31/10

1 Petunia


Notas iniciais
Retornando ao Nyah! depois de muito tempo, repostando uma oneshot que gostei muito de escrever.
Espero que gostem.
Boa leitura.

A noite de 31 de Outubro estava abafada e gostosa. O aroma de madressilvas exalava pelo ar, e os enfeites de Halloween decoravam todo o número 4 da Rua dos Alfeneiros.

—- Como estou, mamãe? — Dudley perguntou. Vestia uma fantasia de Frankenstein que exaltava seu excesso de peso. Mas para Petunia, o filho estava cada dia mais bonito e forte, assim como seu pai.

—- Arrepiante, docinho! — a mulher disse, rindo e afagando os cabelos dele. Dudley fungou e afastou a mão da mãe, com grosseria. Petunia não ligou. Assim como Vernon, compartilhava da ideia de que isso se dava devido à personalidade forte do menino. — Garanto como vai conseguir muitos doces.

Dudley assentiu com a cabeça, e saiu, saltitante, para a porta. Vernon desceu as escadas, girando as chaves do carro entre os dedos gordos.

—- Querida, vou levar o Dudoca para arranjar alguns doces. Não é, filho?

—- Eu posso ir sozinho, pai! — guinchou o menino. — Não preciso que me leve.

Petunia soltou uma risada desafinada.

—- Claro, nosso filhinho já está crescendo, querido! Deixe-o ir, talvez encontre os amiguinhos lá fora. Não o faça, como se diz hoje em dia, pagar mico!

Vernon riu, batendo no ombro do filho.

—- Ah, certo então. Eu sempre me esqueço como ele está crescido.

Era impossível simplesmente esquecer-se de como Dudley estava crescendo. Estava tão grande e gordo, que não havia como passar despercebido. Petunia, sorriu, orgulhosa.

—- Juízo, hein, filho? Volte antes do jantar! — alertou, e Dudley assentiu, inocentemente.

—- Pode deixar, mamãe. Até logo! — disse batendo a porta atrás de si.

Vernon suspirou, e jogou-se no sofá, ligando a TV num canal de esportes qualquer. Petunia, espreguiçando-se, pegou o livro que estava lendo, e seus óculos de leitura em cima da mesinha de centro.

—- Já vai deitar, Petunia, querida? O que houve? Está tão cedo ainda...

—- Ah, não foi nada, querido, estou apenas um pouco cansada do serviço de casa. Vou subir e ler um pouco, enquanto o jantar não fica pronto. A luz aqui é fraca.

—- Certo, então. — Vernon disse, encolhendo os ombros largos. — Antes de subir, se importaria de pegar uma cerveja para mim?

Petunia negou com a cabeça, e foi até a geladeira. Calmamente, depositou a garrafa ao lado do marido, que agradeceu, sem tirar os olhos da TV. Suspirando, depositou um beijo na cabeça de Vernon e foi em direção às escadas. Mas enquanto subia, cruzou com o sobrinho, Harry, descendo as escadas. Uma súbita onda de raiva a invadiu.

—- Que está fazendo aqui? — perguntou, seca. — Devia estar em seu armário.

—- Só fui ao banheiro. — disse, piscando aqueles olhos intensamente verdes para ela. Os olhos de Lily. Seu estômago revirou-se.

Aquele dia era o pior de todos para lembrar-se de sua irmã: seu aniversário de morte. Olhando para Harry, pensou, rancorosamente que deveria estar morto como seus pais, e não enfurnado em sua casa, lembrando-a todos os dias de Lily, daquele inútil do Potter, e de toda aquela monstruosidade sobre bruxos, que Petunia temia intensamente que aflorasse nele ainda mais, fora as suas pequenas ações perturbadoramente anormais do dia a dia. Seu lábio inferior tremeu levemente.

—- Então desça logo. Pare de perambular por minha casa.

Mas ele não o fez.

—- Hum, Tia Petunia... — ele começou a dizer. — Será que eu podia sair para pegar doces também? Sabe, é Halloween.

Vernon virou-se, apoiando o cotovelo no braço do sofá.

—- Óbvio que não! — disse, rispidamente. Mas ora, que insolência, pensou ela. Como se não bastasse parasitar em sua casa, ainda queria caprichos! Como ousava pedir mais do que seus tios lhe ofereciam? Deveria ser imensamente grato por ter sido acolhido, e não o jogado em qualquer caçamba! — E mesmo se sua tia tivesse permitido, qual seria fantasia? Mendigo? Pois já está bem apropriado! — Vernon continuou, e soltou um riso gutural, parecendo orgulhoso de sua piada.

