365 Dias Sem Ele

1 O Que Foi e o Que Deveria Ter Sido – Único


Notas iniciais
Hey! Depois de judiar do Gon na minha última one postada, decidi que era hora do Kill sofrer heuhehe Podem encarar essa história como uma "resposta" do Killua apesar de nem tudo se encaixar, se quiserem. Também foi baseada em algumas coisinhas que escrevi ano passado para um @ ai, espero que não tenha ficado sem sentido. Aos meus leitores de Uncover, pelo amor da coca, por favorzinho não se zanguem comigo, eu consegui pegar no note da minha tia cinco minutinhos apenas para postar isso aqui, tem uma explicação bonitinha no meu perfil sobre o por que da fic estar em hiatos. Espero que gostem, Boa leitura!

365 Dias Sem Ele

O Que Foi e o Que Deveria Ter Sido – Capítulo Único

Killua

E depois de sonhar contigo eu acordei quase em desespero chamando pelo seu nome, a mão estendida para o teto buscando o que estava fora do meu alcance e um sussurro saiu dos meus lábios sem que eu pudesse evitar: Eu te amo.

Com algum esforço, consegui erguer o dorso. Girei as pernas pra fora da cama e as estiquei, apoiando as mãos nos joelhos e as afastei, puxando o ar para os pulmões com sofreguidão. O cheiro de mofo, poeira somado a falta de ventilação naquele quarto escuro e velado tornava difícil a respiração de quem já não vivia bem por conta de um ou dois transtornos alimentares, sintomas de uma semi-depressão e completa abstinência de você.

Merda. O dia já começava ruim e não é preciso ser um gênio para saber que terminaria pior ainda. Maldita lei de Murphy. E maldito você por ter ido embora.

Era aula de biologia e a professora tagarelava algo sobre drogas. Ela me dirigia olhares preocupados entre uma palavra e outra desde aquele monólogo sobre o meu excesso de faltas que tivemos quando ela me chamou de canto para conversar assim que pisei na sala de aula. Parte de mim se sentiu culpado por causar problemas a ela, era uma das únicas pessoas que gostavam de mim nessa amostra grátis do inferno e havia me presenteado com um bom livro em uma data próxima ao fim do ano passado. Instintivamente lembrei-me da sua cara surpresa quando contei o que tinha ganhado de um professor, me recordo tão bem quanto daquela discussão que tivemos no dia anterior a aquele. O sorriso no seu rosto ao saber que toda a minha indiferença era na verdade ciúmes, a risada das suas amigas sentadas em um canto próximo sem disfarçar os olhares de divertimento focados na minha patética figura encabulada; Os seus braços ao meu redor... Tudo isso me vem tão facilmente a cabeça como se tivesse ontem e não há quase um ano.

“Ela chegou na minha vida agora, já você sempre esteve nela me apoiando e ajudando. Isso não vai mudar tão cedo” Você sussurrou no meu ouvido enquanto me abraçava com força após ouvir toda a minha explicação sobre os meus chiliques. Tinha razão, aquilo, nós, não mudou tão cedo. Levou alguns meses para o inevitável acontecer. Tão de repente quanto à lembrança, senti uma lágrima escorrer. Limpei-a com as costas da mão rapidamente, amaldiçoando minha memória por ser sempre tão boa quando se trata de você. Olhei para frente, notando que por alguma razão a atenção de todos estava voltada para mim. Senti minhas bochechas queimarem, embaraçado ao imaginar-me explicando os porquês que eu jamais diria em voz alta. Um engraçadinho qualquer fez alguma piada com a cor do meu cabelo, algo comum entre os alunos dessa droga, que arrancou risadinhas coletivas dos demais. Ignorei. A professora pediu silêncio e eu me ajeitei na cadeira decidido a prestar atenção ao menos ao final da explicação.

“Mesmo as drogas mais ‘leves’ podem causar dependência. Muitas vezes o individuo sabe que o que está tragando, cheirando ou consumindo faz mal, mas não resiste a uma ‘última vez’. Também é bastante comum que ele não se reconheça como um viciado que precisa de ajuda...”

Sabe, quando nós nos afastamos de vez, eu pensei em me afundar em bebidas ou em experimentar algum tipo de droga capaz de me deixar desnorteado o bastante para fazer com que te esquecesse e mandar para o inferno a falta absurda que a tua companhia me fazia, mas desisti após me dar conta de que a)já sou bom o suficiente em me matar aos poucos sozinho, obrigada b)a sua pessoa já é como uma droga para mim c)de vício já me bastam os cigarros, café e você. O sinal bateu e eu já estava novamente amaldiçoando alho enquanto arrumava apressadamente minhas coisas. Maldito seja, Gon Freecss. Por que diabos não consigo me concentrar por muito tempo em nada que não seja você?

Não sei se funciona assim para todos os idiotas que como eu acabaram apaixonados por ti, mas ao menos para mim você é como uma droga daquelas bem pesadas que dificilmente alguém consegue largar.

Soube que conheceu alguém. Por algum motivo que desconheço as pessoas sempre vem comentar sobre você comigo. Em seguida elas me olham de canto, e eu não me incomodo em tentar decifrar se é com pena ou expectativa. Toda essa escola patética foi testemunha. Aqueles abraços apertados na entrada, as implicâncias durante as trocas de aula, as brincadeiras no intervalo, as incontáveis vezes em que eu te tirei da sua sala simplesmente para conversarmos sentados em algum canto do corredor, nós dois sempre tomando o mesmo rumo no final do dia... Nunca fomos um segredo. As brigas constantes também não eram.

