40 Dias
7 Bisbilhoteira.
Notas iniciais
Era quase uma da manhã quando perdi o sono naquela noite. Sem muita coisa para fazer e prestes a congelar de frio, decidi que assistir televisão na sala parecia uma boa opção.
Quando cheguei ao cômodo, arrastando o meu lençol pelos corredores, quase como uma sonâmbula, vasculhei o local com os olhos, procurando pelo controle remoto, mas, a princípio, não o encontrei. Por isso, decidi tomar medidas drásticas. Abri as gavetas da estante e procurei pelo aparelho, remexendo uma por uma. Foi na última gaveta, da ponta direita do móvel, que finalmente o encontrei.
Sorri, de modo vitorioso, assim que eu encontrei o que tanto procurava. Talvez houvesse uma salvação para a minha noite de insônia, afinal. Antes de fechar a gaveta, hesitei, assim que encontrei um pequeno caderno preto jogado no fundo no armário, com o ano de 2011 gravado nele. O ano em que Scorpius havia ido embora.
Tamborilei os dedos sobre o objeto, pensativa. Algo em meu interior queria, desesperadamente, sequestrar aquele livro e lê-lo inteirinho naquela noite. Parecia uma boa forma de matar o tempo. Outro lado meu, mais sensato e prudente, negava-se a isso, pois parecia extremamente errado e invasivo, além do fato de que eu detestaria caso fizessem o mesmo comigo.
Pensativa, eu respirei profundamente. No entanto, quando se tratava da minha pessoa, a curiosidade sempre falava mais alto. Por isso, sorrateiramente, eu peguei o caderno e dirigi-me até o sofá, onde encolhi-me sob o cobertor.
Com peso na consciência, abri o que parecia uma agenda e comecei a ler.
“Hoje é dia três de maio. A verdade é que eu não queria ir embora da Inglaterra. Eu gosto da minha vida pacata e nada empolgante, do meu único amigo, Albus Potter, embora os nossos pais se odiassem quando eram crianças e, também, gosto das batatas inglesas. Eu poderia listar uma série de coisas da qual sentiria falta no meu país, mas nada importa, pois minha mãe está acima de todas elas.
Não estou escrevendo aqui exatamente para compartilhar os meus sentimentos, mas a mamãe me deu essa agenda de presente de Natal, e sugeriu que eu anotasse os momentos mais marcantes do meu ano. Ir embora do meu lar não é precisamente o melhor momento da minha vida, mas acho que é algo grandioso; digno de ser compartilhado. Não vai ser fácil ter que começar do zero.
Sentirei falta da escola; das brincadeiras estúpidas de Albus; de passar as tardes de alguns domingos na casa dos Weasley e, também, da minha casa. E, embora eu odeie admitir, sentirei falta de Rose Granger-Weasley, minha arquirrival e maior diversão nos últimos anos. Acho que ninguém me fez sorrir mais do que ela nesse ano que passou e, ainda que ela provavelmente nunca vá saber disso, serei eternamente grato.
Não há tempo para lamúrias, mas sinto muito por ter que deixar toda a minha vida para trás. Enquanto isso, agarro-me às palavras da minha mãe, que diz que recomeços costumam ser bons. Espero que ela esteja certa.”
Senti-me tão culpada por ler aquela primeira página, que não li mais uma palavra sequer. No entanto, isso não me impediu de passar a noite inteira em claro pensando em Scorpius Malfoy.
...
Eu estava na sala, ao contrário do que eu fazia normalmente, mas havia uma justificativa muito plausível para isso: eu havia enjoado do quarto em um nível quase insuportável. Por isso, eu estava sentada sobre o sofá, com as minhas pernas esticadas confortavelmente, uma almofada nas costas e com o notebook apoiado sobre as pernas. Desde que havia parado no sofá, já tinha escrito sete páginas e meia do meu livro, que, aparentemente, estava com um andamento bom, considerando que eu já estava à frente da metade da história. Era uma sensação boa, saber que eu tinha me livrado daquele maldito bloqueio criativo, que me perseguira por um bom tempo.
Sentindo um incômodo na coluna por estar tanto tempo na mesma posição, estiquei o meu corpo para trás, assim como os meus braços, espreguiçando-me. De repente, quando retornei a minha posição anterior, assustei-me ao ver Scorpius parado do outro lado do cômodo, encarando-me.
— Boa tarde, Rose — ele falou, educadamente.
Assim que eu o ouvi, encolhi as minhas pernas e fechei o notebook. De repente, senti meu coração dar um salto. Fazia dias que eu estava fugindo dele, sem saber exatamente o motivo. A verdade era que, desde que decidimos que seríamos amigos, eu não sabia como me comportar, e tentava me convencer de que era apenas porque eu não tive muitos amigos na minha vida, exceto pelos meus primos, que eram a minha família. Não tinha nada a ver com o meu coração ter batido um pouco acelerado no dia em que assistimos “Orgulho e Preconceito” juntos, porque, definitivamente, tinha sido culpa das cócegas.
