez um beicinho e tentou mais uma vez fazer uma análise sobre os dados que tinha anotado naquela folha.
Apesar de a história de Mikoto ter sido bastante esclarecedora, ainda tinham tantas perguntas... Tantas questões mal resolvidas!... Ela batucou no papel mais uma vez, e fez uma anotação suave num canto da folha já cheia de notas:
Sequestro de Rin Nohara:
— Rin morando sozinha; Obito trabalhando no exterior; * Porque ela omitiria a gravidez de Obito?
— Rin encontra-se com Mikoto e nasce uma falsa amizade;
— Kaede, Madara e Mikoto Uchiha planejam o que fazer com Rin;
— Madara arranja bandidos para sumir com Rin; * Por que alguém tão poderoso quanto Madara Uchiha contrataria bandidos que não foram capazes de terminar um serviço simples?
— Rin é seqüestrada; * Onde está Obito? Porque não percebeu/quanto tempo levou para perceber?
— Sequestro dá errado, Rin vai parar no hospital; * Como e porquê a polícia estava envolvida nisso? Talvez Obito tenha denunciado o sumiço— se fosse assim ele seria avisado quando ela foi encontrada no hospital. Talvez um amigo tenha denunciado o sumiço?
— Rin é internada;
— O bebê de Rin fica com seus pais; * Por quanto tempo?
— ONDE ESTÁ OBITO?
Ela circulou a última anotação com força, e se jogou contra as costas da cadeira.
Droga. Teria que falar com o pai, e ele descobriria que ela estava investigando.
Aquilo seria difícil... Mas por mais complicado que fosse, Kasumi estava decidida: ia falar com Obito. Falaria até com o desgraçado do Madara, se precisasse. Porque de um jeito ou de outro, com ou sem ajuda, Kasumi Uchiha iria desvendar todo o mistério pro trás da tragédia de sua mãe.
O som de um miado a despertou de seus amargos devaneios. Ela se levantou, foi até a janela e viu que um bichinho cinzento batia desesperadamente no vidro, talvez para fugir da chuva.
Kasumi abriu a janela e puxou o bichano – que se pendurava desajeitado na escada de segurança – para dentro do escritório. Era um gato silata de tamanho médio, que devia ter por volta de um ou dois anos. Meio cinzento, meio bege, com orelhas escuras, focinho preto e olhos azuis intensos; se esfregou nela com tanto afinco que Kasumi fez uma careta.
Bela hora para achar um gato.
Ele miava tão alto que ela se sentiu obrigada a dar parte de sua janta, e afagou-o enquanto observava o gatinho devorar parte da marmita sobre sua mesa de trabalho.
— De onde é que você veio, hein?...
Ele tinha usava uma coleira, o que era bom.
Mas não tinha identificação, o que era mau.
A única identificação que Kasumi conseguiu encontrar no animal foi o nome “LEORIO”, escrito em letras grandes e ocidentais do lado de dentro da velha coleira laranja.
Ela sempre gostou de gatos. De bichos em geral, mas principalmente de gatos, apesar de nunca ter tido nem oportunidade, nem tempo para poder adotar um. Kasumi fazia doações para abrigos quando podia, mas não tinha exatamente experiência para cuidar de qualquer bicho que fosse.
A Uchiha suspirou quando viu que o bichinho começava a se aconchegar em cima da folha onde ela estava escrevendo até minutos atrás, e decidiu que aquilo só podia ser um sinal para parar de pensar naquele caso e voltar para casa.
Ela o afagou, e concluiu que não poderia deixá-lo lá; seu escritório era frio, ela provavelmente não apareceria no dia seguinte e o pequeno Leorio certamente ficaria faminto, sedento e assustado.
Kasumi estreitou os lábios e negou com a cabeça, desacreditada.
Pelo menos ele tinha donos... Mas Kasumi certamente passaria os próximos dias procurando pelos irresponsáveis que o tinham deixado fugir, coisa que ocuparia muito do seu precioso tempo.
