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1 Sopa de lentilha, ligar pra ex e outras idiotices
Notas iniciais
Talvez fosse sua estúpida escolha de cores.
Branco? Por favor, Violet iria passar o ano novo em preto, não para ser rebelde, mas para... alguma referência ao lado negro da força. E ela sequer era fã de Star Wars!
Ou talvez fosse simplesmente a quantidade irresponsável de álcool que ela tinha ingerido.
Em todo caso, Violet estava totalmente destruída. “Ano novo, vida nova!” O CARALHO! Porque é claro que ela ia começar o ano novo totalmente tonta, com cólica, com o estômago ruim e ligando pra Natalie.
Tudo começou com Lia sendo estupidamente entusiasmada, como sempre. A colega de quarto e amiga de infância de Violet tinha essa animação e pureza naturais, e um evento grande como o fim do ano deixava ela com olhos tão brilhantes como um filhotinho. Violet se odiava por sempre se deixar levar pelo olhar daquela falsiane.
— Ei – Lia disse, invadindo o quarto de Violet – a gente tem que fazer algo no ano novo! Pra dar sorte!
— Não.
Violet não precisava de uma justificativa pra não participar de coisas sociais. Mas se quisesse um bom motivo: 1) os fogos de artifício assustavam os animaizinhos (até Lia criticava isso, então sua animação não fazia sentido) e 2) ela estava jogando! Havia jeito melhor de começar o ano do que chutando a bunda de caras aleatórios em um jogo online?!
Para Lia, sim, havia. E esse jeito era ir pra uma festa qualquer com música alta e fazer contagem regressiva, e basicamente um inferno. E beijar estranhos. Essa parte era legal, mas não compensava todo o drama.
Mas adiantava argumentar? Claro que não.
A primeira parada foi a cozinha.
Violet costumava amar aquele cômodo, com suas dezenas de chocolates e frango frito, mas naquele 31 de dezembro, a cozinha estava preenchida com um cheiro estranho e desconhecido.
— Vocês devem estar se perguntando por que eu reuni vocês aqui.
Violet abraçou Connie, uma de seus gatos, e lançou um olhar confuso para Anne, a terceira parte do trio. Lia vestia um avental cor de rosa e seus cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo.
— Eu tenho um mau pressentimento – Anne comentou, dando uma golada em sua garrafa de Vodka. Ela estava toda de vermelho, o que lhe caía muito bem. Seu cabelo preto chanel estava escovado, já que ela também tinha sido intimada a sair... e o que também saiu foi seu batom vermelho, deixando uma marca bem definida na garrafa.
— Não tenha! – Lia argumentou. – Juro que é uma boa ideia! É pra dar sorte em 2018!
— O que é? – Violet perguntou, desconfiada.
Lia bateu a colher de pau em sua mão e deu um sorriso largo. Depois limpou a garganta e ficou séria.
— Fico feliz que tenha perguntado, senhorita. Para nós três, nessa bela noite de dezembro eu estou preparando... tambores, por favor – Anne e Violet responderam batendo as mãos na mesa. Connie pulou do colo de Violet e andou para fora do cômodo. Essa manja, Violet pensou, sabendo que Lia estava prestes a dizer algo horrível – Eu estou preparando sopa de lentilha!
— É, não – Violet disse, sendo acompanhada por um aceno de cabeça de Anne. – Agradeço, mas nope. Não. No. Nein. いいえ.
Lia baixou os ombros.
— Mas vai ser tão bom pra vocês!
Já mencionei que Violet odiava ser seduzida pelos olhos de cachorrinho de Lia?
E assim a noite de reveião... revelhon... revendo avon... começou: com o estômago se revirando por causa da sopa idiota e com a cabeça leve por causa da vodka.
Aquela noite prometia.
A segunda desgraça foi, pra variar, catuaba.
Violet odiava catuaba. E, acima de tudo, odiava que ela não conseguia parar de beber. Mas ela precisava de álcool pra sobreviver a eventos sociais, mesmo que álcool fosse ruim e nÃO RECOMENDADO PRA NINGUÉM, NEM MESMO PRA MAIORES DE IDADE. Meia hora de festa, com catuaba e vodka, Violet já entrelaçava o braço no de Anne e sorria sem motivo nenhum.