Mas Petunia não sorriu. Encarou o sobrinho com ódio. Ele a fitou uma última vez antes de passar por ela e entrar, tristemente, em seu armário embaixo da escada. Controlando sua respiração, Petunia terminou de subir as escadas, tremendo, e bateu a porta do quarto, jogando o livro e os óculos de qualquer jeito em cima da cama.

Seu peito doía, e parecia que seu coração tinha murchado. Pegou seus óculos de cima da cama, e o banquinho no canto do quarto. Subindo em cima dele, pegou uma caixa em cima do armário. Tirando o pó da tampa, com as mãos trêmulas, desceu, e certificou-se que estava realmente sozinha. Depois de uma espiada pelo corredor, trancou a porta, e sentou-se na cama, dando atenção total à caixa.

Seu conteúdo consistia em uma foto velha da família Evans, e uma carta. Aquela carta.

Petunia tivera apenas dois contatos diretos por correspondência com o mundo de Lily. Uma, quando sua irmã recebera a tal carta de admissão para Hogwarts, a escola de Magia e Bruxaria. Vendo aquilo, não esperou muito para escrever uma carta para o diretor para ser também aceita. Não que realmente quisesse se misturar com aquele tipo de gente, ela tentava persuadir a si mesma com tal pensamento. Pelo contrário. Morria de medo do que sua irmã estava se tornando, ainda mais apoiada por aquele garoto esquisito, Severus, que botava caraminholas na cabeça dela, e a tonta comprava a história. Como o odiava! Ainda se lembrava do galho de árvore caindo em sua cabeça, acertando-a em cheio. Tinha certeza que era obra daquele seboso maltrapilho!

A coisa toda é que se preocupava em deixar Lily ir para um lugar completamente estranho, sozinha. Aberração ou não, era sua irmã. Ah, e como era ingênua... Que poderia acontecer a ela, no meio daquela gente? Apesar de tudo, precisava protegê-la. Queria convencer-se que era para poupar o sofrimento dos pais se algo acontecesse, mas sabia que não aguentaria se sua irmãzinha sofresse qualquer tipo de coisa que aquele mundo horrível era capaz de fazer contra ela.

E o que Petunia temia aconteceu. E esse foi o motivo da segunda e última carta de Dumbledore. E ela estava no cestinho da adorável criança deixada em sua porta.

Na carta, além de toda aquela explicação enjoativa sobre proteção, um bruxo das trevas, Petunia recebeu a notícia que sua irmã havia morrido, e que o filho dela só ficaria seguro se estivesse em uma casa de ligação direta com a família da mãe, e ela era a única que restara. É óbvio que ela não queria isso. Não queria mais nenhum tipo de relação com magia. Foi exatamente aquilo que levou sua irmã para a morte! Mas mesmo assim... Algo dentro dela dizia para acolher a criança, que parecia ainda mais frágil naquele momento, com lágrimas brotando-lhe aos imensos e conhecidos olhos verdes, além da cicatriz recente em sua pequena testa.
A mulher foi impulsionada por um sentimento completamente desconhecido. Nem chegava perto de afeição, claro que não, mas ainda assim não poderia simplesmente ignorar tudo. Teve uma longa conversa com Vernon sobre o assunto, e com muito custo, convenceu-o a criarem o moleque junto de Dudley, sem qualquer conhecimento de magia.

No entanto, à medida que o tempo ia passando e Harry ia crescendo, Petunia se arrependia imensamente de sua decisão. Viu novamente o mesmo ambiente familiar que crescera: um pai, mãe e dois filhos, um com "habilidades" e outro não. A última coisa que Petunia queria era que seu filho de sangue, seu Dudinha, passasse por o que ela passou quando criança. Nunca permitiria que isso acontecesse. E esse era um dos motivos pelos quais ela demonstrava sua total atenção e amor para Dudley, e o completo contrário disto para Harry. De forma alguma ele deveria se sentir especial, nunca seria o preferido. Nunca. A culpa de Lily ter morrido era de Harry. Se ele não existisse, ela não teria se sacrificado por ninguém, e não teria ido em vão. Em nenhuma circunstância ela iria gostar daquela criança infeliz!

Se bem que fora muitíssimo bem-feito. Isso que dá se meter com esse tipo de coisa. Petunia sempre soube, sempre tentou alertá-la, mas ela ouvira? Lógico que não. Ainda com o maldito Severus dizendo que era tudo inveja... Não era inveja! Era indignação diante da injustiça que vivia. Lily sempre recebera mais atenção. O fato de ela ser um monstro não afetava seus pais. Pelo contrário, era motivo de comemoração. E cada vez mais, ela era a "preferidinha", o motivo de orgulho. Desde quando ser aquilo era de se orgulhar?

Petunia jogou a carta longe, com ódio. Pegou a foto de dentro da caixa e a olhou. Lá estava ela, com seus cabelos ruivos lindos, que Petunia sempre desejou ter, ao invés de seu loiro sem sal nem açúcar, seus olhos verdes intensos e sua pose insolente, que eram idênticos aos de Harry. Seu estômago revirou-se.

