30-dias (HIATUS)
3 Primeiro dia- As pessoas.
Notas iniciais
_Onde está aquele homem ruivo bonzinho?
Perguntava afobada Mônica, que enfrentava a falta de profissionalismo da enfermeira, ou apenas falta de vontade mesmo. A mulher ao em vez de trocá-la apenas passava um pano molhado em cima de onde havia jorrado sangue, não limpou quase nada, mas a enfermeira parecia satisfeita.
_Não é o turno dele.
Apesar de parecer não saber o que faz, pelo menos ela parecia boa e gentil. Expunha um sorriso de orelha a orelha. Era meio egoísta, mas Mônica sentiu inveja daquele sorriso de quem é imensamente feliz apenas por estar viva.
_Qual seu nome?
_Xábeu.
Apesar de Mônica não ter a permissão de falar por causa de sua condição, Xábeu não sabia disso. A menina abusava da sorte, tinha essa característica de ser teimosa, Seu Carlito deixou bem claro antes de ir embora de que ela não podia ficar falando.
Ela não conhecia aquela enfermeira, mas já havia ouvido falar de seu nome. Não era a antiga babá do Cebola?
Pensando naquele nome, ela acabou ficando vermelha.
_Você era babá do Cebola?
_Do Cebolinha? Claro.
Xábeu se recordava dando grandes gargalhadas, ela não tinha vergonha de expor sua felicidade em local nenhum, e foram bons tempos aqueles. Só lamentava não conseguir o que queria -o emprego que queria- e virar enfermeira.
Mônica apenas observava a alegria da moça, que estava demais para seu gosto. Não que ela não gostasse de ver os outros felizes, mas aquilo cheirava a bons momentos juntos com seu ex namorado e isso a incomodava.
Ela começou a notar o longo cabelo loiro da enfermeira, e seu corpo devidamente esculpido. Sentia uma inveja que despertava nela lembranças muito ruins.
_O que está olhando?
Xábeu não perguntou com grosseria, mas aquilo estava ficando estranho. Os olhos de Mônica começaram a lacrimejar e sua pele que já estava pálida, por incrível que pareça acabou ficando ainda mais branca.
Ela não respondeu a enfermeira, as palavras não saiam. Sua cabeça latejava e acabou tendo uma recordação, aquilo fazia seu coração doer.
_O que faz na minha frente coisa feia?
“Era Carminha, aquela menina não a deixava em paz de jeito nenhum, sempre arrumava uma maneira de acabar com qualquer auto-estima da menina.
_Você que veio até aqui.
Uma das poucas vezes em que Mônica retrucava, mas seu rosto transparecia sempre puro ódio, se ela pudesse matar aquela menina, matava.
_Gordinha rebelde, nossa.
Dessa vez quem comentou foi um menino logo atrás, seu nome era Titi. Carminha acabou dando uma gargalhada sarcástica, assim como todo resto da turma.
A loira estava sem paciência, se aproximou de Mônica enfiando a mão com tudo em sua cara. Na mão dela havia um pote de vidro cheio de salada banhada em maionese que sujou toda a cara da pobrezinha, inclusive o pote quebrou em seu rosto tingindo a maionese de uma cor vermelha do sangue.
_Não se aproxime de mim demônio, ou não serei boazinha.
_Quero ver.
Mônica arriscou, não deveria ter feito aquilo. De repente um grito estridente se fez presente para qualquer um ouvir, ele transparecia pura dor e raiva.
Carminha havia dado um soco na direção de seu peito, e logo uma onda de ansiedade tomava conta da pequena, uma sensação tão ruim que a fez esquecer até a dor por um momento.
_Pode ir parando ai, Carmem.
Quem grunhia agora era Magali, que chegava pronta para defender sua amiga para o que der e vier. Foi passando os alunos curiosos, até chegar perto da vilã que dava altas risadas.
_Você vai me impedir, jura?
_Juro. Sei coisas sobre você, é melhor ficar esperta.
Ela era mestra em se defender e defender os outros não com agressão, e sim com argumentos contra a pessoa. Esse era um defeito e ao mesmo tempo uma qualidade.
Por um momento Carminha que estava cercando a pobre menina, se afastou e deixou Magali passar, que foi logo ao socorro de sua amiga.
_Você está bem Mô?
_Não.
_Ela ainda vai pagar o que fez com você. Isso é maionese?
De repente Magali começou a pegar aquela substancia com o dedo e colocar na boca, finalmente Mônica sorriu.
_Experimenta... Hum, até que não é ruim.
Aquela sensação horrível tinha sumido de seu peito, mas o medo ainda estava armazenado lá. Um pouco mais calma, ajudou sua amiga a limpá-la, claro, comendo a maionese.”
_Oi? Você está bem?
Xábeu estava praticamente desesperada, fazia algum tempo que a paciente havia fechado os olhos, e sinceramente ela não sabia dizer se ainda estava acordada ou desmaiada. Ela decidiu ser enfermeira como uma última opção, odiava ver pessoas sofrendo.
_Acho que sim.
Deu um suspiro aliviado, não sabia lidar com situações críticas, e sabia que aquela paciente estava em um caso profundamente especial. O doutor pediu para ela ter o máximo de cuidado possível, mas só estava ali para tomar conta e pedir ajuda caso algo acontecesse.
_Eu queria ser você.
_Por quê?
Ela se assustou com aquela revelação repentina, mas de alguma maneira se sentiu elogiada. Preocupante foi ver que dessa vez Mônica chorava.
_É tão linda, nunca deve ter sido julgada pela carapaça que era por fora.
_Isso não é verdade.