Então, a verdade é que eu passei os últimos dias inteiros falando nada mais do que o superficial com Scorpius, e ontem eu nem mesmo o vi. Confesso que estranhei tal fato e talvez tenha ficado um pouco preocupada. Afinal, amigos preocupam-se uns com os outros, então não havia nada de errado nisso. Pelo menos, era o que eu acreditava.
— Boa tarde.
— Estava escrevendo? — ele perguntou, sinalizando o notebook com a cabeça.
— Sim — concordei, com um pequeno sorriso nos lábios. — Mas agora eu vou preparar algo para comer — falei, já me levantando do sofá.
— Sério? Eu também, por que não preparamos algo para nós dois? — sugeriu.
Amaldiçoei-me mentalmente por ter pensado naquela desculpa ridícula.
— Na verdade, eu vou para o meu quarto, tem algo que eu preciso resolver antes — menti. Desde quando mentir assim havia se tornado um hábito? Péssimo, diga-se de passagem.
— Aconteceu algo? — perguntou, preocupado.
— Não, mas... — Mordi o lábio inferior, pensativa. — É algo que eu realmente preciso resolver.
Eu já estava dando meia-volta, prestes a dar o primeiro passo em direção ao meu quarto, quando escutei a sua voz.
— Rose — Scorpius me chamou, então eu me virei para ele novamente.
— Sim?
— Você está me evitando? — Algo nos seus olhos me dizia que ele estava magoado.
Eu não queria magoá-lo, realmente não queria. Talvez fosse culpa da pandemia, da quarentena, mas a verdade é que eu estava passando a enxergar Scorpius de uma maneira diferente. No dia em que eu pisei nessa casa, ele era apenas um garoto irritante que eu conhecia desde que eu era pequena. Agora, além disso, ele se tornara um amigo. Uma pessoa com a qual eu realmente me importava.
— Não... — tentei soar o mais sincera possível, mas eu era péssima mentindo.
— Eu já te falei isso antes, você é uma mentirosa terrível — disse Scorpius. — Por que está me evitando? Eu fiz algo de errado?
— Não! — respondi, um pouco exaltada. Não queria que ele pensasse que era culpa dele. — Eu nunca tive amigos, Scorpius, então não sei bem como isso... Hm, como posso dizer? — Parei, pensativa. — Como esse negócio de amizade funciona.
— E você achou que fugir seria a resposta? — Ele arqueou as sobrancelhas. — Eu também não tenho amigos, Rose, exceto pelo Albus, caso você não saiba, então isso... — Ele apontou para si próprio e, em seguida, para mim. — Também é novidade para mim.
— Eu não fujo de nada! — afirmei, apenas para deixar claro. — Eu só estava vendo a melhor forma de lidar com a situação — expliquei. — Enfim, eu não sabia disso. Quer dizer, você sempre foi muito reservado, mas costumava ser bem conhecido no colégio.
— Ser conhecido não é sinônimo de ter amigos, achei que você soubesse disso — falou, como se fosse óbvio. — Você também era conhecida no colégio, lembra? Sempre foi uma das melhores alunas.
— É, você está certo — concordei. — Isso é engraçado — comentei, baixinho, mais para mim mesma do que para ele, embora não fosse uma situação realmente engraçada.
— O que? — perguntou, confuso.
— Você parece saber tanto sobre mim, mas às vezes eu sinto que não sei nada sobre você — admiti, porque isso me incomodava bastante.
Era um pensamento que aparecia na minha mente recorrentemente nos últimos dias, porque eu queria saber mais sobre ele, queria, de fato, poder conhecê-lo melhor. Contudo, eu jamais conseguiria fazer isso o evitando. A verdade é que eu sempre fui um pouco contraditória, e isso estava se tornando cada vez mais evidente.
Permanecemos quietos por alguns minutos e, Scorpius, por sua vez, tinha uma feição impassível e ilegível em sua face. Naquele momento, desejei poder ler mentes, apenas para saber no que ele estava pensando, mas sabia que isso era impossível, então contentei-me com as milhares de possibilidades que surgiram na minha mente. Observei-o atentamente conforme ele erguia uma das mãos até o próprio rosto, apenas para tocar o próprio maxilar bem desenhado com o indicador, como se estivesse pensando.
— Eu não concordo com você — disse, sem me dar muitas explicações. — Você ainda quer comer alguma coisa?
— Sim, claro — concordei, ignorando por completo o que ele havia dito anteriormente.
Fomos juntos para a cozinha, sem trocar uma única palavra ao longo do caminho. Quando chegamos lá, paramos, um de frente para o outro, e Scorpius, novamente, pareceu pensativo, até um mínimo sorriso surgir em seus lábios.
— O que acha de panquecas? — sugeriu.
Automaticamente, meu rosto se iluminou em um sorriso que demonstrava um misto de felicidade a saudade.
— Acho ótimo. Eu adoro panquecas.
— Eu me lembro. Sua tia Ginny sempre fazia quando íamos para a casa do Albus, e eles viviam dizendo que era a sua comida favorita.
