472
1 Hábitos
Pov Jin
Dez horas da manhã.
Os carros passavam como vários borrões no asfalto. As gotas de chuva agarravam-se aos faróis, camufladas, despencando do céu cinzento de Nova York e tamborilando meu guarda-chuva. A água molhava meus sapatos e o vento bagunçava meu cabelo, fazendo meu corpo estremecer.
Já devia ter dado sinal para uns 3 táxis, mas pelo jeito tudo apontava que eu era invisível. Os carros continuavam passando enquanto eu ficava ali, parado na calçada, esperando algum táxi me notar.
Dez horas e seis minutos.
Um táxi finalmente parou na minha frente, pintado em um amarelo que mal chegava ter cor no meio daquela manhã escura.
Fechei o guarda-chuva, entrando no carro e sentindo as gotas molharem meu rosto levemente antes de fechar a porta e largar a mochila que carregava em minhas costas no banco ao meu lado. O ar quente do lado de dentro do veículo me obrigou a tirar o sobretudo que carregava no corpo no mesmo instante.
—Qual endereço? -perguntou o taxista, ríspido, me lançando um olhar quase inexpressivo pelo retrovisor interno.
O endereço?
O mesmo de todas as manhãs de sábado.
A casa dela.
Hanna.
Já faz uns dois anos que é assim todo o fim de semana. No começo revezávamos para ver quem sairia de casa, até que combinamos que seria eu quem iria encontrá-la, considerando o fato de que ela quase sempre estava de ressaca e nunca conseguia reunir forças para me encontrar no meu apartamento.
Nas manhãs de sábado passei a sair de casa assim que acordava, sempre apressado. Sua casa nem é muito longe, mas o táxi encurta o caminho e alonga o tempo, algo que eu prezo muito quando o assunto é Hanna. Óbvio que eu nem precisaria ir tão cedo já que a garota costumava passar quase todas as manhãs de sábado dormindo e se recuperando da noite de sexta-feira, mas eu sempre gostei de ir cedo para cuidar de seja lá qual ressaca que estivesse por vir e passar o dia com ela.
Nos sábados ficávamos por ali mesmo. Gastávamos o tempo assistindo filmes, conversando, rindo, jogando cartas, entre outros. Às vezes eu a ajudava a arrumar o apartamento ou inventava de tentar ensiná-la a cozinhar, coisa na qual nunca tinha sucesso. Quando a noite caía, eu fazia o jantar ou pedíamos pizza e logo depois ficávamos até de madrugada na sala, falando sobre coisas inúteis e ouvindo música. Geralmente eu acabava dormindo lá, no quarto de hóspedes ou até mesmo na própria sala de estar com ela e no domingo passávamos o dia fazendo nada de novo ou inventávamos algum programa de última hora.
Para outras pessoas talvez pudesse parecer entediante, padronizado, mas nunca era assim. Sempre nos divertíamos, mesmo sem fazer nada. Ficávamos mais do que confortáveis na companhia um do outro e eu poderia afirmar com toda a certeza do mundo que os melhores fins de semana da minha vida tiveram a participação de Hanna.
Dez horas e doze minutos quando o táxi parou na frente do meu prédio favorito da cidade.
Ansiosos, meus olhos já observavam o número do edifício com certo carinho: 472.
Paguei o taxista rapidamente, cheio de pressa, sabendo que nem eu nem ele queríamos perder tempo. Peguei meus pertences, e, na vontade de começar o fim de semana logo, saí correndo para a entrada do prédio no meio da chuva.
Doze andares de espera. O elevador sempre parece demorar anos para chegar lá em cima. É assim toda a vez. Sempre me pego me perguntando o porquê de Hanna não ter escolhido um apartamento no primeiro andar.
Me dirigi à sua porta assim que o elevador se abriu, tirando as chaves do bolso e ignorando completamente a campainha, que já havia se tornado inútil para mim depois de um tempo.
Quando entrei, como sempre não vi nada de muito diferente do que via todos os fins de semana: o apartamento revirado de cabeça pra baixo. Roupas espalhadas, vários cobertores amassados no sofá, folhas de papel e vários lembretes cheios de ideias largados pra lá e pra cá, uns três cadernos de desenho jogados no tapete preto da sala, garrafas de cerveja e latas de energético descansando em todo e qualquer lugar...
