3 Chances
6 3º Chance - Parte 2
Notas iniciais
Reno POV
Eu estava em frente a um prédio, encolhido pelo frio. O celular que eu segurava quase não era mais sentido, sendo que meus dedos já estavam dormentes a algum tempo. Eu tentava não tremer enquanto falava com Aoi pelo celular aos ofegos.
— É aqui mesmo certo? Tem certeza de que ele mora sozinho Aoi?
— Claro que tenho. Você não me contrataria se não confiasse no meu trabalho, certo?
— Na verdade... é porque você é meu amigo e com você eu tenho desconto.
— Bom saber disso. — Aoi pareceu falsamente magoado me fazendo rir. Ouvi uma voz reclamar ao fundo do outro lado do telefone, que eu conhecia bem. — Tenho que desligar Reno, o chibi já está me enchendo o saco aqui.
Ouvi o menor xingando e ri baixo.
— Fala pra ele deixar de ser curioso que depois eu explico tudo. — Voltei a encarar o alto do prédio sentindo uma vertigem. Não consegui segurar o suspiro, vendo uma fumacinha saindo pela minha boca. — Espero que ele não ache que eu sou um psicopata, vindo até a casa dele assim.
— Você é psicopata Reno. Só que como ele que é o motivo dessa sua loucura, faz sentido. Os fins justificam os meios. — Acabei rindo com o comentário do moreno. Não sei se de nervosismo ou porque achei mesmo engraçado. Só o Aoi mesmo pra me fazer rir em um momento tão tenso. — Boa sorte. E não faça besteira de novo.
— Obrigado. Até mais.
Desliguei o celular e respirei fundo, criando coragem para finalmente entrar no apartamento. Não era novidade que não havia um porteiro lá. Pelo que Aoi havia me dito, o segurança do prédio só trabalhava depois das 22h e o vidro filmado da portaria era só fachada. Segurança não era realmente um problema aqui, dificilmente ouviamos falar de roubo na cidade.
Entrei no elevador e apertei o botão, percebendo como meus dedos ainda tremiam, sem saber se o motivo da tremedeira era o frio ou meu nervosismo. Eu realmente ainda nutria sentimentos por Shino e o motivo da minha inquietação não era somente por querer pedir desculpas. Eu ansiei encontrà-lo por todos esses anos de forma quase insana, e era isso que me afastava de todos os outros relacionamentos.
Aquele amasso no hospital só acendeu ainda mais aquele sentimento em mim e ter que me aliviar no banheiro foi com certeza a coisa mais humilhante pela qual passei. Eu não podia acreditar que aquilo tenha sido realmente uma vingança. A forma como ele havia me beijado era quase tão cheia de desejo quanto eu mesmo havia correspondido. Não podia ser fingimento e eu tinha certeza de que ele tinha ficado tão excitado quanto eu.
Ou era isso, ou aquela minha esperança estúpida estava me enganando novamente.
Cheguei até a frente da porta do seu apartamento com o coração na mão. Sabia que aquilo que eu estava fazendo era totalmente desesperado e errado de certa forma, mas o que eu podia fazer? Eu estava MESMO desesperado e precisava tirar aquela história toda a limpo nem que ele fosse me dar um fora depois. Mesmo que essa segunda parte não fosse mesmo uma opção.
Apertei a campainha e escutei os passos rápidos virem na direção da porta. Agradeci mentalmente pela porta dele não ter um olho mágico, ou então ele me ignoraria e eu não poderia fazer nada, se não um escândalo. Quando a porta se abriu, vi ele arregalar os olhos e ficar parado um tempo, apenas me encarando.
— Shino, por favor, sei que ainda tem raiva de mim mas eu realmente preciso falar com você. — Me pus a falar rapidamente antes que ele reagisse.
— O que está fazendo aqui?! Como sabe onde eu moro?
— Só quero... preciso pedir desculpas por aquele dia.
— Você é louco. Sai daqui antes que eu chame alguém. — Shino respondeu tentando fechar a porta. Mas eu a segurei o impedindo e dei mais um passo. — Eu vou gritar.
— Pode gritar. Eu não saio daqui até me escutar. — Eu disse forçando um pouco mais a porta. — É só ouvir o que eu tenho a dizer, e depois eu sumo da sua frente e nunca mais te procuro.
Ele ficou um tempo me encarando, parecendo pensar se era mesmo seguro me deixar entrar. Bom, eu tinha contratado um detetive para descobrir onde ele morava. Ele tinha razão em ficar receoso. Mas ele já me conhecia certo?
— Ok... Mas se tentar alguma coisa, juro que chamo a polícia. — Shino respondeu e soltou a porta, me dando passagem para entrar.
Eu tentava a todo custo controlar minha respiração para não demonstrar o quão nervoso eu me encontrava. Depois de entrar simplesmente encostei a porta e me virei para encará-lo. Ele andou um pouco e parou na minha frente, a uma distância considerável que eu não tive coragem de diminuir. Seus olhos eram bem difíceis de ler, embora qualquer sentimento que ele parecesse estar sentindo estava longe de ser favorável para mim.
