3 Jornadas, 1 Destino
6 Capítulo 6
Notas iniciais
(Visão de Rafael)
Quando Gabrielle se vira, jogando seus cabelos para trás, para imediatamente e olha na minha direção. Ela deve ter ficado no mínimo assustada, visto que um rapaz estava seguindo-a, mas não era esta a real situação. Me aproximo mais um pouco para tentar algum tipo de contato, mas a garota foi mais rápida.
— Quem é você? — Ela pergunta, receosa. São poucas as pessoas que confiam em outros treinadores hoje em dia. A marginalidade voltou para Sinnoh no momento em que a Equipe Galactic ressurgiu das cinzas. Meus pais me alertaram para tomar muito cuidado com isso, mas quais são as chances de algo acontecer?
— Me chamo Rafael, prazer — Apresento-me com um sorriso humilde — Eu vi a sua batalha no Torneio de Jubilife e foi tão... maravilhosa! A sua sincronia com o Shellder foi magnífica, nunca vi algo igual.
— Ah... Obrigada — Gabrielle fica sem jeito. Em pouco tempo ela retoma sua postura rígida e experiente — Foi o meu primeiro concurso...
— Eles comentaram isso durante a narração — Afirmo, já ficando sem assunto — Você está indo para Floaroma?
— Com certeza! Estarei presente naquele Torneio e pretendo ganhar! — Ela fala, muito animada. Aquela animação que havia preenchido meu coração se evapora instantaneamente. Piplup ainda ao meu lado não entende a situação. Quase esqueci do meu monstrinho...
— Este é Piplup, meu companheiro — Ele também se apresenta para Gabrielle — Quais os Pokémon que você tem? — Indago curiosíssimo.
— Além do Shellder, meu inicial, tenho um Burmy recém-capturado e um Emolga.
— Eu acabei de capturar um Fletchling! — Mostro a pokébola com o mesmo orgulho que senti quando a peguei. A garota sorri educadamente, porém parece estar um pouco distante do resto do mundo. Temo estar incomodando-a...
Agora estamos em silêncio. Não consigo pensar em nada a ser dito. Por um segundo reflito sobre pedir conselhos nos Torneios, mas quem seria o bobo a dar? Apesar de que possamos criar um laço de amizade, estamos em uma competição. Somos peças antagônicas de um mesmo jogo que irão se chocar uma hora ou outra. O silêncio é quebrado por Gabrielle.
— Bom... então nos despedimos aqui. Espero que nós batalhemos algum dia... se bem que você perderia!! — Ela fala brincando, eu acho. Mas a situação foi engraçada: nós dois rimos e ela saiu, abanando.
Sinto-me feliz e triste por tê-la conhecido. Alegre porque poderemos ser bons amigos... Incomodado pelo motivo de sermos rivais, apesar de tudo. Eu presenciei e vi a forma que ela batalha. É algo inacreditável para uma iniciante... Ela deve ter treinado a vida toda para chegar onde está. Ganhar uma fita no primeiro Torneio é algo muito raro. O "primogênito", como muitos chamam, serve para que os coordenadores reavaliem a forma que trabalham com seus Pokémon para melhorar em uma próxima vez. Essa é a minha concepção, pelo menos. Mas a garota mudou isso.
Retiro o meu Pokémon voador da pokébola. Fletchling é pequeno e aparenta ser frágil, porém não foi o que nossa batalha demonstrou. Ele é durão, apesar de tudo. Decido as chaves que irei usar no Torneio: Piplup na apresentação e o pássaro na batalha. Parece-me o melhor a ser feito, então preciso treinar cada um individualmente para cada etapa. Vou me concentrar mais na parte da apresentação... As lutas precisarão ser improvisadas. Esse é um dos meus defeitos... mesmo sendo uma pessoa responsável, eu geralmente deixo as coisas para a última hora.
— Vou começar por você, Piplup...
Agora a rota estava menos movimentada. Antes de iniciar o treinamento, avanço mais um pouco até chegar na entrada da caverna que, consequentemente, me levaria até Floaroma. Não exatamente na cidade, claro, mas em seus arredores. Sento e escoro as costas contra a rocha sólida que compunha a caverna. Deixo meus Pokémon brincando enquanto estudo os golpes do pinguim na PokéDex.
No momento eles não eram numerosos, claro, mas eu consegui montar uma apresentação interessante na minha mente. Aos poucos vou aperfeiçoando-a e, quando vejo, tanto Piplup quanto eu havíamos decorado os movimentos e conseguido criar uma belíssima exposição de técnicas.
— Muito bem... — Digo, esperançoso.
Isso nos tomou o resto da manhã, porém eu nem liguei. Estou tranquilo para o Torneio e, conhecendo-me bem como eu conheço, isso pode ser um problema. Nunca devo ficar confiante demais em relação a um objetivo. Mas é inevitável. Tudo está indo ao meu favor. Não posso me decepcionar desta vez. Se bem entendi, até meus pais estarão presentes.