Como pessoa normal e organizada, toda aquela bagunça chegava a me dar nervoso, porém era o apartamento da Hanna. Eu já havia mais do que me acostumado a, não só lidar com aquilo, como também lidar com o fato de que uma parte de mim amava aquela bagunça e se sentia muito bem no meio daquele espaço caótico, quase como se um pedaço meu estivesse camuflado no meio daquilo.
Afinal, o apartamento pode até ser bagunçado, mas assim como a própria Hanna, tem algo de único, especial. Eu nunca soube se era o cinza das paredes, nunca soube se era o escuro piso de madeira, nunca soube se era o jeito como Hanna havia posicionado os móveis, nunca soube se eram os porta-retratos antes vazios e agora cheios de fotos nossas espalhados por toda a casa, nunca soube se eram os momentos que passamos no lugar, mas existia algo de magnético ali, o único lugar onde eu posso respirar de verdade, quase como um refúgio.
Eu não mudaria quase nada naquele lugar.
Quase.
Caminhando pelo apartamento, depois de deixar o meu guarda-chuva e minha mochila ao lado da porta e meu sobretudo no porta-casacos, logo me pus a recolher as inúmeras garrafas de cerveja que foram esquecidas por ali ao longo da semana.
Um mecanismo infalível.
O número de garrafas que eu via ao olhar para aquela sala me dizia muito mais sobre Hanna que a própria garota.
Já conseguia ter um resumo inteiro da sua semana só de analisar o apartamento.
Às vezes, nem eram tantas. As garrafas não passavam de duas os três e eu me permitia respirar direito, mais do que aliviado ao saber que, pelo menos por uma semana, Hanna tinha se cuidado melhor. A ausência de todas aquelas garrafas era suficiente para que eu pudesse sentir um peso sair das minhas costas. Parte de mim tinha até mesmo esperança de que seria um sinal de que ela estava pronta para parar, mas, assim como hoje, eu estava sempre enganado. Quando eu menos esperava tudo começava de novo.
Uma semana se passava e mais garrafas apareciam, sem aviso algum, de todos os tipos, todos os formatos. Meu coração pesava no peito, a decepção preenchia meus pulmões.
E eu não podia fazer nada em relação a isso.
Nós passávamos os fins de semana juntos, mas o resto da semana nunca foi meu, nunca foi nosso. Sempre foi dela e ela escolhia o que fazer com ele. Eu sempre entendi isso, mas ainda assim nada me preocupava mais do que se ela estava se cuidando direito.
Se ela estava bem.
Era isso que importava para mim, mas ela nunca me deixou entender. Ela sempre fez questão de deixar claro para mim que ela estava bem, que não havia nada de errado, mesmo que nós dois soubéssemos que eu nunca acreditei. Eu nunca acreditei em nenhum "pare de se preocupar", nenhum "não é nada" dela. Mas ainda assim, de algum jeito, tentava manter a minha boca fechada sempre que o assunto aparecia.
Estava ciente de que a última coisa que Hanna precisava era que eu insistisse nisso e mesmo que todas as garrafas me incomodassem, aquelas garrafas eram o único detalhe que eu mudaria naquele lugar.
Eu não mudaria os lembretes espalhados pela casa, não mudaria o lugar dos móveis, não mudaria a cor das paredes. Não mudaria as fotos nos porta-retratos, não mudaria as prateleiras lotadas de CDs, não mudaria a estante cheia de livros. Não mudaria nenhum dos títulos, não trocaria nenhum deles. Não mudaria nenhum de lugar, não me livraria daqueles que ela leu e amou, nem dos que leu e a fizeram me mandar uma corrente de mensagens no meio da madrugada só falando sobre o quanto havia os detestado. Não me livraria nem mesmo daqueles que ela comprou e nunca leu, abandonados e empoeirados, esperando um pouco de atenção. Não mudaria a música baixa que ela sempre deixa tocando ao ir dormir e escapava do seu quarto, perambulava pelo resto do apartamento. Eu não mudaria nem mesmo aquela constante bagunça que se espalhava pela sala.
Não mudaria nenhum detalhe.
Isso é tudo que eu insisto em pensar ao me dirigir à cozinha (que aliás era o único cômodo razoavelmente arrumado sendo que Hanna só comia comida instantânea e mal entrava ali) para fazer o café da manhã, tanto pra mim quanto pra ela, que provavelmente acordaria morrendo de fome e com uma ressaca terrível, dependendo do grau de intensidade que levou a noite de ontem.
