30-dias (HIATUS)
14 Décimo dia- Meu segundo inferno part 2.
Notas iniciais
Aquela era a milésima vez em que fui obrigada a estar de repouso por passar mal, ou por apenas ter sido agredida por alguém injustamente, naquele caso, fui agredida com um golpe certeiro na nuca por um valentão que ficou “animadinho” com o clima tenso do local. Era o que a enfermeira havia me contado.
Sentia minhas pernas bambas, e por isso, não me levantei da maca – que ficava na enfermaria da escola –. Estava sozinha e já estava começando a me preocupar com a forte dor de cabeça que me invadia. Tinha que ficar calma, nervosismo simplesmente terminaria de acabar comigo, tinha sempre que evitá-lo.
Aquele lugar era tão familiar para mim que já conhecia as duas enfermeiras, Lucia e Isabelle, eram muito gentis e simpáticas, mas não gostavam muito da profissão, como dava para perceber, por não estarem ali tomando conta de mim.
O tempo estava muito seco, e por isso acabou secando minhas narinas, fazendo escorrer sangue das mesmas. Meus lábios estavam começando a secar também, assim como minha saliva desapareceu completamente, estava se tornando incômodo meu estado. Meus olhos já estavam começando a arder, tinha que procurar uma solução rápida.
Quase sai pulando de alegria – se não estivesse completamente quebrada – quando ouvi o barulho estridente da porta ameaçando a se abrir, e revelar uma pessoa que por um instante jurei conhecer, até ela entrar e confirmar minha suspeita. Era Cebola, o que ele fazia ali? A surpresa foi avassaladora.
Ele estava com o uniforme da escola, então estudava no mesmo colégio que eu? Como nunca o vi ali? Acho que eu era mesmo muito anti-social. Estava lindo como na primeira vez que o vi, mas é claro, aquela era a aparência dele. Estava me achando meio idiota pelos pensamentos, então apenas me concentrei no rapaz que agora andava em minha direção.
—O que houve moça?
Sua voz era suave e carinhosa, havia preocupação ali. Senti-me especial para ele.
—O mesmo de sempre.
Não me senti muito á vontade de contar o imprevisto para o mesmo, não o conhecia o suficiente para que soubesse de minha vida. Se mal minhas amigas conheciam meu passado, por que contaria uma parte dele para um estranho?
—Desculpe-me, mas acho que esqueceu que não sei do que está falando.
Por um momento me esqueci que ele era tão “estranho” para mim, que mal sabia que eu sofria eventualmente Bullying na escola. Deixei um suspiro de cansaço escapar, e vi que agora Cebola se encontrava sentado ao meu lado, passando ousadamente a mão em meus fios castanhos curtos – não era qualquer um que fazia aquilo -, mas não havia qualquer outra intenção, era apenas carinho.
—Não esqueci, apenas não quero compartilhar isso com você.
Foi um banho de água fria para ele, que tirou suas mãos automaticamente de mim. Olhou-me com um olhar estranho, talvez querendo entender aquela minha frieza. A verdade era que não estava a fim de nutrir sentimentos por mais ninguém, e era obvio que, se desabafasse algo para Cebola, me iludiria pensando que ao menos se importaria.
Não queria mais um peso para meu coração.
—Se não deixar acontecer Mô... Esse bloqueio existirá para sempre dentro de você.
—Admiro esse teu lado Cê.
Era um conselho que estava me dando, me surpreendeu que soubesse de meu bloqueio com as pessoas, mas por em quanto, não queria desabafar nada para o mesmo, por mais que admirasse aquela maneira diferente de ser.
—Fala pa..
—Não posso.
Cortei-o na hora. Pareceu ficar muito magoado com minha falta de confiança, mas era a realidade, eu mal o conhecia. Falou a menina que deu seu primeiro beijo em um estranho, pensei comigo mesma.
—Pode ao menos me contar o motivo por estar aqui?
Ele pediu, em seus olhos transbordavam súplica, por que queria tanto saber mais de mim? Pensei na possibilidade de desembuchar, e realmente não teria o porquê de não contar.
—Levei um soco na nuca e desmaiei.
—Quem te deu esse soco?
Por um minuto pareceu que Cebola havia ficado com raiva, mas poderia ter sido apenas impressão minha, pois seu semblante mudou em segundos para preocupação.
—Não sei bem, geralmente as pessoas não tem olhos atrás.
Aquilo me escapou como um tiro no peito para o garoto.
—Desculpa, acho que minha presença não te agrada.
Acho que fui um pouco fria demais com ele, agora pareceu que sua paciência comigo se esgotou. Cebola se levantou com uma expressão de dor e foi caminhando em passos lentos, mas no meio do caminho, algo me surpreendeu. O rapaz havia caído de repente no chão, de maneira que permanecesse sentado no mesmo, e seus gritos agudos de dor apareceram e começaram a se intensificar.
Era pura agonia e desespero, eu realmente não sabia o que fazer, não podia andar até ele para socorrê-lo, não tinha forças nas pernas.
Ele mantinha uma mão no peito, acho que era aquele problema no coração que havia mencionado no nosso primeiro encontro, mas não sabia o que poderia causar aquilo, ou sabia?
Lembrei-me que Cebola não podia ficar nervoso, seria aquela minha cortada que o deixou assim? Ele não seria assim tão sensível...
Não conseguia mais pensar, seus gritos estavam ficando agonizantes.
Por um momento senti uma tristeza enorme, me fazia mal vê-lo naquele estado, decidi me arriscar e me joguei no chão, sem nem poder andar, fui fazendo impulso com os braços e me arrastando até chegar até ele, sabia que era inútil, mas queria ao menos ficar ao seu lado.
Surpreendi-me com sua reação, não sabia se era desespero ou apenas vontade de mim, mas me puxou até ele e me apertou, quase um abraço, se a dor não o deixasse me ajeitar em si.
Não entendi o que estava acontecendo, aquelas coisas loucas aconteciam somente comigo.
Mas gostava daquele meu mundo louco, gostava das recentes pessoas problemáticas que estava conhecendo, diferente das outras, elas gostavam de mim e me faziam bem. O único problema é que elas eram dois rapazes, e acho que estava começando a nutrir sentimentos pelos dois.
—Não faça mais aquilo, por favor.
Cebola pediu, e pareceu ter se recuperado, já não gritava mais. Fiquei feliz.
—O que aconteceu com você?
Desconversei, mas estava mesmo preocupada com ele.
—Dorzinha no coração.
—Dorzinha?
Fiquei indignada. Pelo menos Cebola não se deixava abater tão fácil.
—Desculpe.
Não entendi aquele pedido de desculpas, e nem a voz doce do rapaz. Apenas o vi se levantando, e logo em seguida me levantando também, pegando-me no colo de surpresa. Arrepiei.
Era para me colocar de novo na maca e assim o fez. Deu-me um beijo na testa e saiu agora á passos rápidos, sem nenhuma explicação.
Estava começando a ficar tonta com tudo aquilo. Sempre ia embora assim.
Espero vê-lo novamente...
Continua...
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