Então, senti-me mal de novo. Como ele poderia saber qual era a minha comida favorita sem eu nunca sequer ter mencionado? Aliás, eu não tinha ideia de qual era o prato predileto de Scorpius, a única coisa que eu sabia era que ele não era um grande fã de doces em geral. Discretamente, eu suspirei, um pouco indignada comigo mesma, mas ele pareceu perceber. Scorpius era realmente muito observador.
— O que houve? Está com saudades de casa de novo? — indagou, verdadeiramente preocupado. Era possível ver isso em seus olhos.
— Sim, mas não é isso — respondi, sem dar muitos detalhes.
— Então o que é? — insistiu, curioso.
— Eu não sei qual é o seu prato favorito — confessei, sentindo-me envergonhada.
— É isso o que te preocupa? — Ele riu, achando graça. — É porque eu não tenho um prato favorito. Uh, é válido se eu responder qualquer coisa que tenha batata?
Eu ri, descontraída, sentindo-me aliviada, e concordei.
— Definitivamente, eu também adoro batata.
— Eu vou fazer as panquecas — falou, enquanto procurava pelo material necessário nos armários.
— Eu posso ajudar? — indaguei, um pouco hesitante.
— Sim, claro — concordou. — Pode pegar o leite na geladeira para mim? Ah, a essência de baunilha e os ovos também.
Não o respondi, mas caminhei em direção à geladeira e procurei por cada um dos ingredientes solicitados. Assim que os encontrei, levei-os até a bancada da cozinha, onde Scorpius já havia colocado os outros materiais que seriam utilizados.
— Você por acaso sabe cozinhar algo que não seja ovo? — Scorpius indagou, e eu fiz uma careta, sentindo-me ofendida.
— Claro que sei! — respondi, ultrajada, mas ele não pareceu se importar.
— Sabe fazer panquecas então?
— Talvez... — respondi, lembrando do fiasco que foi na última vez em que tentei fazer panquecas. Consegui a proeza de queimar todas. Eu realmente não tinha talento algum para a cozinha.
— Você não sabe fazer? — perguntou novamente.
Eu bufei.
— Eu sei, mas, da última vez, tive alguns... Problemas — disse, tentando parecer séria.
— Quais?
— Bem, eu meio que queimei todas — confessei, sem nem mesmo pestanejar. Ele já havia percebido que eu não tinha muito talento na cozinha, então falar sobre o meu fracasso não seria nada revelador.
— Você quer tentar fazer? Eu posso te ensinar, se quiser.
— Hm, não, obrigada, eu quero ficar bem longe do fogão e de qualquer coisa que queime — respondi, sem nem pensar duas vezes.
— Céus, Rose. — Ele revirou os olhos. — Você é uma criança ou uma adulta?
— Uma adulta péssima na cozinha — falei, sincera.
— Vamos, eu vou te ajudar — ele disse, enquanto me entregava um recipiente e uma colher. — Primeiro, você precisa misturar duas xícaras e meia de farinha, duas colheres de açúcar, quatro colheres de chá de fermento em pó e uma pitada de sal.
Suspirei ao ter o meu pedido ignorado. Eu poderia debater com ele, mas estava faminta e uma discussão apenas faria com que a nossa comida demorasse ainda mais a ficar pronta. Se a casa pegasse fogo, eu poderia colocar a culpa inteiramente em Scorpius, por ter sido tão insistente quando eu havia deixado claro que era um caos na cozinha. Por isso, fiz exatamente o que ele falou, coloquei todos os ingredientes citados no recipiente e os misturei.
— E agora?
— Agora você mistura os quatro ovos batidos, coloca duas colheres de sopa de óleo, um pouco de essência de baunilha e quatro xícaras de leite.
Segui os passos indicados por ele, sendo assim, antes de tudo, bati os ovos e, em um outro recipiente, misturei-os com o óleo e o leite.
— Assim?
— Sim — respondeu. — Agora, você junta os ingredientes secos com os líquidos e mistura tudo.
Mais uma vez, apenas fiz tudo o que suas palavras mandavam e, quando julguei que os ingredientes estavam bem misturados, mostrei para Scorpius, que acenou positivamente com a cabeça em aprovação.
— Agora, a parte que você mais teme — falou, tentando prender o riso. Tentativa mal sucedida. — O fogão.
— Dá para parar de rir? — disse, irritada. — E, não, obrigada, eu não quero destruir todas as nossas panquecas, pode fazer as honras.
— Não — retrucou, tão rápido que nem sequer precisara pensar. — É isso ou ficaremos sem panquecas.
— Isso é chantagem — falei, embora fosse óbvio.
— Eu sei, vai fazer o que, ligar para a polícia? — indagou, em tom de ironia.
— Idiota — resmunguei baixinho.
— Vamos, tampinha, eu já deixei a frigideira esquentando, então é só colocar as panquecas.
— Não comece com isso de “tampinha” — reclamei.
— Você me chamou de idiota primeiro. — Ergueu as mãos, como se quisesse se livrar de toda a culpa, mas ignorei.
— Se a casa pegar fogo, a culpa é sua — disse, apenas para deixar claro, enquanto colocava a primeira panqueca na frigideira.