Abri a porta da geladeira, como sempre, cheia de besteira. Caixas de pizza, sobras de comida que deve ter sido pedida durante a semana, infinitas garrafas de refrigerante, cerveja e energético... Nada de diferente. Se não fosse por mim, Hanna provavelmente viveria de refeições congeladas.
Com os poucos ingredientes que achei perdidos por ali, comecei o trabalho, já fazendo tudo automaticamente, como se cozinhasse desde que nasci. Chegava a ser até estranho o jeito como eu tinha me acostumado a fazer aquilo. Já sabia todos os truques e todos os utensílios básicos, além de também ter decorado várias receitas de tanto que as fazia. E para falar a verdade, mesmo que não fosse a “grande paixão da minha vida”, me divertia muito com aquilo, nunca me cansava. Eu amava o crepitar dos ingredientes na panela, amava o cheiro de um prato recém-pronto se espalhando pela casa e sobretudo a parte de comer tudo no final.
Sim, essa era a melhor parte. Meu estômago berrava só de pensar.
Em menos de meia hora tudo ficou pronto do jeito que eu queria. Os pratos e a mesa estavam postos e organizados, já com suco e café para acompanhar o que eu havia cozinhado. As panquecas eram as mais bonitas que eu já fiz, com uma textura fofa e macia. Os ovos mexidos com bacon ficaram com uma cara tão boa que chegavam a me fazer ter pena das plantas por terem que fazer fotossíntese em vez de comer. O cheiro se espalhava por todo o apartamento, fazia meu estômago roncar tão alto que até o vizinho poderia ter ouvido. Eu já estava mais do que pronto pra comer, mas faltava algo.
Alguém, para ser mais específico.
Atravessei a sala rapidamente, adentrando o corredor chegando na porta do quarto de Hanna e ouvindo a música tocar do lado de dentro.
Uma, duas, três batidas na madeira.
Foi isso que bastou para a música parar e, depois do que pareceram segundos, ela aparecer.
Quem abriu a porta foi uma garota baixinha e sonolenta, de cabelos bagunçados e pijama, que passou por mim quase como um raio, correndo pra cozinha e arrancando uma risada minha instantaneamente. Acho que não existe coisa mais fofa do que Hanna com fome.
Me pus a segui-la com um sorriso nos lábios, chegando na sala e vendo-a já sentada em frente à mesa de jantar, observando a porta do corredor ansiosa para que eu chegasse e pudéssemos comer.
—Quanta pressa... –comentei, me sentando à sua frente.
Ela não me disse nada, mas seus olhos castanhos me analisaram, preguiçosos e infantis. Depois passaram para seu prato e logo depois para mim de novo, como se pedisse permissão para começar.
—Vamos lá, coma. –falei com um sorriso. –Não vou te morder.
Sua expressão logo tornou-se satisfeita, com direito a sorriso e tudo. Contente, enfiou uma garfada de panqueca na boca, arregalando os olhos em surpresa e murmurando várias palavras incompreensíveis logo em seguida. Existe coisa mais fofa?
—Caralho. –murmurou baixinho assim que acabou de mastigar. –Essa foi a melhor que você já fez.
Balancei a cabeça e segurei um sorriso, resolvendo comer também antes que esfriasse. Assim que botei a comida na boca percebi que Hanna estava realmente certa: aquela tinha sido mesmo a melhor que eu já fiz, assim como os ovos mexidos. Eu posso não ser bom em muitas coisas, mas tenho que admitir que sou ótimo em cozinhar.
E em comer também, óbvio.
Quando terminei meu segundo prato, Hanna tinha acabado de passar da metade do dela, o que a fez tirar um pouco de atenção da comida e me encarar, assustada com a velocidade como devorei tudo.
—O que foi? –inclinei a cabeça para o lado, confuso.– Você sabe que eu sou rápido.
Ela apenas balançou a cabeça e voltou a comer, calada. Essa é a Hanna de todas as manhãs: lenta, silenciosa e faminta.
Apenas uma das inúmeras partes que conheço dela.
Não que eu conhecesse Hanna por completo. Na verdade, sei muito bem que mesmo com dois anos de amizade, ainda tenho muito o que aprender sobre a garota, muitos segredos e tratos que ela mantém consigo mesma e não fala para ninguém, manias e hábitos ocultos, partes dela que nem mesmo ela sabe que existem.