— Então?
Prendi a respiração um momento, recapitulando o que eu havia pensado o dia todo pra falar a ele. Tentando manter minha linha de pensamento longe da pergunta que eu realmente queria fazer e que tinha certeza de que se fizesse, ele me expulsaria de lá.
— Você lembra de mim não é? Não só de 5 anos atrás, mas também de quando morávamos em Kanagawa.
Ele pareceu se desconcertar um pouco. Tenho certeza de que ele não esperava que eu começasse o assunto daquela forma e se limitou a balançar a cabeça afirmando.
— Naquele tempo que eramos tão inocentes, eu não percebi que gostava de você de uma forma um pouco diferente de uma amizade normal. — Comecei contando toda a verdade, por mais constrangedor que aquilo fosse. Eu tinha chego a conclusão naquele dia, que deveria ser totalmente sincero com ele. Contar tudo que estive sentindo desde que o conheci seria a melhor forma de fazê-lo entender. — No dia em que foi embora, eu percebi que me sentia dessa forma e entrei em desespero. Eu fui a vida toda criado por pais conservadores, dizendo o quanto era errado a relação entre dois homens ou duas mulheres. Aquela memória tão breve da nossa infância me confundia e eu tentava oprimir isso o máximo que conseguia. Quando te encontrei de novo não foi muito diferente. — Respirei fundo tentando ajeitar meus pensamentos. Eu só dizia tudo que me vinha a mente, que devia estar entalada na minha garganta a tanto tempo. Shino estava totalmente calado e um pouco corado. Talvez por vergonha das lembranças que despertei nele. Eu já estava feliz dele estar me escutando e percebi que começava a baixar a guarda que tinha montado descruzando os braços. — Naquele tempo que fiquei sem ir á biblioteca, foi tentando evitar o que eu estava sentindo por você.
— Por que me beijou naquele dia então? Estava tentando tirar a prova se era mesmo gay? — Shino disse com um pouco de cinismo, mas já parecia estar bem mais calmo.
— Eu... — Hesitei. Eu até sabia a resposta pra aquela pergunta, e sei que ela não era nada agradável. Mas eu tinha decidido ser totalmente sincero, teria que contar. — Pra ser sincero, eu só queria te tocar...Não vou mentir dizendo que era por que eu te amava. Era só... desejo.
Shino sorriu. Não aquele sorriso acolhedor que eu me lembrava, mas um sorriso que me fez estremecer de uma maneira nada boa.
— Se aproveitou do garoto indefeso só pra ter certeza da sua sexualidade. Quis saciar essa sua vontade de experimentar algo novo e depois se arrependeu não é? — Shino virou o rosto tentando esconder sua expressão, mas manteve a voz firme. — Já ouvi o bastante Reno. Pode sair.
— Shino...
— Não me chame assim! — Ele berrou me mostrando os olhos húmidos, segurando as lágrimas. Não sei dizer se eram de raiva ou de tristeza. Mas aquilo me deu a coragem de enfrentá-lo e não sair daquele apartamento até que ele entendesse. — Sai daqui, ou eu chamo mesmo a polícia.
Shino puxou o telefone do gancho, ameaçando começar a discar. Eu não tive muito tempo pra pensar, apenas corri até ele e segurei seu pulso, o impedindo de fazer aquilo.
— Não foi só isso. Sei que o que eu fiz naquele dia no seu apartamento foi errado, mas gostaria que entendesse tudo que acontecia comigo naquele momento.
— Já entendi o que acontecia Reno. Agora me solta.
— Não, você não entendeu. Eu realmente gostava de você e você foi a única pessoa que me trouxe tanto desejo a ponto de acabar avançando em cima de um homem. — Eu já não estava mais ligando de parecer idiota dizendo aquele tipo de coisa. Eu só despejava as palavras sem pensar. — Eu não devia ter saído correndo ou ter te batido. Mas eu estava tão desesperado naquela hora.
— Por que não me procurou então? Por que não veio me pedir desculpas antes? — Os olhos ainda vermelhos me fitando daquela forma estranha, sem expressar sentimento nenhum.
— Eu tentei... Mas não consegui te encontrar.
— Mentiroso. Eu continuei indo na biblioteca durante um ano inteiro. Eu... — Shino desviou os olhos de mim novamente, encarando o telefone que já apitava irritante a algum tempo. — Eu achei que você apareceria lá novamente.
Meu coração apertou de forma estranha. Aquilo me deixava feliz de certa forma. Ele esteve disposto a me perdoar naquela época. Se eu tivesse percebido meus sentimentos antes nada daquilo estaria acontecendo.
— Eu demorei um pouco pra entender o que eu sentia. Quando finalmente te procurei, você já tinha se mudado.
— Demorou tanto assim pra me procurar?! Demorou tanto pra se arrepender?!
O desespero voltou. Parecia que ele não estava fazendo o mínimo esforço pra me entender, pra se por no meu lugar e compreender tudo que eu passei naquele tempo.