Sentia-se sufocada por esse sentimento que não conseguia reprimir. Tudo seria mais fácil se ela simplesmente ignorasse, e apenas a odiasse. Motivos para isso, haviam milhões. Lembrou-se da primeira vez em que levara Vernon em casa, para conhecer seus pais. Ela havia pedido para que Lily ao menos tentasse agir como uma pessoa normal, mas obviamente, ela fez exatamente o contrário, e quase acabou com o noivado. Graças aos céus Vernon compreendeu e deu razão para Petunia, ou tudo estaria acabado.

Ou talvez o dia em que ela voltara para casa nas férias, e transformara xícaras em ratos, e colocara todos embaixo do travesseiro de Petunia. Também quando trouxera uma porção de doces estranhos, e fingiu ser inocente, oferecendo um sapo de chocolate. Sabe Deus o que ela pusera naquilo, ou se realmente era chocolate, como ela dissera.

E então começou a chorar. Chorar copiosamente, como nunca havia chorado antes. Tudo aquilo causara ainda mais repulsa de Lily, mas de qualquer forma, a falta dela doía mais e mais.

O barulho da porta da frente abrindo a tirou de seus devaneios. Dudley havia chegado. Correu para guardar tudo, mas não sem antes uma última olhada rancorosa para a foto. Em prantos ainda, rasgou-a em pedacinhos.

—- Você acha engraçado, não é? Engraçadíssimo! A peste do seu filho, com os mesmos malditos o-olhos... nem depois de morta você me deixa em paz, sua desgraçada! Espero que vá pro quinto dos infernos, e que leve toda essa gente com você! — Petunia ia gritando em meio aos soluços, à medida que picotava a foto em pedaços cada vez menores.

—- Petunia? — ouviu Vernon gritar lá debaixo. — Querida?

Guardando depressa a caixa em cima do armário, Petunia tratou de enxugar logo as lágrimas. Não queria que nem Vernon, nem Dudley, vissem-na daquele jeito, ainda mais por aquele motivo. Assoou o nariz nos lencinhos da mesa de cabeceira, e correu para a suíte. Lavou o rosto rapidamente, e, pegando sua nécessaire no canto da pia, passou um pouco de corretivo embaixo dos olhos, e um pouco na ponta do nariz, para disfarçar a vermelhidão.

—- Petunia! — ouviu-o gritar novamente. Dessa vez, ouviu também passos na escada, junto com as perguntas do filho, sobre o que houve.

—- Já vai! — gritou de volta, com a voz embargada. Garantindo que estava no mínimo apresentável, destrancou a porta de leve e desceu as escadas ao encontro do marido e do filho.

—- Querida, o que aconteceu? Ouvi você gritando!

Petunia tentou parecer casual.

—- Não fui eu. Veio do vizinho. Não vi direito o que aconteceu, estava tudo escuro...

—- Tem certeza? Jurava que era sua voz...

—- Não, Vernon, não era. — disse, deixando explícito que o assunto estava encerrado. — E então, filhinho? Pegou muitos doces?

—- Não — o menino respondeu emburrado, mesmo que tivesse trazido duas sacolas transbordando de doces.

—- Ah, essa vizinhança é ranzinza mesmo, amorzinho, não se preocupe. Amanhã vamos comprar mais.

Dudley ponderou, e assentiu com a cabeça, visivelmente mais animado com a ideia de mais doces ainda.

—- Bem, o jantar está quase pronto, acho bom vocês já irem sentando na mesa. Vou chamar o... caham... vou chamar o pivete.

Vernon sorriu e guiou o filho até a cozinha. Enquanto isso, Petunia caminhava decidida até o armário embaixo da escada. Abrindo de súbito, encontrou Harry deitado, olhando para o teto. Ele se virou para ela, e um arrepio correu seu corpo.

—- Venha comer. — disse, rispidamente. O garoto assentiu e levantou-se rapidamente, passando por ela. Ela o fitou com censura.

—- Você não me atinge. — murmurou para si mesma.

Harry virou-se.

—- Perdão, o que disse?

Petunia o fitou, alterada, mas logo se recuperou.

—- Nada. Não disse nada.

Ela demorou um segundo para retomar sua postura habitual. Respirando fundo, seguiu-o até a cozinha, onde o forno chiava, e o cheiro de comida já podia ser sentido.

Estava decidida a não pensar mais na irmã. Nunca mais.

Petunia não fazia ideia de como falharia miseravelmente nisto quando, algum tempo depois, uma familiar carta de uma certa escola de magia e bruxaria chegasse para o Sr. Harry Potter.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!