Mesmo que eu estivesse mais do que pronto para conhecê-la melhor a cada fim de semana.
Como em um jogo de caça ao tesouro, eu estava sempre disposto a procurar pelas pistas escondidas que ela deixava sobre seu pequeno enigma, sempre disposto para achar algum detalhe que me dissesse algo a mais sobre ela. Como a mais manipulável criança, eu estava sempre procurando por mais dela, em todas as prateleiras, em todos os móveis, em todo o apartamento.
Em tudo que ela fazia.
Enquanto esperava que ela acabasse, meus olhos percorriam o seu rosto, calmos. Meu olhar seguiu seus cabelos ondulados e castanhos, seguiu seu nariz, seguiu sua boca.
Seus olhos.
Nenhum vestígio de cansaço, nenhuma maquiagem borrada, nada.
Completamente perfeitos.
—Saiu ontem? –tentei arrancar algumas palavras da Hanna calada que se encontrava em minha frente, curioso.
Eu já sabia qual era a resposta para aquela pergunta, já estava cansado de ouvi-la. Diferentemente de mim, Hanna tem uma vida social. Festas e encontros toda a sexta, sem exceção. Ela nunca para quieta. Vive por aí, bebendo sem parar, ficando com um cara atrás do outro, dançando durante todas as noites de sexta-feira. Nós vivíamos em mundos completamente diferentes. Perguntar aquilo deveria ser inútil da minha parte.
Porém, para a minha surpresa, dessa vez a resposta foi outra.
—Nah, fiquei por aqui. –disse comendo uma das últimas garfadas de panqueca e servindo mais suco de laranja no seu copo.
Ela falou aquilo com tanta naturalidade que por um momento eu quase achei normal, mas a surpresa não demorou para me atingir.
—Quê?
Ela inclinou a cabeça para o lado, confusa.
—Como assim “quê”?
—Quê o quê, ué.
—Isso eu peguei, mas por que esse “quê”?
Franzi as sobrancelhas e me recostei na cadeira, cruzando os braços sobre o peito ainda com os olhos focados nela.
—Só achei estranho Hanna Stewart não sair em uma sexta à noite.
Ela deu um meio sorriso, olhando para a mesa e colocando a última garfada de comida na boca.
—Mas afinal por que você não saiu?
Hanna tomou o resto do suco e voltou a olhar pra mim.
—Coisas pra fazer.
Levantei uma das sobrancelhas, desconfiado. Tudo aquilo parecia conveniente demais.
—Tipo...?
Hanna riu, se levantou e dirigiu-se à cozinha, levando os pratos e talheres para a pia. Fui logo atrás com os copos, desconfiado.
—Ei! Não me ignora! –pedi enquanto ela começava a separar a louça para lavar.
Eu me aproximei e me inclinei na sua direção, tentando diminuir a nossa diferença de altura e analisar melhor o seu rosto, procurando algum resquício de ressaca, algum resquício de cansaço, mas mesmo observando-a minuciosamente não tinha simplesmente nada ali. Só o mesmo par de olhos castanhos com o qual eu já tinha me acostumado.
—Não fiz nada demais, ok? -ela riu, colocando uma das minhas mãos sobre o meu peito e me afastando lentamente, logo voltando a prestar atenção na louça. -Eu só comecei uma série nova, desenhei um pouco...
Eu cerrei os olhos, desconfiado. Não deveria ser tão simples, não deveria ser tão repentino, mas não tinha nada de errado ali. Não podia ter. Hanna nunca mentiria para mim. Nem teria como mentir. Mesmo que Hanna desse sempre um jeito, é impossível esconder uma ressaca. O que eu não entendia mesmo era como era possível ela ter preferido ficar em casa desenhando ao invés de ter saído, bebido, conhecido alguém. Eu não entendia o que podia ter acontecido, mas ainda assim não pude esconder que me senti aliviado. Eu sinceramente preferia que ela tivesse passado a noite em seu apartamento do que perdida em alguma boate bebendo.
—Que você desenhou eu percebi. –suspirei, olhando para os cadernos e materiais largados na sala por cima do balcão da cozinha que a separava do resto do apartamento.
Caminhei até o cômodo e peguei os três cadernos do chão, carregando-os comigo até o balcão da cozinha e me sentando em um dos banquinhos. Hanna tirou um pouco da sua atenção da louça e se virou para mim.