— Anotado. — Ele deu de ombros.
Esperamos por um tempo em silêncio. Confesso que passei cada mínimo segundo encarando a panqueca, com medo de que arruinasse tudo.
— Você já pode virar agora — orientou.
Conforme ele havia dito, virei a panqueca.
— Ok, não é tão difícil assim — admiti, um pouco a contragosto.
— Melhor tirar essa da frigideira, antes que queime.
— Certo.
Retirei a primeira panqueca da panela, absolutamente perfeita. Sorri, orgulhosa de mim mesma e voltei o meu olhar para Scorpius, animada feito uma criança.
— Olha, eu consegui. — Apontei para a única panqueca pronta.
— É, conseguiu, mas ainda faltam todas as outras. Não vai fazer?
— Sim! — respondi, animada por ter feito a primeira massa corretamente.
Não demorou muito para que as outras ficassem prontas. Dispersa como o de costume, devo confessar que deixei a última delas queimar. No entanto, não me incomodei tanto, afinal, Scorpius havia dobrado a receita da massa, por isso, o resultado foi muita panqueca. Arrumamos a mesa com as panquecas, geleia de morango e mel. Em seguida, sentamos e começamos a refeição.
— Nossa, isso aqui está muito bom — falei, completamente satisfeita com o resultado.
— Você quem fez, que modéstia, Rose — ele implicou, mas, a princípio, não dei bola, pois estava ocupada demais me deliciando com a comida.
— Realmente, eu arrasei — respondi, convencida.
— Não vou negar, mas também não vou concordar — foi o que ele respondeu.
Ficamos quietos por um tempo, apenas desfrutando a refeição, mas, de repente, uma série de pensamentos começou a rodear a minha mente. Era sempre assim. Eu sempre pensava muito, o tempo todo, e muitas vezes isso acabava sendo bem incômodo. De repente, lembrei-me do dia anterior, em que Scorpius passara o tempo todo em seu quarto. Eu sabia disso porque havia ficado o dia todo na sala, e não o vira sair nem mesmo para se alimentar. E ele nunca pulava as refeições. Talvez, apenas talvez, eu estivesse um pouco preocupada. Mas isso era normal, certo? Amigos se preocupavam uns com os outros. Não havia problema algum nisso. Será que eu deveria perguntar a ele sobre isso? Ou apenas deixar passar? Afinal, ele já parecia melhor, seja lá qual fosse o problema, então talvez eu devesse deixar isso passar.
Contudo, uma vozinha dentro de mim dizia que eu não deveria ignorar, porque, caso contrário, eu não pararia de passar nisso. Por isso, reuni toda a coragem que eu tinha, deixando o meu receio de lado e finalmente tomei coragem para falar.
— Eu posso te fazer uma pergunta? — proferi, repentinamente, fazendo com que Scorpius voltasse a sua atenção para mim.
— Pode — respondeu, tranquilo.
— Por que você passou o dia todo no quarto ontem? — perguntei, tão direta, que me arrependi no instante em que as palavras saíram da minha boca. — Quer dizer, não que eu seja curiosa ou esteja preocupada, eu só achei esquisito, porque você não costuma fazer isso. — Eu tinha plena certeza de que a minha explicação havia piorado tudo.
No entanto, eu pouco me importei, porque no momento em que fiz aquela pergunta, notei a feição de Scorpius mudar da água para o vinho. Ele, que antes parecia contente sem motivo, o que era raro de se ver, pareceu ser tomado por uma tristeza repentina que eu não compreendia. Era visível em seus olhos. Naquele instante, arrependi-me de ter tocado no assunto. Eu deveria ter deixado passar, mas eu era teimosa demais.
— Eu sinto muito, eu não quis tocar no assunto — falei, arrependida. — Não precisa me dizer nada, se não quiser.
— Não, tudo bem. — Ele contraiu os lábios, como se estivesse hesitante. Em seguida, respirou fundo. — Ontem foi aniversário de morte da mamãe, foi por isso.
Eu senti o meu coração se quebrar no instante em que ouvi aquelas palavras, como se tivesse se partido em milhares de pedacinhos. Eu havia falado poucas vezes com Astoria Malfoy, mas ela sempre fora muito gentil e doce comigo; todas as vezes em que eu a encontrara na escola ou nas poucas vezes em que eu havia visitado a casa de Scorpius, por isso, eu tinha um grande carinho por ela. Eu nunca soube do seu falecimento, porque Albus nunca me contara e passei anos sem falar com Scorpius. Fiquei sem reação por alguns segundos, sem dizer nada, até que senti lágrimas, que me recusei a derramar, surgirem nos meus olhos.
— Eu sinto muito, eu não sabia, eu... — não consegui continuar a frase devido ao nó que se formou em minha garganta.
— Tudo bem, ninguém sabia, só o Albus, e eu pedi para que ele não contasse para ninguém, especialmente para você — confessou, calmo, mas ainda triste.
— Para mim? — indaguei, surpresa.
— É, você sempre gostou muito dela, não queria que se magoasse também — explicou, mas aquelas palavras não fizeram sentido algum na minha mente.