Ela quis rir.
Que bela hora para encontrar um gato perdido!
~
Fazia tanto tempo que Naruto não conseguia conversar com Sasuke que ele estava começando a ficar preocupado – realmente preocupado.
É claro que eles trocavam mensagens de vez em quando, e ele tinha notícias sobre como a vida do Uchiha estava seguindo... Mas Naruto e Sasuke sempre tinham compartilhado de tudo um com o outro – tanto seus prazeres quanto suas desgraças – e a distância que o moreno parecia estar impondo se tornava cada vez mais incômoda.
Naruto sabia que Sasuke estava tentando seguir em frente depois do término de seu relacionamento, o que era bastante compreensivo.
Ele sabia que o amigo estava focando no trabalho, e também sabia que o Uchiha tinha freqüentado algumas festas nos últimos meses; sabia que Sasuke andava saindo com muitas garotas e que sua reputação decaía a cada balada freqüentada.
Nada daquilo devia soar estranho aos ouvidos de Naruto, já que sua própria reputação não era lá essas coisas, mas Sasuke estava estranho. Não importa quantas festas freqüentasse ou com quantas garotas dormisse, a verdade é que ele estava se tornando menos sociável a cada dia, e parecia querer afastar todos à sua volta.
Ele não ignorava apenas as ligações de Naruto: ignorava as de Hinata, as de Hanabi e até mesmo as de Kushina. Seu celular tinha se tornado quase incomunicável, e ele só atendia chamadas da empresa, sobre assuntos da empresa.
Respondia – quando respondia – de maneira evasiva às mensagens e aos emails dos amigos, e seus curtos parágrafos em geral tinham um tom cortante e mal-humorado, o que impedia que o assunto, fosse qual fosse, continuasse.
Não era a primeira vez que Sasuke ignorava Naruto. Na verdade, era até comum, natural e freqüente que isso acontecesse na relação deles, mas ignorar Hinata? Aquela era uma novidade.
Hinata não estava exatamente magoada; sabia que o primo estava passando por uma fase difícil depois do fim de seu primeiro relacionamento sério. Ela acreditava que Sasuke continuava apaixonado, então entendia seu mal humor.
Só a ideia de atrapalhar a superação de Sasuke era pavorosa para Hinata; para ela, interferir no espaço de Sasuke em um momento tão delicado era impensável... Mas, bem, Naruto não era Hinata.
Ele entendia a linha de raciocínio da amada, mas conhecia Sasuke melhor do que ninguém. E apesar de o Uchiha ter renovado sua reputação de garanhão e aparentar bom humor enquanto se divertia com suas novas – e escancaradas – conquistas, Naruto sabia que para Sasuke só podia estar muito mal para agir com tão pouca discrição.
Sasuke não era indiscreto. Nunca tinha sido. Sempre fora cuidadoso, e dificilmente levava garotas à sua casa – algo que as más línguas andavam dizendo que estava acontecendo com freqüência.
Ele também tinha confirmado com Rock Lee que o Uchiha andava faltando às suas aulas de preparação física – algo que nunca fazia – e se bem conhecia o amigo, podia apostar que, por estar tão focado no trabalho, mal devia estar comendo.
Apesar de amá-la, Naruto decidiu que mandaria o bom senso de Hinata para o quinto dos infernos, e fosse impensável ou não, ele iria sim invadir o maldito espaço que Sasuke tinha colocado ao seu redor.
Naruto era o melhor amigo de Sasuke Uchiha por um motivo, e não deixaria seu parceiro de lado só porque sua vida estava começando a andar nos trilhos.
Ele bem tentou respeitar o espaço de Sasuke, tanto porque queria que o Uchiha viesse até ele por conta própria, quanto porque esperava acalmar os próprios sentimentos em relação à Karin – afinal, Naruto ainda estava furioso com o fato de Sasuke voltar a se envolver com sua prima, mesmo depois de seus avisos.