—Dei permissão? -brincou.
Ri, franzindo as sobrancelhas.
—Como se eu precisasse.
Hanna fingiu uma cara de indignação, rindo e se voltando para a pia novamente enquanto eu remexia os cadernos.
Eu já havia visto os desenhos de Hanna centenas de vezes, milhares talvez, mas sempre me surpreendia com a habilidade que ela tinha para aquilo. A garota faz cada detalhe dos desenhos com maestria, sabe exatamente onde botar cada traço e como botar todos os sentimentos ali.
Geralmente são retratos, vários deles, de gente que eu nunca havia visto na vida, todos desenhados com o traço único e simples que ela tem.
Continuei folheando as páginas, interessado pelos desenhos, que de realistas passavam a ser feitos em um estilo mais próximo de desenho animado à medida que eu trocava de caderno.
—Tem certeza de que é você quem desenha isso aqui? –perguntei, impressionado.
—É pra te levar a sério? –rebateu.
Sorri levemente com sua resposta, observando os desenhos de cada caderno com todo o cuidado. Se Hanna não trabalhasse como jornalista, com certeza seria desenhista. Eu queria entender como ela conseguia desenhar e escrever tão bem. Não conseguia ver como aquilo podia ser justo.
Enquanto isso eu só sabia comer e fazer ovos mexidos.
—Ei, você bem que podia fazer o jantar hoje, né? –ela sugeriu, me acordando dos meus pensamentos. –Fico com saudade da sua comida durante a semana.
Abri um sorriso instantâneo e fechei os cadernos, empilhando-os no balcão e me deslocando até Hanna.
—E saudade de mim? Nada?
—Um pouquinho, -ela riu. -mas fico com mais saudade da comida.
Cerrei os olhos, me levantando e me apoiando de costas para a pia ao lado dela, analisando o seu rosto pelo canto do olho.
—Eu deveria deixar você viver à base de lasanha congelada.
Hanna me passou um dos pratos para que eu o secasse.
—Eu viveria bem, mas sua comida é muito melhor. –ela disse com um beicinho, focando seu olhar em mim.
Eu me deixei rir um pouco, pegando o prato da sua mão e agarrando um pano em cima da pia.
—Do que seria você sem eu aqui pra cuidar de você?
Mais um prato.
—Uma pessoa mais feliz talvez...
Franzi as sobrancelhas.
—Você provavelmente morreria de fome. –corrigi.
A garota franziu as sobrancelhas em uma expressão ofendida, rindo um pouco.
—Ei, ei, ei... Não joga na cara.
Deixei uma risada escapar e guardei os pratos no armário enquanto ela terminava com o resto da louça.
—Olha, eu até posso fazer o jantar, -anunciei arrancando uma pequena comemoração dela, que logo acabou quando continuei a frase. -mas a gente vai ter que ir no supermercado. Não tem nada decente nessa geladeira.
—Não tem nada que você consiga fazer com o que tem aí...? –perguntou baixinho, secando o resto dos talheres e os guardando na gaveta.
Franzi as sobrancelhas e abri o armário que ficava em cima da pia.
—Tem macarrão instantâneo e... –revirei um pouco o que tinha ali, com a ironia na garganta. –Pipoca de microondas! Dá até pra fazer um bolo de caneca de sobremesa!
Ela se apoiou no balcão, me fitando com um olhar quase mortal pela minha pequena atuação, o que me fez rir um pouco. Como conseguia ser tão fofa?
—Não ria de mim. –mandou, autoritária.
—Não é minha culpa. –me aproximei e baguncei seu cabelo. -Você é muito bonitinha.
Ela baixou o rosto e fitou o chão, séria.
—Kim Seokjin...
—Kim Seokjin?–inclinei a cabeça, interessado. –O que aconteceu com o “Jin”, “Seokjinnie”...? Pra onde foram?
—Eu vou te bater.
Tão fofa...
—Ei, me respeite. Eu sou mais velho. –alertei rindo da seriedade de sua ameaça e me curvando levemente para conseguir ver sua expressão.
Ela bufou baixinho, agora levantando o rosto e analisando os meus olhos, de repente com um olhar menos sério, mas meio confuso, perdido. Fiquei ali por alguns segundos, me perguntando o motivo da sua expressão até perceber o quão próximos nossos rostos estavam. Não precisei de nenhum milésimo de segundo para me afastar, sentindo as bochechas queimarem.