— Droga, Shino. Eu sei que fica difícil de acreditar. Sei que fui um idiota pelo que aconteceu e entendo que tenha ficado bravo, mas não consegue me entender?
— Não, acho que não consigo. Você por acaso entende o que EU senti? — Shino puxou seu pulso com força, se desvencilhando da minha mão e dando um passo pra trás. — Acha que eu também não fiquei confuso? Acha que eu me entregaria tão fácil pra qualquer amigo que avançasse em mim?!
— Eu nunca achei isso. Você está vendo as coisas errado.
— Estou?! Então me diga Reno. Me diz o que acharia se nutrisse um sentimento por uma pessoa desde os 8 anos de idade. Se se apaixonasse por alguém que sabia que era errado e acreditasse que o sentimento é recíproco. E depois, quando se mostra disposto a se entregar a ele, descobre que foi enganado e o cara simplesmente some, deixando uma ferida não só interna, mas externa também.
A essa altura, os olhos de Shino já não reprimiam mais as lágrimas. Ele ergueu as mãos de forma nervosa novamente e eu dei um passo para trás, temendo que distribuísse golpes como da outra vez.
Talvez ele tivesse razão. Eu não tinha mesmo pensado no lado dele uma vez se quer. Ele com certeza estava muito mais ferido do que eu havia imaginado e ia ser difícil fazê-lo mudar de idéia. Mas eu não tinha outras opções, e meu desespero só aumentava cada vez que ele dizia alguma coisa com aquele tom de escárnio e o rosto vermelho. A voz as vezes falhava, mas o choro contido era bem visível.
Shino fechou os olhos tentando se controlar e respirou fundo antes de abri-los novamente para me encarar. E eu estremeci novamente, somente com o olhar pesado que me era lançado.
— Por que veio aqui agora? O que está tentando fazer?
Eu precisei pensar um pouco antes de responder aquela pergunta. O que eu queria responder e a verdade que tentava convencer até a mim mesmo eram coisas diferentes. Mas aquela altura, percebendo a raiva que Shino continuava mantendo e parecia não importar o que eu dissesse, nada iria mudar o que ele pensava, eu resolvi que já não importava mais. As coisas não poderiam ficar piores mesmo, então foda-se.
— Apesar de ter passado tanto tempo, apesar de ter me negado tantas vezes e mesmo tentando ficar com outras pessoas, eu percebi que não me importo com seu sexo nem nada disso. Eu percebi que havia me apaixonado pelo garotinho de 8 anos que me dava carona no guarda-chuva. Que me apaixonei de novo pelo garoto que estudava medicina. E agora, te encontrar novamente e... depois do que aconteceu no hospital... me faz perceber que ainda gosto de você.
Me senti aliviado por finalmente poder dizer aquilo pra ele. Mas esse alívio durou pouco tempo. Shino permanecia parado, meio estático. Permanecemos daquela forma um tempo, apenas nos encarando. Meu coração parecia querer sair pra fora, um desespero que fazia meu peito doer tomava conta do meu corpo e minha mente já não conseguia pensar em nada a não ser os olhos de Shino, que começavam a lacrimejar novamente.
Ele virou o rosto para o lado fechando os olhos com força e abraçou o próprio corpo. Eu conseguia perceber que sua respiração estava tão pesada quanto a minha, mas eu não conseguia fazer mais nada.
— Vai embora Reno. Por favor. — Shino sussurrou tão baixo que eu quase não ouvi. Mas minha mente estava tão atenta a qualquer movimento que ele fizesse que aquela frase pareceu ter sido gritada em meu ouvido.
Era o fim da linha para mim. Mesmo que eu quisesse desesperadamente ir correndo para abraçá-lo, ou simplesmente me negar de ir embora, toda aquela situação me deixava bem claro que nada do que eu fizesse o faria reconsiderar.
Acabei me dando por vencido e dei as costas pra ele. Meu peito parecia doer ainda mais que antes e senti meu corpo um pouco pesado. Mas agora que eu já havia dito tudo o que esteve preso por tanto tempo dentro de mim, só dependia dele aceitar meu pedido de desculpas ou não. Pressionar não seria a decisão certa naquele momento.
Segui em direção à porta e sai, me recostando na mesma assim que a fechei. Suspirei pesado controlando minha respiração antes de continuar. Eu me sentia aliviado de certa forma, embora minha consciência ainda não estivesse totalmente tranquila, sentia que um peso imenso havia sido tirado de minhas costas. Eu havia me desculpado e feito tudo ao meu alcançe, mesmo que as coisas não tenham se saído da forma como eu queria, eu não poderia realmente reclamar. Poderia ter sido pior.
Quando pisei na rua, vi que uma chuva leve caia, molhando minha moto. Não liguei muito com o fato de que iria me molhar, e que odiava dirigir quando chovia. Mas ver aquelas gotas de água caindo, brilhando sob a luz dos postes, senti meu peito apertar. Lembre da expressão que Shino fazia quando me mandou embora e uma angustia voltou a me assolar.
Aoi tinha razão no final das contas. Eu ainda gostava dele.
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