— Desculpe, eu realmente não imaginava, naquele dia no telhado você falou que tinha perdido o sono por causa dos seus pais, então eu nem sequer imaginei.
— Eu sei, Rose, não precisa se desculpar — disse, com um pouco de pesar em sua voz. — Eu falei aquilo porque eu tive um pesadelo com eles, por isso não me deixaram dormir. O meu pai se foi há dois meses, então... — Ele não terminou a frase, mas não precisava.
Senti-me triste por Scorpius, como se aquela dor fosse minha. Depois, senti-me culpada por tê-lo tratado de modo tão rude e implicante nos últimos dias, quando nem sequer imaginava o que ele estava sentindo. Ele provavelmente estava se sentindo mais solitário do que nunca. Era verdade que nunca tivera muitos amigos, mas havia perdido a sua mãe, pela qual sempre teve muito zelo. Scorpius sempre foi muito apegado à Astoria, pelas histórias que soube de Albus. Sua relação com o seu pai não era das melhores, mas, ainda assim, eles eram uma família. E eu nem sequer podia imaginar a dor que ele estava sentindo nesses últimos meses. Sem sua família, distante do seu único amigo. Sozinho em outro país. Para completar, ainda estava abrigando uma menina ingrata que apenas o importunara desde o primeiro dia.
Eu não sabia o que estava acontecendo, se era culpa da quarentena, dos dias enclausurados, do excesso de informações inesperadas ou se eu estava me tornando cada vez mais sensível, mas, mesmo que eu tentasse, de todas as formas, me controlar, acabei desabando. Scorpius, confuso, levantou-se da cadeira em que estava sentado, na minha frente, e caminhou para o meu lado, parecendo levemente preocupado. Como ele conseguia se preocupar comigo em um momento como aqueles?
— Por que você está chorando? Está tudo bem, foi só um dia ruim e já passou — ele falou, mas era perceptível que não sabia bem o que dizer. — Eu não sabia que você tinha se tornado uma chorona, Rose — ele brincou, tentando aliviar o clima, mas não funcionou. — Não vai me dizer o que houve?
— Eu sinto muito — falei, em meio aos soluços. — Eu não sabia da sua mãe, nem do seu pai. Eu sou uma insensível.
Apoiei os cotovelos sobre a mesa e enterrei o rosto em minhas mãos. Eu nem sequer sabia como encarar Scorpius Malfoy depois de tudo. Senti a culpa invadir o meu peito de modo tão angustiante, que parecia estar ficando cada vez mais difícil de respirar.
— Rose — ele me chamou, em um tom de voz baixo e quase delicado. Subitamente, senti suas mãos gélidas segurarem as minhas a afastarem-nas do meu rosto. — Está se sentindo culpada por causa dos meus pais? Você não tem culpa nenhuma sobre isso.
Eu não respondi a sua pergunta, porque, honestamente, ele já sabia a minha resposta. Ele entortou os lábios em um modo que eu não compreendi, e eu quis gritar, mesmo não fazendo isso. Por que ele conseguia me ler tão facilmente, mas, ainda assim, era tão difícil entendê-lo? Era algo que me incomodava profundamente.
— Não precisa se sentir culpada, você não fez absolutamente nada de errado, muito pelo contrário — ele falou, mas eu nem sequer conseguia olhá-lo, de tão envergonhada. — Você tem sido praticamente a minha única companhia nessas últimas semanas, e, eu acho que sem você aqui, eu teria enlouquecido, sinceramente. — Scorpius riu, um pouco sem jeito. — Então, tudo o que eu posso fazer é te agradecer por ter me dado uma chance, por ter se tornado minha amiga. Rose, você tem sido a única pessoa capaz de fazer com que eu não me sinta sozinho. Eu gosto de ter você ao meu lado.
As palavras de Scorpius, de alguma forma, confortaram o meu coração. Definitivamente, eu não estava esperando por um perdão, porque achava que não merecia, mas depois de tudo o que ele me disse, eu o compreendi por inteiro, porque eu me identifiquei. Eu me vi em Scorpius Malfoy, porque eu também sempre me senti sozinha, mesmo tendo toda a minha família ao meu redor. Mas ele não tinha ninguém, nem mesmo os seus pais. Querendo ou não, o Malfoy é meu único amigo e saber que ele pensava aquelas coisas acerca de mim, me causou alívio e, acima de tudo, deixou-me feliz.
— Eu também gosto de ter você ao meu lado, Scorpius — respondi, completamente sincera, com um sorriso discreto em meus lábios. — Eu realmente gosto e fico feliz que tenhamos nos tornado amigos.
— Eu quero te mostrar uma coisa. Você pode vir comigo? — pediu, educado.
Não o respondi com palavras, apenas me levantei, e ele entendeu o recado. Segui-o por todo o corredor, em completo silêncio, por um caminho com o qual já estava familiarizada. De repente, deparei-me com uma porta conhecida, mas que eu nunca havia atravessado, justamente por haver uma regra clara: jamais entrar no quarto de Scorpius Malfoy.