Ele esperou, esperou... E esperou. Mas Sasuke parecia estar entrando num buraco cada vez mais fundo; o espaço entre ele, os amigos e a família só fazia crescer, e Naruto percebeu que já tinha passado da hora de intervir.
Quando voltou do trabalho naquela noite, ele estava decidido a resolver as coisas: pegou as chaves reservas que tinha do apartamento do amigo e saiu de casa pronto para ter uma longa e esclarecedora conversa com Sasuke Uchiha.
Claro que nunca poderia imaginar que ele estaria cometendo a pior das burradas quando chegou ao apartamento no pior momento possível.
Sasuke estava à frente de Sakura, de costas para a porta, mas Naruto conseguiu ver que eles estavam muito próximos. Por um segundo pensou que eles estavam se beijando, então soltou um praguejar baixo e um “desculpe!” cheio de nervosismo.
Ele ia sair, mas Sasuke se afastou do corpo da Haruno, e ao enxergar o rosto da amiga – que estava pálido e atormentado – Naruto simplesmente não conseguiu se mover. Ela parecia adoentada... A ponto de desabar.
— Tudo bem. – Ouviu Sasuke falar. – A senhorita Haruno já estava saindo.
A voz do amigo soou tranquila, quase indiferente, mas seus olhos estavam fixos no rosto de Sakura, e seu olhar era tão intenso que o loiro percebeu que apesar da postura, Sasuke não estava nada indiferente.
Toda a vontade de socar Sasuke Uchiha se voltou contra si mesmo, e Naruto queria bater a própria cabeça na parede até sangrar. Porque diabo tinha que ter ido lá justo hoje? Justo naquele momento?!
Sakura levou meio minuto para perceber sua deixa.
Ela piscou os grandes olhos verdes para Sasuke, completamente perdida, e sentiu o estômago revirar ao notar o que ele queria dizer com aquilo: estava encerrando o assunto. Todos os assuntos.
Ele estava pedindo para que ela fosse embora... Estava colocando o ponto final da história.
Ela sentiu os olhos queimarem, sentiu o ar escapar de seus pulmões e começou a hiperventilar, quase desesperada. Como ainda não tinha notado a presença de Naruto, simplesmente explodiu:
— Porque está me tratando assim?! – Ela perguntou em alto e bom som, a voz esganiçada e o corpo trêmulo. – Por que está falando desse jeito comigo?! Eu só... Só queria resolver as coisas!
Ela limpou as lágrimas incômodas, esfregou a mão no nariz e voltou a encarar o Uchiha, que continuava impassível.
— Você me traiu! – Ela apontou pro peito dele, e quando sentiu que não era o suficiente, cutucou com força o centro do peitoral. – Você! Você foi dormir com aquela ruiva maldita!...
— Eu, eu, eu! – Sasuke gritou. – Sempre “eu”, não é? O egoísta, o malvado, o insensível Sasuke Uchiha é sempre o culpado. Estou cansado disso! Cansado de te ver fugir, cansado de te ouvir gritar acusações como se fosse a dona da verdade!
Ele apontou para a porta.
— Estou cansado disso tudo, Sakura! Estou cansado de ser humilhado e envergonhado, porque é isso que você me faz sentir! Se não consegue nem mesmo me responder, vá embora!
Ele pontuou a última frase, e ela não conseguiu se mexer.
— Você é a única insensível aqui, caso não tenha percebido. – Sasuke prosseguiu, quase trêmulo. – Pode chorar o quanto quiser. Pode gritar e espernear. Pelo menos eu não estou te culpando de nada, tenho a consciência limpa quanto a isso.
Sakura apertou os punhos.
Queria tanto bater nele!... Queria tanto respondê-lo no mesmo tom, queria tanto... Tantas coisas!...
Sasuke desviou os olhos, exausto.
Por mais irritado que pudesse estar, não conseguia enfrentar a mágoa estampada no rosto dela.
— Vá embora, Sakura. – Ele pediu mais uma vez, e dessa vez quase soou como se implorasse. Será que era tão difícil pra ela entender o quanto aquilo tudo era doloroso, insuportável para ele?
