Notas iniciais
Palavra de hoje: mortalha

As 24 do dia seguinte não foram suficiente para me ajudar a processar a conversa com o meu pai.

Eu tentava olhar as coisas pelo seu ponto de vista e, pela primeira vez depois da morte dela, não o enxerguei como o monstro que me abandonou.

Eu perdi minha mãe para a morte. Meu pai a perdeu para si mesma.

E a perdeu novamente depois que ela morreu.

Meu pai não precisava ter nos abandonado. Mesmo com tantas dores, tudo que ele me disse não foi suficiente para justificar ele ter nos deixado. Nada do que ele dissesse poderia, algum dia, justificar.

Pensei em como seria poder me reconciliar com ele. Seria maravilhoso poder ter um pai. Não um progenitor, mas um pai de verdade! Um que amasse e...

O toque do meu celular invadiu meus pensamentos. Era um número desconhecido.

“Alô?”

“É a Analu, amiga da Lily?” indagou uma voz feminina, um tanto embargada.

“Sim, é ela.”

“Aqui é a mãe da Lily, Beatriz. Ela foi internada agora pouco.” Eu comecei a chorar. Prometi a mim mesma que não prepararia sua mortalha, que não a deixaria morrer.

“Ela disse que queria te ver uma última vez.”