_Não? Diz que foi chamada de feia ou algo do tipo. Claro que não.
A expressão da paciente era de ódio, mas não da enfermeira, e sim das pessoas. Xábeu respirou fundo e pensou no que ia falar, nunca fora chamada de feia, mas as pessoas também não a respeitavam.
_Mônica não é?
_Sim.
_Saiba que eu nunca soube o que foi ser chamada de feia, mas também sofri muito com o julgamento das pessoas.
_Como?
Mônica estava perplexa, ela parecia muito feliz mesmo com aquilo. Sentiu impotência por ser a única fraca ali que se importava com o que as pessoas diziam.
_Eu trabalhei de garçonete antes de entrar nesse hospital, e acredite se quiser era para poder pagar uma preparação especial. Meu sonho era poder estar no espaço nesse momento.
Algumas lágrimas escorriam dos olhos de Xábeu, que tentava inutilmente disfarçar. Ela se importava afinal.
_Em quanto trabalhava na lanchonete, sempre me olhavam torto. Cochichavam entre si que eu parecia mais uma puta de uniforme.
_Mas você não é assim.
_Pois é, mas as pessoas são ruins, Mônica.
_Elas me feriram muito.
_Aprenda que sempre terá alguém para te machucar, querendo te ver sofrer e derrotada. Mas você não pode dar ouvido.
_Não tem como não me machucar.
Aquela mesma sensação sufocante agora tomava o corpo dela novamente, que lutava bravamente para não demonstrar. Aquilo dava medo.
_Por que deixa te machucar? Essas pessoas querem te diminuir, querem estar acima de você, mas você é especial Mônica.
_Não sou não.
Quanto mais tentavam ajudar, mais ela se sentia aflita. Era horrível se sentir sem chão e infelizmente não poder se manter em pé. Mônica tinha um grande trauma, uma grande fraqueza dentro de si, muitos poucos conseguiam reconfortá-la.
_Claro que é. Você é linda por mais que te digam o contrário.
Uma última lágrima escorreu de seu rosto. Tudo que aconteceu veio como um filme em sua mente, e sem um final feliz.
De repente Mônica começou a sentir uma falta de ar terrível, sua cabeça latejava e aquela sensação que antes estava forte agora estava insuportável e percorria todo seu peito. Não agüentou a pressão e soltou um grito agonizante, que quase todo hospital ouviu, ela não parava de se debater tentando achar uma maneira de acabar com aquilo.
_Calma!
Xábeu se desesperou, francamente não sabia o que fazer.
_Olha para mim. Vai dar tudo certo entendeu?
Mônica simplesmente não conseguia ouvir, se debatia de tal maneira que muitos aparelhos que se ligavam ao seu corpo saíram, inclusive o que ajudava a respirar. Logo a falta de ar estava ainda mais sufocante, começando então a tossir sangue que saia direto de seus pulmões, que carregavam também uma tuberculose em segredo.
A tuberculose foi conseqüência do enfraquecimento imunológico que Mônica sofreu quando ficou vários dias se alimentando apenas de bolacha e água, quase como uma anorexia.
Ela já sofreu por amor, na verdade o amor foi o que mais a machucou.
A situação estava crítica e Xábeu não encontrou outra maneira se não chamar um médico que estivesse próximo. Tinha um medo tremendo daquela pobre menina morrer em quanto toma conta dela, era uma culpa que ela não suportaria carregar.
_Eu já volto. Por favor, seja forte!
Ela estava tão eufórica que quase caiu em quanto corria para fora do quarto. Saiu sem fechar a porta e partiu correndo pelo corredor feito uma louca.
Em quanto corria notou o quanto aquele hospital era de um nível superior, não se achava pacientes agonizando em macas por onde quer que passava, como em muitos outros.
_Por favor, um médico! É urgente.
_O que houve?
Perguntou curiosa outra enfermeira, que tinha lindos cabelos pretos curtos e olhos verdes esmeralda.
Xábeu parou e se encurvou ofegante, estava cansada de correr feito doida, mas um certo esforço sempre era necessário.
_Um... Médico...
_Para quê? O Sr. Rodrigo está no refeitório.
_Valeu!
Mal deu tempo para matar a curiosidade da enfermeira e Xábeu voltou a correr, dessa vez para o refeitório que ficava perto dali. Teve que agüentar a fome, não estava ali para brincadeira, e a vida de uma pessoa estava em suas mãos.
Chegando ao local avistou o doutor se deliciando com uma maçã vermelhinha, devidamente no ponto. Ele era descendente de japonês, com seus típicos olhos puxados e cabelo liso e negro, seu porte era magro.
Com seu jeito estabanado acabou pegando muito impulso na corrida e trombou no médico que levou um baita susto.
_O que houve? Estamos sendo invadidos por bandidos?
Rodrigo tinha pavor de bandidos, principalmente ladrões. Um dia sua casa foi invadida por um que seqüestrou sua filhinha, felizmente conseguiu pagar o resgate e agora toma os mínimos cuidados possíveis.
_Claro que não! Tem que vir comigo agora mesmo, uma paciente está tendo uma crise muito preocupante, não sei o que fazer.
A enfermeira dizia muito rápido, mas o doutor com toda experiência que tinha acabou entendendo grande parte. Logo ele estava sendo arrastado para o quarto.
Ela o puxava pelo jaleco e ele apenas acompanhava, não se importava com a ousadia da moça.
Chegando ao lugar Xábeu o empurrou para dentro do quarto. A cena que o doutor se deparou o espantou como nunca em anos de trabalho.
Isso por que ele já havia visto pessoas morrerem em suas mãos.
Continua...
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