—Eu... –antes mesmo que eu pudesse pensar no que dizer minha voz começou a travar. Logo tratei de ajeitar a postura, envergonhado. –Eu não percebi.
Já esperava que o clima entre nós dois fosse ficar pesado, constrangedor. Estava pronto para me enterrar ali mesmo, mas aparentemente até hoje eu não aprendi: isso é simplesmente impossível. O clima entre nós dois nunca ficaria constrangedor, muito menos pesado. Hanna simplesmente deu risada, cobrindo a boca com as mãos como fazia na maioria das vezes que sorria, e se aproximou novamente, apertando uma das minhas bochechas de leve.
—Depois eu sou a bonitinha. –riu silenciosamente, se afastando e caminhando até a sala subitamente.
—Ei! –chamei, seguindo-a para fora da cozinha. –Pra onde você vai? Não me deixa aqui sozinho!
—Deixa de ser carente, Jinnie. –ela deu risada, parando na porta do corredor e se virando para mim. –Só vou me arrumar pra gente ir logo.
Olhei para baixo, sentindo as minhas bochechas ficarem ainda mais quentes do que já estavam.
—Eu só estou com saudades. –balbuciei baixinho.
O sorriso que Hanna abriu naquele momento poderia ter derretido qualquer pessoa de tão sincero e perfeito. Posso jurar que ela poderia ter tudo o que quisesse com ele. Provavelmente é por isso que a garota consegue ter tanta gente atrás dela. Seu sorriso é magnético, todos se hipnotizam por ele.
Inclusive eu.
Principalmente eu.
—Eu só vou me arrumar, ok? Me dê dez minutos.
Ela adentrou o corredor e sumiu dentro de seu quarto, me deixando ali parado na sala. Me estirei no sofá e tirei o celular do bolso no objetivo de tentar me ocupar, mas quando dei por mim estava passando as páginas do menu de lá pra cá sem entender o que tinha pra fazer ali. Bloqueei-o logo em seguida, pousando-o na barriga e fechando os olhos por alguns segundos, atento ao silêncio da sala.
Contra a minha vontade, minha mente me traz de volta a alguns minutos atrás quando meu rosto ficou tão próximo de Hanna. Minhas bochechas voltam a corar quase imediatamente e sinto vontade de me enterrar em um buraco no chão. Por que eu tinha que ser tão atrapalhado? Por que eu não podia ser uma daquelas pessoas confiantes que acreditam em si mesmas? Por que eu não podia viver sem ter medo? E por que ficava tão envergonhado até com Hanna? Com Hanna. Eu tinha vergonha até da minha melhor amiga. Qual era o meu problema?
Tirei os óculos e os apoiei em um dos braços do sofá, esfregando os olhos e tentando organizar meus pensamentos, porém parecia ser inútil. Eu só sentia mais e mais vergonha de ser quem eu era.
O som dos passos de Hanna que ecoaram pela sala me tiraram dos meus pensamentos instantaneamente. Senti ela se aproximar do sofá e se ajoelhar ao meu lado. Pude perceber seu olhar pousado em mim, o que fez meu rosto esquentar ainda mais. Era como se meus pensamentos estivessem conectados à uma caixa de som, ligada no último volume e ela ouvisse tudo. Apertei os olhos e respirei fundo, frustrado.
—Ei... Seokjinnie... –chamou baixinho, mexendo no meu cabelo.
Me deixei abrir os olhos e virei a cabeça ligeiramente para ver Hanna, que agora tinha o cabelo penteado e a expressão mais acordada, os grandes olhos castanhos focados nos meus.
—Tá tudo bem? Você parece chateado... -ela inclinou a cabeça para o levemente, me observando. -Aconteceu alguma coisa enquanto eu estava me arrumando?
Senti minhas bochechas ficarem ainda mais vermelhas e me sentei rapidamente no sofá, escapando do seu olhar enquanto Hanna me observava com os olhos infantis.
—Eu só estou com um negócio do escritório na cabeça. Não é nada.
Aquela mentira saiu da minha boca sem que eu pensasse e a culpa me atingiu de imediato. Como eu podia estar mentindo para Hanna? Sempre fomos tão honestos um com o outro e de repente eu mentia? Eu claramente tinha algum problema.
