30 ways to say I love you
10 Hoje a noite não tem luar
Notas iniciais
O reflexo da imensa lua cheia no lago e o vento batendo de leve nas folhas fizeram Kate pensar há quanto tempo não prestava atenção na natureza. A noite estava mesmo linda, aliás, as noites eram sempre lindas ali, a quilômetros de distância do céu de aviões e nuvens escuras de Nova York. Kate estava sentada no chão, encostada na parede externa da entrada da casa, ou cabana, como seu pai gostava de chamar. Era uma casa de madeira pequena, simples, mas muito aconchegante.
Jim: Ela está linda, não está?
Seu pai chegou falando, olhando para a lua.
Kate: Sim. Eu tinha me esquecido de como aqui é bonito.
Jim: Se você trabalhasse menos poderia vir mais vezes.
Jim se aproximou, entregando-lhe um comprimido e um copo de água.
Kate: Já são dez horas?
Ele fez que sim.
Kate: Perdi a noção do tempo.
Ela tomou o comprimido e colocou o copo no chão. Seu pai havia se sentado ao lado dela. Fazia mais de uma hora que Kate estava sentada ali, com o pensamento longe. Jim não quis atrapalhá-la. Sabia que estavam ali porque ela precisava de um tempo.
Jim: E então, o que tomou seus pensamentos e te fez perder a noção da hora?
Ele perguntou sem encará-la. Jim conhecia Kate, sabia que a filha não gostava de ser intimidada. Por um momento lembrou-se das longas conversas que tinham durante sua infância e adolescência. Kate tinha o temperamento difícil da mãe, mas Jim era um homem calmo e bom ouvinte, e talvez fosse por isso que Kate sempre se dera tão bem com ele. Era uma pena ela ter se fechado tanto depois de tudo que havia acontecido. Mas ele não podia julgá-la, também tinha sofrido e quase se perdido. Tentava agora entrar de alguma forma nos pensamentos da filha. Ela estava visivelmente abalada com tudo que tinha acontecido, embora não gostasse de admitir isso.
Kate: Eu estava pensando em NY, na minha vida.
Jim: Já cansou da minha companhia?
Ela se virou e sorriu para ele.
Kate: Não, claro que não. Eu só estou... sentindo falta, você sabe.
Kate voltou a olhar para a lua.
Jim: Eu sei que não tem sido fácil.
Kate: Eu só queria que aquele dia não tivesse acontecido.
Nenhum dos dois havia comentado, mas fazia exatamente um mês que Kate havia levado um tiro no coração. Depois de duas semanas no hospital, ela tinha recebido alta e decidiu que precisava de um tempo de tudo e de todos. Ela e o pai estavam ali há duas semanas, e Kate sabia que apesar de sentir falta da sua vida, tinha tomado a melhor decisão. Ela não conseguiria lidar com nada agora, principalmente com ele.
Kate respirou fundo e sentiu o peito doer. A cicatriz ainda não tinha fechado completamente, e mesmo tomando vários remédios, a dor persistia.
Jim: Eu também queria que você não tivesse que passar por tudo isso. Mas você está aqui, Katie, viva. E você vai ficar bem, só precisa de tempo.
Kate: Como eu posso ficar bem, pai? Montgomery morreu por minha causa.
Kate deixou uma lágrima escorrer dos olhos, mas limpou rapidamente.
Jim: Ele te poupou, Kate, porque sentia que tinha uma dívida com você.
Kate não respondeu, e os dois ficaram em silêncio. Até que ela o quebrou, reflexiva.
Kate: Eu nunca vou perdoá-lo.
Jim sabia muito bem de quem ela estava falando. Em um mês, Kate não havia tocado no nome de Castle, e mesmo agora, sem o mencionar, Jim sabia que era dele que ela falava. Pensou que já estava na hora da filha saber algumas coisas que tinham acontecido.
Jim: E ele também não vai se perdoar por não ter conseguido evitar isso.
Jim disse, apontando para o curativo no peito da filha. Kate ficou surpresa pelo pai ter percebido que ela falava de Castle.
Kate: Ele não precisa me proteger. – ela falou dura.
Jim: É, mas eu pedi para que ele fizesse isso.
Kate: Você o que?
Kate aumentou o tom de voz, virando-se completamente para o pai.
Kate: Você falou com ele? Quando? Onde?
Kate tinha se exaltado. Como assim seu pai tinha falado com Castle? Eles nem se conheciam. Jim continuava calmo.
Jim: Eu o procurei, fui até a casa dele.
Kate: Eu... eu não acredito. Por que você fez isso?
Jim: Porque você não me ouve, Kate. E eu pensei que se alguém pudesse ter sua atenção, seria ele.
Kate não respondeu. Ela não conseguia acreditar que seu pai tinha procurado Castle. Será que ela falava tanto dele assim?
Ela virou-se para o lado, contrariada.
Jim: Eu precisava que você soubesse que sua vida vale mais do que qualquer coisa. Você é a única pessoa que eu tenho, Katie, a única coisa boa em minha vida. Você pode até não entender agora, mas um dia, se você tiver filhos, entenderá.
Jim se levantou, mas antes dele sair, Kate o chamou.
Kate: Pai... me desculpa.
Jim sorriu para ela.
Kate: E... só pra você saber, ele tentou mesmo me impedir.
Jim: Eu sei. Ele tentaria mesmo que eu não pedisse. Ele gosta de você.
Kate: Não é desse jeito que você pensa...
Kate se apressou em explicar, mas o pai a interrompeu.
Jim: É sim. E acho que você também gosta dele. Se não, ele e Josh não teriam se pegado no corredor do hospital, não é?
Kate: Eles o que?
Kate se levantou e encarou o pai.
Kate: O que mais você ta me escondendo, heim?
Jim sorriu e olhou para a lua.
Jim: Ela está mesmo linda, não? Boa noite, Katie.
Ele saiu e ela sentou-se no chão de novo. Castle e Josh tinham brigado no hospital? Será que Castle tinha dito que a amava diante de todos? Ou será que só ela sabia?
Kate sentiu um frio na barriga. Será que ele a amava mesmo? Ou tinha dito aquilo só porque ela quase morrera nos braços dele?
Será que ele estava pensando nela, como ela pensava nele todas as noites?
O que será que ele estaria fazendo agora?
Kate ainda encarou a lua mais uma vez, perdida em seus pensamentos.
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Martha viu a porta que dava acesso a cobertura aberta e entrou. Castle raramente ia ali, mas ela sabia o que ele estava sentindo. Encontrou-o sentado no chão, olhando para baixo, pensativo.
Martha: Que lua linda, não?
Castle: Nem reparei.
Martha se surpreendeu. O filho devia estar longe em seus pensamentos para não prestar atenção na lua cheia que, apesar dos milhares de prédios que ocupavam Nova York, insistia em aparecer.
Castle: Hoje faz um mês.
Martha: É, eu sei.
Ela podia sentir a tristeza na voz dele. Um mês sem notícias, um mês em que ele esperava todos os dias o telefone tocar.
Martha: Ela está bem, Richard. Katherine é forte, você sabe. Só precisa de um tempo.
Castle: E eu preciso dela aqui.
Castle levantou os olhos para a mãe, que não soube o que dizer. Apenas esticou a mão para ele, que se levantou e caminhou em direção à porta. Antes de fechá-la, olhou para a lua que sua mãe tinha falado. Ela realmente estava linda.
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