As duas estavam naquele inferno juntas, e só estavam lá pra acompanhar a Lia, que era extrovertida e ia de grupo em grupo cumprimentando as pessoas. A maioria delas com selinho. O que fez Violet se lembrar da seca giganorme em que ela se encontrava.
Mas tudo bem, ela sabia que depois de outra meia hora ela já estaria beijando estranhos, e sua vida seria super feliz.
Outra meia hora se passou, e o efeito do álcool já era perceptível. Só que não da forma que Violet queria.
— Preciso mijar! – choramingou. Anne a confortou com tapinhas nas costas e lançou um olhar enigmático para Lia, para que ambas guiassem Violet pro banheiro. Ela ainda não estava fora de si, mas não era bom arriscar.
A fila era gigante, outro detalhe do drama. Violet sentia que não conseguiria esperar o banheiro liberar, o que era horrível, principalmente considerando que ela estava de vestido. Um vestido curto.
— Eu vou morrer.
— Por favor – Anne suplicou. – Não morra enquanto nós somos as responsáveis por você.
— Não morra no geral – Lia complementou.
Violet deu de ombros e se fitou num espelho numa parede distante. Mandou beijos para seu reflexo, pensando no quão gata ela ficava com o cabelo rosa. Estava tão feliz que tinha finalmente criado coragem! Não se arrependia nem um pouco.
— Vio, sua vez – Lia tocou no braço de Violet gentilmente, apontando para uma cabine livre. Violet sorriu e andou até lá apressadamente, feliz por ter segurado e por ter sobrevivido à gigante vontade de mijar.
Só para se deparar com outro drama.
— Eu acabei de ficar menstruada! – berrou. Outras mulheres no banheiro além de Lia e Anne poderiam ouvi-la, mas isso não importava. Pelo menos não tinha manchado seu vestido. Ter ido de roupa preta não tinha sido tão ruim, afinal.
A resposta veio da cabine do lado, ao invés de Lia ou Anne.
— Quer um absorvente emprestado?
Mulheres ajudando mulheres, era pra isso que ela vivia.
O ápice da noite se deu – como tinha que se dar – a minutos da meia noite. Porque Violet estava chapada e ela tinha que começar o ano de uma forma sensacional.
Mais alguns goles de catuaba depois, ela se esquivou de Anne e Lia e foi para um lugar silencioso (ou o quão silencioso poderia ser um clube com mais de mil pessoas) fazer sua primeira ligação do ano.
— Alô? – pelo visto Natalie também estava em um lugar movimentado.
— Nat, sou eu, Violet.
— Violet? – o choque era evidente em sua voz. Violet riu por ter pego Natalie de surpresa.
— Feliz ano novo, xuxu.
— Violet...
— Faz tempo que a gente não se fala, né? Mas tudo bem, eu te perdoo por ter deixado aquele cara mijar no meu gato.
— Você me ligou pra jogar coisas na minha cara? – opa, ela tinha ficado nervosa. Violet riu de novo.
— Não, te liguei pras coisas começarem bonitinhas em 2018, Nat.
— Violet, eu juro por Deus, se você me ligou pra pedir pra gente voltar...
Ela não chegou a terminar a frase, porque por sorte Anne encontrou Violet naquele momento, para salvá-la de um constrangimento maior.
— Nat? Você está falando com a... não importa, me empresta o celular.
E pegou o aparelho apesar dos protestos de Violet, que fez beicinho como uma criança, mas não podia superar Anne em questão de força.
— Alô? Natalie? – Anne falou com uma expressão séria e com um tom de voz super ácido que fez até mesmo Violet estremecer, mesmo que as palavras não fossem direcionadas a ela. – Tenha um péssimo ano sua... sua projeto de Joffrey Baratheon... Temer... sua... sua uva passa no arroz – gritou, e então desligou o aparelho, para então se deparar com as gargalhadas de Violet. – O que foi?
— Eu gosto de comer uva passa.
Violet acordou em sua primeira manhã de 2018 querendo cavar um buraco no chão e nunca mais ser vista.
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