Ela obviamente percebeu, já ciente de que eu não sei mentir de jeito nenhum. A garota suspirou, se sentando ao meu lado e me observando.
—Não minta para mim, Jin. Você sabe que não precisa fazer isso.
Não, eu não precisava, mas o que diria? Eu não queria enchê-la de inseguranças e problemas que ela provavelmente não conseguiria resolver. Ela não podia consertar quem eu era.
—Não é nada importante, ok? –olhei para baixo, tentando fugir dos seus olhos. –Não se preocupe com isso.
Alguns milésimos de segundo de silêncio se apresentaram e na minha inocência, até cheguei a achar que Hanna tivesse deixado para lá, o que era no mínimo ridículo. Ela nunca desiste de mim, ela nunca me deixa pra lá.
—Ei, olhe para mim. –pediu, séria. Meus olhos passaram por seu rosto rapidamente, mas logo voltaram a fugir, até que a garota segurou meu queixo com uma das mãos e o virou para que eu a olhasse nos seus olhos, que me fitavam preocupados. –Nunca mais diga isso, ok? Não me diga que não é importante, Seokjin. Não me diga para não me preocupar. Você é a pessoa mais especial da minha vida e eu vou me preocupar com você sim.
Ela soltou meu rosto lentamente, caso eu voltasse a olhar para baixo, mas eu não fiz isso. Eu não consegui fazer isso. O jeito como ela me olhava não me deixou fazer nada além de escutá-la.
—Eu te amo pra caralho, ok? Você é o melhor amigo que eu já tive e é a pessoa mais importante da minha vida. Sempre vou me preocupar com você não importa o que você diga. Eu me recuso a ficar quieta e fingir que não vi quando sei que você está chateado com alguma coisa.
Mesmo que fosse difícil, tentei não sorrir.
Hanna é o tipo de pessoa que ama escondido. Ela ama entrelinhas, ama em segredo, ama em silêncio. Ela ama provocando, ama xingando, ama brincando. Ela ama com um sorriso nos olhos, ama com uma risada, ama com um olhar. Ela ama com gestos, ama com pequenos hábitos, ama com pequenos detalhes. A garota não precisa de palavras para dizer “eu te amo”. Tem idioma e linguagem própria para amar.
Porém, naquele momento os olhos de Hanna refletiam uma espécie de seriedade que era rara na nossa amizade, um amor direto, explícito e até agressivo que se revelava apenas em situações como essa, quando ela encontrava minhas inseguranças e incômodos jogados em cima de mim e precisava gritar seu amor para mim antes que eu perdesse a cabeça.
Em momentos como esse, Hanna expõe seu amor de um jeito quase explosivo, violento, como quem diz “ei, você com certeza é um idiota do caralho pra não reparar, mas eu te amo tanto que poderia te atropelar com um caminhão”.
Por alguns segundos, fiquei ali parado, surpreso com sua reação agressiva enquanto ela me encarava, séria, na espera de alguma palavra minha. Nisso, o sorriso que eu havia engolido acabou brotando no meu rosto.
—Você disse que me ama! -exclamei, apertando suas bochechas. –Que amor.
Com o jeito que ela me olhou a única coisa que faltava era eu apanhar.
—Seokjin, eu estou falando sério! –ela segurou uma das minhas mãos. –Porra, eu me importo com você.
Fiquei quieto, sentindo minha expressão se tornar mais séria. Eu poderia fugir o quanto quisesse, mas sabia que Hanna não estava de brincadeira e que não desistiria por mais que eu dissesse um milhão de vezes que não era nada demais.
E eu queria contar. Eu queria dizer tudo que eu pensava e falar sobre tudo que me perturbava para ela, porém as palavras não saíam. Não sabia como explicar o que sentia, não sabia como expressar o fato de que eu sentia vergonha de mim mesmo sem me sentir idiota. Eu provavelmente era a pessoa mais estúpida do mundo.
Segundos se passaram em um silêncio preocupado e pesado. Meus olhos se fixaram no tapete felpudo da sala, fugindo do olhar de Hanna que caía sobre mim enquanto ela ainda segurava uma das minhas mãos. A garota dessa vez permaneceu calada. Não armou nenhum discurso sobre a nossa amizade, não fez nenhuma pergunta. Apenas se aproximou, encostou a cabeça no meu ombro e ficou ali do meu lado, sem abrir a boca, voltando a me amar em silêncio.
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