Quando ele girou a maçaneta e revelou o cômodo, eu não entrei de imediato. Permaneci parada por um tempo, analisando o cômodo. Confesso já ter imaginado como seria o quarto e devo admitir que acertei em partes. A tonalidade da decoração não fugia dos tons neutros que permeavam a casa: preto, branco e cinza. Do lado esquerdo, havia uma cama de casal enorme, que provavelmente era o dobro da minha, forrada com uma roupa de cama preta e, logo à frente do móvel, em uma altura razoável, a televisão, embutida na parede. Do lado direito, um armário e uma escrivaninha de tom tabaco e, ao fundo do cômodo, uma enorme estante de livros, que me deixou completamente sem palavras.
— Você pode entrar se eu te convidar, sabia? — ele brincou.
Só então eu me dei conta de que não havia dado um único passo.
— Você é um vampiro, por acaso? — embarquei na brincadeira dele, com uma piada de humor duvidoso, enquanto caminhava para dentro do cômodo.
— Céus, essa foi péssima — disse, fingindo uma feição de dor.
— É, eu sei — confessei. — Mas eu não podia perder a oportunidade.
Scorpius não disse nada, apenas sorriu para mim. Permaneci estática, observando-o conforme ele caminhava em direção a uma das gavetas da sua cômoda, de onde retirou um pequeno pedaço de papel retangular. Não demorei nem mesmo um segundo para perceber que se tratava de uma fotografia, mesmo antes de ele me mostra-la. Então, ele repousou os olhos sobre a imagem e pareceu sorrir. Não sei exatamente o motivo, mas eu sorri junto, sem nem ter visto a figura. Em passos lentos, que torturavam o meu lado curioso, ele se aproximou de mim e, finalmente, mostrou-me a fotografia.
Recordava-me bem daquele dia, como se fosse ontem. Era um trabalho da escola que havíamos feito juntos, quando tínhamos dezesseis anos. Obviamente, não ficamos nada satisfeitos com a escolha das duplas, mas não havia nada a ser feito. Foi a nossa primeira trégua desde os catorze anos. Como nós dois éramos bons alunos, tiramos nota máxima no trabalho de literatura. Havia sido uma apresentação sobre clássicos literários, aberta ao público, que era majoritariamente preenchido por pais babões, incluindo os meus. E Astoria Malfoy, que tirara a nossa foto naquele dia. Um ao lado do outro, mas estranhamente afastados, ambos com sorrisos claramente forçados nos lábios. Aquela provavelmente era a única foto que tínhamos juntos.
— Por que você ainda tem isso? — perguntei, risonha.
— Não sei, eu nunca consegui jogar fora. — Não consegui compreender a mensagem por detrás do seu tom de voz suspeito, então dei de ombros.
— Admite, você sentiu a minha falta nesses anos — brinquei, dando uma cotovelada suave no seu braço esquerdo.
— Eu senti, Rose — admitiu, parecendo sincero. — Eu realmente senti a sua falta. — Um pequeno sorriso surgiu nos lábios dele.
Senti o meu coração pular uma batida, e uma sensação esquisita na minha barriga, que parecia se revirar. Eu estava nervosa? Mas por que eu estava nervosa? Não importava, mas eu estava odiando me sentir de tal forma. De repente, eu tive certeza que minhas bochechas ficaram avermelhadas, considerando que encontravam-se quentes, o que não era muito habitual para mim em dias frios.
— Eu... — Mordi o lábio inferior, receosa. — Eu fiquei muito irritada quando descobri que você tinha ido embora sem avisar nada. Por que você foi embora e por que não me contou nada? Isso foi... cruel.
— Nós viemos para cá, porque era um desejo da mamãe. Ela disse ter enjoado da paisagem de Londres, e a França era o seu lugar favorito no mundo inteiro. Não seria justo se não concedêssemos o último pedido dela. — Suspirou, como se falar aquelas palavras doesse em seu âmago. — E eu não quis contar para ninguém, porque eu achei que assim doeria menos. Não gosto de despedidas.
— Eu fiquei tão... — Parei, um pouco pensativa. — Decepcionada. — Concluí. — Acho que, no fundo, eu ainda tinha esperança que nós fôssemos amigos, mesmo com tantas brigas e com tanta implicância, mas, quando você foi embora, sem me contar nada, eu imaginei que fosse a resposta definitiva. Achei que você realmente me odiasse.
— Eu sinto muito, eu nunca quis que parecesse isso, nunca foi a minha intenção — falou, arrependido. — E eu nunca odiei você, Rose. Nem mesmo por um único segundo.
— Ainda é um pouco difícil de acreditar. — Ri baixinho, tentando quebrar o clima sério daquela conversa. — Nesse dia — Eu apontei para a figura — Eu estava feliz por não termos brigado.
— É, eu também — Riu, nostálgico. — Foi a nossa primeira trégua.
— Sim. A primeira e única durante o colegial.
— É... — concordou.
— Hm, Rose, eu tenho uma pergunta para te fazer — ele falou, parecendo um pouco aflito. Automaticamente, eu estremeci. — Por acaso você viu uma agenda de capa preta de 2011? Eu costumava deixar na sala.