Não teve quem não notasse quando eu te empurrei para longe naquele dia em que tentou me abraçar. Toda vez que fecho os olhos lembro-me perfeitamente da sua expressão magoada, o queixo trêmulo ao dizer “Eu te amo, Killua”. Também me lembro de respirar fundo, de uma única lágrima escorrendo ao responder “Eu odeio você” e de correr para o mais longe possível. Gente que eu nem mesmo conhecia ou cumprimentava veio me perguntar sobre o ocorrido nas semanas seguintes a aquele fatídico dia, e eu sei que fizeram o mesmo contigo. Talvez alguns até saibam as milhares de motivos que nos levaram ao ponto em que estamos. Mas o desastre que nós dois fomos, Gon, isso eu jamais contei a qualquer um.

Mas voltando ao que dizia, soube que conheceu alguém. De alguma forma, isso não me afeta como deveria. Mesmo porque eu também conheci outra pessoa. Uma garota. Pois é. Não durou nem mesmo três meses, mas posso dizer que ela me veio em boa hora. Seu nome era Hinata. Eu a conheci pela internet enquanto ainda segurava com dificuldade essa barra imensa que é amar você como se não existisse mais ninguém no mundo. Não estava nos meus planos me apaixonar novamente mas não fiquei surpreso ao me descobrir caindo de amores por ela antes mesmo de ter visto seu rosto.

Dessa vez tentei fazer tudo certinho. Mandei todos os textinhos melosos que escrevi, fui fofo e carinhoso como tantas vezes me pediu que fosse com você. E bem, como posso dizer? Ela também era um anjo comigo. Por algumas semanas eu quase te esqueci e não sentia nem mesmo raiva, estava muito ocupado gastando minhas horas com ela para me preocupar em guardar rancor de alguém.

Mas no final das contas, ela também partiu meu coração. Eu sofri novamente, como era de se imaginar, mas durou apenas duas horas, quando decidi que não iria deixá-la me afetar como você afetou. “Eu não quero ser outro Gon na sua vida” foi o que ouvi dela uma vez. Algumas semanas depois quando você inesperadamente voltou, descobri que ela não poderia nem mesmo se quisesse. Bastou que eu ouvisse a sua voz, visse o seu rosto e sentisse o seu aperto firme na minha mão para que eu percebesse que não importa o quanto tente e nem quanto tempo passe, jamais conseguiria colocar alguém acima de você, Gon. Eu quase me senti tentada a ajoelhar-me e implorar para que perdoasse a minha teimosia em tentar entregar a mim e meu coração a qualquer um quando ambos pertencem unicamente a você.

Reles quinze anos nas costas e jurando amor eterno a alguém, que piada. Sabe, eu odeio promessas porque sou uma variável inconstante e dificilmente consigo manter minha palavra, mas essa eu sinto que posso cumprir.

Assim como você cumpriu a sua.

A chuva caia sem dó, encharcando minhas vestes escuras e castigando-me os ossos, mas eu não poderia me importar menos. Há quanto tempo estava ali? Duas, três horas? Não saberia dizer. O cigarro já não estava mais aceso (como poderia?), mas por algum motivo um dos fones de ouvido ainda funcionava. Agora não posso mais cantar uma canção de amor como uma deveria ser cantada. Droga. Pro inferno Bon Jovi por essas letras tristes. E pro inferno o fato de que todas as músicas de amor parecem ser sobre você.

Antes que conseguisse evitar, já estava chorando. Abracei os joelhos com força. “Não sei o que levaria qualquer pessoa no mundo a fazer algo que o fizesse chorar assim, Kill” Foi o que me disse na única vez em que me permiti te mostrar o lado que se importa. Será que consegue entender agora? Afinal, já me machucou tanto.

Não conseguia ouvir mais nada, porém a ardência em minha garganta denunciava os meus gritos frustrados. Quando finalmente me vi sem voz e cansei de chorar e berrar publicamente, levantei-me e tomei o rumo de casa. Caminhei sem pressa alguma e não fiquei surpreso ao reparar que era o único idiota eu ainda permanecia na rua a aquele horário e com um tempo ruim desses. Quando cheguei não me demorei em correr para o chuveiro. Esperava que a água absurdamente quente lavasse minha alma, carregasse para o ralo toda essa dolorosa mistura de saudade e rancor. Mas tudo que consegui foi chorar ainda mais. No fim das contas não era o amor que me doía, mas sim a falta dele.

Sem forças para continuar me mantendo de pé, encostei-me na parede e deixei o corpo escorregar até estar novamente sentado agarrado aos meus joelhos, a cabeça no vão entre as pernas e eu sabia que ainda chorava.

Por que me deixou, Gon?

Eu te amarei para sempre.

O despertador tocou as 9h30 em ponto e novamente foi uma tortura para conseguir levantar. Quando finalmente consegui calçar os chinelos, aproximei-me do pequeno calendário na parede quase completamente coberto de riscos feitos com tinta vermelha, ignorando completamente as pilhas de desenhos seus e cartas que escrevi para você nesse último ano coladas ao redor. Segurei a caneta o mais firme que consegui, fazendo um grande X em um quadrado em branco que indicava o dia de hoje.

Sábado, 1 de Outubro de 2016.

Faz um ano desde que você se foi.

Minha memória ainda está fresca como se tudo tivesse acontecido á apenas algumas horas, mas eu me sinto como se não te visse há anos.

Ainda doí, Gon.

Todos os dias.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Beijinhos!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!