Mas Sakura não conseguia se mexer.
Queria bater nele, gritar com ele, xingá-lo até o amanhecer, mas aquela expressão esgotada no rosto de Sasuke fazia doer seu coração.
Ele parecia tão ferido, tão...
— Ok, ok... – A voz suave de Naruto soou, mas Sakura só pôde realmente notar a presença do amigo quando sentiu os braços fortes envolvendo seu ombro de forma amigável. – Acho que já chega por hoje, Sakura-chan.
Os olhos verdes encararam os azuis de maneira irritadiça, mas Naruto não se constrangeu; ele continuou com os braços ao redor dela; seu sorriso era tão tranquilo, e sua expressão tão pacificadora que Sakura se sentiu envergonhada.
— É o bastante. – Ele afirmou tranquilamente, com um tom de voz doce e compreensivo. – Vamos. Eu te levo para casa.
Sakura pensou em retrucar. Pensou em jogar na cara dele que Naruto não tinha nada a ver com aquele assunto, mas quando olhou para Sasuke de novo... Ele estava um caco. Exausto, cansado, e não apenas fisicamente.
Sequer conseguia sustentar o olhar dela.
Sakura chegou à conclusão de que ele realmente não queria continuar com aquela discussão... E que Sasuke falava sério quando pediu para que ela fosse embora.
Então ela foi.
~
O escritório de Madara sempre tinha sido o seu lugar favorito na casa.
Desde o início de seu casamento, aquele era o lugar em que ele conseguia ficar em paz, tranquilo. Aonde podia trabalhar sem interrupções, aonde durante toda sua vida conseguia refletir sem a intervenção da esposa, dos filhos ou dos netos.
Todos respeitavam o escritório do patrono da Uchiha.
Apesar de a necessidade de fugir de interrupções indesejadas fosse muito menor do que tantos anos antes – quando os netos, e antes deles os filhos os perseguiam para ter um pouco da atenção do grande Uchiha –, Madara ainda gostava daquele lugar.
Seu escritório era quase uma síntese de si mesmo: grande, velho e imponente. E estava cheio de lembranças boas e ruins, como a própria mente do Uchiha.
Madara tinha passado por muita coisa naquele lugar, e supunha que passaria por mais um bocado delas antes do fim da sua vida. Ali foram tomadas suas decisões mais importantes: algumas boas, outras nem de longe.
Aquele escritório estava cheio de felicidades, arrependimentos e orgulho.
Como o próprio Madara.
Por um longo tempo, ele olhou vagamente na direção dos três porta-retratos colocados sobre a sua mesa. Então afastou um tanto a cadeira, puxou uma das gavetas que ficava trancada e de lá retirou dois envelopes pardos.
Do primeiro ele puxou uma imagem cumprida que antes fora uma página de alguma revista: na foto principal da imagem estavam de Kasumi e Itachi, que sorriam enquanto posavam para um fotógrafo no dia de seu casamento. Outras imagens menores estavam envolta daquela: uma de Mikoto e Fugaku com Itachi, outra de Obito, Rin, Kasumi e Itachi e outra de Sasuke com Hinata e a namorada.
Sasuke... Ele não via o neto há tanto tempo...
Os olhos negros caíram para o segundo envelope pardo, e pararam ali por um longo momento antes de Madara se decidir.
Ele pegou o celular e discou o número de Zetsu, seu secretário, que levou apenas um instante antes de atender.
— Senhor Uchiha?
Madara hesitou. Com cuidado, abriu o segundo envelope e puxou de lá a primeira foto do monte enviado por Hiroto, uma em que Sakura Haruno e sua mãe posavam ao lado da abominável senhora Nohara.
— Zetsu...
Os olhos negros se estreitaram, e ele soltou um suspiro longo, cansado e irritado antes de conseguir prosseguir:
— Quero que contate Hiroto Nohara. Diga que quero ouvir o que ele tem a dizer sobre a menina dos Haruno.
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