— Ah, eu... — Engoli seco, nervosa. — Não vi... — Menti, completamente contra a minha vontade.
Scorpius arqueou as sobrancelhas, completamente desconfiado e descrente das minhas palavras.
— Ah, é? — indagou, com um sorriso divertido nos lábios. — Então por que eu encontrei isso aqui fora do lugar na sala? — Retirou a agenda da gaveta e me mostrou.
Fiquei sem reação alguma por certos segundos. Nada do que eu falasse o convenceria do contrário. O que eu poderia fazer? Culpar Lynx? Seria completamente ridículo e inacreditável.
— Eu não quis... — Respirei fundo, frustrada comigo mesma e com a minha atitude desonesta. — Quero dizer, eu quis, mas não foi por mal, eu estava curiosa e queria te conhecer melhor, ok? — admiti.
— Queria me conhecer melhor? — indagou, quase incrédulo. — Achou que bisbilhotar seria melhor do que me perguntar diretamente?
— Eu não achei, eu fui... Imprudente? — falei, em tom de dúvida. Não sabia se aquela era a melhor palavra. — Olha, me desculpa. Bem, eu só li a primeira página, não consegui continuar porque sabia que era desonesto e invasivo. Eu sinto muito, eu realmente não fiz por mal.
— Você sabe que quebrou a segunda regra, não é? — falou, sugestivo.
Lembrei-me do primeiro dia em que pisara naquela casa. Existiam duas regras: não entrar no quarto, nem no escritório de Scorpius Malfoy e não bisbilhotar as coisas. Aparentemente, eu havia violado as duas, mesmo que a primeira tenha sido com autorização.
— Eu estou arrependida — assumi, culpada. — Eu sinto muito.
— Eu não estou bravo, Rose — proferiu, calmo. — Apenas decepcionado por você ter tentado esconder isso de mim. Achei que odiasse mentiras.
— E eu odeio! — Fiz questão de confirmar. — Ok, eu fui uma idiota. Será que pode me desculpar?
— Rose Weasley assumindo que é uma idiota? Isso é novidade para mim — brincou, risonho. — Eu te perdoo, se é isso que te preocupa, mas é sério que queria saber mais sobre mim?
— Não é o que você está pensando! — rebati. — Eu acho que eu vou voltar para o meu quarto — disse, um pouco sem jeito.
— Ah, claro. — Ele riu, achando a situação engraçada. — Boa noite, Rose.
— Boa noite, Scorpius — falei.
Caminhei em direção à porta, em passos tímidos e, por fim, girei a maçaneta. Contudo, nada aconteceu. Tentei novamente, e a porta permaneceu fechada, como se estivesse trancada.
— Você trancou a porta? — perguntei, tentando não parecer desesperada.
— Não, você entrou depois de mim — ele me respondeu. — Deixe-me ver.
Scorpius se aproximou de mim, e eu dei um passo para o lado, deixando-o de frente para a porta. Então, ele fez a mesma coisa do que eu, girou a maçaneta, mas de um modo mais bruto, mas, ainda assim ela não se abriu. Engoli seco, ficando ainda mais nervosa.
— Eu acho que está emperrada — falou, tão calmo que me dava nos nervos. — Eu deixei o meu celular na cozinha, você está com o seu?
— Não, deixei na sala — respondi, e fechei os olhos, com ódio de mim mesma. — O que fazemos agora?
— Bem... — Ele não respondeu de imediato. Na verdade, ele caminhou em direção à própria cama e jogou o corpo sobre o colchão, de modo sutil. — Dormimos?
— O que?! — perguntei, exaltada. — Como assim dormimos? Estamos trancados aqui!
— Estamos trancados, alimentados e sem celulares. Posso pular a janela amanhã, não é muito alta. Dou a volta e abro a porta, mas eu realmente não quero fazer isso à noite — sua voz expressava total calma e paciência. Não sabia se o seu intuito era me calmar ou me deixar cada vez mais irritada.
— O que? Não! — falei, completamente indignada.
— Tem uma ideia melhor? — Scorpius ergueu as sobrancelhas, desafiador. Eu não respondi. — Imaginei. Por que não deixa de ser teimosa e não deita aqui para dormir?
Eu quase engasguei ao ouvir as palavras dele.
— Como assim deitar aí para dormir?
— Não somos mais crianças, Rose. — Ele revirou os olhos. — E, além disso, já dormimos juntos antes.
— Não fala isso — pedi. — Soa... Esquisito. — Fiz uma careta.
— Você vem ou não? — indagou, dando tapinhas no espaço vazio da cama, ao lado dele.
Contra a minha vontade, respirei fundo a caminhei até a cama, deitando-me ao lado dele sem dizer absolutamente nada. Enfiei-me debaixo do lençol que agora compartilhávamos e permaneci encarando o teto, em total silêncio.
— Rose, você está nervosa? — ele perguntou, prendendo o riso.
— Cala a boca — retruquei, irritada. — Idiota — murmurei.