Fletchling foi uma aquisição precipitada que eu realmente adorei. Meu real almejo era um Starly, mas como o outro se mostrou corajoso o suficiente, não resisti... É realmente difícil eu mudar de ideia assim tão fácil.
Decido descansar um pouco antes de adentrar naquela imensa e assustadora caverna, visto que seria um caminho longo e a ideia de parar lá dentro nem deveria passar pela minha cabeça. Algum Pokémon selvagem poderia me atacar ou coisa parecida. Penso também em capturar algum novo amigo, porém acredito não ser a melhor hora. Estou um tanto quanto ocupado treinando apenas os dois que possuo. Imagina quando minha equipe estiver completa? E quando eu colocar um ou outro no Box para substituí-los?! A empolgação toma conta de mim e levanto, entrando na caverna com Piplup e Fletchling me seguindo, fiéis. Como não é um ambiente propício, resolvo colocar o voador de volta em sua Pokébola.
Caminhando, encontro uma bifurcação. Fico confuso e resolvo ir para a esquerda. Quando dobro, vejo imediatamente que é um beco sem saída, porém não consegui parar. Um lago límpido e bem cuidado se estendia até onde meus olhos não podiam ver. O pinguim, animado, não resiste e se atira no rio. A água praticamente transparente era também gelada, mas isso não incomodou Piplup nem um pouquinho.
Observo-o brincando e logo o chamo de volta. Apesar de tudo ser lindo, temos um objetivo a ser completado e o Torneio seria ainda nesta semana! Quanto mais caminho, mais escuro fica. Sem reclamações, continuamos o caminho. Uma subida íngreme e, enfim, a famosa luz no fim do túnel. Um alívio inunda minha mente: o único Pokémon que vimos foi um Zubat selvagem que nem teve a audácia de tentar nos enfrentar.
— Aah... que coisa boa! — Falo entusiasmado. Já podia enxergar a cidade de Floaroma ao longe, mas minha exclamação foi por outro motivo. O ar respirado não era o mesmo. Agora, mais parecido com o de Eterna, era limpo e nem um pouco pesado e poluído. Uma maravilha.
A brisa fresca invadia meus sentidos e esclarecia minha mente. Eu conseguia notar detalhes que antes passavam despercebidos. Esse é o benefício de um bom ambiente. Mas então algo me intriga. Vejo um casal de pessoas vestindo trajes metálicos e prateados com um broche de um "G" dourado no peito. De acordo com a televisão aquele era o logo da Equipe Galactic. Quais as chances de isso acontecer comigo? Droga!
Eu não havia notado, mas dois Pokémon estavam com eles. Curioso, abaixo o volume da PokéDex e aponto primeiro para o que estava próximo ao homem. "Honedge, o Pokémon espada. Aparentemente essa espécie nasce quando um espírito habita uma espada. Ele se ata em pessoas e bebe sua força vital." Agora o da mulher. "Bronzor, o Pokémon bronze. Os povos antigos acreditavam que o padrão nas costas de Bronzor continha um poder misterioso."
Tento me esconder nas sombras onde a luz não conseguia penetrar na caverna. Por sorte ou sei lá o que, a dupla não me percebeu. Respiro aliviado, assim como Piplup. Porém ainda não era hora de sair do lugar. Eles poderiam perceber minha presença a qualquer momento e eu sei assaltado. Encontro Piplup com a mão e trago-o para mais perto de mim. Tento aguçar minha audição para ouvir o que o casal fala.
— Fugiu de novo... — Fala a mulher.
— Não podemos voltar sem capturar aquele Pokémon... — Ele completa.
Mesmo que eles estejam de costas para mim, pude perceber os ombros caídos. Estavam decepcionados consigo mesmos. O que será que havia acontecido? De repente ouço um barulho quase que ensurdecedor e mudo de lugar de forma que eu possa enxergar melhor o que está acontecendo.
— S-senhora Sarah! — Ambos os membros se ajoelham para a mulher elegante que aparecera praticamente do nada. As vestes dela eram mais detalhadas, principalmente com partes pretas na cintura e um "G" ainda maior e mais brilhoso.
— Venham, precisamos sair daqui — Ela fala com uma voz autoritária de criança. Quem era ela?! Em seguida ela pega uma ultrabola e dela retira um Pokémon gigantesco. Aponto a PokéDex um segundo antes de que todos subissem no imenso monstro e sumissem de vista.
"Regigigas, o Pokémon Colossal. Segundo a lenda, Regigigas separou os continentes utilizando cordas."
Surpreendo-me instantaneamente. Nunca havia visto aquele Pokémon em toda a minha vida, apenas ouvi algumas histórias sobre ele que meu vô me contava quando eu era criança.
– O que eles estão planejando? – Pergunto, perplexo.
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