— Tampinha — ele respondeu, tão baixo quanto eu. — Você está ansiosa para ir para casa? Não falta muito, logo as fronteiras se abrirão.
— Sim — respondi, com um sorriso nos lábios. — Não vejo a hora de reencontrar os meus pais e o Hugo.
— Eu nem imagino como esses últimos dias devem ter sido difíceis para você — confessou.
— Bem, foram melhores do que eu esperava — admiti. — Imaginei que seria mais difícil, sei que tive meus altos e baixos, mas acho que faz parte.
— É, acho que sim — ele concordou. — Mas eu não gosto de ver seus momentos de baixa, Rose. Acho que me machucam um pouco.
Não soube o que responder de imediato. Era normal que amigos sentissem isso um pelo outro, certo? Não era nada mais do que preocupação, algo completamente normal em uma relação de amizade.
— Então é assim que amigos se sentem uns com os outros? — perguntei, subitamente. — Eu não tenho nenhum amigo além da minha própria família.
— Claro, Rose. É assim que amigos se sentem. — Ele sorriu, e eu não compreendi o que significava aquele sorriso. — Boa noite.
— Hm... Scorpius — chamei, baixo, um pouco envergonhada.
— Sim?
— Obrigada por tudo. Quero dizer, por me deixar vir para cá, por ter sido minha companhia durante todos esses dias, por ter me ajudado quando eu fiquei doente. Por tudo. — falei, deixando todo o meu orgulho de lado.
— Não precisa agradecer por isso — respondeu. — É isso que amigos fazem, cuidam uns dos outros.
— Boa noite, Scorpius — proferi e virei-me de lado, ficando de costas para ele.
— Boa noite.
...
A manhã seguinte chegou rapidamente, considerando que eu dormi a noite toda. Fazia tempo que eu não dormia direto, de um dia para o outro. Acordei ao ouvir o som da maçaneta se movimentando nada delicadamente e, com a minha visão ainda desfocada, encarei Scorpius, que, sem a menor dificuldade, abriu a porta. Fiquei pensativa por alguns segundos, perguntando-me como ele havia conseguido abri-la tão rápido.
— Como você conseguiu? Achei que fosse sair pela janela — falei e, em seguida, bocejei.
— Ah, isso... — Ele parou, um pouco sem graça. — Era só a trava automática... Eu só precisei colocar a chave. — Deu de ombros, como se não fosse importante.
— O que? — Ri, desacreditada. — Você sabia disso?
— Bem... — Ele bagunçou os seus fios de cabelo loiros, parecendo sem jeito. — Sim.
— Eu fiquei desesperada ontem, e você sabia disso o tempo todo? — explodi.
Levantei-me da cama e, furiosa, caminhei na direção dele, batendo os pés fortemente contra o chão. Eu merecia explicações.
Ele acenou positivamente com a cabeça, mas não se explicou.
— E por que você não me disse? — Eu não sabia mais se estava decepcionada ou apenas furiosa.
— Você quebrou uma regra, foi bisbilhoteira. Entenda como um castigo. — disse, em tom de brincadeira. — E também porque eu queria passar mais tempo com você. — A sinceridade em sua voz me deixou muda.
Abri a boca e a fechei duas vezes, sem dizer nada. De um instante para o outro, passei de irritada para surpresa. Então, reorganizei os meus pensamentos, buscando por uma resposta adequada, mas nada pareceu bom o suficiente, porque eu ainda estava furiosa, mas a forma genuína com a qual ele havia dito aquelas palavras fez o meu coração amolecer um pouco.
— Por quê? — indaguei novamente, insistente.
— Porque eu gosto de você, Rose — ele falou, sem nem mesmo balbuciar. — Acredite ou não.
Processei aquelas palavras com calma e senti o meu coração acelerar. Ignorei cada batimento descompassado, conforme o fitava em seus olhos profundos como uma tempestade, repletos de sentimentos que eu não compreendia.
— Você estava se sentindo sozinho, não é? Precisava de companhia, claro. Como eu não consegui enxergar isso? — falei, mais para mim mesma, do que para ele, ignorando completamente a declaração vinda dele. — Eu sinto muito, eu só fiquei chateada, porque você mentiu para mim, e amigos não mentem.
— Eu sinto muito — ele disse, verdadeiramente arrependido. — Eu não quis, mas o que eu disse agora, eu realmente...
— Eu acho que vou para o meu quarto agora, eu preciso terminar de escrever o capítulo que parei — o interrompi, nem um pouco educada. — Eu estava quase acabando ontem. Enfim, te vejo mais tarde.
Sem dar qualquer possibilidade de resposta da parte de Scorpius Malfoy, saí do quarto, quase correndo, e logo adentrei o meu. Peguei-me ainda refletindo sobre as palavras dele e, especialmente, acerca do motivo para meu coração estar batendo de modo tão acelerado. Scorpius disse que gostava de mim, mas tudo bem, certo? Porque amigos gostam uns dos outros, é uma regra básica. Convenci-me de que era exatamente isso que ele queria dizer e, pelo resto do dia, ignorei qualquer notícia que o meu coração quisesse me passar.
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